Mulheres – sempre querem nos fazer carregar a culpa e o pecado

De vez em quando gosto de ouvir o rádio do carro enquanto dirijo. Gosto de me ambientar no mundo. Vou trocando as estações compulsivamente até ouvir algo que me agrada ou simplesmente me chama atenção. O mercado hoje tem uma avalanche de canções de algo entre sertanejo ou o que chamam de sertanejo universitário ou o que veio depois e muito do que acabo ouvindo é disso. 

Ouvindo essas canções eu reparo na letra e em como há uma quantidade absurda de letras que culpabilizam a mulher. É sempre ela, né? A culpa é dela (seja morena ou não). De trair, de ser abandonado, de estar chorando e bebendo, de ter feito isso e aquilo. Além, é claro, de outras tantas que desejam coisas ruins às mulheres: que chorem, que sofram, que peçam pra voltar e tal. Hoje a reflexão é para as mulheres (dos homens eu desisti até que leiam e ouçam e reflitam sobre como são) e sobre algo que carregamos a vida inteira: a culpa.

É bíblico, né? A mulher é a fonte do pecado. É a mulher que faz a humanidade cair em tentação. E como o mundo é porramente machista e os homens que ainda dominam os discursos, narrativas e quase tudo mesmo esta culpa ainda é permanentemente incutida em nós – por eles, e por elas.

Como diz um amigo: quando é que homem assume o que faz? Pois é. Deve ser genético, não sou especialista na área, mas fica a dica para investigarem. Há uma atitude dos homens que se você é mulher certeza que já passou por isso, se não passou é porque não percebeu. Infelizmente a gente demora para perceber, para se dar conta que está passando pela culpabilização dos homens. Temos a tendência, inclusive, de concordar com eles! Por isso resolvi escrever. Porque cada vez mais mulheres precisam falar e se conscientizar disso.

A situação é simples, corriqueira. O homem faz algo (alguma merda, alguma grosseria, as típicas irresponsabilidades, etc.) e não assume, não se confronta com o que fez. Aí a mulher tenta dialogar, a mulher sofre, a mulher engole, a mulher sufoca. Mas, ela tenta lidar com aquilo, ela tenta fazer com que ele assuma e veja o que ele fez. Ele foge, reação mais comum, ignora, se acovarda, etc.. Então, a mulher reage (a maioria reage, à sua maneira). O que acontece? Com a reação, em maior ou menor escala, traduzida em atitudes, decisões, mensagens, gritos ou o que for (que nenhuma mulher é maravilha, não, pra aguentar esses despeitados) a mulher é culpada. Apesar do homem não ter proferido palavra sobre o que ele fez ou disse que desencadeou todo o problema, assim que a mulher reage (algumas vezes em profundo desespero) ele toma atitude e se pronuncia. Mas, para culpá-la! Foi ela que fez isso ou disse aquilo, ela é que deixou-o triste, ela é que acusou-o, ela que é assim, etc.. Nem um pio, novamente, sobre o que ele é responsável. Ele se sai com apontar o dedo para as falhas dela, para o overreacted dela.

Explica-se isso. A origem da psicanálise está aí. Lembram os manicômios cheios de mulheres histéricas? Pois é. Hoje ainda nós temos que passar pela mesma situação, de sermos chamadas de histéricas e doentes por homens que em nenhum momento assumem suas culpas e as merdas que fazem. Porque além de nos culparem pela reação que tivemos em decorrência da ação (ou falta de) deles, eles nos chamam de histéricas e doentes. Deve ser mui saudável não assumir suas responsabilidades.

Os exemplos são inúmeros! Toda vida de toda mulher tem vários deles. No trabalho, em casa, nos relacionamentos. Por que temos dificuldade de identificá-los? Porque crescemos sendo culpadas, crescemos e somos educadas a sermos culpadas e responsabilizadas pelas nossas reações a um mundo de homens estúpidos e grosseiros e merdas e irresponsáveis. A ação vem antes da reação, vale lembrar.

