Agenda aberta

É a hora de colocar ordem na casa, depois de dois meses intensos e esparsas e tensas anotações sobre pensamentos, ideias e sentimentos. Colocar ordem na casa para seguir em frente. Seguir em frente: a vida chama e não é sábio fingir que não ouviu.

(segue lista de canções para ouvir enquanto lê, mais uma lição que aprendi esses dias e também é sobre filmes, canções e experiências)

Meu lugar

Será que todo mundo tem um lugar no mundo onde é seu ponto de equílibrio? Há vinte anos eu encontrei o meu lugar. Nem sempre que preciso consigo ir até lá – de uns anos pra cá ficou ainda mais difícil. Algo ser difícil nunca foi um problema pra mim. 

O meu lugar é lá, é o equilíbrio na balança, é onde me reencontro com todos os meus eus que por lá já passaram – com os desejos, os sonhos, as lutas e a consciência. É onde vou para juntar os pedaços e para comemorar. Motivo sempre há para ir ao meu lugar e olhar as certezas que já desenhei naquele céu.

Que triste deve ser a vida de quem não tem o seu lugar no mundo. Já pensou vagar por aí sem ter a segurança de onde pode ver a si mesmo? 

Precipícios

Correr riscos, andar à beira do precipício. Ter os pés firmes em lugares incertos e perigosos. É um modo de vida, uma escolha. A ação precisa da ilusão, devo ter ouvido em algum filme. Iludir-se é um dom. Lutar contra si mesma é luta vã. Meu lugar é lá no precipício, de onde vejo o mar aos pés, o contorno das ilhas, a imensidão da vida.

“Não me iludo mais”, eu me disse inúmeras vezes enquanto sonhava acordada, mais uma vez. No outro dia, caí da cama. E queimei a mão em óleo quente. Também lancei longe, sem querer, uma taça de cristal cheia de bom vinho. Talvez seja bom eu me iludir, afinal. Os danos físicos e materiais são menores. Sonhar é meu superpoder.

Vim, esta última vez, do meu lugar com o coração mais disposto a me perdoar. Já me culpei demais pelo que os outros fazem comigo. Chega.

Em respeito àquela mulher que ontem cruzava aquelas praias, que subia e descia aqueles morros, que se preocupava tanto em dar conta de todos os compromissos, que se submetia à falta de conforto e segurança, que nunca desistiu, aquela mulher eu de ontem que sabia bem o que queria e se esforçou e lutou tanto – eu devo respeito a ela e preciso me perdoar mais por ser vítima do mal que me fazem. Vou lembrar disso na próxima vez que eu voltar ao meu lugar.

Só Deus é quem sabe

Nem se constituíram em capítulos. Tirei algumas páginas para escrever e sobraram páginas em branco – e foram rasgadas. Não tenho porque manter páginas em branco, minha vida não merece isso. Lá do alto, lancei essas páginas ao rio Belém. Pessoas que não gostam de desafios não são bons personagens, nem na ficção nem na vida real, e eu trato bem meus personagens. Como sempre, eu esperava mais de você, meu bem. A liberdade é uma porta que precisa coragem para ser aberta, porque ela nunca mais se fecha. Sim, devo ter ouvido essa em algum filme também. Sem coragem de viver desafios, restam páginas em branco. Nem mesmo criei versos sobre cultivar um pé de manjericão para eternizar tua lembrança. Sobre você não escrevi nem um verso – muito menos em francês. Páginas em branco na longa estrada, parece que meus cadernos com versos se tornarão relíquias. Juro que tenho dois versos em espanhol e um em portugês e nenhum deles guardou sequer ressentimento. Aprendi apenas a quebrar padrões. As lições ficam.

Como deve ser horrível viver sem poesia. 

Amor & Política  l  Política & Amor

Terminei colchas de retalhos muito bem costuradas nos últimos meses, alcancei uma harmonia que fala por si só nos atos e palavras. E quem diria que o mundo representaria nada mais que fagulhas, fogo morto, brasas afogadas. Eu gosto de atiçar o fogo.

Os babacas são muitos nesse mundo. Jamais voltarei a me culpar por não identificá-los a tempo. Eu faço tudo com amor, esse é o meu segredo. Descobri, porém, que apesar da larga experiência com os babacas, ainda me engano profundamente. Tem alguns que são mestres em camuflar como são. Prefiro um babaca honesto. Não é? Life is too short to keep bad memories. (filme? não faço mais ideia)

Nunca me faltou sinceridade em nenhum ato, em nenhuma palavra. Talvez as pessoas não estejam mais acostumadas com isso. Mas, se tem uma coisa que aprendi na última leva de lições da vida foi a de não buscar mais desculpas e justificativas para os erros dos outros (principalmente se eles forem homens). Nunca mais. Como a gente demora pra aprender essa lição!

Ainda dói, de alguma forma. Porém, seguir em frente antes que dores piores aconteçam é a única coisa inteligente a se fazer. 

Fiquei indecisa, então era melhor eu me arrastar mais para a política? – meu cinema é político, meu viver é político. Sei lá, deixar o amor fora dessa. Sorte no jogo, azar no amor. Como eu gosto de uma aposta! Sei lá. Ainda bem que não tomei essa decisão. Não vou desistir do amor. Não tenho porquê escolher entre o amor ou a política. Na real, na prática já faço tudo com amor e tudo que eu faço é político.

O amor é revolucionário. O amor é político

Me permito caminar y sentir. É tão gostoso sentir. Entregar-me ao que sinto. Caminhei muito hoje e percebi que entregar-me ao que sinto é minha pérola. 

Mais uma página arrancada em branco. Restaram memórias indeléveis no corpo. 

A paz

Nada nem ninguém vai abalar a minha paz. Só eu sei a guerra que eu vivi para hoje tê-la sagrando meu corpo e minha alma – e meu coração. Busquei a paz como missão de vida contra toda a maldade alheia e contra os babacas que cruzaram meu caminho. 

Minha paz vale mais que tudo.

Àqueles que arranham minha paz, dedico meu silêncio e meu sumiço. Sigo em frente. Eu guerreei para alcançar a paz, agora que a tenho não entro em nenhuma batalha boba. Uma mulher em paz com seu passado, com suas experiências e com suas cicatrizes não se machuca por mais ninguém. 

Privilégio macabro

O conceito que ouvi (não foi em um filme, foi num debate sobre filmes) e roubei pra mim:  privilégio macabro de viver nesses tempos que vivemos. As guerras, as mortes, a fome como arma de extermínio, a destruição, as injustiças, as violências. A quadra terrível da História. Por isso mesmo tenho desfiado o conceito de que precisamos buscar o bem. Amor e política andam assim juntinhos. Não serei eu mais uma a machucar os outros, a fazer o mal, a destruir. É preciso praticar o bem. Só tenho amor a oferecer. O mal não tem a última palavra. 

. Quem diria que ainda me resta fé. São os pés firmes à beira do precipício. É ter amor pra dar mesmo após mais um babaca. É rir das páginas em branco. No caderno ainda há páginas para muitos versos. Fé nos gestos. Fé que o bem não saiu de moda. Fé na fé contra as ações que nos tornam testemunhas desse privilégio macabro. Faço tudo com amor, desde lavar as roupas até escrever um roteiro. Não tenho forças pra perder a fé.

Fera ferida

Não vou mudar. Esse caso não tem solução. Quando passamos por algum trauma ou experiências ruins, dizem que precisamos mudar. Eu não vou mudar. Sou espontânea, apaixonada, exagerada, introspectiva, romântica. Se não for assim, não serei mais eu – a paz me mostrou que não são os problemas dos outros que devem ditar regras sobre como eu levo minha vida. Quem abusou da minha personalidade é que tem que perder o sono. Eu sigo em frente. 

Viver

Viver. Viver nunca é para amanhã. Colocar a casa em ordem para seguir adiante, comprar as passagens, reservar os hotéis, fazer as malas. Convivi a vida inteira com a morte, muito antes de encontrar a paz eu já sabia que viver é nobre. Nunca é para semana que vem. Viver é hoje. É viver o que aparece. Às vezes, iludida. Às vezes, enganada. As páginas podem ficar em branco ou serem arrancadas. Viver é imprescindível. Em algumas páginas surgirão versos, em outras conceitos.

Agenda aberta

A partir de amanhã, às 8h, a agenda reabre. Quero novas experiências, quero repetir tudo aquilo que mais amo. Vou correr atrás do trio elétrico, vou retomar sonhos que estavam me aguardando, vou me abraçar à coragem e encarar novas empreitadas. No trabalho e na vida. Porque a vida não é só trabalho, mas como política e amor, tudo anda muito junto. 

