O que trago do mar

Venho da praia para dizer que o mar continua sedutor. Os morros persistem bravamente no verde e as piavinhas brincam na beira d’água como se fundo fosse. As crianças, ah!, as crianças não vêem tempo ruim: é sol, é chuva, é nublado ou areia queimando lá estão supimpamente felizes a tomar banhos de mar emboladas em areia até os pescocinhos. E assim os dias de Verão vão passando, agora tristemente sem o horário de verão que tanto amamos ao prolongar o dia noite adentro – e que vocês, nobres egoístas, tanto o desprezam. Deixem-nos com nosso sol a passos largos pelo dia. É assim que somos mais felizes (ainda).

Venho para dizer que talvez ainda possamos mudar o mundo. E que as coisas boas podem, sim, suplantar as ruins vários dias por semana – exceto às quintas. No mais, talvez ainda possamos ser pessoas melhores – e nem estou falando de não jogar lixo nos rios, construir casas em áreas de preservação, reclamar do barulho do vizinho. Pessoas melhores que têm bons pensamentos, que sonham mais – por favor, sonhem mais -, que não sintam o peso de sorrir quando o mundo lhe desaba sobre as cabeças. Tentemos. Era o que o céu azul trovejado de nuvens hoje me dizia, garanto-lhes: sejam melhores.

Venho da praia para contar que poucas coisas valem a pena na vida. Nós é que perdemos tempo demais com o supérfluo. Eu sei que você sabe. É tão extra deslizar o dedo infinitas vezes num único dia sobre uma tela que não nos esquenta o coração. É tão vazio discutir notícias de nomeações e acidentes de carro. É sempre desnecessário falar do ausente. O pouco é aquele beijo no filho que você não deu logo cedo, aquele “obrigado” que você não disse quando mais precisou, o suspiro de prazer que você estrangulou e, até mesmo, o “adeus” tão desejado e nunca proferido. É pouco e sendo tão pouco se perde na imensidão do muito e do demais que não nos valem de nada. Foi lá na praia que senti. E precisava dizer: vamos ficar com esse pouco.

Venho com o corpo morno de um calor absurdo afogado em água cristalina e fria para contar que sempre pensei que o mundo fosse um bocadinho assim esperançoso. E que por mais que não saibamos explicar essas dores infinitas que estrangulam os bons corações, em algum recanto florido guardamos a esperança de seguir. É assim que os pés cheios de areia sobem a rua, com a certeza de caminhar. Um pé na frente do outro, o equilíbrio, e tudo assim tão simples, mas que, por vezes, nos escapa da alçada da alma. É preciso chamar a força de vontade à razão: devemos seguir. Se tiver alguém a quem dar a mão, melhor. Senão, siga mais devagar.

Vim da praia para ter a certeza de que o mundo me esperava com menos ódio do que da última vez. Reparei bem por onde passava, nos olhares fortuitos, nas câmeras de segurança que ousam ver-me todos os dias a ir e vir de biquíni rente aos muros, nas novas portas abertas, nos carros que nem param nas faixas de pedestres. Reparei que todos estavam com mais sono. Ou uma espécie de sono… robotizaram os olhares e gestos, acionaram a engrenagem, apitaram lá longe na fábrica. Passamos protetor solar para garantir que essa pele não derreta e mostre nossas latas enferrujadas. E quem sabe saiamos a conquistar corações com as marcas de sol de um Verão que deixou (desde sempre) saudade antes da hora.

Vim querendo trazer boas notícias. Por lá tudo se mantém um espetáculo sem decepções. Por lá o coração enternece os mais de trezentos dias passados longe dele. O mar nos dá uma sobrevida de muitas Estações. Ele alivia as dores da alma e engole as dores do corpo: nos deixa saciados e lânguidos que mal passamos do portão de casa já caímos na rede da varanda e por lá ficamos. Mas encontro cá os muros, os corações gelados, as almas mesquinhas e as mãos silenciosas. Duvido que resistissem a um banho de mar. Duvido que consigam embaçar este meu olhar que perdeu-se no ondular violento das ondas a embranquecerem as pedras numa madrugada de areias vazias e céu estrelado. Duvido. Ouçam o que digo, venho da praia para lhes trazer aconchego… e convidá-los a olhar, novamente, o mar.