Um exemplo clássico, quantas vezes já ouvimos a mãe ou a sogra dizer, para a esposa traída “mas o que você fez (ou deixou de fazer)?”. O marido trair, é obvio, todo mundo sabe, é culpa da esposa porque ela faltou com alguma coisa. Em qualquer situação o cara faz merda, a mulher chora, é agredida de várias formas (nem sempre com violência física), está machucada, mas quando reage à humilhação de ver seus sentimentos destruídos, de ver-se ignorada, de não compreender o que ele fez, e diz o que a arrebenta por dentro, quando xinga, quando ofende, quando fala a verdade, principalmente (e àquela à qual o macho foge), ela é histérica e doente. Vem o homem paternalista do caramba dizer que foi feio o que ela fez, o que ela disse, como ela fez.

Sabe, todo dia é um peso estafante ser mulher. É um peso absurdo que nos fazem carregar toda hora que nos deparamos com o tratamento de merda que os homens ainda acham que têm o direito de nos dispensar. Eu sonho com o dia que tenhamos novas gerações que não mais terão que aprender a ser mulher desde cedo, a se defender, a reconhecer as armadilhas e o machismo inerente a todos os homens. Só sonho, porque perdi qualquer fé de ver os homens das novas gerações sendo menos piores. Não precisa muito para perder a fé. Eu ainda algum tempo atrás pensava e dizia que precisávamos que os homens estivessem ao nosso lado, criticando e condenando os seus iguais nas atitudes de merda e machistas deles. Mudei de idéia. Não precisamos deles porque nem eles jamais conseguirão fazer isso, assim como muitas mulheres. Vejo esse discurso de rede social sobre as “manas”, sobre empoderamento, sobre sororidade e, queridas, vocês estão falhando feio. O discurso nas redes é só discurso mesmo enquanto vocês apoiam homens que fazem merda, enquanto vocês mesmas fazem questão de prejudicar e fazer mal às outras mulheres. Vocês valem menos qu eles.

Eu já passei várias vezes pela culpabilização vinda de macho. Hoje já identifico bem mais rápido, mas no primeiro momento sempre nos faz mal. É como rever velhas cicatrices, é um momento de desnorteamento até que você olha de novo e “porra, tu acha que eu vou cair nisso?!”. Essa é a prova de que não somos histéricas nem doentes. Nós somos inteligentes. Enquanto eles reproduzem uma atitude tão vil e vulgar do machismo nosso de sempre, muitas de nós já superamos isso. 

Homens, fiquem com seus dedos apontados para as nossas “culpas” até eles apodrecerem junto com as irresponsabilidades e merdas de vocês. Nós passaremos.

Nem digo mais “homens, melhorem” porque é jogar palavras ao vento. Perdi totalmente a fé de que homens podem ser melhores, eles escolhem deliberadamente ser os merdas que são – é uma escolha consciente. Mas, cuidado, tem muitos homens por aí travestidos de “boas intenções” e, na verdade, só estão se aproveitando do discurso da inclusão das mulheres e diminuição das desigualdades e respeito e blábláblá. Abram o olho, o mundo real é a vida e as ações, e não as redes sociais e os discursos. 

Mulheres, melhorem. Superem essa coisa que corrói por dentro de querer competir com mulheres e prejudicar mulheres e achar que são fodonas mentindo e se enganando. Ajudem outras mulheres a ver quando são vítimas da culpabilização machista e quando estão sendo usadas e abusadas por homens – mesmo que elas resistam. O que a gente aprende enquanto mulher é tão doloroso que devemos passar esse conhecimento à frente para que menos mulheres sofram – e mais homens sejam desmascarados.

Não mudaremos o mundo nem essa sociedade machista podre, mas salvaremos algumas mulheres de um sofrimento que eu não desejo pra ninguém.