Se eu voltaria àquela vinícola no Uruguai? Claro, mas a viagem e a experiência jamais seriam as mesmas. Ou talvez eu escolha ir em outra. As possibilidades de felicidade não são egoístas.

Em seis meses eu consegui arrumar a casa, organizar os pensamentos, rever feridas cicatrizadas e preparar a vida para amanhã. E isso inclui a escrita (aqui e as demais).


https://youtu.be/e3es0CjkQIA?si=PQlsVvcUtX0RVkY0

Ninguém combate o fascismo sozinho

Não se trata nem de vertente política ou conduta moral: o tal conservadorismo é somente um véu. De hoje em diante, não fale essa palavra na minha frente. “Santa Catarina é um estado conservador” na sua ação de usar da censura, da repressão, da perseguição aos que estão vivendo e produzindo o que não se encaixa no discurso falido de meia dúzia.

Sim, porque a repressão não é praticada pela maioria, ela é praticada por uma meia dúzia – barulhenta, é verdade, mas somente porque a maioria se cala. 

O conservador é somente porque você não quer que seja exibido um filme do qual você tem medo. O conservador é porque você não entendeu o espetáculo de dança – você que mal sabe um plié – e convoca deuses contra a Arte. O conservador é somente porque a história oficial vendeu essas terras como de gente de pele branca vinda do velho continente – onde nem lá sobrevivia o conservadorismo. Lá onde a Humanidade aprendeu e se horrorizou com holocaustos.

Que terra conservadora é essa onde mulheres morrem por serem mulheres, todos os dias? Onde os assédios sexuais e estupros têm índices alarmantes? Onde a quantidade de pedófilos e crimes de pornografia infantil abundam? Nem os coitados dos animais escapam da sanha violenta dos abusadores. Que terra é essa da cidade que já se destacou várias vezes em sites e aplicativos onde mais os homens traem suas parceiras? 

Ah, a doce hipocrisia. Foi essa terra que me ensinou tão cedo o significado da palavra hipocrisia

É a cidade onde operário elege empresário. A vítima e o algoz. 

Essa terra onde mulher acha que feminilidade é uma tiara de flores na cabeça e tem festas regadas a chope e músicas velhas de um país que só existe na concepção fantasiosa de gente que força um sotaque esquisito. 

Mas, repare: é só a censura vir à tona que a frase está engatilhada “não é censura”. 

Não censuram a morte de crianças aos milhares. Não censuram a fome pelas ruas. 

Quem são os censores senão aqueles de quem conhecemos os pecados? Atire a primeira pedra.

Quem tem medo de fascista é colaboracionista. E tenho dito. Tua gente morre nas mãos deles, pessoas LGBTQIAPN+ morrem pelo discurso deles e tu prefere o medo. Não terá jamais o meu respeito. CLT nenhum vale sujar as mãos de sangue.

Exagero? Cada ação, cada pequena ação, que pensa contornar problemas e se esconde atrás de “mas é um estado conservador” está de mãos dadas com toda a violência que praticam contra mulheres, contra artistas, contra LGBTs, contra negros, contra pobres, contra pessoas em situação de rua. Você é colaboracionista. Você apoia fascista. A História não perdoa.

Essa terra não é conservadora – insensato eufemismo. Eles não são maioria – tenho dito faz tempo. O que assusta é a apatia dos demais.

É, amor, ninguém combate o fascismo em silêncio. Ninguém combate o fascismo sozinho.

A vida sempre foi sobre estar do lado certo da trincheira. Quem está indeciso também será atingido.

A censura

Um dos fantasmas da ascensão dos extremismos é a censura.

Lula foi eleito, Bolsonaro perdeu. Não estamos livres da extrema-direita, tenho repetido inúmeras vezes. A extrema-direita tem feito sua tarefa de casa, tem se fortalecido, inclusive no meio político. Os especialistas têm gritado com frequência que precisamos pensar e agir para frear a volta da extrema-direita à presidência e que eles estão de olho no congresso, no senado, nas prefeituras e câmaras de vereadores. 

Porém, tenho pensado e acompanhado os danos que a ascensão da extrema-direita já causaram, tenho me deparado com o legado do crescimento do conservadorismo (em todas as suas vertentes). Durante o período do governo Bolsonaro eu dizia que, a cada novo desmando, levaríamos mais de dez anos para nos recuperar – na educação, no meio ambiente, nos direitos individuais, os danos causados iam de irreversíveis a muito graves. O Meio Ambiente, por exemplo, a destruição, a contaminação e a exploração não são instantaneamente reversíveis com outro presidente no poder. E, segundo a realidade que apontam muitos especialistas, o mundo já atravessou o ponto de não retorno. 

Nos últimos dias pensei bastante na censura. A censura na arte, especificamente, mas a censura de modo mais geral, até mesmo a auto-censura (tema que já abordei aqui). Para todos nós que criamos, a autocensura é um dos piores momentos que experimentamos internamente. Por vezes, nem nos damos conta que estamos praticando a censura no ato da criação, antes mesmo de tê-la (a nossa obra) elaborado. Para o senso comum, a censura só existe no ato de censurar uma obra já realizada, por conta, normalmente, do seu conteúdo.

Tento demarcar um início e o que me veio à mente foi aquela performance no Santander do Rio Grande do Sul, quando denunciaram que uma criança tocava o corpo nu de um homem. Depois disso, não foram poucas as “denúncias” de obras artísticas que deveriam ser censuradas – o que desencadeava, toda vez, uma série de perseguições, violências, sufocamentos e silenciamentos.

Censura é coisa do século passado, quando a Ditadura precisava “liberar” as letras das canções, as cenas das novelas e tudo mais. Porém, o que vemos no Brasil na última década é a dominação da censura. E, desta vez, não há nenhuma Ditadura para culparmos. Isso demonstra como o conservadorismo tem dominado o discurso de quem aprecia e quem apoia e financia a produção artística.

Filmes já deixaram de ser feitos por conta da censura. Produtores culturais já tiveram seus eventos vetados por conta da censura. Ela está, definitivamente, entre nós. Às vezes, a censura é denunciada, contudo, na maioria das vezes ela é silenciada – por medo, medo que temos de denunciar que este ou aquele, que esta ou aquela instituição, praticou o ato de censura, visto que vivemos num mundo de interdependência (principalmente econômica). 

Tenho consumido, como sempre, muita arte. Sentia que algo me incomodava: a esterilidade, a falta de discurso veemente, a ausência da arte que desloca, que faz pensar, que luta, que incomoda (ao causar desconforto no público e que cutuca as estruturas estabelecidas). Há uma enxurrada de produção cultural em cima do muro, e onde deveria existir arte tenho encontrado mero entretenimento. 

Então está tudo bem e a arte agora é só pra nos distrair? 

Não está tudo bem. Os corpos incomodam, as críticas incomodam, a realidade social do país incomoda. E por que não os vemos? Seria a auto-censura trabalhando paulatinamente nas cabeças (e corações) dos criadores? Ou porque a censura de quem detém o poder tem conseguido tirar essas obras do nosso alcance?

Há censura no Brasil. Querem censurar até mesmo o que nós dizemos. Como sempre, uso esse espaço como trincheira para a liberdade. Esses dias ouvi um especialista que salientava como os blogs eram locais mais “antigos” de debate da esfera pública e que nem mesmo as redes sociais conseguiram superá-los – concordei muito. 

Quando me deparo com a censura, algo se move dentro de mim. Eu sou filha da democracia, sou dessa geração que nasceu com a democracia, com o voto, com um Brasil que deveria ser diferente e enterrar seus fantasmas, para sempre. Tenho refletido muito sobre isso ao acompanhar a série publicada pela revista piauí, que me faz refletir sobre quem somos e porque nossa atuação no país não resistiu às investidas das gerações anteriores (que buscam reviver o passado) e ainda não acredita nas gerações que vieram depois (perdidas em nomenclaturas e rótulos para suas lutas de sofá e redes sociais). 

Os fantasmas seguem entre nós. A censura é o apagamento da arte que vibra e pulsa nas nossas mentes e corações criativos. Censurar um filme é impedir que o discurso daquele grupo seja acessível ao público. E nós, enquanto público, não teremos acesso ao que aquele realizador disse – e assim quem detém o poder molda os discursos que estão no mundo.

Quem detém o poder, detém também a enorme responsabilidade sobre o que está sob o seu domínio. Responsabilidade. Sim, instituições públicas e privadas podem ter seus próprios critérios sobre o que vão veicular ou não. Por isso mesmo faço essa reflexão: o que temos feito com a arte no Brasil? Por medo do avanço de concepções conservadoras, do discurso virulento da extrema-direita e da ascensão do fascismo nós devemos nos calar e produzir obras amenas, palatáveis e que não gerem perseguição? E se produzidas, quem pode distribuí-las e levá-las ao público, vai censurá-las com medo das consequências. Como sempre digo, o medo é péssimo conselheiro. 