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Precisamos falar sobre eles

É sobre eles que eu quero falar. Vamos começar pelo cabelo. Você nunca os viu com os cabelos desgrenhados, nenhum fio fora do lugar, eu garanto. Eles jamais aparecem com os cabelos despenteados, acredito até que dormem e acordam assim. É sobre eles. E eles são muitos. Bem perto encontramos seus carros – que eles sempre têm, e, em muitos casos, mais de um. Os carros não têm nenhum arranhão, não se vê grãos de areia pelo chão atapetado, nem um mísero pó no painel. Parece até que nunca viram uma estrada de chão, nem uma chuva, brilham a cera que parece ser passada meticulosamente todos os dias. O carro brilha. Assim como o cabelo. Tudo neles brilha.

Eles costumam viver nos mesmos bairros, são aglomerados de pessoas do mesmo tipo – ou seria da mesma casta? Vejam as casas. Não, vejam antes os jardins. Se quiserem confirmar o que eu digo, peguem uma lupa e procurem um pezinho de mato. Procurem bem. Não encontrarão. Nem percam tempo, eu já vasculhei tudo. Há tempos que essas pessoas me interessam. Há tempos que os observo de longe. No jardim deles não há chance para o mato. As plantas são metodicamente podadas nas épocas certas. Não há, curiosamente, frutos caídos no chão – então também não há moscas nem mosquitos se alimentando. Tudo enquadra-se perfeitamente: as árvores domadas pelas constantes podas, as trepadeiras em suas treliças, a grama aparada, as flores vicejantes. Há uma perfeita harmonia estudada, as cores, os tamanhos, as texturas.

Agora sim. A casa. Os materiais são muito bem escolhidos. A tinta nunca descasca nem observa-se nenhum ponto de bolor – apesar da umidade absurda da cidade. Os móveis foram projetados para aqueles espaços – amplos, arejados, bem iluminados. Todo os detalhes são pensados. Você entra pelo jardim e uma luz com sensor de movimento ilumina magicamente o seu caminho até a porta de entrada, que é enorme, pesada (talvez convidativa, talvez meramente intimidadora). Nos bairros onde eles habitam as casas são todas iguais, mudam os projetos, os modismos, mas de cara você percebe: ali vive um deles. Ou vários, pois se reproduzem (em pequena escala, é claro).

A casa nunca deve ter visto um pé sujo adentrá-la. O que me deixa encucada é que nem os tapetes das portas possuem um barro, uma areia qualquer que tentou vir da rua para o aconchego daquele lar. Os vidros! Ah, os vidros são docemente límpidos… perco uns minutos pensando nisso, pois limpar vidros é um trabalho ingrato. E nas casas deles estão sempre translúcidos sem uma dedada de algum desavisado. As calçadas brilham seus porcelanatos. Os sofás não têm manchas de suco nem casquinhas de pipoca. Os tapetes não acumulam pêlos de animais domésticos. As camas nunca são vistas desarrumadas, nem um amassadinho no lençol vocês encontrarão. Garanto.

Podem perder o pudor, revirem comigo as bolsas e agendas e cadernos dos moradores dessas casas. Não há um papelzinho solto, não encontram-se fios de cabelo dentro da bolsa, nem, vejam vocês, há uma única palavra (daquelas que saem sem querer quando escrevemos à caneta) rabiscadas nos cadernos. Na prateleira de livros você não encontra uma única orelha de burro. Se ficarem apurados, corram ao banheiro, aí sim vocês verão o que é brilhar. Se vocês forem como eu, sentirão um tipo de intimidação e não terão coragem de usá-lo. Tudo ali não só brilha: reluz. Os espelhos nos expõem com esses fios de cabelo aqui que teimam em não ser domesticados. Não há gotas de água na cuba da pia, no box perfilam-se shampoos e sabonetes num desenho milimétrico. Até o rolo de papel higiênico, vejam bem, está sempre novinho e com a pontinha devidamente dobrada.

Eles também são encontrados pelas ruas. É sempre fácil identificá-los, com seus pratos sem uma alface fora do lugar, nas mesas dos restaurantes. Suas roupas, ah! Saídas das vitrines, nunca viram uma prega. Nem uma gotícula de vinho entre os peitos de um vestidinho branco de noitada vocês encontrarão. Ah, eles cheiram bem. Sempre. Não suam, aparentemente. Um caso muito curioso, no calor dos infernos que faz nesta terra. Nem aquele suorzinho filho da mãe que teima em aparecer entre o lábio e o nariz, sabe?, ali no bigode. Acredito até que nem tropeçam, mesmo nessas calçadas abandonadas que temos.