Bailando

Cuando bailaba

con Sinatra

en el medio de la sala

Iba de nuevo

a un Año Nuevo

sola y tranquila

y trayendo el corazón

vacío

Fuera a Monterey

o a la Luna que me lleva a volar

los pies tenían ganas

sufocadas de bailar

el cuerpo decía

casi sin cuidar

los ojos lucían

quiero volver a soñar

Curarse es el my way

que me quitaran todo

lo que queda debajo de mi piel

No quererte mañana

y bailar hasta el sonreír

de un verano

solo eso me entretiene

los días

Noches

Haga lo que haga

No dejo de pensar

Las noches van despacio

mientras vuelvo al pasado

Cruel fuiste, creo

que no se mata lo que ni había nacido

Son noches inolvidables

y me veo atrapada en decisiones

Hoy o mañana, no hace falta

he perdido la confianza

Son mis errores que me persiguen

No me puedo perdonarme

Ya antes del tiempo

había todo y una mirada

hace falta una palabra

y el remordimiento

Pero, no lo sé

quizá no tardará

O menino e o mar

Estava na praia e não fazia nada além de observar – faço-o por gosto, porque gosto de deixar o olhar e a mente soltos vendo os detalhes do mundo e porque, enfim, é um gesto dos meus pensamentos, diria que nem poderia controlá-los, caso quisesse. Observava o mar, suas ondas sedutoras e misteriosas, observava o sol e seu brilho sobre as ondas, observava lá longe a linha do horizonte. Gosto especialmente de observar as crianças à beira-mar, elas como que existem em outra realidade deste mundo quando veem areia e mar.

Observava distraída e atenta, os olhos viam e a alma registrava, mas eu vivia ali o instante. Foi quando um menino chamou minha atenção: menino nos gestos e na idade, mas aquele olhar era de um homem adulto. O olhar é essa janela, mas não são todas as almas dispostas a ler outras almas, é preciso um olhar atento, um interesse perscrutador para decifrar o que há num olhar. Gostei daquele olhar. Há coisas, talvez, que não caibam nas palavras.

Ele brincava com os meninos e meninas da sua idade, iam lá baldes carregados com dificuldade, cheios de água do mar, buracos cavados, castelos de areia milimetricamente planejados e executados. Quando vinha a onda e desmanchava-os, às vezes mesmo antes de terminados, havia indignação, estupefação, tristeza. E logo eles recomeçavam a batalha, o menino sempre mais determinado e metódico que os outros – eu reparava.

Do mar, o que posso dizer? Ele não desfaz nossos sonhos e castelos por maldade. Nele também não há como confiar. O mar é só mistério e incerteza. Para entendê-lo não precisa saber nadar, nem prender a respiração, nem pular onda ou identificar um redemoinho: só nos cabe vivê-lo. Já ouvi muitos conselhos, avisos e até as experiências alheias sobre o mar. De nada me serviram. Já aprendi a nadar de tudo quanto é jeito, sei usar bóias e pés de pato, sei ver as marés e o vento, até as águas-vivas consigo achá-las antes de entrar na água. Nada disso faz diferença. Cada vez que me vejo diante do mar é como se nunca houvesse estado ali – deve ser isso que mantém nossa relação tão profunda. E ele me atrai tanto pelo mesmo motivo. O mar é o desconhecido, é aprendê-lo todo novamente, a cada vez.

Por isso o olhar curioso daquele menino para o mar me deixou tão feliz. Ele parecia antever que ali havia muito a ser descoberto. Ele era inteligente também, pois tentava decifrar o que precisava para adentrar naquele mar que já era tão interessante, mesmo se sabendo tão pouco dele. Ficamos amigos, entre castelos de areia e ondas estouradas na praia. Ele flertava com o mar, chegava perto, se distanciava, interessava-se por outras coisas. Eu ficava ali, sempre tão fechada em mim, mas apaixonada pelo mar e volta e meia buscava sua companhia. Cada um no seu casulo e na sua teimosia. Mas o mar, o mar é invencível.

Essa amizade durou e o tempo foi passando, como bom amigo que sempre foi. Aquele menino sempre me olhava com seus olhos de adulto, e eu ria dos outros que não percebiam isso. Os outros estranhavam nossa amizade, pois não sabiam de nada daquilo que ninguém precisa saber porque as pessoas somente procuram o óbvio.