O que vivemos no Brasil nos últimos anos nos levou à busca de critérios conciliatórios, de discursos policiados, de criações que não levem ao desconforto e ao risco. O mundo não é lugar de conforto, pra quem ainda não percebeu. Quando vivemos num mundo de lutas diárias pela sobrevivência, sendo mulheres que nunca sabem se chegarão vivas em casa, com a fome cultivada pela enorme desigualdade social, com corpos trans assassinados diariamente, não há como viver confortavelmente. Não existe essa possibilidade. Lamento por quem produz arte e quer se furtar a isso. Mas, me indigno com quem se exime de levar ao público que essa realidade existe – o mundo fofo do entretenimento é o que a indústria faz para ganhar dinheiro. Bem, muitos estão “produzindo arte” só para ganhar dinheiro mesmo, aqui na cidade há vários exemplos.

Essa onda conservadora, além de engatilhar a auto-censura, também abriu caminhos para uma produção artística auto-centrada nos seus traumas, vivências privadas e psicologismos. Até quando peças de teatro auto-referentes com a encenação da relação com o pai, filmes sobre a perda da mãe, livros sobre experiências reais, performances de mães e suas dores ‘reais’? O artista que não consegue transformar suas experiências e referências em ficção será um artista? Ficamos presos nesse egoísmo e auto celebração da intimidade sem abordarmos a graça de vivermos na coletividade. Ninguém censura o eu, porque quando falamos do nós o desconforto nos faz sair desse eu e nos obriga a lembrar que existe um mundo para além do nosso umbigo. Toda arte é válida? Deve ser. Talvez seja apenas uma preferência estética minha? Talvez. Mas a análise vai além do mero gosto estético, pode ter certeza.

Essas reflexões são de quem produz e consome arte no Brasil. É uma visão de dentro e de fora. A História nos conta que na época da censura institucionalizada os artistas lutaram contra ela, buscaram metáforas, escreveram versos e a enfrentaram. Nesses tempos de censura por baixo do pano, os artistas a assumem como status quo do fazer artístico. Enquanto quem a pratica vive tranquilamente, não se envolve em problemas e mina o próprio país. O Lula ganhou a eleição presidencial. A extrema-direita, o conservadorismo e o fascismo já ganharam inúmeras lutas do cotidiano da sociedade. Ao assustarem, com seus gritos, instituições e artistas sobre o que eles podem ou não produzir e exibir, eles já ganharam. Sem precisar de um AI -5 ou do DOPS.

A culpa não é deles. Só cai no medo de não enfrentá-los quem quer. Eu luto pela liberdade de cada um de nós criar seus discursos, inclusive eu mesma. Jamais serei colaboracionista com quem censura. Quem colabora e quem silencia é cúmplice. 

Depois, como nos têm alertado os especialistas, quando a extrema-direita voltar ao poder, quem colaborou não poderá reclamar. Só tenham certeza que nem vocês escaparão da perseguição.

Vai faltar peça de teatro shakespeariana (aliás, viram a citação do filho que pratica atos contra a soberania do país?), performance do eu & meus traumas, filmes entretenimento e livros de romance auto-ajuda para o público anestesiado. 

Às vezes é sobre Tom Hardy

Desculpa, sou hétera

Eu sei, é quase um pecado hoje ainda alguém declarar-se hétera. Mas, sou. E muito. Como tantos de nós, também me descobri hétera (e muito hétera) ainda cedo. Não, posso assegurar que não é nenhuma heteronormatividade imposta ou construção sócio-cultural, é da minha natureza mesmo. Também, lamento decepcioná-los, mesmo com as péssimas e nem tão ruins assim, experiências decidi jogar em outro time. Sou hétera, mas quero garantir que não é uma falha no caráter ou sequer algum desvio. Sou hétera e não sou melhor nem pior que ninguém. Só, por favor, não insistam: como eu respeito todas as sexualidades, respeitem a minha. Não tenham pena, porém. Pode não parecer, mas sei onde estou metida.

Decidi me assumir hétera, profunda e assumidamente hétera, por causa do Tom Hardy. Nessa angústia da espera da segunda temporada de Taboo – caso você não saiba o que é a primeira temporada de Taboo, por favor, finja – eu resolvi dar uma chance a Mobland. Fiquei surpresa, ao sair da minha bolha, que essas séries transpirando testosterona com sequências pavorosas de mau gosto misóginas ainda têm espaço E financiamento. Parece que têm, não é mesmo? Guy Ritchie envelheceu muito mal, Pierce (meu amadinho e melhor 007 ever) e Helen assustadores sem se sustentarem no texto teatral e beirando o ridículo, MAS Tom Hardy: másculo, homem comum, o não-herdeiro, o incompreendido (só as héteras entendem o poder de sedução que um homem incompreendido exerce sobre nós), o herói solitário. O QUE É TOM HARDY?

Um fenômeno.

Ele, casado (óbvio), com uma esposa que o pressiona pelo comum e comezinho (insuportável), ele que deve lidar até com o asilo da mãe da ex-empregada, enquanto, narrativa paralela, ele salva tudo e todos, ela só reclama e ainda quer TERAPIA DE CASAL. Pobre hetero incompreendido. E era um desses que nós, héteras raiz, quereríamos salvar. Um defeito de fábrica, com certeza, toda hétera raiz querer salvar um hetero incompreendido e sacrificado por relações espúrias e infelizes. MAS, nós, em algum momento, nos curamos.

TOM HARDY me fez rever minha TEORIA DO AVERAGE JOE

Por um ano eu coloquei em prática a Teoria do Average Joe. O homem comum, sabe? Você poder sair com alguém sem precisar citar Almodóvar ou Fernando Pessoa. Conversar numa mesa de bar duvidosa sem contar sua vida profissional (UFA) e onde você fez mestrado. O auge: ir num bailão, rodar e rodar, sem registros (dos quais até teus amigos mais próximos duvidarão), rir de coisas que você não vai nem lembrar, beijar e se divertir e nunca mais saber de nada. A Teoria do Average Joe era baseada somente num teste sócio-romântico com pouca base científica, no qual a fuga para um mundo paralelo onde ouvir sertanejo dor-de-corno não taxava as pessoas de bolsonaristas, mas representava umas músicas que eram boas pra cantar junto. Durante o teste, a conclusão foi que dou match fácil com motoristas (de caminhão, de ambulância, de máquinas, etc) e pessoas em cargos de segurança. Sei lá, deve ser minha vida nômade que me aproximava desses perfis. 

O homem comum. Como é bom experimentá-lo. Eu vivi sufocada pela pretensão. Você já reparou o quanto a vida é imersa em pretensão? Eu quis fugir. E eu fugi. Eu precisava fugir dessa pretensão toda. Eu só queria ser eu. Eu só queria ser a Fahya, a mulher, a fêmea (amém, Wando), a debochada e brincalhona, a carinhosa e sonhadora, a Fahya que olha pro mar por duas horas sem ver o tempo passar, a Fahya que não é procurada pelas pessoas que só querem um cachê no próximo filme ou porque querem aprender a produzir. Foi intenso e reparador buscar o homem comum. 

Ser hétera pesou muito ao ver homens héteros que não suportam que a sua companheira cresça naquilo que ela acredita, que se destaque na sua profissão, que não a apoiam, homens que até se relacionam com ela porque têm interesses profissionais. Eu tenho certeza que você, hétero, está numa relação assim – ou já esteve em uma – seja hétera ou hétero. Aliás, mesmo os não-héteros. Vamos deixar de romantizar até a parte ruim dos relacionamentos: merda há em todo lugar. Violência doméstica não é exclusividade dos héteros, tá? O quanto antes falarmos disso, melhor.

E eu falo mesmo. Cansei de homens que não me davam espaço e valor pelas minhas qualidades profissionais. Desisti de homens que só se aproximaram “romanticamente” de mim por interesses profissionais. Desisti do amor? Jamais. (aí entra a Carrie, mas fica pra um próximo texto)

TOM HARDY e a ilusão

Eu sei, a conclusão do estudo sobre os average joe é que fica mais difícil estabelecer uma conexão profunda e contínua quando não há interesses mais fortes. Bem, eu também não estava em busca de nada forte e profundo. Contudo, é muito bom entender que não vou basear um encontro em analisar os filmes do Pasolini. Também não me importa saber quais autores você leu. A Nova Teoria é sobre CARÁTER. Pouca importa com quem você faz sexo, inclusive (jovens, aprendam). Tenho definido as pessoas pela característica mais simples: caráter, tem, ou não tem?

