Penitência

Era pra ser melhor. Mas, dizem, só temos essa vida. E é dela que temos que fazer – não tirar – o melhor. Às vezes dá mais trabalho, raramente quase não depende de nenhum esforço. Eu começo aqui e em duas linhas quero desistir, pois cansaço, sono, uma certa tristeza me invade. Mas o caminho trilhado é sempre longo. Não se chega a nada bom em dois curtos passos. E amanhã nunca é uma certeza – pelo menos, até o momento, tenho certeza que não conseguirei tempo para terminar e publicar este texto, portanto, é melhor que o faça agora. Enquanto escrevia a frase anterior me veio à memória a imagem de um sonho que tive, faz tempo. A cabeça funciona assim, sempre tão mais rápido do que esses dedos que deslizam céleres pelo teclado ou ainda mais veloz do que este corpo que implora por cama – anda viciado, eu diria. O sonho, só para esclarecer, não tem nada a ver com o que se passa agora: talvez apenas saudade de dormir, ou de sonhar, ou uma sinapse fora do lugar.

É pra ser melhor. Tem que ser. Sem nenhuma obrigação, que fique claro. Tem que ser porque queremos que seja. Queremos que seja melhor para nós. “porque merecemos”: não chegaria a tanto. Porque, pelo bem e pelas boas ações, temos que fazer o melhor. Não cabem acusações ou discussões. Há o reto a seguir sem desvios. Eu lia esses tempos uma crônica do Saramago, que me fez uma bela companhia, na qual ele falava de como o escritor dá vida ao entorno dele, ao escrever. Como um mundo surge, e aqui solitária neste oficina frio e mal iluminado, e preenche minha visão de mundo – a qual eu dissemino porque as gavetas são poucas e já estão cheias. Talvez ele falasse também disso, dos autores que não são publicados. Ou li naquele jornal de literatura, agora estou confusa. (perdoem, passa das 22h e a cabeça a rememorar sonhos, a desejar sono) Mas, vejam, extraordinariamente há uma anotação aqui que comprova a ligação destes dois pensamentos. É em um bloco que eu deveria carregar comigo – estou, novamente, tentando.

É melhor. Não preciso me enganar, é sim. (tomei um chá de cidreira e laranja, acordada por milagre no momento – daqui a pouco transcrevendo sonhos ao vivo) É porque começou diferente. É porque eu, finalmente e pela primeira vez, estou disposta (e me empenhando, juro) a fazer e ser melhor. Só por isso já valeria, mas não basta. Sou exigente – todos concordam. Dizia lá o Saramago que o cronista é chato, e nada mais chato do que a cronista ficar falando em sono (contagioso, só pode, tomem cuidado) a toda hora. Somos chatos porque evidenciamos o que ninguém quer ver. Porque pegamos o sono e trazemos para o meio dessas páginas enquanto acreditamos que devemos ser melhores – dando o exemplo, diga-se de passagem. Anotei aqui que o Affonso não é um cronista chato, mas, me desculpem, não sei qual a associação que eu fiz no momento da anotação (por isso que não consigo manter o hábito da caderneta de anotação, as idéias não funcionam depois). Talvez tivesse algo interessante a dizer. Leiam-no e depois me digam se vocês entenderam qual a minha idéia, mas antes leiam o Saramago. Há algo, eu garanto.

Acabo de fechar a caderneta (e colocá-la na gaveta quando ela deveria ir direto para a bolsa) e nela ainda há, pelo menos, umas três idéias de texto – uma descartada, pois o tempo condena ao desuso as mais prementes necessidades. Senti falta de escrever. E é – sempre – preciso escrever. Sempre e sempre. E nem é o tempo. Nem a falta de idéia (nunca). Ou o vazio da experiência (jamais). É minha falta de compromisso. Condenada e julgada. Minha penitência é o próprio crime. Avisem que voltei e nunca deveria ter me ausentado, eu sei. E é nesse turbilhão que a vida segue (e é como eu gosto que ela seja). E que estamos bem. E que sejamos melhores.