O dia na praia foi tombando o sol atrás dos morros e já quase noite o menino encarou o mar com vontade e com tudo o que aquele olhar me dizia. Eu quis ir junto, quis estar ombro a ombro com ele também naquele momento. Mas, como aquele personagem, que diante do mar, das ondinhas batendo nos seus pés, de toda uma nova vida diante de si, chora e desiste, o menino também desistiu. O menino me contou que entendia esse personagem, que se via nele. Eu não pude dizer-lhe que o medo é sempre mau amigo, por isso digo agora. O mar nos inflige medo, muito medo. Toda vez que o reencontro sinto medo e, bem, não sei explicar como o medo não me paralisa – talvez o truque seja não pensar. Porque o medo em si só existe na nossa cabeça, são os nossos pensamentos que se comem e destroçam e causam medo e dor. O medo se alimenta da dor.

O menino, então, não entrou no mar. Eu senti tanto e tanto que nem sei dizer. Às vezes, não sei o que fazer com meus sentimentos, prefiro levá-los para casa. O medo é aquele extremo que nos acovarda diante de qualquer coisa. Queria poder entendê-lo um pouco, pelo menos, para me desculpar de julgar o menino que não quis entrar no mar. Não consigo. Sempre direi que é preciso entrar no mar, sem antes nem depois. Sem experiência e sem saber, sem medo e sem planos, só entrar e vivê-lo. Segui para casa triste e fico aqui revirando momentos de um dia intenso como só a praia proporciona.

Tengo

No tengo

Ni placer

Ni despacio

Soy alma libre pero fincada

en los árboles que son cómo

raíces de un espíritu nunca alado

Ahogo mi pranto

por la noche apagada

enciendo velas a los dioses

Que mi alma se parte en piezas

y no arrojo dónde estaré mañana

Hace falta que no vea el pasado

ya ves, es pasado cómo tatuaje en mi corazón

Soy sólo yo y mis cicatrices

Que el tiempo no cura las heridas

es mentira

Cuando ríen de mi, me niego

me quedo

me cierro

Soy fruta dulce bajo la lluvia

Y hay los murciélagos en el jardín

justo en mi ventana

Soy carne y coraje

soy mujer ante todo

Me quedo

Me cierro

Pongo el perfume de las diosas

por hacerme noble y protegida

me quedo

Te olvido desde hace cuando

te lo di mi confianza

me cierro

Mi perro me hace compañía en el dolor

que hasta mañana nos quedaremos

en un baño de manguera

a mirar el jardín y todos que me hacen falta

Me quedé sola

Me quedé

Me cerré

Empty house

The door is still open

Where I left my heart

There are no skulls in the bedroom

still, I don’t want any forgiveness

I look around, my darling

Memories

I left all of them under the skin

of a snake that bit me a long time ago

Some night, in the past, I was happy

trusting in everyone and myself

The room and it’s Christmas three

a portrait of peace

Then

There was fire and inundation

the floor covered with blood and tears

I screamed all night long

‘til there’s no hope nor expectations

The walls are testimonies of my crimes

they hate me because they know who I am

And a lonely dog barks in the corner

when I cross the neighborhood

Looking for your wise eyes

trying to understand me

We’d never really had a chance

under the beauty of a rose

or besides the melancholic of the rain

The kitchen smells like an old fellow

who forgot to leave a message

every morning the toaster feels

a great Sinatra’s song

whispering down the stairs

I look towards to that shining window

where I left behind all the beliefs

and a body full of comprehension

I heard my smile from here to eternity

Ainda sobre jardins

Há uma expressão em francês, “cultiver son jardin” que inspirou a última publicação. Tem um cunho metafórico, poético até, sobre cultivar a própria tranquilidade, estar bem consigo mesmo. Eu tenho um apreço muito grande por jardins e quintais, fui criada livremente num e não saberia viver sem. Quando passeio por aí, seja no meu bairro ou em outro país, gosto de reparar e apreciar os jardins. Cultivar um jardim dá bastante trabalho, trabalho braçal mesmo, trabalho pesado, então sempre que vejo um jardim bem cuidado, uma árvore bonita, eu valorizo muito não só a beleza e o deleite, mas o esforço do responsável. e por ser algo tão trabalhoso, vemos cada vez menos jardins. As pessoas desistiram de cuidar dos seus jardins – metafórica e literalmente falando. 

