O silêncio – Missão Fotográfica Joinville

Este ano eu me inscrevi, e fui artista selecionada, para a Missão Fotográfica Joinville. A Missão é uma residência fotográfica para desenvolver propostas fotográficas autorais sobre a cidade, pensando o tema das cartografias, orientados por Lucila Horn e Daniel Machado, numa iniciativa vinculada ao NEFA – Núcleo de Estudos em Fotografia e Arte. Entre março e agosto, fomos desafiados a fotografar Joinville, para apresentar uma narrativa autoral sobre a cidade, a ser publicada num livro de fotografia.

Quando vi a divulgação para os inscritos, pensei que era justamente o que eu precisava. Vivo imersa em reflexões (o que é muito bom e eu super recomendo) e uma delas é o motivo de eu ter tanta dificuldade em fotografar a cidade onde vivo, a qual eu conheço minha vida inteira. 

Fotografo por paixão desde criança, minha mãe sempre fotografou a família, viagens. Minha primeira câmera comprei aos nove anos e desde então tive breves períodos da vida afastada dos cliques. Contudo, Joinville nunca foi meu objeto principal de desejo fotográfico. Sempre levo a câmera e fotografo bastante as viagens, mesmo que sejam para as cidades que eu costumo frequentar, sempre fotografei muito Fpolis (e ainda fotografo).

Por vezes, levo a câmera ao sair por Joinville, desde que retornei à cidade. Em outras vezes, quando não estava morando aqui, uma vez ou outra saía e fotografava, mas é como se sempre faltasse algo. A Missão Fotográfica Joinville era exatamente o que eu precisava, obrigar-me a olhar para a cidade e fotografá-la.

Para a inscrição, que acabei fazendo no último dia já como forma de resistência à idéia de fotografar a cidade, era necessário enviar uma proposta e um portfólio. Na proposta, escrevi essa minha dificuldade e uma relação de “amor e ódio” (não são os termos corretos, mas é para que as pessoas entendam), o amor ao observar os contornos da cidade, o mar que a abraça e que ela ignora, os morros, o rio Cachoeira (que faz parte do meu jardim), as casas históricas.

O projeto da Missão é algo que sinto muita falta na cidade, projetos culturais interessantes, diversificados, diferentes – lembrando que feirinha fim de semana cansa. Como caminhar é a única forma de viver e sentir um lugar, assimilei a parte de caminhar e pedalar para olhar Joinville com outros olhos – que não aqueles sempre tão críticos sobre a mentalidade, os apadrinhamentos, as dores de cotovelo, e essa mesquinharia toda que vemos todos os dias. Então, propus fotografá-la nos seus limites, a partir da crítica e contradições. Argumentei que amar e odiar a cidade é uma contradição que muitos de nós vivemos (por favor, digam que sim, senão me sentirei muito solitária – mentira, não tem problema se só eu passo por isso).

Mal sabia eu que viveria um processo de aprofundamento incrível em olhar as contradições da cidade e que o desafio de traduzir isso em fotos transformaria algumas coisas em mim – como pessoa e como artista. Ao longo dos encontros, fui compreendendo melhor como pensar uma narrativa fotográfica (eu sou da narrativa escrita e audiovisual, na fotografia eu ainda não havia experimentado) e dialogando comigo mesma. Descartei parte das fotografias que me levaram à inscrição, desisti de fotografar certos locais da cidade (até porque um deles um colega de Missão fotografa com muito mais propriedade), entrei num período de bloqueio e os prazos para apresentar as fotografias estava chegando ao fim. 

Em meio a isso, que artista é artista 24 horas por dia, mas também gente, aconteceram outras coisas. Uma delas foi o ataque que o curta-metragem Gritos do Sul (2022), sofreu de políticos e pessoas muito mal intencionadas (da cidade, dos meios de comunicação e, vejam só, até da própria cultura!). Foram dias tensos, porque o fascista, quando se olha no espelho, não gosta do que vê – e o modus operandi deles é bem organizado e ataca com violência esperando que a gente esmoreça. Mas, querer usar o curta para atacar o prefeito, o secretário, tentar desvencilhar os laços que unem fascistas em maior ou menor grau, e querer atacar a Lei do SIMDEC e o direito à Cultura não deu certo. Não era um ataque ao Gritos do Sul (2022) nem a mim, e o tempo todo minha consciência esteve tranquila.

Ninguém disse que seria fácil ser mulher que produz e ensina arte em Joinville – bem pelo contrário. Minha vida nunca foi fácil, a vida de nenhuma mulher é fácil. (mesmo que a gente saiba que fazer certas escolhas, em Joinville, dificultam ainda mais a vida) Sem baixar a cabeça em nenhum momento, o olhar crítico para as enormes e aterradoras contradições dessa cidade foram aguçados. A gana de lutar e trabalhar só cresceu – e tem dado ótimos frutos. O que não mata, fortalece, né? 

Imersa em conflitos, saí para fotografar. Cometi o erro de tentar criar a narrativa antes, e depois buscar as fotografias que a comporiam. Foi um erro que me atrasou alguns dias. Mas, peguei a mochila e saí caminhando. Novamente, encontrei comigo mesma e com a cidade que eu enxergo e fomos felizes em muitas fotografias. Agora sim, eu tinha material para apresentar.

Acredito que a experiência foi profunda para todos os participantes da Missão que se deixaram transformar pelos encontros. Gosto muito da experiência do fazer, do processo criativo, como já disse aqui recentemente. Essa experiência, quando compartilhada pode ter várias consequências, nem sempre boas. Li um artigo esses tempos que me ajudou muito a não fazer comentários irresponsáveis sobre os processos dos demais colegas, mas gostei de muita coisa que vi, como cada um conduz o nosso olhar por Joinville.

No dia do encontro, reconstruí essa ideia da relação de “amor e ódio”, pois havia compreendido (como uma epifania mesmo) que meu “amor” é minha origem, as raízes que me prendem à cidade, e o “ódio” é tudo isso que está aí fazendo mal para a cidade – mas que fazemos de conta que não existe. E então eu descobri: o silêncio. O incômodo atroz que me dá o silêncio que paira nessa cidade, a melhor do país e onde mais morre gente de dengue! A cidade que tem canteiros floridos na frente da prefeitura e não tem álcool em gel em nenhum dispenser no PA Sul. Não se preocupem, não ficarei três dias aqui escrevendo sobre as contradições de Joinville e como é sufocante viver nesse silêncio.