Além do caráter, vou reparar no que você bebe. E talvez isso desperte em mim muito mais interesse do que qual faculdade você fez.

Por certo, se tiver caráter e bom coração já vai despertar minha atenção. Harry, em Mobland, é de um coração enorme. E que megera maravilhosa é a esposa dele que não percebe isso, não é mesmo? Pois é, e eu aqui querendo encontrar uma megera dessas. É alguma síndrome de heroína, só pode, que me domina e faz querer salvar um hétero de algum relacionamento apodrecido por dentro e com uma megera que o sacrifica e anula. Sim, busco caráter, mas já não considero que cobiçar o homem alheio seja falta de caráter da minha parte. Sei lá, nunca acreditei na perenidade e imobilidade das relações.

E era esse o ponto. 

As pessoas têm medo de sentir, de amar, de arriscar-se. Ok, você está em um relacionamento, passou anos construindo isso e DAÍ?! As coisas mudam. Você pode conhecer alguém. Eu posso te conhecer. Já pensou nisso? Teus planos explodindo no ar igual a casa de um mafioso. Acontece. Que horror, tenho eu, lua em sagitário, de pensar na vida como algo definido e estático e imóvel. Até na Bíblia está que temos que viver pela cruz de cada dia. No fim a gente vê.

Passei dias pensando sobre as relações próximas entre sonho e ilusão. Não estou, ainda, preparada para confabular teorias. Mas, jamais deixarei de apoiar as ilusões, nem com os quarenta se aproximando. Então porque a idade se aproxima eu tenho que ter medo do que sinto e me deixar amordaçar pelo que a sociedade prega?

Não fiz isso nem quando tinha dezesseis anos. Tá doido.

Ainda não casei (graças a Deus e a mim). Ainda não tive filhos (desespero nunca foi meu forte). Não sou divorciada. Sou só uma mulher, hétera, branca, solteira, sem filhos. Espécie pouco estudada, mas tremendamente à margem da sociedade esdrúxula que rege nossos dias. Behind every successful woman is herself. Não, não contamos com homens nem ninguém para rachar o aluguel, pagar as contas, nos levar para cá ou para lá, para dar conta das coisas da casa, etc. Também, longe de nós!, pegar homem pra terminar de criar – e lavar suas cuecas. Nós fizemos escolhas. Porém, nem todas essas escolhas foram por nossa decisão (e isso terá um post especial, quem sabe).

Mas essas héteras são público-alvo de uma série fraquíssima (sorry, os turcos é que sabem fazer séries sobre máfia com muito mais propriedade – até do que os italianos, prego) que tem TOM HARDY. Porque, por vezes, a gente tem ao lado um average joe mesmo (ao contrário dos homo, os hétero raiz são LARGADOS e a gente sabe) e gostamos de satisfazer nossas fantasias com o TOM HARDY na tela. Ele enfrenta os marroquinos e mexicanos na Antuérpia completamente sozinho numa moto excitante e é tudo o que precisamos. Jamais que uma série dessas é produzida para um público que não nós, héteras exigentes e sonhadoras. 

Talvez deixar de romantizar ou manter ilusão é não acreditar no mito do homem que demonstra “cuidar” de nós. Nunca precisei da sensibilidade dos homens. Sabe a cena clássica? Quando ele empresta o casado para ela não passar frio? Meu querido, precisamos muito mais do que isso. Eu sou independente, adulta, dona da minha vida: nunca precisei que alguém se preocupasse se estou com frio ou não. Eu não preciso da sua sensibilidade. As héteras legítimas, solteiras, independentes, maduras querem alguém pra estar ombro a ombro. E, infelizmente, na Nova Teoria isso já salta aos olhos: vocês não estão preparados. 

Eu não preciso de um homem hétero que cuide de mim. Aliás, nunca precisei. Nem tenho cuidados para oferecer, não mais. Porém, aos héteros, o medo de não poder ter ao lado uma mulher que precise dele ainda é dominante, independente da idade, do estado civil…

A vida da gente muda drasticamente quando buscamos ter o que queremos e não somente o que precisamos. Eu super recomendo, mas sei que não é pra qualquer um.

AVERAGE JOE é história

A Teoria nasceu com o programa de TV The Bachelor’s do qual teve uma ou outra edição que eles colocaram no elenco os average joes, o programa foi sensacional, mas claro que as mocinhas héteras preferiram os musculosos nada average. Acontece.

TOM HARDY é ilusão

Eu sei. Estou me preparando para reassistir Taboo, primeira temporada. Que homem, que fenômeno que me faz construir teorias (mentira, eu faço teorias sobre quase tudo na vida, é um dos meus passatempos favoritos no mundo). Bem, eu sonho para realizar aquilo que me satisfaz na vida. Mas, na dureza dos dias, eu me iludo. As ilusões não são de todo dispensáveis, elas sustentam os piores dias, nos embalam ao dormir, entretém a mente nas filas de espera. 

A Fahya não é uma máquina. A Fahya não é uma tola que as pessoas acham que enganam e de quem tiram lucro em cachês e aprendizado. A Fahya é uma mulher com uma vida apreciável demais para estar na boca das pessoas. E ela é essa hétera feliz (contra todas as previsões e desejos) que até experimentos faz. Sobre nunca conseguirem superá-la, é verdade, dizem que perdê-la é até razão para cortarem os pulsos!; fica como promessa de novo texto (que nunca escreverei).

Desculpa, sou hétera e ainda me divirto muito com isso. Não seria o tempo, meu grande e bom amigo, a me desiludir sobre o amor. Já faz tempo que aprendi que amor é algo muito maior do que as convenções, as exigências sociais, o aluguel do mês, os contratos, os prazos da idade, as aparências, as escolhas. 

Lamento pelos que faltaram às aulas da vida e não sabem que quando ele aparece, é preciso largar tudo e segui-lo, sem medo. É como se Tom Hardy aparecesse na minha frente. 

(sim, é só uma frase de efeito para encerrar o texto, mas podemos dormir com essa ilusão hétera fantástica)

Meu cinema é político

Sentada na varanda com o olhar largo ao quintal, tomo café e ouço samba numa manhã de domingo.

Mudanças profundas são aquelas que deixam ver quem sempre fomos. São os períodos mais felizes de dar voz às verdades inerentes do nosso caráter.  

Vejo o discurso enganoso de quem diz que é contra o sistema e vive dele, se alimenta dele, recebe seu salário dele e, como a vida não é bobagem, o faz crescer e se multiplicar. Não, meu amigo: não existe isso de lutar contra o sistema estando dentro dele. Você assinou o contrato, você recebe o seu quinhão sobre a exploração e a mentira. Nós não somos iguais.

Já desde sempre eu soube que meu cinema é político. Curioso. Muito curioso que só recentemente eu disse isso com todas as letras – e feito criança feliz passei dias e dias a repetir isso em qualquer oportunidade que se apresentasse. Meu cinema é político.

Por isso que nunca fiz nem faço publicidade ou propaganda – eu faço cinema. A propaganda é a língua (vil e assassina) do fascismo e do sistema. Eu faço cinema.

Nessa toada precisamos deixar muito claro de qual lado da trincheira estamos – e quem está ao nosso lado. Do lado de cá da trincheira não rola high society, première, contos de fadas com famosos, salários de cinco (e mais) dígitos, a vida editada das redes sociais, a falsidade dos sorrisos e abraços, a ânsia por posar ao lado você sabe de quem. O lado de cá da trincheira é feito de verdade e ação. O discurso nós deixamos para vocês.

Sou da paz e tenho vivido a mais singela paz que a vida poderia me oferecer. A paz de quem lê poesia todos os dias. De quem dia ou outro escreve versos para afugentar a morte e tecer a memória. 

O conto seria o gênero literário mais contra o sistema possível – porque, como diria um velho professor, ninguém entra numa livraria para comprar contos. Porém, sim, somos alguns poucos, mas o conto é contra o sistema porque ele quer dar o soco no estômago. Em gênero literário a poesia não é contra o sistema porque vende (sim, poesia vende), porém, a poesia enaltece o olhar, a pausa, o respiro. O mundo que destrói e vilipendia nosso futuro se aborrece com quem respira e para tudo para olhar. Ponto para a poesia.