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Museu dos naufrágios

Caminho pelas fronteiras do mar a catar os destroços dos náufragos. Tudo aquilo que chegou até a areia pelo bem entender das correntes marinhas – que nem vemos e quase não as entendemos. Passo meus dias aqui a esperar os amores que viraram lembranças, as embarcações que desfizeram-se em restos de madeira. Repare que até as conchas contam suas histórias. À beira-mar quase nada chega inteiro. Coleciono pedaços de vidas que não lograram ser tudo o que sonhavam.

Não me interessam as conchas inteiras. Elas ainda não viveram o suficiente para terem algo a dizer de dentro de potes de vidro colocados na minha sala de visita. Coleciono os sorrisos de todos aqueles que viram o mar pela primeira vez, respingados pelo olhar brilhoso de sofreguidão e ansiedade diante do desconhecido: verão o mar muitas vezes ainda, e jamais o conhecerão. Coleciono chegadas e partidas, daqueles que passam de carro atulhado de malas e ventiladores, ainda uma última vez antes de afundarem-se em saudade dos dias passados em companhia do mar e do sol; dos pequeninos que não voltarão jamais, pois ano que vem serão outras pessoas em outros corpos e já poderão entrar até depois do quebrar das ondas.

Assim ocupo minha vida, a recolher as histórias acabadas e as que ficaram em pedaços… ando por aqui a montar quebra-cabeças dos corações alheios. Não discuto emoções. Reparo que as pessoas, assim como as embarcações, dificilmente resistem às tempestades. Por vezes elas até são precavidas, ouvem com cuidado as previsões do tempo, sempre estão em dia com os itens de segurança e a manutenção. Mas… nem tudo parece estar ao nosso alcance. Mas… quando são pegos de surpresa o choque causa devastações irreversíveis. E tudo vai ficando pelo mar, e o caminho absolve as marcas das desatenções…

Hoje mesmo a praia encheu-se de pequenos peixes mortos. É difícil sobreviver no mar, até para eles. Chegaram boiando sem nenhum dano aparente e o olhos esbugalhados. Nunca se sabe ao certo o que lhes tirou o ar. Vejo os abraços apertados que se desmancham em braçadas solitárias. Os corpos jovens e ativos que vão se deixando ficar nas cadeiras de praia debaixo do guarda-sol até não aparecem mais por aqui. Não faltam alianças e pranchas na minha coleção. As primeiras sempre as encontro na maré baixa, confusas deste fim na areia revolta pelas ondas. As últimas enroscadas nas pedras dos cantos, sofrendo o abandono voluntário.

Passo por aqui todos os dias, recolhendo tudo o que levo para o museu dos naufrágios. Nele nada se vê inteiro, mas possui todas as vidas. Partem-se em pedaços que quererão reencontrar-se eternamente. As embarcações, porém, podem ser substituídas. Guardo essas relíquias com o desejo infinito de que tenham um destino, que recalculem suas rotas, que consigam compreender novamente suas bússolas. Agora, que as nuvens se aproximam da praia e os grossos pingos de chuva retalham as areias e o mar acinzenta-se, empenho-me em colher todas essas desilusões largadas às pressas de um final de feriadão. Os naufrágios acontecem em momentos previsíveis, por vezes, quando o tempo não nos oferece outra chance.

E sou eu que fico aqui, a oficializar adeuses e choros contidos… a cadastrar despojos de todos vocês que partem sem tempo de sentir que algo de vocês ficou para sempre à beira-mar. O náufrago preocupa-se demais com o que lhe restou intacto. Espero pela próxima maré…

O que trago do mar

Venho da praia para dizer que o mar continua sedutor. Os morros persistem bravamente no verde e as piavinhas brincam na beira d’água como se fundo fosse. As crianças, ah!, as crianças não vêem tempo ruim: é sol, é chuva, é nublado ou areia queimando lá estão supimpamente felizes a tomar banhos de mar emboladas em areia até os pescocinhos. E assim os dias de Verão vão passando, agora tristemente sem o horário de verão que tanto amamos ao prolongar o dia noite adentro – e que vocês, nobres egoístas, tanto o desprezam. Deixem-nos com nosso sol a passos largos pelo dia. É assim que somos mais felizes (ainda).