O silêncio. Como é difícil e impossível escrever sobre ele. Como fotografar o silêncio? E os coordenadores ainda pediam um texto que fosse enviado junto às fotos escolhidas! Não consegui escrever sobre o silêncio e, por incrível que pareça, consegui fotografá-lo. Ao analisar e analisar as fotografias, fiz uma seleção e era aquilo ali, era o que eu queria dizer. A Lucila Horn disse que meu projeto é o mais conceitual e crítico, espero que com conceitual não seja algo inacessível às pessoas, mas sobre ser “crítico”, bem, sou eu, né, não tinha como ser diferente.

E esse texto de hoje era para falar sobre o silêncio que reina em Joinville. É um silêncio imposto de cima pra baixo, como disse um amigo esses dias – é como somos criados aqui. É o silêncio exigido para que você não seja banido dos círculos, para que você consiga sobreviver, porque se você começar a falar, a apontar as contradições, a questionar, você não vai mais conseguir viver em paz nesta cidade. Eu sei. Também sei que não sou a única que se incomoda com o silêncio – mas não vejo os outros reclamando dele. É tipo o silêncio sobre silêncio, sabe? Aqui e ali, ao pé do ouvido, às vezes os cochichos…

Esses dias conversei com uma produtora cultural de outra cidade e ela contou como a classe artística de lá era “barulhenta”, conseguia no grito as mudanças necessárias e tal. Criticamos e avaliamos como as coisas são nas políticas públicas da Cultura de Joinville e lá fui eu falar sobre o imenso silêncio que domina os artistas da cidade – eu disse pra ela que aqui isso não acontecia. No meio artístico de Joinville é tudo perfeito, por que eles fariam barulho, não é mesmo?

Talvez eu tenha a audição muito aguçada, mas o silêncio me é muito mais incômodo do que o “barulho”. Aliás, esses dias a ciência comprovou que conseguimos ouvir o silêncio, não? 

Hoje era para escrever sobre o silêncio. Não poderia deixar de contar a experiência com a Missão Fotográfica que me trouxe tantas coisas excepcionais, verdadeiro crescimento enquanto artista e pessoa (é disso que trata a autoria, ser quem somos no que fazemos). Não sei, acho que falei pouco sobre o silêncio, mas certeza que não fiquei em silêncio. Voltarei a escrever sobre ele – e a fotografá-lo. Aliás, é um dos meus temas favoritos para conversar também.

Sobre a Missão, está quase terminando a residência e logo iremos para a edição do livro. Confesso estar contentíssima com os resultados e com os frutos que virão desta experiência. Numa das orientações que tivemos, o fotógrafo disse que eu precisava “vomitar”, que minha narrativa era sobre isso. E é. Quanto mais tentam me calar, mais eu planejo e executo colocar para fora. Ninguém disse que seria fácil e, enfim, o fácil não tem graça.

Enquanto eu não volto a escrever sobre o silêncio (este texto mesmo foi gestado em silêncio), ouçam-no: ele está por todos os lados.

A criação

Tento, num exercício diário (de cobrança), encontrar temas sobre os quais escrever. Tenho me interessado muito sobre os processos de criação, como há tempos me interessa, e em como um suposto (oi, jornalistas) bloqueio da criação afeta os criadores. Há quem pense que quem cria, não trabalha. Criar é igual a qualquer outro trabalho, quanto antes a gente entende isso, melhor é. Enquanto vemos o criador como alguém iluminado pelos céus e possuidor de um dom magnífico, o trabalho em si não existe.

Pra quem trabalha com criação artística, talvez demore um pouco para ser ver como trabalhador/a. Algumas funções são mais “visíveis” aos outros, como quem trabalha diretamente na produção de espetáculos, filmes, eventos, etc.. Enquanto que para aquele show, aquele filme, aquela peça existirem, muito trabalho árduo foi previamente executado pelos seus criadores – a arte pré-existe enquanto trabalho antes de existir aos olhos do público enquanto obra. 

Ao mesmo tempo, pobres criadores que por muito tempo se vêem sem a visita da musa inspiradora. Acreditam estar amaldiçoados, inventam qualquer desculpa para a página em branco, encontram mil compromissos e deveres que os afastam das telas, dos pincéis, dos computadores, dos instrumentos. É fácil depositar a responsabilidade dos nossos erros e fracassos nos outros (conheço muita gente que o faz sem a menor cerimônia), como dizem, do que simplesmente assumir que não temos compromisso com o nosso trabalho – da mesma forma que tanta gente não respeita o trabalho dos artistas.

Trabalhar com criação é sempre um processo. Cada obra, cada escrita, cada criação se desvela de maneiras diferentes para o seu criador – ou criadora. Posso escrever aquele roteiro de uma vez só, depois de pensar nele durante dois meses, posso escrever outro uma dúzia de vezes ao longo de dois anos até ficar satisfeita com ele. Criar o processo é parte de trabalhar com criação, por isso também é sempre tão gostoso ouvir os artistas falarem sobre suas obras. Cada processo é um universo do qual faz parte a obra.

Quanto ao trabalho, é trabalho. É compromisso diário, com hora marcada, com cobranças, com execução, correção, revisão, por vezes, aprovação. Às vezes, a musa não flutua pelo ambiente, por vezes um furacão nos toma e tudo sai divinamente. Porém, é preciso estar lá, todos os dias, cumprir os horários, bater o cartão, inspirar-se, olhar para os lados, respirar, revisar o que te fez chegar até ali. E aprender, claro. Não recebemos, como muitos podem lamentar, o tanto que gostaríamos por essas horas trabalhadas, contudo, suspeito que há um retorno muito mais valioso que deve ser levado em conta.

Assumi o compromisso de retornar com frequência ao site, queria, na verdade, escrever sobre as greves dos EUA no Audiovisual, sobre o efeito manada no público das duas “grandes” estreias de Hollywood, em como consumimos mal aquilo que tanto nos afeta e tal. Sei lá, não deu certo. Tem dias que rende, tem dias que não.

Por vezes, pode ser mais frutífero trabalhar aqui dentro, com o que nos consome, do que ir tão longe. Eu trabalho com cinema, com criação (com produção também, aquela parte que é mais “visível”, mas mesmo essa tem uma parte enorme que é invisível), bato meu cartão diariamente e carrego essas dores e delícias.