Contudo, o troféu da luta contra o sistema vai para o curta-metragem. Mais desmerecido e desprezado do que ele não há. E é exatamente ali que o soco no estômago do conto se encontra com a ausência de recursos e viver à margem do comércio e do lucro. É o discurso à margem do sistema por excelência. Quem só se utiliza do curta para acessar ao sistema do cinema industrial são as pessoas que estão – e sempre estiveram – do outro lado da trincheira. Nota: não são só eles que estão do outro lado da trincheira.

Deste lado da trincheira a paz ergue muralhas que nos protegem de todo mal. As flechas que nos lançam, os tapetes que puxam, as traições sussurradas pelas costas se voltam contra seus autores. A paz de quem está do lado de cá da trincheira não se abala.

Sei bem que o grego lá disse que tudo o que fazemos é político. Antes mesmo de conhecê-lo eu me guiava por isso. Já ensinei muito que nosso discurso também é ação. Estar no mundo só é possível enquanto ser político. Choices. Suas companhias e suas escolhas me dizem quase tudo que preciso saber sobre você.

Meu cinema é político. Meu quintal é político. Meu cinema é o meu quintal.

Dando ordem ao mundo

I

Como eu, ele vai de Banda Beijo a Tim Maia num piscar, e ainda vai dançando de um jeitinho bobo e meio trôpego. Vale sempre a pena ver e me arranca um sorriso.  Se não fosse a música a organizar meu humor, nem chá de camomila ou café serviriam. 

Faço olhar de peixe morto com a prática de anos de vida enquanto observo tudinho nos mínimos detalhes. Observar é um hábito (nem sempre agradável). O óbvio entedia e o tédio mata. 

II

Curiosa a vida de quem não tem caráter. Observo, à distância. Ter ao lado quem você tanto despreza. E ambos sabem dos seus desafetos mútuos. Eu, daqui, também sei. 

III

Drama: amo (na ficção). Um bom drama é sempre bem-vindo. Gosto de molhar os dias em dramas, desde os mais clássicos, até os mais fuleiros. Na vida, bate de frente, quer drama procure outra pessoa. Por quem me tomas que encenação alguma vai sequer tirar meu (sagrado) sono?

IV

As notícias chegam quando devem chegar. Nem antes, nem depois. O Destino mandou avisar. Se esqueço, ele sorri ali do cantinho dele, balança a perninha e me olha “tá boba?”. É, às vezes fico boba. Ou não. Ou estava tão concentrada em outras coisas que esqueci. Ok, lembrei, lição sempre reaprendida. Destino, não cedo, não abro. Sigamos.

V

Enviar coisas boas, receber coisas boas. Funciona.

VI 

Não precisa subir tanto, não. Precisa tirar as pedras do caminho, com carinho a si mesma. Precisa ter o coração batendo forte. Precisa ter os olhos em direção ao amor. Cada passo é uma conquista.

VII

O Medo. Assim, com letra maiúscula para muita gente que ainda não aprendeu: o verbo viver não se conjuga com o Medo. Você vai acordar todo dia com ele enrodilhado no seu estômago, ao colocar os pés no chão ao lado da cama ele vai agarrar seus tornozelos e ao longo do dia vai controlar suas ações, seus pensamentos e afogar seus sonhos. Caríssimos, isso não é viver.

VIII

Há pessoas que vão longe demais para conseguir o que querem. E quando eu digo longe demais, é longe demais: moralmente, inclusive. Tem coisas com as quais não se brinca, já disse várias vezes. O quão longe (ou baixo) você foi para conseguir o que queria: é proporcionalmente ao preço que vai pagar. Vai sair caro, muito caro. Quando a conta chegar eu sei que você vai se desesperar: suas lágrimas não me comoverão. Não aceitarei desculpas. Teu nome será riscado pra todo sempre. Limites: um bom tema para um longo livro (e algo a se aprender desde os primeiros dias de vida). Bonne chance !

IX

Os pássaros nas árvores. As ondas batendo nas pedras. Os peixes saltando, as tartarugas nadando. As minhocas se reproduzindo. Os cães que dormem. A alamanda em flor. As acerolas caídas na terra após o temporal. O limoeiro carregado. As nuvens avolumadas deixando o sol chegar. A areia sacudida pelo vento Sul. O jasmin-manga perdendo suas folhas. As crianças brincando na praia. 

X

O mundo em erupção com guerra cambial e uma sopa de lentilhas no fogão. É preciso saber cair de pé, eu sabia. Ao longo do caminho, às vezes, é permitido sentar-se na beira da estrada, ouvir Erasmo e refletir sobre os desgostos. Somente às vezes e com o tempo você percebe que isso é cada vez mais inútil. No terminal de ônibus da Trindade aprendi o quanto tenho ojeriza de quem reclama (demais, de tudo, sempre). Levanta-te e vai, toma uma atitude que tua língua apodreceria com tanta coisa ruim e chata que tu professas.

Joinville investe em aniquilar seu futuro

Recentemente uma notícia que preocupou. De imediato a memória me remeteu há pouco mais de um ano, numa reunião do Conselho Municipal de Políticas Culturais, no Auditório do Museu do Sambaqui, numa noite de segunda-feira.

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Na reunião, um conhecido funcionário da prefeitura apresentou uma “proposta” de interesse ao Conselho. Era sobre a “Quadra Cultural”, que estava em trâmite nas instâncias da prefeitura, e, resumidamente, permitiria que os investidores em uma determinada região muito valorizada da cidade pudessem “investir” o que seria a outorga onerosa na dita região. O senhor, muito sorridente, apresentou o projeto, ressaltando que os investimentos incluiriam equipamentos culturais como o Museu de Arte de Joinville, a Cidadela Cultural Antarctica e o Museu do Imigrante. Na ocasião, o sorriso dele foi murchando conforme os presentes na reunião do Conselho fizeram perguntas, questionamentos e até duras críticas. 

Após ver o sorriso se desvanecer, testemunhamos o funcionário da prefeitura sair aos xingamentos afirmando que nós não tínhamos força nenhuma, que já estava “certo” que seria aprovado e ele tinha feito um “favor” em comparecer e explicar o que era o projeto.

Foi somente mais uma demonstração de desprezo ao Conselho de Cultura e seus conselheiros com a gentileza de sempre da atual gestão.

O projeto recebeu duras críticas, inclusive de uma conselheira que é moradora da região e, aparentemente, desconhecia tal projeto. Assim que o projeto fosse aprovado na tal região, ao invés de a prefeitura receber o valor da outorga onerosa e investir onde há necessidade, quem vai escolher onde será investido serão os próprios proprietários dos imóveis, delimitado ao que eles chamaram de “quadra cultural”.

Ou seja, o investidor compra um terreno naquela região, vai construir seu imóvel de altíssimo padrão, e não vai pagar a outorga onerosa à prefeitura, ele vai investir dentro daquela hiper restrita região – já elitizada e valorizada – para que o seu imóvel seu ainda mais valorizado.

Ou seja, o dinheiro da outorga onerosa, que a prefeitura poderia investir onde há real necessidade, será usado com fins particulares para os proprietários dos imóveis daquela região.

Ou seja, um minúsculo grupo que detém uma enorme fatia do dinheiro da cidade vai investir o seu próprio dinheiro em valorizar o imóvel dele, sem precisar “dar” dinheiro para a prefeitura. Porque, afinal, fazem parte daquele grupo que não quer ver seus impostos e seu dinheiro indo para outro lugar que não para o próprio bolso.

Ou seja, tendo a cidade necessidade de um parque no Paranaguamirim ou um posto de saúde no Parque Guaraní ou apoiar as hortas comunitárias nos bairros não investirá milhões onde mais precisa, mas estará revertendo esse dinheiro em criar um “bairro fechado” para a elite mais elite da cidade.

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Devo ressaltar aqui a ojeriza que senti ao ler a suposta reportagem que saiu no jornalão da cidade, que pode ser considerado um mero merchan do projeto. Na suposta reportagem, citaram um prédio recente que pagou um milhão e setecentos mil reais de outorga onerosa para a prefeitura, antes da final aprovação do projeto Quadra Cultural e lamentaram que esse dinheiro não tenha sido investido na região, melhorando as vias, e os equipamentos do local. Além disso, o texto cita que a média de renda da região é acima de 5 salários mínimos, enquanto a média de Joinville é de 2,7 salários mínimos.

Levou pouco mais de quatro anos, mas certeza que essa foi uma promessa de campanha (não daquelas que aparecem na TV e no rádio, mas aquelas feitas à portas fechadas) da atual gestão.

Joinville, com esse projeto assustador, reitera sua vocação ao atraso

Grandes cidades, ricas cidades, investem em todas as áreas. Investem nos bairros, disponibilizam equipamentos de lazer e cidadania para todas as classes sociais. Em Joinville, é diferente.