Venho para dizer que talvez ainda possamos mudar o mundo. E que as coisas boas podem, sim, suplantar as ruins vários dias por semana – exceto às quintas. No mais, talvez ainda possamos ser pessoas melhores – e nem estou falando de não jogar lixo nos rios, construir casas em áreas de preservação, reclamar do barulho do vizinho. Pessoas melhores que têm bons pensamentos, que sonham mais – por favor, sonhem mais -, que não sintam o peso de sorrir quando o mundo lhe desaba sobre as cabeças. Tentemos. Era o que o céu azul trovejado de nuvens hoje me dizia, garanto-lhes: sejam melhores.

Venho da praia para contar que poucas coisas valem a pena na vida. Nós é que perdemos tempo demais com o supérfluo. Eu sei que você sabe. É tão extra deslizar o dedo infinitas vezes num único dia sobre uma tela que não nos esquenta o coração. É tão vazio discutir notícias de nomeações e acidentes de carro. É sempre desnecessário falar do ausente. O pouco é aquele beijo no filho que você não deu logo cedo, aquele “obrigado” que você não disse quando mais precisou, o suspiro de prazer que você estrangulou e, até mesmo, o “adeus” tão desejado e nunca proferido. É pouco e sendo tão pouco se perde na imensidão do muito e do demais que não nos valem de nada. Foi lá na praia que senti. E precisava dizer: vamos ficar com esse pouco.

Venho com o corpo morno de um calor absurdo afogado em água cristalina e fria para contar que sempre pensei que o mundo fosse um bocadinho assim esperançoso. E que por mais que não saibamos explicar essas dores infinitas que estrangulam os bons corações, em algum recanto florido guardamos a esperança de seguir. É assim que os pés cheios de areia sobem a rua, com a certeza de caminhar. Um pé na frente do outro, o equilíbrio, e tudo assim tão simples, mas que, por vezes, nos escapa da alçada da alma. É preciso chamar a força de vontade à razão: devemos seguir. Se tiver alguém a quem dar a mão, melhor. Senão, siga mais devagar.

Vim da praia para ter a certeza de que o mundo me esperava com menos ódio do que da última vez. Reparei bem por onde passava, nos olhares fortuitos, nas câmeras de segurança que ousam ver-me todos os dias a ir e vir de biquíni rente aos muros, nas novas portas abertas, nos carros que nem param nas faixas de pedestres. Reparei que todos estavam com mais sono. Ou uma espécie de sono… robotizaram os olhares e gestos, acionaram a engrenagem, apitaram lá longe na fábrica. Passamos protetor solar para garantir que essa pele não derreta e mostre nossas latas enferrujadas. E quem sabe saiamos a conquistar corações com as marcas de sol de um Verão que deixou (desde sempre) saudade antes da hora.

Vim querendo trazer boas notícias. Por lá tudo se mantém um espetáculo sem decepções. Por lá o coração enternece os mais de trezentos dias passados longe dele. O mar nos dá uma sobrevida de muitas Estações. Ele alivia as dores da alma e engole as dores do corpo: nos deixa saciados e lânguidos que mal passamos do portão de casa já caímos na rede da varanda e por lá ficamos. Mas encontro cá os muros, os corações gelados, as almas mesquinhas e as mãos silenciosas. Duvido que resistissem a um banho de mar. Duvido que consigam embaçar este meu olhar que perdeu-se no ondular violento das ondas a embranquecerem as pedras numa madrugada de areias vazias e céu estrelado. Duvido. Ouçam o que digo, venho da praia para lhes trazer aconchego… e convidá-los a olhar, novamente, o mar.

Precisamos falar sobre eles

É sobre eles que eu quero falar. Vamos começar pelo cabelo. Você nunca os viu com os cabelos desgrenhados, nenhum fio fora do lugar, eu garanto. Eles jamais aparecem com os cabelos despenteados, acredito até que dormem e acordam assim. É sobre eles. E eles são muitos. Bem perto encontramos seus carros – que eles sempre têm, e, em muitos casos, mais de um. Os carros não têm nenhum arranhão, não se vê grãos de areia pelo chão atapetado, nem um mísero pó no painel. Parece até que nunca viram uma estrada de chão, nem uma chuva, brilham a cera que parece ser passada meticulosamente todos os dias. O carro brilha. Assim como o cabelo. Tudo neles brilha.