É o que tem pra hoje, como digo muitas vezes ao servir o almoço em casa. Pode não ser o ideal, nem o melhor, mas foi o que deu pra produzir. Pior aquele que não consegue servir a mesa, não entrega nada, porque ficou se lamentando, porque acordou tarde à espera de uma fada que, com sua varinha mágica, o banhasse nas águas da inspiração. Ou, ainda, aquele que ficou o dia cavando buracos sem fim onde só encontrava motivos para dizer que não “teve tempo” ou “não conseguiu”. 

Trabalhar exige demais de nós, desconfio até que nem fomos criados para isso. Porém, criar tem algo de divino, nos aproxima desse desconhecido, do que não se explica. Há muito tempo eu tive essa certeza, eu queria criar. Quem cria tem um compromisso consigo mesmo, de busca de uma necessidade interior, e se você não pode ser seu melhor “chefe”, certeza que não está fazendo a coisa certa.

Escritora com livro publicado retorna à ativa

Volto ao site para escrever com regularidade depois de um período muito profícuo. O tempo, como meus bons leitores sabem, é um grande amigo. Volto com o melhor que eu poderia dar de mim: falar sobre livros.

Dizem que fui privilegiada, e devo ter sido mesmo, por mais que ser “privilegiada” hoje em dia seja quase um xingamento. Eu tive o privilégio de ter à disposição, em casa, livros. Além disso, o ato de ler, ao qual me filiei muito cedo, não era condenado no convívio da minha família.

A este privilégio sou eternamente grata e devedora de coisas muito importantes e boas da minha vida (outras um pouco mais complicadas, é verdade – né, personagens maravilhosos?). Já faz tempo que também sou consciente de que este meu acesso ao mundo dos livros nunca deveria ser um “privilégio”.

Além dos livros em casa, além de ter sido uma leitora voraz (a vontade de saber, descobrir o mundo, enfim), além do armário de livros que minha mãe mantinha em casa, além dos livros que eu encontrava na casa da minha avó, além das Barsas e Enciclopédias onde fiz minhas primeiras pesquisas na vida, eu tive acesso às bibliotecas. Eu sei que já falaram muito, poeticamente, sobre o paraíso que é uma biblioteca para os leitores, mas não só para pessoas como eu, que quando criança e adolescente ia todo dia na biblioteca da escola ou municipal, mas também para quem precisa, como as bibliotecas universitárias.

Farei esse parênteses, meus leitores mais assíduos sabem que falo bastante de mim: minha mãe tinha armários com livros em casa, antes numa salinha nos fundos da casa onde estudávamos e onde fui alfabetizada pela minha irmã, depois ela colocou estes armários na sala de TV. A passagem dos armários de livros da sala de estudos para a sala de TV fez muita diferença na minha vida. Eu lia desde antes de entrar na primeira série, lia os livros obrigatórios das aulas, lia enciclopédias para fazer trabalhos da escola. Mas, ter os livros ali na sala, à mão num espaço de “entretenimento e diversão” fez uma mudança radical na minha percepção. Com a TV ligada eu sentava no chão e começava a folhear, via os nomes conhecidos de reportagens em revistas e jornais (também sempre gostei muito de lê-los). Minha mãe nos levava todos os domingos à revistaria para comprar os jornais do dia e coleções de livros e revistas, conforme o gosto de cada filho. Mudar o entendimento do espaço que a leitura poderia ocupar na minha vida mudou a minha vida e o meu caráter.

Eu frequentei todas as bibliotecas das escolas e colégios e universidades onde estudei. No Fundamental e Médio era todo dia, inclusive no final do Médio a unidade onde eu estudava não tinha biblioteca (precisava “solicitar” da outra unidade, afe), mas era perto da biblioteca municipal. Eu ia lá todo dia. Na universidade, elas eram fascinantes, para aquela menina, se deparar com a biblioteca da UFSC foi um sonho. Também pela questão financeira, pegava a bibliografia das disciplinas e corria pegar os livros, cópias custavam muito. 

Foi com o tempo que construí minha modesta biblioteca. Esses dias me deu saudade do Zola, fui até ela e peguei um que ainda não li. Já não frequento mais bibliotecas como antes, é verdade, e esse é um erro.

As bibliotecas devem ser abertas, públicas, devem estar à mão de todos, devem proporcionar encontros por curiosidade e necessidade. Os livros mudam a gente. Livro nunca deveria ser objeto de decoração ou pretensão. Foi assim que tive o impulso a voltar ao site e escrever aos meus fiéis leitores. 

Ontem vi no Twitter o Lula contando que todos os empreendimentos do programa Minha Casa, Minha Vida terão bibliotecas. Confesso que há tempos algo não me emocionava tanto (me emocionar é difícil). Sei que o atual governo federal foi uma virada de chave que demos após um período tão obscuro (do qual não desejo falar) e que coisas boas já surgiram, investimento aqui e ali, baixa do dólar, IBAMA fiscalizando e tal. Mas, exigir bibliotecas no programa de habitação mais importante do país é uma linha que foi ultrapassada, é entendermos qual país queremos, é saber que acesso ao livro não é privilégio. Hoje, ouvi na rádio o evento sobre o programa habitacional e soube que firmaram uma parceria com a Academia Brasileira de Letras para a disponibilização dos livros nestas bibliotecas. É entender que há um projeto de país, que não é matar.

Ano passado eu publiquei e lancei meu primeiro livro, não é de ficção, mas também não foi escrito em linguagem academicista, fruto da minha dissertação de mestrado em História, na UDESC, e publicado por meio do Edital SIMDEC Apoio, de Joinville. Eu estudei em universidade pública e isso também mudou a minha vida e construiu o meu caráter, publicar a dissertação em formato de livro por edital público foi mais uma conquista na vida. Mais um sonho realizado. Meus leitores sabem que vivo de realizá-los.

Este livro está sendo doado à bibliotecas. Isso não constava no projeto inicial, é uma vontade minha, que surgiu ao vê-lo publicado. Já estão disponíveis unidades dele na Biblioteca Estadual do Paraná (onde tive uma relação incrível em formação), na UFPR, PUC-PR, Universidade Tuiuti, FAP – Faculdade de Artes do Paraná, UNIVILLE, UNIVALI (Itajaí), Biblioteca Darcy Ribeiro (Curitiba) e na Biblioteca Comunitária Lutador Dito, na AMORABI (Associação dos Amigos e Moradores do Itinga), onde fizemos o lançamento do livro. Este local foi escolhido pelas parcerias que tivemos em vários projetos e atividades, além de ter sido uma resposta às livrarias que viam o lançamento de outro ponto de vista, que não o que eu tenho para este projeto.