Quem mora aqui já ouviu a elite reclamar que a cidade é feita para “operários”. Eles acham chato sempre ter que ir para Balneário Camboriú, Curitiba, São Paulo, Miami para viverem. Mas, a atual gestão está mudando isso. Felizmente, os iates e lanchas já têm onde atracar para comer um peixe no domingo. Agora, os investidores e moradores da alta elite terão uma fatia (nada pequena) da cidade para chamar de sua. Não me admira que em pouco tempo alguém tenha a brilhante ideia de colocar cancelas nos acessos da Quadra Cultural, como fizeram, ilegalmente,  a um tempo atrás, naquele parque com nome francês. Às vezes por aqui precisamos lembrar que a rua ainda é pública e eles precisam conviver com o resto da população.

Preocupa-me que isso não tenha respaldo legal. Não me admira em nada que, em algum momento, os meios que a prefeitura usou para alcançar esse projeto não tenham sido todos dentro das leis. Eles são bons, também, em manipular as leis e regras – o Conselho Municipal de Políticas Culturais é um perfeito exemplo disso. Cabe ao Ministério Público ou demais órgãos darem as caras e mostrarem que aqui em Joinville eles ainda existem e não servem só para fazer de conta que não vêem o que acontece ao seu redor.

Porém, pior do que isso é o que o projeto da Quadra Cultural simboliza e significa numa cidade como Joinville. Nem vou citar como Joinville ignora e destrói seu patrimônio histórico e cultural, como desvaloriza e estrangula a cultura e as vozes dissonantes. Também vou evitar citar como a imprensa por aqui é calada, como não se vê jornalismo independente porque sabe-se qual o fim que a pessoa vai ter (quem sabe será contratada pela grande emissora local e o salário fará acalmar suas ânsias de justiça, enquanto a prefeitura dormirá tranquila). Caso eu seja atacada por trazer este assunto à tona, vocês sabem de onde veio a bala. 

Joinville admite e institucionaliza a política higienista, investe tempo e dinheiro público para privilegiar a elite que está autorizada a usar dinheiro público em benefício próprio.

Algo que me deixa curiosa é como está autorizado que um dinheiro público – a outorga onerosa – pode ser usada como investimento em benefício e uso próprio de quem deve esse dinheiro para a prefeitura. Vejamos um exemplo: se você tem um problema com a prefeitura e recebe uma multa, você pode escolher o que fazer com o dinheiro da multa em algo que trará benefícios para o seu próprio imóvel!

O que a Câmara de Vereadores pensa disso?

Vemos um surto de limpeza social que cresce entre vereadores e domina o discurso de suposta imprensa, apoiados pelo histerismo de parte da população que acusa pessoas em situação de rua como responsáveis pela insegurança no município. Porém, os assassinatos e as guerras de facções que fatiaram os bairros periféricos dessa cidade não surgem como preocupação de ninguém – a ver que toda semana noticiam os crimes e preferem resolver com “a vítima tinha antecedentes criminais”. Todo mês o governador aparece aí e ninguém expressa preocupação com a luta contra o crime organizado. 

Mas, contra algumas pessoas em trânsito, pessoas com problemas sociais reais, revoltam a população e levam vereadores a dar seus shows.

O tamanho da Quadra Cultural não é pouco, não. Abarca esses equipamentos culturais que citei como se eles fossem receber altíssimos investimentos e um Museu de Arte de Joinville da noite pro dia se tornasse um Museu Oscar Niemeyer. Como se já não fosse evidente que querem transformar a Cidadela Cultural em uma galeria de restaurantes caros para a elite. Aliás, na suposta reportagem (faltou constar: conteúdo pago), citaram que na região é onde tem “os melhores restaurantes da cidade”. Eu nunca fui em nenhum desses restaurantes, mal conheço quem frequenta os mesmos.

Vê-se claramente que a intenção é criar uma cidade dentro da cidade, uma cidade para alguns poucos, tentando criar a ilusão de que haverá “benefícios para todos”. O discurso é o mesmo com aquele novo “bairro” que nada mais é do que uns herdeiros que querem lucrar investimento em imóveis (aqui e na Serra, destruindo centenas de araucárias – a ironia com o nome não é minha). As supostas reportagens sobre esse empreendimento são vergonhosas, me admira alguém com um diploma de jornalismo que aceite assinar aquilo. 

Joinville e a desigualdade social

A elite da cidade cansou. Cansou de não ter sossego e uma parte da cidade para ela. O outro prefeito herdeiro não tve essa visão, ele era old school. Os prefeitos de Joinville sempre visaram somente a elite, mas focados em promover os investimentos da indústria e da elite – sem pensar na cidade para a elite. Joinville nunca foi para todos. Nunca. Os lamentos da elite foram finalmente ouvidos: eles querem o seu espaço garantido, onde possam viver em paz sem ver pobres e operários, onde possam caminhar nas ruas e tomar seus cafés sem tropeçar em pedintes, que possam levar seus filhos para colégios que só eles frequentam, onde exista um lugar respirável que nem se pareça com a cidade cinza, feia, destruída de sua história e abandonada como todo o resto. O maior mérito da atual gestão, do Imperador futuro senador, é lembrar que a elite existe e quer também usufruir da cidade. 

Dane-se que no Parque Guaraní morre gente assassinada pelo crime organizado e as crianças não têm onde brincar com segurança. Dane-se que no Morro do Amaral até para estudar seja uma luta. Dane-se que no Morro do Meio não existam equipamentos culturais. Os últimos investimentos em estrutura para a Cultura que tivemos em Joinville foi do governo federal.

Dane-se que a Casa da Cultura precise mendigar dinheiro com a iniciativa privada para atualizar as instalações e restaurar seus espaços. Aliás, a Casa da Cultura está na mira da privatização e ninguém parece se incomodar. Será a próxima bola da vez. Que o digam a Cidadela Cultural e o Mercado Público.

Acho curioso como essas ações da prefeitura somente demonstram a incompetência da gestão. Privatizar esses espaços e o projeto da Quadra Cultural nada mais é do que assumir que não dá conta do recado. Não dá conta, pede pra sair. A prefeitura cede as outorgas onerosas para uma região porque não garante que é capaz do mínimo: investir em infraestrutura.

O Futuro tenebroso

Joinville, com cada uma dessas ações, constrói com esmero a sua destruição. Em menos de dez anos o histerismo de meia dúzia de pessoas que hoje diz que é refém dentro de casa porque há pessoas em situação de rua será real. Joinville em nada se prepara para os desafios de uma cidade grande, que deveria ser cosmopolita (fica para um próximo texto). A cidade não sabe o que é sustentabilidade ambiental e ações que promovam o meio ambiente (logo falaremos mais disso). A cidade promove e investe na desigualdade social. A desigualdade social sempre foi o calcanhar de Aquiles de Joinville que manteve com rédeas curtas o abismo social que nos mantém – e que mantém o patrão no poder. A desigualdade social alimentada pela falta de acesso à educação superior pública, que alimenta a violência nas periferias, que tornou-a atrativa para os golpistas. 

Joinville vai pagar caro. Os guetos já existem. Enquanto a elite nariz empinado da sua sacada no América acha que só ela existe, ignora as ruas abandonadas com o tráfico na porta das escolas do Itaum. Joinville não está preparada nem nunca teve quem pensasse a cidade para ser grande. O preço será alto. Lamentável será ver que vai sobrar para todos pagarem a conta da elite colona que há tempos não tirou seus cadáveres do caminho. 

Mais três anos para vender tudo

Ano passado houve silêncio quando tal projeto passou pela Câmara de Vereadores, que aceitou tudo calada. Aliás, nem o vereador que se diz paladino da zona sul questionou algo, ele mesmo que conseguiu aprovar a Zona Industrial Sul. Sim, para os pobres operários da zona sul tem zona industrial, não terá investimento de outorga onerosa. Como se o joinvilense fosse burro e acreditasse que Zona Industrial é para o trabalhador – é somente isenção e incentivo para os industriais que vão levar suas fábricas pra lá, sem nenhum investimento em infraestrutura. O operário? Ficará menos tempo no ônibus. Assim a cidade evita reclamações.

O tal Conselho Gestor da Quadra Cultural já teve reunião. Numa delas, sem a presença da representante da Secretaria de Cultura, falou-se no desenvolvimento de projeto para o Museu de Arte de Joinville. Quem não lembra das ações policiais nos jardins do MAJ antes da Quadra Cultural? Qual a autonomia para uma incorporadora decidir o que fará com o Museu? Não há interesse dos jornalistas da cidade, até jornalista de economia, acompanhar esses projetos? Qual será a participação da população nos rumos do Museu?