Quando a pandemia chegou, as pessoas se deram conta que não amavam os seus jardins ou que não eram felizes neles. Porque já há algum tempo elas não se davam ao trabalho de cultivá-los. Esses jardins dos quais falo existem sob quaisquer tetos também. Sem saber mais como cuidar, como amar, como ser amigo do tempo (todo jardim requer paciência e tempo) para ver aquele jardim florescer, as pessoas entraram em desespero – era mais fácil quando podiam viver na rua, sem olhar para o próprio jardim abandonado. Alguns, ao se depararem com seus erros e desleixo, souberam voltar a cuidar do que realmente importa, souberam amar aquilo que haviam deixado para trás. Foram esses que souberam ser felizes com seus jardins novamente bem cuidados – só espero que não os abandonem novamente. Porém, desconfio que estes foram bem poucos. A maioria mesmo não via a hora de sair correndo e ver qualquer outra coisa, desde que não tivesse que conviver com o próprio jardim abandonado. Sabemos muito bem o que esses fizeram – e têm feito.

Quando falamos de jardim é tão mais fácil entender porque o mundo precisa de mudanças. Seja num encontro mundial para discutir o clima, seja nas vozes das crianças e jovens conscientes, o mundo precisa que entendamos que ele é o nosso jardim. Assim como eu cuido dos meus jasmins e das minhas amoreiras, eu cuido das pessoas que eu amo, e eu cuido do que eu consumo para que não sejam destruídas as florestas, eu cuido do meu lixo para não poluir mares e rios. É tudo uma coisa só. Mas se não nos importamos com os nossos jardins, como vamos cuidar do jardim que é de todos? 

E é essa indiferença que eu jamais entenderei. Nem os maiores filósofos do passado entenderiam (não estou me comparando com eles, credo) a falta, nos seres humanos de hoje, de um princípio básico: o de sobrevivência. Muito se discutiu sobre isso, que o ser humano tem, acima de tudo, o instinto de sobrevivência, que nem é só um instinto, mas que racionalmente buscamos sobreviver. Quando vemos hoje as pessoas ignorando cuidados básicos de saúde e desprezando o cuidado com o meio ambiente percebemos que, nelas, extinguiu-se o princípio de sobrevivência. Eu não uso máscara, nem evito concretar todo o meu terreno porque estou pensando só em mim. Eu sei que a máscara é essencial para preservar vidas além da minha e sei que a chuva não terá para onde ir e entrará na casa de todos. Instinto de sobrevivência junto com pensamento racional. Devia ser tão simples. 

Cada vez me convenço mais de que tudo deveria ter parado completamente no início da pandemia. Tudo. Sem adaptações para o online, sem o famigerado home office, sem nada fingindo que tudo poderia se ajeitar. Isso só não foi possível – é evidente, mas, ainda assim, necessário nomeá-lo – devido ao sistema capitalista. O capital diz que as nações têm que produzir e consumir, produzir e consumir. E nós só precisávamos parar por algumas semanas até conter o vírus, evitar novas variantes e salvar milhares de vidas. Era só isso. Mas, o capital inventou que nós poderíamos continuar consumindo pela internet, sem correr risco (mas expondo milhares de outros ao risco, de produtores a entregadores), inclusive comida, explorando absurdamente os produtores deste meio, explorando e expondo os entregadores. A minha vida, eu sobreviver numa situação trágica, sempre – sempre – custará a vida de alguém. Esta lição é nobre e desde quando a aprendi (com Primo Levi) tento passá-la adiante. Aquelas pessoas que morreram, morreram para que nós, hoje, estivéssemos vivos. Muitas delas não tiveram a chance de ficar em casa, pedindo comida por aplicativo, comprando inutilidades pela internet (quanto antes admitirmos que são inutilidades, melhor), fazendo festas online. 