São eles. Não se encontram em todos os lugares da cidade, como se sabe. Eles têm seu habitat, seus iguais, e só se relacionam entre si. São aves rarae que gostamos de observar – ou aos quais não damos a menor atenção, pois tão longe de nós, das nossas realidades. Não tocamos neles, por certo, que até cadeia pode dar. O brilho deles nos ofusca. Há uma engrenagem que existe por e para eles. E escurecem a cidade.

Ontem na praia…

O mar é tipo gente, tem seus bons e maus dias. Alguém, ou eu mesma, já deve ter dito isso. Tem dia que ele está lá, de boa, tranquilão. Porque até os mais estressados e ranzinzas têm seus dias de paz, não é? Aí tem dias que até a mais bela enseada se atira contra a orla em desespero e ímpetos de raiva. Às vezes foi uma noite mal dormida na companhia de uma tempestade. Eu não sei direito porque a tempestade e o mar não se dão, é toda vez que se encontram um tal de discutirem que, olha, não é pouca coisa. Talvez algum desentendimento do passado, daqueles que voltam sempre à tona das amarguras quando se encontram. Eu bem que queria saber.

Ontem foi assim. Cheguei na areia da praia cheia de maus pensamentos, querendo sangue. E me deparei com o mar a expulsar qualquer engraçadinho que quisesse nele adentrar. Não estava pra peixe, nem pra água-viva, nem pra alga, nem pra gente nem nada. Parecia mesmo querer ficar sozinho. Queria desvencilhar-se de tudo o que se aproximava. Eu é que não dei bobeira, fiquei quietinha, acalmando o instinto destruidor sentada na areia. A gente baixa a bola quando se depara com alguém em situação pior, né? O mar não me quis. O mar debulhava-se num intenso vento leste a proclamar suas revoltas. Não estávamos, então, num bom dia.

Mas como ficar mal diante dele? Como deixar que velhos costumes e inseguranças traiam os bons momentos da vida, ali a olhá-lo tão próximo? Impossível. A raiva dele escoou meu mau momento, levou-o embora consigo em ondas enormes. Despedaçou minhas bobagens de guria impulsiva como fez com as tábuas de alguma embarcação que ele atirou contra a praia. A areia povoava-se de restos de naufrágios, de todos nós que éramos repelidos por ele. Definitivamente ele não queria nossa companhia.

É sempre difícil deixá-lo – confesso. É difícil dizer-lhe um até amanhã – seja ou não o amanhã uma certeza. É ele que preenche meu coração. É nele que eu desejo pousar meus olhos. E, talvez, seus dias imprevisíveis seja o que mais me atrai a essa imensidão. É preciso atentar para as marés, para os ventos, para as fases da lua e tudo o mais. Mas é imprescindível estreitar a atenção e decifrar-lhe as vontades, seus amores e suas raivas. E continuarei a voltar todos os dias que puder, para enamorar-me deste mistério…

Os barcos quando vêm dar à praia

Eles vêm carregados de peixes quase mortos, no fim da tarde, antes do sol desaparecer detrás dos morros. Os peixes tão próximos d’água e aos últimos suspiros arregalam os olhos – de peixe morto. Os barcos tão pesados não afundam. Como nós, ao entrar na água tão pesados de problemas e decepções, não afundamos – boiamos leves e nem nosso peso nos atrapalha. Os barcos chegam à praia entre as pedras e a pequena ilha com seus semblantes coloridos. É o peixe do almoço do dia seguinte. É o camarão para o pastel do começo da noite. É o que nos une na caminhada à beira-mar. Os barcos chegam anunciando que o dia foi bom e já podemos sair da água quente e transparente do mar para saciar a fome que nos chama.

A praia cheia talvez ignore os cortadores de ondas a cruzar o horizonte em busca de suas casas. Essa gente de longe do litoral talvez só pense em furar ondas, tirar suas fotografias eternas de momentos efêmeros, pegar um bronzeado que não durará um ano inteiro. Não se preocupam com a poesia dos barcos chegando carregados de peixe – se o fazem todos os dias, há poesia?, sim, pois há dias em que voltam vazios… Não se preocupam com as trêmulas bandeirolas vermelhas e azuis que singram o céu azul de uma limpidez adorável. Só saberiam reclamar caso chovesse.

Poucos pares de olhos acompanham os naturais frequentadores das praias. Poucos se detêm na luz amarelada a extinguir sombras sobre os cascos de madeira. Quase ninguém procura os rostos de traços salgados a expressar alegria por uma boa pescaria – ou o pesar de um dia perdido. Diriam que dia nenhum é perdido no mar… dias em terra a suar e sangrar a vida é que são perdidos.