A privatização dos espaços públicos culturais da cidade sempre foi um projeto. Por isso o Conselho Municipal de Políticas Culturais é sistematicamente atacado. Que o digam as testemunhas do que a Secretaria de Cultura tem tentado (e feito)…

Há quem pense, em Joinville, que Cultura é somente para a elite. Sério mesmo. Operário e povão não consome cultura. Vai vendo.

Na Lei Complementar está escrito “atendendo a população diretamente afetada e a coletividade que usufrui do território” e nem na lei isso parece bonito. Não basta ter equipamentos, é preciso garantir o acesso de toda coletividade aos equipamentos públicos culturais e de lazer.

Quanto que tá o passe mesmo? Vai vendo.

Consta lá: Gestão transparente por meio da participação social e do monitoramento das ações pelo Conselho Gestor da OUC. Participação social com reuniões vazias. Pessoal da Cultura sabe bem como é isso.

Assim a boiada vai passando… o objetivo é o mesmo. Pena Joinville ser uma cidade tão silenciosa. Os gritos das atrocidades que se cometem por aqui não são ouvidos. E tem gente que acha que sabe calar as vozes dissonantes.

Olho aberto

Algumas poucas pesquisas trazem luz sobre as questões, principalmente sobre os envolvidos. Recomendo. Insisto: se calarão?

Um capítulo inteiro dedicado à sororidade

Porque somos mulheres e somente nós sabemos o que é ser mulher

Foi uma sucessão de fatos cotidianos. Ouvia o rádio sobre a notícia da expulsão de um treinador de futebol que assediou o time de futebol feminino e pensei: deveria ser sempre assim. Nos casos de violência contra a mulher (das inúmeras formas que os homens nos agridem) a única regra possível seria expulsar, excluir o agressor. Como um pária mesmo. Esse texto foi gestado com acúmulos de fatos cotidianos presos na garganta. E antes que o acusem de ter algum teor vingativo, esclareço desde já, como disse recentemente: não é. O que clamamos é o mínimo de justiça.

O estopim para tudo que estava trancado foi uma amiga publicar nas redes sociais dela que havia feito o boletim de ocorrência e que aguardava a medida protetiva. Uma mulher linda, independente, de quarenta anos, vivida, experiente, feliz. Mais uma vítima. Na hora eu mandei uma mensagem pra ela em solidariedade. Revelei que há pouco tempo eu também havia sido vítima e que era belo ela sair por aí denunciando porque é essa vontade que dá – depois de sentirmos uma vergonha que não deveria existir. Trocamos algumas mensagens e aquilo me rondou por dias. Como ter sido vítima também vai me rondar o resto da minha vida. Bem que fez essa amiga em romper a esfera privada e levar a público a violência que ela sofreu. Eu não havia feito isso.

Em 2023, quando sofri ataques públicos, também violência de gênero, de pessoas públicas, tanto políticos quanto nobres cidadãos de Santa Catarina, e pelos quais até hoje sou vítima (será um capítulo a parte que será divulgado em outro momento), eu também vivi um relacionamento abusivo. De alguma forma, ter sido vítima da violência da extrema-direita e ser vítima de um homem comunista me fez ver o pior lado de tudo o que as pessoas discutem hoje. Mas, sou mulher, e sou mais forte que todos eles juntos. Vivi duas experiências inéditas, mas que de certa forma já haviam se anunciado antes.

Sofri perseguição política em ambiente de trabalho anteriormente. Vivi perseguição e violência de outros homens com quem me relacionei. Porém, nada com as proporções do que aquele ano me trouxe. Por isso, também, minhas ações foram outras. Pela primeira vez eu fiz um boletim de ocorrência contra os abusadores.

Vivo numa sociedade machista e Joinville é uma cidade que se orgulha de práticas ainda piores.

Eu não fui a primeira mulher vítima dos políticos que me atacaram – nem a última. Eu não fui a primeira mulher vítima do homem com quem eu me relacionei – temo que não sou a última. 

E é muito sobre não ser a última que carrego a determinação de escrever este texto, mais de um ano depois. 

As peças que se encaixam no quebra-cabeça criam imagens aterrorizantes

No último dia 8 de março, “Dia da Mulher”, me enviaram um post perguntando se eu sabia que uma conhecida colega professora de cinema da cidade estava no projeto de exibição de filmes do homem de quem fui vítima. Eu não sabia. Lamentei muito que uma mulher, que trabalha com jovens mulheres, esteja junto a ele neste projeto. O projeto, cabe dizer, na sua primeira versão, foi majoritariamente desenvolvido por mim, eu mesma fiz a inscrição por ele, no meu computador onde ele deixou salvo os dados de login. Sim, o abuso dele foi no campo pessoal e profissional. De perfil extremamente manipulador, com uma frustração muito grande por não se ver realizado na atuação na área do cinema, ele se aproximou de mim por isso, por também tirar vantagem do meu conhecimento e trabalho. Pelo menos fico feliz que hoje o espaço cultural no Aventureiro tem uma tela de projeção de cinema, item que eu havia colocado originalmente no projeto, para ser doado ao espaço.

Quando haviam, anteriormente, me procurado sobre este projeto que exibe filmes catarinenses eu fui objetiva e contei sobre quem se tratava. Recebi apoio e solidariedade de algumas pessoas que preencheram essas lacunas que a violência nos deixa. Inclusive estudantes de cinema, que em outras situações haviam sofrido violência, souberam do caso e me apoiaram. Eu sentia, e ainda sinto, uma necessidade muito grande de alertá-las para manterem distância daquele homem. Eu sei que não serei a última vítima. 

Dizer que anos depois do Me Too, de todas as denúncias e processos do Weinstein, estaríamos nós, aqui em Joinville, tratando de um abusador na área do cinema. De vez em quando me pego pensando nisso. Mas, tudo aquilo serviu para que possamos denunciar, possamos ter solidariedade umas com as outras, possamos apontar os agressores, possamos identificar o perfil do “predador”. Em alguns anos de atuação no cinema de Joinville eu posso elencar casos de assédio que soube que outras mulheres sofreram e posso contar alguns para vocês.

Trabalhei com um ex-aluno que também foi um abusador. Do perfil incel, afastava todas as pessoas que tentavam manter contato comigo, também se beneficiou do trabalho que eu desenvolvia, do meu conhecimento, e inclusive aprovou um projeto baseado em um conto meu, o Açúcar (na sua primeira versão). Após a série de violências que eu sofri e quando tentei me libertar da situação abusiva na qual me encontrava, cortei totalmente as relações e ele teve que cancelar a produção. Eu disse que eu não podia deixar a Elisângela (protagonista do Açúcar) nas mãos dele e foi uma das coisas mais acertadas que fiz na vida. Açúcar veio à vida por insistência do outro abusador, que sabia o que havia acontecido com esse ex-aluno. E, apesar das violências de ambos, eu e o Açúcar sobrevivemos a eles.

Teve um outro ex-aluno, que protagonizou violências dentro de sala de aula, repudiado por colegas e professoras, que fez questão de dizer que ninguém queria trabalhar comigo. Ele mesmo se contradisse tempos depois. Teve também um outro homem, interesseiro, o tipo amigão progressista, sabe? Mas assim que entrou num projeto como assistente de uma mulher, não se conformou. Enfim, não são poucos os casos.

Violência doméstica não é estatística

Eu não sou estatística. Minha amiga não é estatística. As mulheres que apoiam e tentam fazer que não vêem nossos algozes nos dizem com todas as letras que nossa dor não significa nada. 

Eu tive motivos, em outras oportunidades, de fazer boletim de ocorrência contra quem me perseguiu após o fim de um relacionamento (mudei de endereço, mudei de número de telefone, e só depois de muito tempo ele “sumiu”, mas até hoje a experiência da perseguição convive comigo). E ouvi tantos relatos, vi tantas notícias, que “naturalizei” homens perseguirem mulheres que terminaram relacionamentos! Não faz tempo esse mesmo solicitou me seguir no Instagram, pela milésima vez. Depois de vinte anos! Eu não fiz boletim de ocorrência quando um outro ex tentou “retomar” contato dois anos depois, quando eu descobri que ele estava mantendo contato com uma pessoa da minha família manipulando a situação como se um “nós” ainda existisse e compareceu a um evento atrás de mim.

Mas, eu fiz quando este homem, após meses de tortura, manipulação, violência verbal e psicológica, simulou um suicídio para me fazer ir atrás dele, mandando fotos, mensagens, fazendo ligações com ameaças, chantagens e manipulações psicológicas e emocionais. Nós não estávamos mais juntos havia meses. O relacionamento só existia na cabeça dele. Até aquele dia que eu disse isso, com todas as letras, e ele começou uma nova etapa no seu jogo de violências. Eu sabia que ele faria aquilo, havia compartilhado esse sentimento com pessoas próximas. Eu não sabia como terminar sem que ele não fizesse isso, visto que já havia ameaçado e deixado bem claro que ele era capaz. Mas, também isso era parte da manipulação.