Eles costumam viver nos mesmos bairros, são aglomerados de pessoas do mesmo tipo – ou seria da mesma casta? Vejam as casas. Não, vejam antes os jardins. Se quiserem confirmar o que eu digo, peguem uma lupa e procurem um pezinho de mato. Procurem bem. Não encontrarão. Nem percam tempo, eu já vasculhei tudo. Há tempos que essas pessoas me interessam. Há tempos que os observo de longe. No jardim deles não há chance para o mato. As plantas são metodicamente podadas nas épocas certas. Não há, curiosamente, frutos caídos no chão – então também não há moscas nem mosquitos se alimentando. Tudo enquadra-se perfeitamente: as árvores domadas pelas constantes podas, as trepadeiras em suas treliças, a grama aparada, as flores vicejantes. Há uma perfeita harmonia estudada, as cores, os tamanhos, as texturas.

Agora sim. A casa. Os materiais são muito bem escolhidos. A tinta nunca descasca nem observa-se nenhum ponto de bolor – apesar da umidade absurda da cidade. Os móveis foram projetados para aqueles espaços – amplos, arejados, bem iluminados. Todo os detalhes são pensados. Você entra pelo jardim e uma luz com sensor de movimento ilumina magicamente o seu caminho até a porta de entrada, que é enorme, pesada (talvez convidativa, talvez meramente intimidadora). Nos bairros onde eles habitam as casas são todas iguais, mudam os projetos, os modismos, mas de cara você percebe: ali vive um deles. Ou vários, pois se reproduzem (em pequena escala, é claro).

A casa nunca deve ter visto um pé sujo adentrá-la. O que me deixa encucada é que nem os tapetes das portas possuem um barro, uma areia qualquer que tentou vir da rua para o aconchego daquele lar. Os vidros! Ah, os vidros são docemente límpidos… perco uns minutos pensando nisso, pois limpar vidros é um trabalho ingrato. E nas casas deles estão sempre translúcidos sem uma dedada de algum desavisado. As calçadas brilham seus porcelanatos. Os sofás não têm manchas de suco nem casquinhas de pipoca. Os tapetes não acumulam pêlos de animais domésticos. As camas nunca são vistas desarrumadas, nem um amassadinho no lençol vocês encontrarão. Garanto.

Podem perder o pudor, revirem comigo as bolsas e agendas e cadernos dos moradores dessas casas. Não há um papelzinho solto, não encontram-se fios de cabelo dentro da bolsa, nem, vejam vocês, há uma única palavra (daquelas que saem sem querer quando escrevemos à caneta) rabiscadas nos cadernos. Na prateleira de livros você não encontra uma única orelha de burro. Se ficarem apurados, corram ao banheiro, aí sim vocês verão o que é brilhar. Se vocês forem como eu, sentirão um tipo de intimidação e não terão coragem de usá-lo. Tudo ali não só brilha: reluz. Os espelhos nos expõem com esses fios de cabelo aqui que teimam em não ser domesticados. Não há gotas de água na cuba da pia, no box perfilam-se shampoos e sabonetes num desenho milimétrico. Até o rolo de papel higiênico, vejam bem, está sempre novinho e com a pontinha devidamente dobrada.

Eles também são encontrados pelas ruas. É sempre fácil identificá-los, com seus pratos sem uma alface fora do lugar, nas mesas dos restaurantes. Suas roupas, ah! Saídas das vitrines, nunca viram uma prega. Nem uma gotícula de vinho entre os peitos de um vestidinho branco de noitada vocês encontrarão. Ah, eles cheiram bem. Sempre. Não suam, aparentemente. Um caso muito curioso, no calor dos infernos que faz nesta terra. Nem aquele suorzinho filho da mãe que teima em aparecer entre o lábio e o nariz, sabe?, ali no bigode. Acredito até que nem tropeçam, mesmo nessas calçadas abandonadas que temos.