Inclusive, fiquei muito feliz de vê-lo como indicação da Biblioteca da UNIVILLE, no dia do Cinema Brasileiro. Sim, o livro fala de cinema, afinal, por que não juntar duas paixões, não é mesmo? 

Continuo a doação dos livros, aceito sugestões de bibliotecas e pedidos de doações (é só escrever pra mim ou aqui no “Contato” do site). Tenho já uma lista de bibliotecas às quais doarei, algumas das quais foram muito importantes na minha formação. Porque ler não pode ser um privilégio e agora não posso mais me descrever como uma escritora sem livros publicados (prometo que este não será o único).

Fazer cultura e arte neste país, ser uma trabalhadora da cultura, é o caminho que escolhi para a minha vida, sem nunca deixar o compromisso com a formação. E esse compromisso se traduz de várias formas, fomentar bibliotecas é um sentimento que eleva minha felicidade e demonstra que minhas escolhas têm um caminho do qual tenho profundo orgulho. 

Ah, para encerrar por hoje: frequentem bibliotecas. Valorizem as bibliotecas.  

Pré-estreia “Gritos do Sul”: porque fazer cinema

Eu raramente falo sobre o que faço, e isso pode ser um erro. Mas, é uma característica minha e se é considerado um erro pelos outros, não penso que devo mudar somente por isso.

Porém, hoje vim falar sobre o curta-metragem “Gritos do Sul”, e não digo “meu” porque cinema é arte coletiva e, apesar de assinar roteiro, direção e produção executiva, a obra não é só minha. Porém, eu que dei à luz a esta história que é tão importante pra mim e acredito que para mais pessoas (talvez até para esta cidade).

De cada história que eu crio, posso passar horas falando de cada detalhe, de onde veio cada personagem, cada fala, da narrativa, dos cenários. Seria entediante, imagino, por isso normalmente não falo. A obra nunca é “minha”, ela é de quem a consome.

“Gritos do Sul” é um curta-metragem que escrevi o roteiro ano passado, há pouco menos de um ano, durante a pandemia já naquele período que o pessoal tinha ligado o dane-se – alguns, né, porque muitos nunca deram a devida atenção a ela. Ele surgiu de uma imagem, a fotografia de um chalé que meu professor de Francês mostrou em uma aula, para onde ele iria com a família num fim de semana depois de meses isolados no apartamento onde moravam. Aquela fotografia povoou meu imaginário e não conseguia tirá-la da cabeça porque o local me pareceu assustador, uma decoração hiponga no meio do mato, que não me passou nenhuma confiança. Daria uma boa história de terror? Certeza.

Depois me veio um personagem, masculino, que encarnaria o pior que há nos homens, que ainda tentam (ou fingem que tentam) ser homens do mundo contemporâneo, como pais e maridos, que dividem o trabalho da casa (pero no mucho), que amam, mas vivem da grosseria sua de cada dia. Eu amo meus personagens masculinos porque acho que tenho um bom conhecimento sobre eles e consigo transmitir isso. Era algo que naquele momento também consumia meus pensamentos, como os homens tentam, mas não vão muito além dos homens do século passado – e como nós mulheres temos que, enfim, aceitar isso se quisermos nos relacionar com eles. (Ou não, meninas, exijam mais.)

Esse personagem masculino teria uma característica clássica dos homens: a agressividade que pode ser despertada por alguns fatores como a bebida alcoólica, a competição entre homens, etc., aquele homem que mede na força a sua vontade. Ainda não conheci um que não fosse assim, mesmo que em graus diferentes.

Mas, o que me interessava era a mulher que estaria ao lado desse homem, uma mulher como todas nós: forte de verdade, sem precisar testar nem provar nada pra ninguém, destemida, mãe e esposa, que trabalha, cuida da casa, da família, dirige, assume o controle de tudo a sua volta e ainda suporta relacionamentos ruins porque quer se realizar enquanto mulher na vida. Esse era um ponto importante para a história, quem prestar atenção ao filme, vai entender.

E eis que um dia, ainda às voltas com esses personagens, fui podar as árvores do jardim e decidi que queria uma motosserra na história. Quando escrevemos roteiros a qualidade mais importante é essa: ser decidida. Dúvida nenhuma escreve bons roteiros. Bem, a história estava pronta, o chalé, o casal e a motosserra. Gênero: suspense (ou o novo terror, porque hoje tudo é terror; sou filha dos anos 1990 e seu bom e velho suspense). Faltava um contexto e o conflito. Aí foi fácil.

O contexto seria o mundo pandêmico do Brasil que nunca saberemos o que deveríamos temer mais: o vírus da COVID ou o vírus da ignorância alimentado pelo governo. A escolha foi rápida. O conflito? A realidade ao meu redor. Dificilmente conseguiria imaginar algo  mais aterrorizante do que o que eu via todo dia nas notícias, na fala e atitude das pessoas. E aí se justifica o título (sou péssima com títulos, mas nesse acertei em cheio): os gritos que estão aqui no sul, nesse sul que se diz tão europeu, tão elitizado, tão melhor que o “resto” do país. 

Assim nasceu o “Gritos do Sul”, uma história que não fala sobre a pandemia de COVID, pois ela é o contexto que serve de estopim para o drama, mas que fala das profundezas da nossa realidade aqui onde as ideologias ganharam proporções de uma violência destemida e doentia. “Gritos do Sul” é um filme político que se posiciona de acordo com o que convencionou-se chamar, nos dias de hoje, de antifacista. Ele não trata de nenhuma ficção fantástica para falar da realidade, ele tem personagens desenhados pelo que vemos no dia a dia. 