Os barcos quando vêm dar à praia enchem meu coração de cores, sol e prazer. Eles vão com a certeza fiel de voltar. E meus olhos transbordam de alegria ao vê-los dar à praia carregados de vislumbres de Deus. Estar no mar é aproximar-se um tanto Dele. Colocar os pés de volta na areia mole é afastar-se do Criador e resignar-se aos apelos mundanos. Contamos, eu nos dedos e os pescadores em ondas, em quantas horas estaremos de volta.

Eu ouvia

Na avenida principal da cidade eu ouvi o silêncio. Meus all stars faziam poc poc na calçada à beira da baía e ninguém diria que era sexta-feira, fim de expediente, fim de ano, o mundo naquela correria. Eu ouvia um som novo sem saber de onde vinha. E o vento eu via a chacoalhar as palmeiras contra o céu cinza chumbo. Descortinou-se um navio a sair do porto, enorme e imponente, causa daquele som que eu não via. O navio apitava sua saída. Era ele que ia a enfrentar sólido os mares escuros onde, quem sabe, eu desejaria viver.

Eu ouvia o tilintar dos mastros na marina. O mesmo vento levemente os sacudia e as águas da baía fremiam com ânsias de partidas. A música me atraía a roubar um veleiro e sair pela vida a sorver a brisa marinha. Que barco nem veleiro nem navio foram feitos para estancar vontades numa âncora ou nas cordas presas às terras de continentes e ilhas – tem gente que é como eles, só vive, de verdade, a navegar-se na água.

O mar trazia impropérios à praia num começo de noite que tudo alcançava em largas medidas. Eram reclamações de longas décadas, avisos de outros séculos. E aquele canto pacífico de onde se via o farol num campo de batalha sangrenta se transformou. Os mortos e feridos das histórias chegaram aos montes. As cicatrizes de um universo de exploração e descobertas que jamais seriam esquecidas. As ondas se debatiam entre pedras e areia e a chuva arranhava o teto do carro. Os gritos dos não esquecidos não nos deixavam em paz. Eu ouvia, em cada tremular das bandeiras vermelhas, tudo o que eu não sabia de vidas que desconhecia. Mas naquele mar ali eu há alguns dias entrara em água gelada e cristalina – e nem desconfiara dos seus horrores em maus dias. Nos expulsaram a nós que ali queríamos ficar abraçados – água vinha por todos os lados e até de cima. Eu quase não ouvia a tua voz a me chamar embora dali onde não éramos bem-vindos.

O bebê do vizinho a rastejar seu brinquedo novo quebrado pelo chão do apartamento eu ouvia enquanto sorria – e o silêncio no meu rosto se fazia. O sono é o mais leve dos silêncios e o mais tumultuado dos barulhos. Na certa não sonharia contigo. E a chuva caía… era madrugada nos braços de alguém. As rodas dos carros passavam na rua a respingar caminhos sem volta. Eu ouvia teu roncar alto mas nem de leve jamais ouvi teus pensamentos em nenhum dia.

Amanhecia e as casas todas reviviam. Eu não ouvia.

A algazarra no molhe se fazia. E lá vinha a sossegar das águas marinhas um enorme e velho navio que nem barulho emitia de tão cansado, pensava eu, se sentia. O casco enferrujado me lembrava aventuras que eu nem conseguiria imaginar em recantos do mundo onde eu gostaria de estar. As pessoas eu ouvia a comentar da beleza que sentíamos ao ver o gigante se aproximar. O silêncio do farol todos ouviam. Naquele braço do homem forçado mar adentro sobre enormes pedras e muita terra – que homem é bicho de fincar os pés na terra a sentir-se mais homem – estávamos, finalmente, nós. E as ondas incansáveis com o ardor da longa madrugada a chicotear as orlas persistia a se fazer ouvir. Eu ouvia o estrondo delas contra o paredão de pedras e concreto do final do molhe. Elas ecoavam lamentosas entre os vãos. Diziam que queriam tirar-nos a todos dali? Ou queixavam-se da solidão… os poetas todos alardeiam a sua imensidão e nem os olhos poeteiros vêem o quão o mar é solitário. Um solitário a gemer de tristeza contra as areias das nossas praias, dia após dia.