São eles. Não se encontram em todos os lugares da cidade, como se sabe. Eles têm seu habitat, seus iguais, e só se relacionam entre si. São aves rarae que gostamos de observar – ou aos quais não damos a menor atenção, pois tão longe de nós, das nossas realidades. Não tocamos neles, por certo, que até cadeia pode dar. O brilho deles nos ofusca. Há uma engrenagem que existe por e para eles. E escurecem a cidade.

Ontem na praia…

O mar é tipo gente, tem seus bons e maus dias. Alguém, ou eu mesma, já deve ter dito isso. Tem dia que ele está lá, de boa, tranquilão. Porque até os mais estressados e ranzinzas têm seus dias de paz, não é? Aí tem dias que até a mais bela enseada se atira contra a orla em desespero e ímpetos de raiva. Às vezes foi uma noite mal dormida na companhia de uma tempestade. Eu não sei direito porque a tempestade e o mar não se dão, é toda vez que se encontram um tal de discutirem que, olha, não é pouca coisa. Talvez algum desentendimento do passado, daqueles que voltam sempre à tona das amarguras quando se encontram. Eu bem que queria saber.

Ontem foi assim. Cheguei na areia da praia cheia de maus pensamentos, querendo sangue. E me deparei com o mar a expulsar qualquer engraçadinho que quisesse nele adentrar. Não estava pra peixe, nem pra água-viva, nem pra alga, nem pra gente nem nada. Parecia mesmo querer ficar sozinho. Queria desvencilhar-se de tudo o que se aproximava. Eu é que não dei bobeira, fiquei quietinha, acalmando o instinto destruidor sentada na areia. A gente baixa a bola quando se depara com alguém em situação pior, né? O mar não me quis. O mar debulhava-se num intenso vento leste a proclamar suas revoltas. Não estávamos, então, num bom dia.

Mas como ficar mal diante dele? Como deixar que velhos costumes e inseguranças traiam os bons momentos da vida, ali a olhá-lo tão próximo? Impossível. A raiva dele escoou meu mau momento, levou-o embora consigo em ondas enormes. Despedaçou minhas bobagens de guria impulsiva como fez com as tábuas de alguma embarcação que ele atirou contra a praia. A areia povoava-se de restos de naufrágios, de todos nós que éramos repelidos por ele. Definitivamente ele não queria nossa companhia.

É sempre difícil deixá-lo – confesso. É difícil dizer-lhe um até amanhã – seja ou não o amanhã uma certeza. É ele que preenche meu coração. É nele que eu desejo pousar meus olhos. E, talvez, seus dias imprevisíveis seja o que mais me atrai a essa imensidão. É preciso atentar para as marés, para os ventos, para as fases da lua e tudo o mais. Mas é imprescindível estreitar a atenção e decifrar-lhe as vontades, seus amores e suas raivas. E continuarei a voltar todos os dias que puder, para enamorar-me deste mistério…

Os barcos quando vêm dar à praia

Eles vêm carregados de peixes quase mortos, no fim da tarde, antes do sol desaparecer detrás dos morros. Os peixes tão próximos d’água e aos últimos suspiros arregalam os olhos – de peixe morto. Os barcos tão pesados não afundam. Como nós, ao entrar na água tão pesados de problemas e decepções, não afundamos – boiamos leves e nem nosso peso nos atrapalha. Os barcos chegam à praia entre as pedras e a pequena ilha com seus semblantes coloridos. É o peixe do almoço do dia seguinte. É o camarão para o pastel do começo da noite. É o que nos une na caminhada à beira-mar. Os barcos chegam anunciando que o dia foi bom e já podemos sair da água quente e transparente do mar para saciar a fome que nos chama.

A praia cheia talvez ignore os cortadores de ondas a cruzar o horizonte em busca de suas casas. Essa gente de longe do litoral talvez só pense em furar ondas, tirar suas fotografias eternas de momentos efêmeros, pegar um bronzeado que não durará um ano inteiro. Não se preocupam com a poesia dos barcos chegando carregados de peixe – se o fazem todos os dias, há poesia?, sim, pois há dias em que voltam vazios… Não se preocupam com as trêmulas bandeirolas vermelhas e azuis que singram o céu azul de uma limpidez adorável. Só saberiam reclamar caso chovesse.