Sobre posicionar-se, nunca abri nem abrirei mão. Toda arte é política, blá-blá-blá, é sim. Tem um gosto especial produzir cinema no Brasil, com posicionamento político não alinhado ao governo atual, que combate certas características culturais que corrompem quem poderíamos ser. “Gritos do Sul” foi um projeto aprovado no SIMDEC Apoio 2021 em primeiro lugar, com uma pontuação muito boa, foi produzido com equipe majoritariamente composta por mulheres e homens não heteros e todos profissionais de Santa Catarina, a maioria graduados e graduandos do curso de Cinema. É uma prática de fomentar, formar, qualificar e profissionalizar cada vez mais a nossa área, em Joinville, principalmente, que não se exime de mostrar a real importância das políticas públicas para a Cultura. Tudo isso é o discurso político do Gritos do Sul – é o nosso grito coletivo.

Não é só um curta antifacista, é um espaço de mudança e resistência. E resistimos inclusive à falta de interesse da imprensa e outros órgãos em divulgar o trabalho dos artistas de Joinville, pois não temos um centavo investido em divulgação e vamos trabalhar no “boca a boca”, no compartilhamento nas redes sociais, no contato direto com as pessoas que apreciam arte e cinema, que se interessam por valorizar quem resiste a esses tempos sombrios. Uma ópera de fora de Joinville, por exemplo, com ingressos a cem reais, a ser apresentada no local cultural mais elitizado da cidade tem espaço nas rádios e nos meios de comunicação, apoio de pessoas dos órgãos culturais, nós não. O grito do “Gritos do Sul” se fará ouvir, a contrapelo de alguns, quiçá da história, como diria aquele filósofo. 

Nosso curta está forte, agoniante, eu diria. Está na última etapa da pós-produção e já tem data de pré-estreia, que será no SESC de Joinville, espaço parceiro do cinema local, pois a cidade não possui sequer uma sala pública de cinema. Teremos ingressos para o público em geral e para quem quiser acompanhar recomendo o Instagram da produtora @oficina_producoes. 

Não consigo imaginar nada melhor do que fazer cinema e sou feliz por esta ser minha vida. Trabalhar com cinema em Joinville é uma realização pessoal que, felizmente, eu compartilho com bastante gente, inclusive com o público. Quem sabe em breve eu fale mais sobre o “Gritos do Sul”, mas só vai entender quem assistir.

Jaula

Yo he intentado no hacerme daño

Fue como una promesa

Pero, vida, siempre tengo ganas

Ganas de vivir, de ganar

de sentir, de amar

Y la vida pídeme

que yo vaya hasta el fin

como si mi hambre

nunca se quedara saciada

Tengo eso, ya ves

Nadie nunca me basta

es una inquietud en el alma

de placeres, de creación

de mirar, de oír

de descubrir el mundo

– y, quizá, a mí misma

Esa jaula que no existe

Pero yo la veo casi siempre

Todo es pequeño, y poco

y insuficiente, y despreciable

Nada me encanta

Nadie me apasiona

Mi deseo me aprisiona

Soy mi propia víctima

Soy mi verdugo

Soy mi abogada

y mi juez

De resto, siguen las calles

la misma ciudad

el mismo rio

la misma yo – de siempre

Aprisionada em mis vicios

Me encontrarás fácil

en el mismo lugar

a mirar el mar

a ahogarme en mis

precipicios y desafíos

a desear

a romperme hasta el fin

por el placer de hacerlo

Una sonrisa

Y algo habrá cambiado

Hello

Hello, from here, from these empty streets during the night. I’m here to say to you how fucking great is everything.

Hello, from the future. I just need to say that every decision were your best movement. Today you have no idea everything your doubts will bring in a very positive way – but, from here, the future where I am, I know what you suffered in silence and, yeah, it worth it.

Hello, from a very spontaneous heart, like yours. You know, the past still remains there, where it belongs. You are more than they. Your heart believe, and it’s enough for you two. Don’t ever and never put it in the wrong place, far from your eyes. You’ll thanks me someday.

Hello from this special night, like others nights without any previously explication. That’s your night, baby.

I’m here to assure you that’s the way and no one can help you. You’re strong enough and brave enough.

Do it for yourself and change some lives around you.

Sola

De verdad prefiero estar sola unos días.

Quédate aquí, de todos modos no quiero estorbar tu vida con mis ideales y sueños. No quiero hacerte pensar demasiado sobre todo, todos los días, pues que es fatigante.

Me voy cierta de mis errores y de que no tengo mas fuerzas para seguir por lo mismo camino. Yo soy las sendas por la arena de la playa donde siempre he vivido, soy los árboles que he cultivado, soy los mundos que he creado – por toda la vida.

Cuándo vuelva, te diré. Te diré si me gustan las dudas aunque no te he dado esta opción. Pero puede que no vuelva. Aún peor, vuelvo y te vas a dar noticia por los otros. Vas a mirar mi vida pasándole diante de tus ojos como si fueran cercas de alambres, llorará, por lo menos, el sal y la oscuridad.

Voy a estar sola con el sonido del tiempo a decirme entre ollas de buen humor que nunca estuvimos lejos.

Voy a estar sola como siempre y siempre conmigo.

Serán solo unos días, fíjate. Haré una visita a alguna catedral, jugaré con los gatos de la calle, miraré hasta un cielo azul donde no llueve todos los días. Pensaré en volver cuando haya me hartado de sonreír y cuando la maleta esté llena de experiencias.

No te olvides de me olvidar. Porque, por supuesto, sabes que yo jamás volveré. Jamás volveré para tu vida.

Coração sincero

Podemos entrar no carro e fugir sem rumo até o coração dizer “é aqui”.

É aqui que quero ser feliz para o resto da vida. Mas, talvez, o resto da vida seja tempo demais.

O coração, ele sempre tem razão e merece ser perdoado pelas bordoadas que leva. Ele não se atreve a desacreditar das pessoas e suas intenções, ele vive com esperança.

Num dia assim, porém, o que salva é a fé. A fé persiste em dizer ao coração que é preciso ficar, que ele ama demais e de forma insaciável, que essa loucura de fugir ainda pode deixá-lo muito triste. Ele custa acreditar, ao mesmo tempo que nunca duvidou da fé. Afinal, o que seria dele sem fé?

O coração anseia por ver novas paisagens, por conhecer outras realidades, por ouvir quaisquer sotaques. Ele é sincero e fiel, nunca soube ser de outro jeito. Ele nunca pôde ser falso porque ama e entrega-se com paixão, de olhos fechados (o tolo). Ele jamais trairia – a si mesmo.

Este coração aprendeu a não tratar os outros como foi tratado.