Sim, ele simulou. A frieza com a qual ele manteve as mensagens manipuladoras, às quais eu só respondi quando decidi pôr um fim naquilo: entrei em contato com a família dele para avisar. Respondi às mensagens dele simulando que eu faria o que ele queria, para conseguir o endereço onde ele estava e passar a informação para a família dele. Eles que resolvessem. Contudo, após eu conseguir o endereço e enviar para a família, eles resolveram que não era nada grave e não iriam naquela mesma noite. Eu bloqueei todas as contas e contato com ele. No dia seguinte, um hospital de Curitiba (para onde ele havia fugido) me liga, pois ele tinha dado entrada lá e o único contato salvo no telefone (que não estava com tela de bloqueio!) era o meu. Sabe como ele foi parar no hospital? Quando eu disse que iria até ele, para ele me passar o endereço onde ele estava, ele saiu do hotel para comprar bebida! Essa foi a mensagem dele, “coloca o carro na garagem, ap XX, que eu vou sair pra comprar bebida pra gente”. 

Ainda tive a decência de enviar o contato do hospital para a família dele, e mantiveram contato até que, ainda no hospital, ele continuou com ameaças, enviou e-mails, invadiu o perfil da Cinemateca de Joinville no Instagram para me ameaçar e agredir. Quando insisti com a família que eles precisavam afastá-lo de mim, senão eu faria o boletim de ocorrência, recebi com ironia um “então faça!”. E eu fiz. Em poucos dias saiu a medida protetiva, e mesmo neste período ele continuou com a perseguição e ameaças. Felizmente, durante os seis meses da medida protetiva, ele não fez mais nada diretamente. Contudo, tentou usar o projeto de exibição de filmes para me atingir de alguma forma – sem sucesso. Todos que me procuraram e souberam dos fatos foram muito compreensivos.

Quão baixo um homem pode chegar para simular uma tentativa de sucídio para manipular uma mulher a “voltar para ele”? Mal saiu do hospital, publicou um textão no Facebook relatando a experiência colocando-se como vítima. Ninguém brinca com suicídio. Ninguém.

Ao contrário do que se pensa, a medida protetiva não é nenhum alívio. Pra mim, como contei à amiga e às pessoas ao meu redor, era um peso. Vivi seis meses tensa, com aquele papel na bolsa, celular sempre carregado para caso precisasse apertar o botão do pânico. Você vive dias atrozes.

Depois de conversar com a minha amiga, eu revisitei a conversa que tive com ele pelo Whatsapp. Fui com o coração aberto e fiquei feliz de ver que a Fahya nunca deixou de ser a Fahya naquelas semanas infernais. Enquanto atacada publicamente pela extrema-direita, na vida íntima lidava com uma pessoa asquerosa. Ele sentia algum tipo de prazer em me cutucar onde mais doía, inclusive com os ataques públicos. Ele também invejava tudo que eu tinha e quem eu era, na mesma época me candidatei ao Conselho Estadual de Cultura e foi mais um momento dele fazer arruaça. Inconformado por não me ver ceder aos ataques, inventou que sairia candidato ao Conselho Municipal de Cultura. 

Todas as características do manipulador. Do agressor mais vil, que usa tudo que conhece da pessoa para atacá-la e tentar subjugá-la. Ele não conseguiu.

Um covarde, como todos esses que dentro das casas e nas tribunas das câmaras que atacam violentamente as mulheres. Eles não suportam nos ver vivas.

Eles estão soltos e praticando seus crimes

E foi ontem, ao ver os vídeos da denúncia da nossa vereadora aos ataques que as mulheres na Câmara de Vereadores têm sistematicamente sofrido (há anos!), que eu entendi a emergência de publicar este texto. Os abusadores devem ser expostos. Quem dera houvesse uma lei que banisse um abusador de qualquer espaço público, de qualquer setor, de qualquer instituição. Nós viveríamos menos acuadas.

Se eu espero que o agressor da Câmara de Vereadores seja punido? Há algum tempo eu espero por isso, mas a hipocrisia e covardia de muitos vão protegê-lo.

Se eu espero que mais e mais pessoas saibam quem é o agressor que faz projetos culturais no cinema da cidade? Claro. 

Relembro sempre o apoio que recebi quando falei mais abertamente sobre o ocorrido. Lembro, também, de quem viu o story e em seguida veio perguntar quem era. Eu considerava muito essa pessoa, no pessoal e no profissional, mas tudo caiu por terra: ela não veio se solidarizar, era só buscava a fofoca. E era uma mulher. Por isso que esse relato não é sobre vingança. É sobre justiça e sororidade.

Pra colega professora que trabalha com ele, ou pra qualquer um de vocês que sabe de quem eu estou falando e convive com ele, peça para que ele devolva o meu livro que ele pegou “emprestado” e não me devolveu. O livro tem anotações de afeto, por isso é a única coisa que não resolvi de tudo que aconteceu. O livro é meu. Sim, ele também usou o livro para tentar me forçar a “encontrá-lo”, ao que eu não cedi. Então, se alguém encontrar com ele, pode dizer pra me devolver, pode pegar e me devolver ou dizer pra ele mandar pelo correio. Sem cartas, nem bilhetes, nem nada. Confio em vocês.

Por fim, trago esse relato como mais um alerta: nem sempre você sabe de qual lado político o agressor está. Violência contra as mulheres não é prerrogativa da extrema-direita. Então, para as pessoas de Joinville do campo progressista, vejam bem suas atitudes, repensem quem está ao lado de vocês na luta. O homem de quem estou falando frequenta esses ambientes, participa dos eventos, arregimentou pessoas da esquerda (inclusive mulheres!) para o projeto. Até quando vocês vão fazer que não veem?

Lembro bem de um comentário dele, quando eu me declarava feminista. Ele veio com aquele papinho do homem misógino da esquerda que a “causa” está se perdendo com essas lutas minoritárias, de gênero, de raça e tal, que devemos focar somente na “luta de classes”. Eu já conhecia o discurso, é claro, e mais uma vez ele não conseguiu me subjugar nem dizer como eu deveria agir ou pensar. Homens progressistas, revejam suas atitudes. Revejam como vocês passam pano para os seus colegas abusadores. Não esperem que eu fique ao lado de vocês na luta.

Para todas as mulheres que leram até aqui: que sirva de alerta, de força, de reflexão. Por mais mulheres que tragam à tona suas feridas, suas experiências, que relatem quais violências sofreram e como foram identificando os agressores, quais atitudes nos deram caminhos a seguir. A Fahya de vinte anos atrás precisava muito disso e não teve. As mulheres sempre foram silenciadas. Não podemos mais.

Para as vereadoras da cidade que continuam a sofrer, pela vereadora que sofreu violências (e ninguém saiu em defesa dela!) no mandato anterior e que foi solidária comigo, eu e ela fomos atacadas naquele plenário: estamos do mesmo lado, contra todos os agressores. Por mais mulheres na política, e enquanto isso ainda veremos muito macho tendo ataque de pelanca vomitando agressões, ignorância, mentiras e ódio. Ódio. Eles nos odeiam porque somos mulheres.

Sejamos, todos os dias, cada vez mais mulheres. Mulheres que se mantém firmes, felizes e seguem em frente. Que sejamos exemplos umas para as outras. Enquanto eles espumam o mal que trazem no coração. Porque algumas de nós não viveram para ser exemplo.

Ahora volví

Ahora volví

Y tengo todo eso

Mira

el mundo que se hizo abrazo

las miradas de amor

Vengo acá

Para te escribir

Que yo sobrevivi

Nadie lo supe

no es facil así

matarme

(ni mis sueños)

Yo soy una sobreviviente

yo hago sonreír las dolores

yo aplasto personas como tú

la mentira

la falsedad

la manipulación

el enjambre de abejas

No me tocan

Yo sobrevivi

Vuelvo acá

Sólo para decir:

yo sobrevivi.

Live

If it were love 

You should be mine

I was a happy woman

With no more than a smile

And an open heart

In the shining moon

I believed

All nights I was there

Thinking of you

My sadness partner

I was your friend

I was the best listener

You said goodbye

My moon and I 

Only an ocean between

Our souls merged

The shore is my friend

like you’d never were

The stars guide me

Through the sunny days

I believe in myself

I’m my very best confessor 

Above all I trust no one – but me and the moon

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