Eu ouvia. Teus chamados de saudade à beira-mar. Eu ouvia. Tuas vontades à distância percorrendo poucos morros e algumas encostas. Eu ouvia nossa volta para a casa e aquela chuvinha persistente que me perseguiu quando segui ao teu encontro. Naqueles dias eu ouvi – que ouvir é estar três degraus acima do sentir e a um precipício do ver.

Trovoadas

As trovoadas anunciavam o fim: aquele calorão nos deixaria em paz. O vento descobriu as pernas, arrastou as lonas, os comerciantes recolhiam jornais e melancias. Naquele momento era possível dividir a humanidade entre os felizes, que corriam em busca dos primeiros pingos da chuva, e os infelizes, que maldiziam, xingavam e pareciam gremlins ao toque de qualquer pinguinho desavisado. Num dia de calor recorde é que você conhece de verdade as pessoas.

Algumas tremerão de desejos. Outras, dignamente ensopadas, perderão a dignidade vocabular e não haverá sabão o suficiente para tão bocas sujas. Algumas te convidarão para um caldo de cana, um sorvete (nada mais sensual que sorvete), ou para suar junto. Outras irão ao shopping, até a casa da tia rica que é toda climatizada e, claro, tem piscina. Sim, eu disse piscina. Pense na água fresca, sem algas nem ondas, paradinha te esperando para uma foto de fazer inveja aos que estão de terno e gravata dignos dos ossos do ofício pelas ruas escaldantes. Algumas te esperarão em casa, nuas em pêlo (ou sem eles). Outras, com um mau humor do (censurado, mas é aquele palavrão que vocês conhecem), dirão sem pestanejar “nem encosta”. Assim, a humanidade pode ser dividida entre os que amam – e os que não, mas talvez finjam de vez em quando. Não é possível só amar no frio, queridos. (como se tirar a roupa no frio fosse de boa, né)

As trovoadas trariam o fim: uma chuva exigente e indelicada, um vento passageiro e arrebatador. As temperaturas cairiam uns dez graus. Nada voltaria a ser como antes, pois ainda o corpo suado, os quartos abafados, as janelas a trancafiar o calor dentro de casa senão os pisos ficariam encharcados. Cachorros encharcados a balançar o rabo de felicidade, eu e você a chegar em casa, pingando a transparência das roupas, a sorrir. Os computadores, televisores e ferros de passar devidamente desligados das tomadas e os banheiros fechados (essa história do espelho nunca foi confirmada, melhor não arriscar). A terra falsamente molhada. As velas acesas para Santa Bárbara.

A chuva de Verão lava a alma dos corpos cansados. Que o calor cansa, por certo. Ela passa de raspão nos dias mais quentes só para constar: ela pensa em nós. Pensa em nós satirizando nossos sofrimentos e desistências. Não fui até a farmácia hoje, só de pensar em andar três quadras num asfalto inclemente de mais de sessenta e cinco graus eu preferi tomar sorvete para aliviar a dor de cabeça. Para quem olhava pela janela a imaginar uma rede pendurada debaixo das árvores do quintal: ainda dá tempo de correr colocar as cordas (não há lugar melhor do que uma rede para apreciar os temporais de Verão, vão por mim). É o intervalo, é o nosso recreio, aproveita e tira o lanche da bolsa, contempla como ela é passageira. Antes do suor do teu peito secar, ela terá se mandado. E a certeza de amanhã será mais sol e calor – ela, porém, é voluntariosa, pode nos deixar esperando um encontro nunca marcado.

As trovoadas diriam o meu sim: quero o caldo de cana e o sorvete, o banho de chuva, o corpo encharcado de suor a gotejar essa água gelada da chuva, os pés escorregando do chinelo, os olhos buscando um arco-íris, o testemunho das janelas fechadas às pressas, o escândalo do mar a acinzentar-se espelhando as nuvens. Viriam os raios brutais e instantâneos (talvez eu persistisse em fotografá-los). Quero estar na rede da varanda a afagar teus ombros enquanto a chuva de verão segue seu rumo a estabanar outros recantos do nosso litoral. Quero todos os temporais.

Desígnios dos deuses

Tem aquele dia que começa com um sol e céu azul e no começo da tarde as nuvens chegam, as trovoadas anunciam e cai um temporal – o dia, assim, vira noite. Ou, você liga pra marcar o salão de beleza, afinal vai começar o Verão e você quer um cabelo lindo, e em seguida descobre que a tua única amiga pode estar com um tumor – no cérebro. E as pessoas hão de questionar “nossa, tá assim nervosa por quê?”. E cada balela de discussão em família te parece insuportável. E Verão ou Primavera ou o que quer que seja não fazem muito sentido.