Tem dias que ele respira seus anseios. Tem dias que ele precisa olhá-los com pena e lamentos, e manter-se sufocado. Ele poderia fugir, não como uma fraqueza, como quem escapa de suas responsabilidades e se acovarda. Ele poderia fugir num gesto de coragem e força, de quem tendo tudo busca não ter nada – para ser ainda mais.

Não entenderiam, é claro. E ele nunca se importou.

O coração acordou assim, num dia qualquer, e quis buscar onde ser feliz, algum outro lugar onde também pudesse ser feliz. Caso a vida já não lhe tivesse ensinado, ele teria ilusões.

Acreditaria até, quiçá, na humanidade. Por ora ele tem somente a si como escudeiro e confidente. Seus planos não os conta a ninguém, não encontrou quem fosse digno de confiança. Ele articula seus próximos passos e sorri solitário.

Qualquer dia, podemos entrar no carro sem rumo até encontrar uma árvore frondosa e carregada de mangas, cercada por terras alagadiças e cenas curiosas de um cotidiano do passado, cruzar uma estrada de barro até o mar revolto se descortinar e termos a surpresa de um amor caliente no banco do carro enquanto toca uma música alegre – de fé e esperança. O coração vai saber dizer “é aqui”. O coração, ele nunca se engana – nem é enganado.

O cinema que Joinville não vê

Lembrei de um dia, quando andava pelas ruas de Goiânia e me deparei com um cinema de rua: a porta ali aberta na calçada, meio da tarde, jovens entrando e saindo, cartaz das sessões nas paredes e no meio da rua, programação variada. Lembrei disso porque esses dias caminhava por uma pequena cidade da Argentina e, ao atravessar a praça, início de noite, fervilhava o cinema de rua em frente à igreja.

Como faz falta um cinema de rua! E pensar que eles existem em cidades grandes e cidades pequenas, como nos exemplos que citei. Como, inclusive, já existiu em Joinville como minha mãe sempre me contou. Lembrei disso tudo enquanto pensava esse árduo fazer cinema, com tantos obstáculos, mas tão imprescindível. 

Tenho três curtas-metragens produzidos, finalizados, prontinhos – viabilizados com verba pública – e não tenho onde exibi-los para as equipes e elencos que trabalharam neles, junto com alguns convidados. Essa, aliás, sempre foi uma crítica minha às obras de conhecidos e nas quais trabalhei. Depois de pronto, quem assiste ao filme? Ok, há a vida útil dele nos festivais, aos quais todas almejamos. MAS, eu só queria passar meu filme pra quem trabalhou comigo nele, aqui na cidade de Joinville onde eles foram gravados. É só isso. Só?

Bem, falem o que quiser, o cinema em Joinville ficou anos hibernando. Hoje temos muita gente produzindo, de várias gerações e formações. E daí falam tanto desses “tempos passados”mas Joinville, com sua alcunha de “maior cidade do Estado” (lembram?) não tem uma sala pública de cinema!

Um dia comentei num post do atual secretário de cultura de Joinville, que na ocasião estava passeando por Fpolis, para que ele desse uma olhada no CIC – Centro Integrado de Cultura e que este servisse de exemplo para a nossa cidade – quem sabe na destruída Cidadela Antarctica. Ele disse que era um belo exemplo, mas que dependeria do investimento do governo do Estado. Ah, mas, ah! E Joinville, uma cidade do tamanho e rica como Joinville, precisa do dinheiro do Estado para criar um espaço público para as artes?! E nem me venham com aquela opção de PPP na 9 de março com prédio pra rico e teatro pro “povo”.

Se tanto foi feito pelo cinema de Joinville, cadê? Ah, faziam umas exibições lá na (na época já não muito inteira) Cidadela Antarctica. Que fim levou? Onde estão as atividades contínuas? Onde está a perenidade das ações em cinema na cidade?

Ah, mas está no Plano Municipal de Cultura (aquele que fez dez anos e dele pouco se fez) que uma sala da antiga prefeitura (e, mais antiga ainda, rodoviária da cidade) seria uma sala pública de cinema! Começo deste ano a antiga prefeitura foi reinaugurada, depois de anos de restauração ou reforma (aqui nunca se sabe o que fazem com prédios históricos), sem nenhuma sala pública de cinema. Aliás, está lá o batizado Farol – que até agora os trabalhadores da classe artística não sabem bem para o que serve. 

Tem uma questão óbvia e ululante para os nossos gestores: os espaços culturais públicos precisam de investimento e equipamentos! Vejam os museus, o MAJ, o Sambaqui, a Casa da Cultura, andem por eles, falem com quem cuida deles, perguntem o que falta. Museu que não tem onde colocar seu acervo! Salas de auditório sem projetores e caixas de som! Tudo abandonado, sem estrutura nenhuma para uma apresentação de dança, para uma exposição, para um show ou exibição de filme. Por isso, caros gestores, os espaços públicos vão sendo abandonados pela população, porque vocês permitem que eles sejam sucateados – e nem nós, trabalhadores da arte e da cultura, conseguimos ocupá-los e chamar o público até eles.

Eu convivi com o cinema do CIC, filmes fora do circuito hiper comercial em cartaz, preço super acessível, localização boa pra todo mundo de busão. Ali assisti a alguns dos filmes que mais marcaram minha vida, fora do estadunidismo que sufoca essas salas de gente que só pensa em dinheiro fácil. Em Joinville o público tem que mendigar pra assistir aos filmes mais cotados da temporada – se eles forem brasileiros! Imagina se vai passar filme argentino, sul-coreano, italiano, francês (país onde nasceu o cinema!), italiano ou alemão! Nem filme alemão passa nessas terras que forjaram sua história num germanismo superficial.

Na sala de cinema do CIC quem quer fazer uma mostra, um cineclube, uma exibição qualquer, tem espaço. Porque é uma sala pública! Não depende dos interesses de quem abre sala de cinema em shopping para ganhar dinheiro. Problema com ganhar dinheiro? Nenhum.

Exatamente, vamos falar sobre dinheiro. Eu contratei todas as minhas equipes para trabalharem em Joinville, todos eles, sem exceção pagaram impostos para receber os cachês que lhes eram devidos. E não é pouca coisa, não. Eu pago meus impostos de produtora aqui na cidade. Tudo o que consumimos, entre transporte, alimentação, hospedagem, itens e serviços paga seus impostos aqui na cidade. E então, como fica? Para onde vai todo o dinheiro que as produções de cinema e audiovisual estão investindo na cidade? Por que não temos nada, nem um centavo disso, investido no mínimo que precisamos aqui?