Poucos pares de olhos acompanham os naturais frequentadores das praias. Poucos se detêm na luz amarelada a extinguir sombras sobre os cascos de madeira. Quase ninguém procura os rostos de traços salgados a expressar alegria por uma boa pescaria – ou o pesar de um dia perdido. Diriam que dia nenhum é perdido no mar… dias em terra a suar e sangrar a vida é que são perdidos.

Os barcos quando vêm dar à praia enchem meu coração de cores, sol e prazer. Eles vão com a certeza fiel de voltar. E meus olhos transbordam de alegria ao vê-los dar à praia carregados de vislumbres de Deus. Estar no mar é aproximar-se um tanto Dele. Colocar os pés de volta na areia mole é afastar-se do Criador e resignar-se aos apelos mundanos. Contamos, eu nos dedos e os pescadores em ondas, em quantas horas estaremos de volta.

Eu ouvia

Na avenida principal da cidade eu ouvi o silêncio. Meus all stars faziam poc poc na calçada à beira da baía e ninguém diria que era sexta-feira, fim de expediente, fim de ano, o mundo naquela correria. Eu ouvia um som novo sem saber de onde vinha. E o vento eu via a chacoalhar as palmeiras contra o céu cinza chumbo. Descortinou-se um navio a sair do porto, enorme e imponente, causa daquele som que eu não via. O navio apitava sua saída. Era ele que ia a enfrentar sólido os mares escuros onde, quem sabe, eu desejaria viver.

Eu ouvia o tilintar dos mastros na marina. O mesmo vento levemente os sacudia e as águas da baía fremiam com ânsias de partidas. A música me atraía a roubar um veleiro e sair pela vida a sorver a brisa marinha. Que barco nem veleiro nem navio foram feitos para estancar vontades numa âncora ou nas cordas presas às terras de continentes e ilhas – tem gente que é como eles, só vive, de verdade, a navegar-se na água.

O mar trazia impropérios à praia num começo de noite que tudo alcançava em largas medidas. Eram reclamações de longas décadas, avisos de outros séculos. E aquele canto pacífico de onde se via o farol num campo de batalha sangrenta se transformou. Os mortos e feridos das histórias chegaram aos montes. As cicatrizes de um universo de exploração e descobertas que jamais seriam esquecidas. As ondas se debatiam entre pedras e areia e a chuva arranhava o teto do carro. Os gritos dos não esquecidos não nos deixavam em paz. Eu ouvia, em cada tremular das bandeiras vermelhas, tudo o que eu não sabia de vidas que desconhecia. Mas naquele mar ali eu há alguns dias entrara em água gelada e cristalina – e nem desconfiara dos seus horrores em maus dias. Nos expulsaram a nós que ali queríamos ficar abraçados – água vinha por todos os lados e até de cima. Eu quase não ouvia a tua voz a me chamar embora dali onde não éramos bem-vindos.

O bebê do vizinho a rastejar seu brinquedo novo quebrado pelo chão do apartamento eu ouvia enquanto sorria – e o silêncio no meu rosto se fazia. O sono é o mais leve dos silêncios e o mais tumultuado dos barulhos. Na certa não sonharia contigo. E a chuva caía… era madrugada nos braços de alguém. As rodas dos carros passavam na rua a respingar caminhos sem volta. Eu ouvia teu roncar alto mas nem de leve jamais ouvi teus pensamentos em nenhum dia.

Amanhecia e as casas todas reviviam. Eu não ouvia.