O que, afinal, faz sentido? Nada. Nada faz. Qualquer um que pare míseros minutos para atentar para a razão e explicação das coisas sensatamente meteria uma bala na cabeça. Ironia, claro. Que o cheiro da desgraça te faça agir desgraçadamente. Não seria a vida, afinal, uma péssima ironia muito bem planejada? Não sei quê filosofias ou religiões dão sentidos à vida. Somos todos abestalhados a procurar o que nos engana melhor.

É a comida que há dias não lhe cai bem. É o chocolate que te deixa um gosto ruim na boca. É o pé inquieto. É você rezar pra Nossa Senhora de Lourdes por sossego e paz, por minutos de silêncio, porque até o barulho da (interminável) chuva te deixa os nervos estalando. Vão dizer que foi o ano, este ano maldito, como foram tantos outros e até escreveram artigos comprovando que dizemos isso de todos os anos. Danem-se os anos. É o ínfimo detalhe de um trabalho que te faz querer jogar tudo – tudo – para o alto.

Não tem explicação. A vida, nem você, nem eu, nem nada nem ninguém. Não tem. E viver consciente disso? Dá? Dá não. É o descompasso da vida que nos alcança a todos em algum (mais de um?) momento. Eu recomendaria portas e janelas fechadas, silêncio, talvez até alguma boba distração – ou, melhor não. Você não encontra o momento e o meio que te fizeram se enganar até agora. Por umas horas as doses de anestesia não farão efeito e é preciso encobrir o estrago, viver a dor, engolir o choro. Nos outros dias você vai agir normalmente, ficará feliz porque o Natal se aproxima, fingirá alegrias, vai até sorrir com aquela história de ver a flor se abrir.

Mas no fundo – mais ou menos fundo – a certeza da falta total e absoluta de certezas você sempre carregará. Pode, é claro, como a maioria das pessoas, não meter uma bala na cabeça. Pode querer vê-la turva no fundo de algumas garrafas vazias. (sempre considero uma baita saída – mera opinião pessoal) Pode recorrer a outras drogas – há tantas. Pode, até, querer escrever (não recomendo). Pode, quem sabe, assistir à novela, rezar e dizer a si mesmo, todas as noites, “nada faz sentido” antes de dormir. É uma convicção. Na falta de certezas que nos amparem, agarremo-nos às convicções (sempre fui simpática a elas).

Dizem que depois da tempestade vem a bonança – mas, quer coisa pior que ditados populares para encobrir dolorosas verdades? Por vezes, não há desgraça maior do que viver. Manter-se de pé. Ter fé. Há quem faça drama, há os que chutam as portas. E há todo um mundo que não te deixará em paz – a começar pelos teus pensamentos. E talvez te bata à porta um grupo desses de alguma igreja a querer te convencer dos desígnios dos deuses e, bem, a última fronteira parecerá conseguir responder com educação. Tente.

Atravessar manguezais

Os morros são os muros da cidade. Parece repleta, ali confinada entre eles, de gente que caminha e pedala num feriado despretensioso – sem pretensão de nos fazer feliz, pois caiu no meio da semana. Há os que dormiram até tarde num almoço preguiçoso às duas da tarde. Há os que buscaram respirar um fio de brisa marinha. Há os que visitaram a família. Há, ainda, os que findaram a tarde na pista de corrida. E eu me dou conta que não conheço esta cidade. Conheço seu confinamento, muito já olhei para esses morros… e mesmo hoje vi outros, nos quais nunca havia, de fato, reparado.

Por onde eu andei tantos anos? Fiz-me tantas perguntas que preferi esquecer. Tenho esta vontade de olhar pela primeira vez, mesmo que para tudo aquilo que meus olhos já conhecem tão bem. É como ter decorado o corpo da pessoa que se ama, de tanto percorrê-la com as mãos e a boca, e sabê-la no escuro – e dia ou outro reencontrar-se com alguma novidade pelo meio do caminho. Olhos cansados deve ser algum tipo de morte. O ar da cidade é pesado, muito pesado. Por vezes pesa-me na alma – e como. Libertar-se desse peso não é possível nem com alguns tantos de pingos de chuva que caem nos lábios e ali ficam a esvair-se em ar em poucos segundos. A chuva, porém, é garantida. É sempre confiável, sempre bem-vinda, sempre certa.