Sei que volta e meia discutimos algumas questões sobre arte e cultura e, ainda, essa gente nos menospreza e blá-blá-blá. Nós produzimos, nós geramos emprego e renda. Nós contribuímos com a economia da cidade – e com muito mais, porque nem tudo se resume a dinheiro, mesmo numa sociedade capitalista. E até quando acham que vão nos desrespeitar? Até quando pensam que esta cidade foi feita para dois ou três sobrenomes? 

Felizmente as eleições do Conselho da Cidade já anunciaram que as coisas estão mudando. Felizmente há uma onda que não vai morrer na praia de um Novo Cinema sendo feito em Joinville – eu até diria “só não vê quem não quer”, mas, infelizmente não é bem assim. 

Cinema não existe sem público. Cinema não é para exibir aos amiguinhos e tá tudo bem. Não tá tudo bem. Ah, mas o SESC! Sim, o SESC é a melhor sala equipada e acessível, em termos, para exibir filmes. Mas o SESC não é uma sala pública de cinema e tem sua programação também. Até quando vamos remendar os problemas evidentes?

É muito bonito, poético até, isso de sussurrarem as coisas, das críticas veladas e silenciosas, os tapinhas nas costas – que é como fazem muitos da arte e cultura de Joinville. Tenho a forte impressão que essa prática não surtiu resultados em seus mais de cento e tantos anos de cidade e que ela não se sustentará mais diante de uma população diversa, composta por muita gente que vem de fora tentar a vida aqui porque ela parece terra de oportunidades – não pode mais ter oportunidades só na linha de produção. A cidade não é de uns poucos e seus nomes e sobrenomes. A arte e a cultura não são só feirinhas na praça e enfeite de natal na rua.

Nós estamos organizados e bem armados. Eu produzo aqui e a economia não vai me deixar de lado – enquanto dá isenções para grandes indústrias. Quando vi o governador visitar Joinville, não encontrei agenda com o secretário de cultura exigindo um CIC em Joinville – soube que o governador assinou duplicação para a rua que leva à cidade industrial. Se cada uma e um que trabalhou nas minhas equipes cobrasse o investimento do imposto que foi deduzido do seu cachê nos equipamentos públicos de cultura da cidade, já teríamos um avanço. Se cada um e uma que trabalha com cultura tivesse a visão da força do seu trabalho, aí sim as coisas mudariam.

E eu não vou deixar ninguém em paz enquanto não tivermos uma sala pública de cinema, onde tenhamos diversidade de programação, onde tenhamos cinema joinvilense na tela, onde tenhamos cineclubes e encontros e mostras – e tudo acessível. Tenham minha palavra.

Os homens da minha vida – tempos de pandemia

Gosto de pensar que a pandemia não aconteceu por acaso (eu acredito muito nisso) e, para quem não é tolo, as reflexões que ela causou podem ser muito úteis. Ela veio para dar fim à situações que já não se sustentavam antes, mas se arrastavam de mal a pior. Ela serviu para dar um fim no que já não apaixonava mais.

E é curioso pensar que ela também veio para destruir de vez minha (nossa?) esperança nas pessoas em relação ao futuro, às mudanças que eu imaginava ver. Como mulher, percebi que não há esperança em relação aos homens. Como dizem algumas teóricas feministas, as coisas estão mudando, mas pouco e lentamente. Eu, enfim, vi que não há mudança nenhuma.

Os homens estão diante de tudo que eles precisam saber e aprender sobre igualdade, respeito, e mil coisas, mas, mesmo assim, eles agem como os piores homens dos séculos passados. Enquanto mulher não aceito mais a grosseria, o desrespeito, a agressão (a estupidez nas respostas e tratamentos, a violência psicológica, nem mesmo o silêncio). Tenham eles vinte ou quarenta anos, geração essa ou aquela, todos – sem exceção – sabem muito bem como não devem agir. Mas, eles escolhem agir como estúpidos e idiotas e escrotos e, bem, esperam o que de nós?

Não sou eu que determino o fim de um relacionamento, é o relacionamento em si que deixa de existir. Eu apenas sigo. Parece (e é) simples. O amor é aquele bichinho que precisa ser alimentado todo dia, senão morre também. Na pandemia não foi diferente, o mundo nos desafia e quem não dança junto, perde. É preciso se reinventar, ser criativo, adequar-se às mudanças.

A falta de comunicação num relacionamento tem consequências graves que carta nenhuma, tempos depois, conserta, que arrependimento nenhum apaga. E eu, de fato, nos dois últimos anos tive motivos de sobra para ver que os homens não melhoraram. Eles continuam sendo os idiotas com os mesmos problemas de sempre. E, como eu dizia esses dias, nós não merecemos homens com problemas. Ah, mas problemas todos temos. Aham. Mas, nunca permita que os seus problemas machuquem as outras pessoas – porque elas não têm nada com isso.

Eu cansei de acreditar que algum homem, independente da idade, independente de conviver comigo que falo disso diariamente, não é machista. Que não usa o que ele mesmo faz para me diminuir, para me agredir, para me fazer lamentar pelas coisas que aconteceram. Só alguém que não me conhece para esperar isso de mim.

A pandemia levou da minha vida os homens que não me serviam e dos quais eu, por algum tipo de apego e cegueira, ainda não havia me livrado. Levou o passado que vivia a rotina (que eu tanto detesto), a mesmice, uma pessoa que não me ouvia nunca, sobre nenhuma situação. A mesma que me tratava com grosseria e achava que eu sempre estaria ali para responder quando ele quisesse. A pandemia levou da minha vida com quem tive uma parceria especial, mas que sugava, manipulava, sufocava.