A algazarra no molhe se fazia. E lá vinha a sossegar das águas marinhas um enorme e velho navio que nem barulho emitia de tão cansado, pensava eu, se sentia. O casco enferrujado me lembrava aventuras que eu nem conseguiria imaginar em recantos do mundo onde eu gostaria de estar. As pessoas eu ouvia a comentar da beleza que sentíamos ao ver o gigante se aproximar. O silêncio do farol todos ouviam. Naquele braço do homem forçado mar adentro sobre enormes pedras e muita terra – que homem é bicho de fincar os pés na terra a sentir-se mais homem – estávamos, finalmente, nós. E as ondas incansáveis com o ardor da longa madrugada a chicotear as orlas persistia a se fazer ouvir. Eu ouvia o estrondo delas contra o paredão de pedras e concreto do final do molhe. Elas ecoavam lamentosas entre os vãos. Diziam que queriam tirar-nos a todos dali? Ou queixavam-se da solidão… os poetas todos alardeiam a sua imensidão e nem os olhos poeteiros vêem o quão o mar é solitário. Um solitário a gemer de tristeza contra as areias das nossas praias, dia após dia.

Eu ouvia. Teus chamados de saudade à beira-mar. Eu ouvia. Tuas vontades à distância percorrendo poucos morros e algumas encostas. Eu ouvia nossa volta para a casa e aquela chuvinha persistente que me perseguiu quando segui ao teu encontro. Naqueles dias eu ouvi – que ouvir é estar três degraus acima do sentir e a um precipício do ver.

Trovoadas

As trovoadas anunciavam o fim: aquele calorão nos deixaria em paz. O vento descobriu as pernas, arrastou as lonas, os comerciantes recolhiam jornais e melancias. Naquele momento era possível dividir a humanidade entre os felizes, que corriam em busca dos primeiros pingos da chuva, e os infelizes, que maldiziam, xingavam e pareciam gremlins ao toque de qualquer pinguinho desavisado. Num dia de calor recorde é que você conhece de verdade as pessoas.

Algumas tremerão de desejos. Outras, dignamente ensopadas, perderão a dignidade vocabular e não haverá sabão o suficiente para tão bocas sujas. Algumas te convidarão para um caldo de cana, um sorvete (nada mais sensual que sorvete), ou para suar junto. Outras irão ao shopping, até a casa da tia rica que é toda climatizada e, claro, tem piscina. Sim, eu disse piscina. Pense na água fresca, sem algas nem ondas, paradinha te esperando para uma foto de fazer inveja aos que estão de terno e gravata dignos dos ossos do ofício pelas ruas escaldantes. Algumas te esperarão em casa, nuas em pêlo (ou sem eles). Outras, com um mau humor do (censurado, mas é aquele palavrão que vocês conhecem), dirão sem pestanejar “nem encosta”. Assim, a humanidade pode ser dividida entre os que amam – e os que não, mas talvez finjam de vez em quando. Não é possível só amar no frio, queridos. (como se tirar a roupa no frio fosse de boa, né)

As trovoadas trariam o fim: uma chuva exigente e indelicada, um vento passageiro e arrebatador. As temperaturas cairiam uns dez graus. Nada voltaria a ser como antes, pois ainda o corpo suado, os quartos abafados, as janelas a trancafiar o calor dentro de casa senão os pisos ficariam encharcados. Cachorros encharcados a balançar o rabo de felicidade, eu e você a chegar em casa, pingando a transparência das roupas, a sorrir. Os computadores, televisores e ferros de passar devidamente desligados das tomadas e os banheiros fechados (essa história do espelho nunca foi confirmada, melhor não arriscar). A terra falsamente molhada. As velas acesas para Santa Bárbara.

A chuva de Verão lava a alma dos corpos cansados. Que o calor cansa, por certo. Ela passa de raspão nos dias mais quentes só para constar: ela pensa em nós. Pensa em nós satirizando nossos sofrimentos e desistências. Não fui até a farmácia hoje, só de pensar em andar três quadras num asfalto inclemente de mais de sessenta e cinco graus eu preferi tomar sorvete para aliviar a dor de cabeça. Para quem olhava pela janela a imaginar uma rede pendurada debaixo das árvores do quintal: ainda dá tempo de correr colocar as cordas (não há lugar melhor do que uma rede para apreciar os temporais de Verão, vão por mim). É o intervalo, é o nosso recreio, aproveita e tira o lanche da bolsa, contempla como ela é passageira. Antes do suor do teu peito secar, ela terá se mandado. E a certeza de amanhã será mais sol e calor – ela, porém, é voluntariosa, pode nos deixar esperando um encontro nunca marcado.