Mas a chuva veio meio sem vontade. Veio sem arco-íris. Minha vida há tempo que não se permeia de arcos-íris. Talvez muitos dias nublados – eu quis falar deles semana passada, deixei pra lá. Há dias nublados que não precisam ser mencionados. E a cidade engolida por fábricas. Em frente a elas é mais fácil atravessar, há sinaleiros para pedestres, limites de velocidade, faixas de pedestre. O ar, contudo, é mais difícil de respirar – pelo cheiro fétido e pelo ranço do encarceramento em salas de produção. Facilitam que você chegue e saia delas. Mas se passares desatento, teu nariz acusará que este monumento ao trabalho e ao dinheiro é a base de todo o pensamento de uma cidade – tão grande e tão mesquinha na sua pequenez.

Os morros, sem saber, é claro, costumam dar um espetáculo a parte. Este sim, sempre reparei. Eles aprisionam as nuvens – como o amante que aprisiona teus pés indefesos nos pés dele. As mantêm reféns do mormaço de um sol que acusa não querer partir. Reparem nos tons das nuvens, nos formatos, na densidade – às vezes esfumaçadas, por vezes etéreas, quem sabe pesadas ou azuladas. E jazem entre os morros, abraçam-se, amarram-se – amordaçadas? Lembram os amantes na hora da despedida diante de um quê de violência e gotas de desespero. No tempo que eu não sei por onde eu andava, não via horizonte na cidade. Eu queria ver por sobre os morros. Queria ver através daquelas nuvens subjugadas. Eu queria era seguir a brisa que vinha do fim do rio que atravessa a cidade. Meus olhos eram outros?

Para chegar ali eu precisei cruzar os manguezais. Cenário sem bordados, sem enfeites dourados, mangue não fica bem nem nas melhores fotos. E desde outros tempos eu aprendi a gostar de cruzar manguezais. Depois que você se familiariza com a secura dos galhos, com a luz soturna, você entende que ali é o berço da vida, que há minúsculos corpinhos crescendo e se reproduzindo, que ali vão ter os que querem dar continuidade a si mesmos. Dos manguezais saímos mais fortes, regenerados. E podemos, então, enfrentar o mar ou a terra firme. Ou ambos, dependendo da coragem que nos resta. Porque é sempre imprescindível ter coragem extra na bagagem. Deixe-a ali pela bolsinha de zíper acessível sem precisar abrir as grandes ou pequenas malas: quanto mais à mão, melhor. Nunca se sabe quando ela será necessária.

Depois dos manguezais, tudo estará ao alcance dos olhos. É como apaixonar-se por quem você já conhecia, povoava teus dias, e num impulso entregar-se às evidências do que não querias ver. Ao atravessar manguezais, o olhar atento é curto, perscruta os tons marrons acinzentados para não errar o passo, para resguardar as pequeninas vidas – e, até, para saber por onde voltar, o verdadeiro desafio da região. É a grande lição do manguezal. No mar ou em terra firme, quem aprendeu com manguezal tira de letra a vastidão e vê o que olhos embaçados de sol ou embolorados de chuva jamais perceberiam. Pra quem sai do manguezal, um dia de sol é como estar sobre as nuvens de uma longa e duradoura noite de prazeres. A gente até se distrai, sente o corpo leve e o sorriso baila no rosto.

A cidade persistirá sem seus horizontes. Ou eu que não os vejo, dirão. Não vejo-os por entre a fumaça invisível das fábricas e o cinturão de morros – de onde deságuam rios saborosos aos domingos. Ignorarão, eu sei, o mangue que a circunda. Porque dos mangues ninguém quer falar. Os mangues são para poucos – e nem falo dos poucos que têm um caiaque para desbravá-los. Dali da pista de corrida, posso falar porque lá também já estive, não dá pra ver sequer os morros limítrofes da grande cidade – quiçá um solitário garapuvu florido na Primavera, mas certeza que nem ele é observado, os olhos que por ali rondeiam são inundados de sol. Quero descobrir, ainda – pois agora sou outra mas os olhos permanecem os mesmos -, qual a sensação de chegar aos pés desses morros ditadores. Terei a sensação de aproximar-me da liberdade? Ou eles desafiam as almas a atravessá-los jurando-as de morte? O que eu sei, apesar de não conhecer a cidade, é que há uma saída – e nem é pelo mar.