A pandemia também me trouxe uma paixão avassaladora! Foi na primeira vez que saí do isolamento, ainda sob inúmeras restrições, que nossos olhares se cruzaram. Eu gosto da minha vida porque ela tem coisas adoravelmente inexplicáveis (como essa paixão e outras) e aquelas semanas foram loucas – segundo os astros, tudo estava previsto e foi um ponto de virada na vida – e eu só abracei tudo que aconteceu. Saí desse turbilhão com a vida do avesso, depois de ser arrastada por ondas gigantes, lançada contra as pedras do costão, engolido a água intragável do mar… quase afogada, me arrastei em direção à praia pensando que deixava a tempestade em alto-mar. Tola que fui: o pior estava por vir. E eu não vi mesmo! Porque estou, como é, Sandra? Dançando com a vida… de rosto colado…

Pelo menos aprendi uma coisa, eu gosto das diferenças nos relacionamentos. Eu tenho pavor do tédio e pensar em duas pessoas “iguais” num relacionamento não pode ser outra coisa. Eu gosto das diferenças sociais, de gosto, de idade, de práticas e atividades, quanto mais diferente, mais atraente. Bem, não me falta experiência para poder afirmar isso. São as diferenças que me atraem, que constroem um relacionamento interessante, pulsante, desafiante. Porque é com as diferenças que a gente aprende – e se tem uma coisa que eu gosto na vida é de aprender. E o que é um relacionamento senão o contínuo aprender o outro?

Tem homens que acham que têm um controle tão grande sobre as pessoas, que eles reagem muito mal quando vêem que fracassaram. E eu já tenho maturidade o suficiente para não ter pena desses homens! Tanto eu tenho maturidade quanto falta coragem para esses mesmos homens encararem uma mulher séria, madura, que sabe o que quer e não tem medo nenhum de seguir o que sente. Eu sei, é 2022 e a covardia ainda domina muitos homens. A covardia os corrói todo dia, enquanto a cabeça deles repassa cada atitude que deixaram de tomar, cada calhordice da qual foram capazes.

Acima de tudo, esses homens que passaram pela minha vida, nos dois últimos anos, me fizeram aprender uma coisa: eu nunca vou deixar que usem o meu trabalho para me atingir. Eu sempre prezei muito a minha profissão, eu sou super responsável com o meu trabalho, a seriedade com a qual eu trato o que eu amo fazer é sagrada. Quando eu percebi que eles estavam usando isso para me diminuir, para “se vingar”, para tentar me prejudicar porque eles eram incapazes e inconsequentes para assumir o que faziam, eu dei um basta. Jamais alguém – principalmente homens – vai usar o meu trabalho para me fazer mal, porque só eu sei tudo o que eu fiz e passei para chegar até aqui – e não pretendo parar. Isso me fez pensar em quantas mulheres ao redor do mundo são diminuídas, humilhadas, usadas, prejudicadas com os seus trabalhos por causa de homens escrotos – dentro e fora de casa. Aliás, fiquei até rememorando casos conhecidos. Cheguei à conclusão que falamos pouco disso e essa é só mais uma das coisas que, se está mudando, é pouco e lentamente.

Com a alma leve e tranquila eu sigo. Mais tranquila do que nunca. E mesmo que a cada dez anos uma cobra coral cruze o meu caminho, eu vou me arrastar pela praia até que a tempestade passe, que a ressaca amaine e o sol volte a brilhar. Às vezes eu penso, “continuo a mesma”, mas, sinceramente, eu só melhoro. Porque a vida não tem graça com nada sempre na mesma, eu morreria de tédio. O que não muda, e não mudou para esses homens dos dois últimos anos, é me pintarem como um monstro, o carrasco da vida deles! Bem, uma morena pode causar muitos estragos, já ensinou o cinema clássico de Hollywood – e aquele cantor. Quem sou eu para desmoralizar a nossa fama! (Ou para pintar o cabelo!) Como diria Jair… deixe!

Enfim, é a vida. Perdi as esperanças. Os homens não melhoram. Eles continuam os mesmos e tenho que me deparar com eles e suas grosserias, no trabalho, na vida pessoal, na reunião do conselho, em casa, onde for. Não importa a idade, pode ser um jovenzinho ou um da velha guarda, pode ser o mais ativo da igualdade nas redes sociais ou o mais brucutu offline (aliás, este tem mais chances de respeitar e admirar as mulheres, segundo minha experiência). Os homens ainda acham que dominam o mundo e as mulheres – porque, não estão erradas as pesquisadoras, eles ainda o fazem de fato. Vamos parar de fingir que as coisas estão mudando, assim eles também não precisam fingir que se interessam e importam.

Eu só sei que fiquei enojada com a covardia, que senti desprezo pela arrogância, que fiquei indiferente aos lamentos. Porque eu nunca faltei com o diálogo com ninguém nessa vida e fui humilhada e ignorada nas inúmeras tentativas de que o olho no olho e a expressão dos sentimentos resolvessem tudo. Quando não há diálogo, tudo se perde. Eu posso ser a melhor pessoa do mundo quando estou com alguém, até que a confiança e o respeito se ausentem. Daí, eu realmente não tenho mais obrigação nenhuma – com quem quer que seja, não só com os homens.

Já diria Robertão, em paz com a vida e com o que ela me traz… eu sigo – de pé e cabeça erguida. Precisa muito mais que um homem para arrancar minha felicidade de mim. E era uma noite de sexta, chuvosa, já esse Outono chato, quando Elis me ofereceu a canção definitiva desses dois anos, no assunto homens. Se alguém precisa de respostas, esse alguém não sou eu. Os homens que tratem seus problemas e, de preferência, só depois se aproximem de alguém porque, olha, ninguém merece vocês.

O Outono é chato, porém, “ah!, porém!”, Paulinho me anima a relembrar o Verão e todas as decisões que tomei nas longas conversas com o mar e o céu estrelado. Tem tanta coisa que é muito melhor (e mais eficaz) que terapia. Só os indecisos têm medo de mulheres decididas (se forem morenas, então!). Aliás, duvido muito que exista terapia para resolver os problemas (inclusive sexuais) de alguns. Ser bem-resolvida/o é mal visto na contemporaneidade, né. Mas, eu super recomendo!

Obs.: a trilha musical desses dois anos é extensa – a maria palheta ficou muito feliz com a paixão fulminante – e foi crucial para todas as reviravoltas brevemente resumidas nessas duas páginas; mas deixo aqui duas delas: a primeira me faz dar gargalhadas toda vez que toca (e não foram poucas nesses meses todos) e um dia ainda vou gravar uma versão acústica e oferecer aos sofredores; a outra foi um acalanto maravilhoso enviado pelo Destino na voz da deusa Elis (não podia encerrar melhor). As outras, bem, elas fazem parte da minha vida e, quem sabe, estejam aí para embalar novas paixões e tantas outras desilusões.

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