Porque nos faltava cultivar nossos jardins. Se cada um fosse feliz no seu jardim, saberia ter enfrentado o isolamento e a pandemia muito melhor – sem ânsias de sair e ver gente e consumir, e postar foto na praça de alimentação do shopping. Produzir e consumir, produzir e consumir. Quando foi mesmo que nos reduzimos a isso? Quando que tornou-se mais importante eu sair e não usar máscara, expondo-me e aos outros ao meu redor, do que eu salvar a minha vida? Quando que produzir e produzir foi mais importante do que eu manter minha paz de espírito e preservar a vida dos que viviam comigo? Quando que consumir deve vir acima de todas as coisas?

Vi muita gente desesperada nestes últimos tempos. A falta que um bom jardim bem cuidado faz na vida das pessoas… O desespero é mau conselheiro – o medo é o pior. Juntos, eles levaram as pessoas à irracionalidade, à ignorarem o próprio instinto (não há nada de errado no instinto, pelo contrário, é o que temos de mais natural em nós), e se jogarem nos braços da morte por intermédio de um sistema que os desumaniza na totalidade. Produzir e consumir. 

Para muito além dos discursos bonitos e de curtir os posts da Greta, é preciso um exercício precioso e, quiçá, doloroso: voltar-se para o próprio jardim. Desconfio que quase ninguém vai gostar do que vê. Por isso mesmo é tão precioso. Mas, desconfio também, o mantra “produzir e consumir” estará lá tão incutido nas cabeças que através de auto-ajudas e analistas de todo tipo, dirão para aceitar o jardim do jeito que está, afinal, não é sua culpa – culpabilizar(-se) está proibido, não sei bem o motivo. Confesso que, às vezes, é difícil acompanhar todas as desculpas esfarrapadas que a sociedade dá para si mesma e para seus erros. Quem sabe já digam que produzir e consumir é instintivo no ser humano. Não duvido.

Je cultive mon jardin

Quand j’étais enfant

et j’ai découvert le mal

avec espoir

J’ai cultivé mon jardin

J’ai eu des affaires

et j’ai reconnu l’amour

mais face à la désillusion

J’ai cultivé mon jardin

Pendant ma vie

j’ai eu la douleur et la souffrance

Il y a des jours sans la volonté de vivre

ne pas savoir, même ainsi

j’ai cultivé mon jardin

Seule et heureux à l’intérieur

Je cultive mon jardin

Reconnaissant à la vie

amant des problèmes

et avec une valise des rêves

Je cultive mon jardin

Je suis sur la bonne voie

mes yeux sont la vérité

J’ai la force de mon domaine

C’est pour ça que

Je cultive mon jardin

Je marche sur l’envie

Je voyage dans le vide

Parce que je cultive mon jardin

J’aime les détails et les mystères

Je méprise tes misères

comme quelqu’un qui a un don de Dieu

Je vis le silence de ceux qui savent tout

Oui tout y est – dans mon jardin

et chaque jour

pluie ou soleil

Je cultive mon jardin

Puzzle

“C’est fini !” – je ma dit trois ou quatre fois la dernière semaine

Qu’est-ce qui “est fini”, Fahya ? – ma dit mon cœur

L’attente, parfois

ou l’espérance

C’est pas fini, c’est pas terminé

Je ne suis pas un cœur fermé

je suis seule peau et chaud

dans un monde idiot

La patience me manque, c’est ça

Tes yeux, ton voix

Mon amour et mon désire

C’est pas fini

Tous les pas de cette puzzle que sommes nous

Au mystère sous le ciel et sur la terre

J’espère le destin de nouveau

Et en septembre toujours il pleut avant du bonheur

Feio é passar fome, Joinville

Ao sair de casa naquele sábado de chuviscos, de máscara, caminhando pela beira-rio, deparei-me com a surpresa. De longe, pensei ter visto uma tarrafa ser lançada no rio Cachoeira. Surpreendida pela visão, um segundo lance confirmou que era mesmo uma tarrafa que se espatifava contra a turva água do rio, logo ali atrás do prédio verde, aquele prédio que fica num lugar de destaque na cidade, dizem que sobre o rio, o que não é verdade.