As trovoadas diriam o meu sim: quero o caldo de cana e o sorvete, o banho de chuva, o corpo encharcado de suor a gotejar essa água gelada da chuva, os pés escorregando do chinelo, os olhos buscando um arco-íris, o testemunho das janelas fechadas às pressas, o escândalo do mar a acinzentar-se espelhando as nuvens. Viriam os raios brutais e instantâneos (talvez eu persistisse em fotografá-los). Quero estar na rede da varanda a afagar teus ombros enquanto a chuva de verão segue seu rumo a estabanar outros recantos do nosso litoral. Quero todos os temporais.

Desígnios dos deuses

Tem aquele dia que começa com um sol e céu azul e no começo da tarde as nuvens chegam, as trovoadas anunciam e cai um temporal – o dia, assim, vira noite. Ou, você liga pra marcar o salão de beleza, afinal vai começar o Verão e você quer um cabelo lindo, e em seguida descobre que a tua única amiga pode estar com um tumor – no cérebro. E as pessoas hão de questionar “nossa, tá assim nervosa por quê?”. E cada balela de discussão em família te parece insuportável. E Verão ou Primavera ou o que quer que seja não fazem muito sentido.

O que, afinal, faz sentido? Nada. Nada faz. Qualquer um que pare míseros minutos para atentar para a razão e explicação das coisas sensatamente meteria uma bala na cabeça. Ironia, claro. Que o cheiro da desgraça te faça agir desgraçadamente. Não seria a vida, afinal, uma péssima ironia muito bem planejada? Não sei quê filosofias ou religiões dão sentidos à vida. Somos todos abestalhados a procurar o que nos engana melhor.

É a comida que há dias não lhe cai bem. É o chocolate que te deixa um gosto ruim na boca. É o pé inquieto. É você rezar pra Nossa Senhora de Lourdes por sossego e paz, por minutos de silêncio, porque até o barulho da (interminável) chuva te deixa os nervos estalando. Vão dizer que foi o ano, este ano maldito, como foram tantos outros e até escreveram artigos comprovando que dizemos isso de todos os anos. Danem-se os anos. É o ínfimo detalhe de um trabalho que te faz querer jogar tudo – tudo – para o alto.

Não tem explicação. A vida, nem você, nem eu, nem nada nem ninguém. Não tem. E viver consciente disso? Dá? Dá não. É o descompasso da vida que nos alcança a todos em algum (mais de um?) momento. Eu recomendaria portas e janelas fechadas, silêncio, talvez até alguma boba distração – ou, melhor não. Você não encontra o momento e o meio que te fizeram se enganar até agora. Por umas horas as doses de anestesia não farão efeito e é preciso encobrir o estrago, viver a dor, engolir o choro. Nos outros dias você vai agir normalmente, ficará feliz porque o Natal se aproxima, fingirá alegrias, vai até sorrir com aquela história de ver a flor se abrir.

Mas no fundo – mais ou menos fundo – a certeza da falta total e absoluta de certezas você sempre carregará. Pode, é claro, como a maioria das pessoas, não meter uma bala na cabeça. Pode querer vê-la turva no fundo de algumas garrafas vazias. (sempre considero uma baita saída – mera opinião pessoal) Pode recorrer a outras drogas – há tantas. Pode, até, querer escrever (não recomendo). Pode, quem sabe, assistir à novela, rezar e dizer a si mesmo, todas as noites, “nada faz sentido” antes de dormir. É uma convicção. Na falta de certezas que nos amparem, agarremo-nos às convicções (sempre fui simpática a elas).

Dizem que depois da tempestade vem a bonança – mas, quer coisa pior que ditados populares para encobrir dolorosas verdades? Por vezes, não há desgraça maior do que viver. Manter-se de pé. Ter fé. Há quem faça drama, há os que chutam as portas. E há todo um mundo que não te deixará em paz – a começar pelos teus pensamentos. E talvez te bata à porta um grupo desses de alguma igreja a querer te convencer dos desígnios dos deuses e, bem, a última fronteira parecerá conseguir responder com educação. Tente.

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