Banhando a alma

Desembarquei logo cedo. O ônibus ao lado vinha de Goiânia. Goiânia tomou conta da minha saudade. Hoje não mataria esta saudade. Hoje correria atrás do que eu já nem sabia mais se seguia o caminho certo. Em tempo, inesperadamente recebi apoio. Que a vida é essa coisa de pessoas cruzarem o nosso caminho, quando a gente menos espera, ou boas palavras virem de quem talvez pudesse simplesmente nos ignorar. E em conversas encontrei mais rumos. Eu gosto disso: encontrar rumos. Caminhos. Traçados para os dias que virão. Eu gosto muito disso. Enche a cabeça de idéias – apesar do sono. Ainda não é sábado. A vida é como a narrativa, depende do foco do narrador. Simples assim. Se você é narrador da própria vida, veja bem como faz isso. Um foco pode mudar tudo. O sono persistiu, o calor me alegra (sempre). Talvez cansaço – prefiro não pensar nisso. As idéias, minhas amigas, fermentam como um bom pão, ou bolo, sei lá, não é minha área. Abri mão de uma torta de trufas e fiquei naquela alegria incomunicável com a balança. As coisas, simplesmente, têm que mudar (de vez em quando). A bolsa pesava. Os problemas me encontravam pelo telefone. Equilibrava o corpo e a espinha cedia imperceptivelmente. As ruas atulhadas de prédios da cidade grande. Pessoas, pessoas, pessoas demais. Por todos os lados. Nem um banco vazio e solitário e silencioso naquela praça. Muitas lojas de calçados. Já repararam? As cidades têm muitas lojas de sapatos. E eu querendo tirar essas sandálias e caminhar descalça pelos teus mais recônditos segredos. Mais uma loja de calçados. Pra que tantos se o melhor é andar sem nada nos pés, só assim para sentir a vida. Foi o vento. Foi, sim. Brincou com a saia, trançou o cabelo. Um vento furioso de todos os lados. Ainda não é sábado. Entre prédios a escuridão se fez. Vinha do Oeste. Uma tempestade, certeza. As pessoas (demais demais demais) apressaram o passo. Correram para aquele terminal de ônibus, de novo eu ali, de novo sem querer na rua errada. Quase atropelada por um ambulante. Escapo de muitos quases todos os dias da minha vida. As pessoas corriam do temporal. Eu só corro se for ao encontro do teu vento. Diminuí o passo, assim indolente. Tinha pressa não. O vento mais forte. Os primeiros pingos exigentes chegaram antes do previsto. Segui meu destino. Ribombou e despencou: o céu. Eu que sentia todo o peso do mundo (e da bolsa) nas costas, senti a água da chuva desnosar todo meu corpo… escorria a água a saciar meus desânimos e complicações e falta (já) de esperança. É possível que exista alguém que nunca tomou um banho de chuva? É. Sempre é. O temporal a passos largos e eu miudinho a acompanhá-lo. Molhou-me a saia de vez, encharcou a blusa, acariciou a alma. E, digo mesmo, ela precisava tanto deste gesto. Amansou as dúvidas, refrescou o ardor da pele, afogou os anseios. Ainda não é sábado. As pessoas (muitas muitas muitas) a correr, um velhinho mesmo parou e me olhou atarantado: eu não correria? E eu lá corro das soluções que a vida me dá? Eu é que não. Eu paro e aprecio. E agradeço. Pingando a roupa, cabelo desgrenhado, devia estar um trapo. Mas a alma ia bem, obrigada. Ainda tirei tempo para conversar com a senhora da limpeza. A violência contra as mulheres, sabe? “Como não tem lei pra impedir esses homens de fazerem essas coisas?” ela queria uma resposta. Pior é que tem, senhora, a moça morre aí e então vão descobrir que tinha vinte boletins de ocorrência contra o babaca do ex. Por isso que eles não se intimidam, ninguém é punido. E ela me olha assustada “Ninguém?!”. Tentei remediar, estrago feito. Bom trabalho pra senhora. Eu gosto disso. Gosto de conversas fortuitas. Fiz até pregação, coisa que não é do meu feitio. Era hora, segui. Sempre sigo. Sempre estou indo – ou vindo. Desembarquei. Ia partir dali um ônibus para Porto Velho. Não tenho saudade de Porto Velho – porque ainda não conheci, senão já sentiria. Na lista, de certeza. Não fossem os problemas me esperando na porta de casa, embarcaria. Embarcaria rumo a Porto Velho. De ônibus. Com a roupa molhada do corpo. Mas os problemas me queriam – quem sou eu para contrariá-los? E, claro, porque hoje ainda não é sábado.

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