Continuei caminhando solitária, como gosto, e me aproximei do tarrafeador. Ele vestia-se com roupa impermeável, como pedia o dia e a atividade que ele praticava, e ao lado jazia uma zica em lamentável condições. Deparei-me, então, com minha incredulidade: dois peixes gordos caíam da rua tarrafa no chão úmido da beira do rio. Eles se debatiam para minha incredulidade e de mais dois que assistiam à cena a poucos metros. Éramos três espectadores daquela cena inusitada no centro da cidade, a poucos metros da nobre e imponente prefeitura da cidade, que fica ali sobre o morro, na frente do prédio verde, como de atalaia – dos cidadãos, não dos peixes.

Estava já próxima do cidadão joinvilense que praticava aquela façanha, digo, pescaria, quando me senti atarantada. Ele, sorrindo, via que era o motivo da minha curiosidade, e dos outros dois da plateia, e declarou “Dois dias de almoço garantido!”. Havia júbilo naquele sorriso triste. Dois peixes gordos, porém pequenos, garantiam o que comer na mesa de um brasileiro, cidadão joinvilense, que vê os preços dos alimentos básicos explodirem há meses. Eu parei por alguns segundos, ouviu-se o silêncio das caras pasmas. Ele baixou os olhos e recolheu a tarrafa para um novo lanço – do qual ela voltou vazia, assim como dos seguintes. Teria almoço somente para os dois próximos dias, mesmo.

Segui meu caminho sem tracejado pelas calçadas, amparando-me nos pensamentos. Uma cidade grande, uma cidade operária, uma cidade que se quer nobre, mas não é. Uma cidade enclausurada nos seus apartamentos de elite com janelas que vêem o horizonte, mas ignoram o que jaz aos seus pés. Uma cidade que não olha no espelho, que não elege quem a representa na maioria. Na volta, subi a rua da prefeitura, caminhei até a entrada, onde há um varandão com vista para o rio, para a praça do chafariz, para o prédio verde, para as costas do monumento à barca, para a bandeira do Brasil hasteada na praça que leva seu nome. Fiquei ali por um tempo olhando aquele pequeno pedaço da cidade que não a representa em nada e onde tudo começou. Ali construíram as primeiras casas, ali o lamaçal fez morada a um povo miserável que foi trazido com falsas promessas. O rio abandonado. A praça do chafariz, sem chafariz, e recuperada. A barca, que a mim lembra o engodo, jamais o sucesso. Aquela triste bandeira tremulando fraca, como sem fôlego. E tentei ver além, tentei ver ao pescador inusitado atrás do prédio verde, tentei buscar os bairros onde a vista não alcança, dali da vista do prefeito. Não se vê, é verdade. A vista daquele varandão só vê o falso e o artificial.

Dias depois, a notícia da derrubada do prédio verde. Por quê? A verdade ou o que contam? Porque ele é feio, é a verdade. Contam que é para obras de mobilidade (sem comentários). A perplexidade tomou conta de mim. A decisão do prefeito logo foi apoiada, ele é feio, dizem os cidadãos, do calor dos seus apartamentos com vista para as serras, nas redes sociais. Não é permitida feiúra na janela da prefeitura. Por isso repaginaram a praça do chafariz e plantaram meia dúzia de flores no canteiro do monumento à barca. O prefeito e a vice esses dias haviam sido fotografados no varandão em frente a prefeitura, “vendo” a cidade. O prédio verde enfeiava a fotografia.

Por alguns dias me perguntei se seria plano de governo extirpar a feiúra da cidade. O que fariam com os feios e feias? Teremos vale-cirurgia estética, quem sabe. Humor ruim, eu sei. Ou só incomoda o feio que suja a vista da janela da prefeitura? Feio é passar fome. E isso nem o prédio verde esconde, senhor prefeito. Feio é pedir para os outros fazerem o que sua responsabilidade – pedir doação de alimentos para quem vai se vacinar, para serem doados aos necessitados; pedir pra empresas plantarem flores nos canteiros da cidade e recuperarem praças; pedir para empresas trocarem o piso da Casa da Cultura. Isso é muito feio: não assumir suas responsabilidades.

Repito: feio é passar fome. E o joinvilense passa fome, mas, das suas janelas não é possível ver isso. O feio, em Joinville, nos ronda, é só olhar.

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