Vayate

Vayate

no quedaste aquí

vayate de mis pensamientos 

lo ruego a los cielos

quiero vivir

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Vayate

no tengo esperanza

solo traigo decepciones

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tu no tuviste coragem

y yo que temí?

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nunca olvides

las miradas, las palabras

el abrazo

lo tanto que nos traicionamos

lo tanto que no hemos dicho

lo tanto que nos queríamos

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Vayate

ya esperé demasiado

Nevoeiro

Hoje os barcos não saíram para pescar. O temerário, só um, é verdade, navegava próximo à praia. Na cidade o sol cegava. Lá nem se teve notícias do nevoeiro. A angústia do olhar de mar que não via o horizonte, nada além de umas braçadas. O dia acordara mesmo sem escolhas: ou se ama, ou se ama. Quem conhece os humores do mar sabe que ele não estava para brincadeira, hoje era dia de discussão profunda. Poucas ondas, maré de ressacas do frio, uma superfície calma, diriam os ignorantes. Não é bom ignorar os humores do mar. O mar não é traiçoeiro nem engana, essas acusações são dos que preferem culpar os outros pelos seus erros. No amor, não há espaço para culpas. O mar dizia bem claro como ele estava, cada um na sua. Os pescadores à janela testemunhavam o nevoeiro adensar e adentrar as ruas e casas, fazia tempo que algo assim não se via. Era temporada boa de pesca, noites seguidas de muitas luzes no horizonte, redes espalhadas pelos dias de sol e seca. Você nunca pode contra o amor, tal qual o nevoeiro ele chega e muda a vida das pessoas. Assim como não é possível obrigar ninguém a amar o mar. Tarde da noite o nevoeiro foi se transformando em gotas que umedeciam os telhados, as redes da varanda, os carros fora da garagem, o mato do quintal. Gatos contrariados procuravam abrigo nas casas desabitadas. Em algum lugar está escrito que não se ama em vão – mesmo quando o desejo por alguém não é correspondido. Parece que há uma lei no universo abençoada pelos astros que confirma que ninguém pode ser forçado a retribuir o amor. Quase não havia faixa de areia na praia dos pescadores. Na praia ao lado havia areia e os caixotes (alguns chamam de lar) que o motor destruidor do ser humano constrói nem eram avistados. Bonita paisagem. Recorda aquele livro no qual eles partem num barco e ao naufragar vão parar numa ilha deserta e lá criam uma nova sociedade. Uma ilha deserta, o sonho dos amantes. Viver numa ilha, só apaixonados entenderiam. A cidade tem o poder de destruir sonhos e poluir os pulmões, não é recomendável. O nevoeiro trouxe apreensão, as aves voavam baixo, as tartarugas não apareceram. Os mais antigos se recolheram cedo, diziam ser mau agouro um nevoeiro assim, que boa coisa não viria, ou do mar, ou do céu, ou do coração. E as famílias já acuadas pelas tragédias da natureza fecharam as portas e janelas mais cedo. O amor se embrenha pelas frestas, encontra um canto quentinho do coração, busca um espaço confortável nos pensamentos. Quem planejava banhos de mar ou nadar até as pedras teve que se contentar com mirar a água límpida. O mar estava mais gelado que a alma de quem ama sem esperança. O amor aprende a esperar. O nevoeiro levou as crianças ao choro, ao leite quente e a irem para a cama mais cedo. Crianças antecipam as desgraças, seus corações são puros porque não conhecem o amor – só a necessidade. Crianças não são fruto do amor. Há quem olhe e não veja o mar. Há quem não veja poesia no nevoeiro. Há quem diga que ama, sem amar a si mesmo. Amar é um exercício cotidiano. Amor é uma vida, precisa ser alimentado e cuidado. O mar, hoje, casou-se com o nevoeiro numa ironia do destino. Passaram o dia e a noite a discorrer em falatório sobre as incertezas e inseguranças de nós que habitamos a Terra. Concluíram que são todos muito tolos. Tão tolos que não sabemos se amanhã amanhecerá com sol ou nuvens ou chuva ou se o encontro deles ainda não terá terminado. Nem o casamento do mar com o nevoeiro dura para sempre. Amor nenhum dura. O nevoeiro, porém, teve que concordar que o mar é o melhor amante. Amar é saber dar-se. Apaixonar-se pelo mar é inevitável para as almas solitárias e donas de si, é um amor que baliza o amor ao próximo. Amar nunca é errado. Já dizia o livro sagrado que fomos feitos para o amor. O mar é o templo. O nevoeiro, hoje, fechou as portas do mar porque precisavam, juntos, dizer algumas palavras aos corações apaixonados. Amar é só para os corajosos.

Medo

Solidão

perfaz o reflexo

do que tanto atrai

É o medo

que fala por eles

no calor do impulso

refreado

Ela é temida

Ou eles 

têm medo?

Fosse fraca

frágil

submissa

a força deles se assumiria

Ela é forte

inquebrável

autoritária

dona (como a canção)

Solidão

Capítulos reprisados

daquela novela

o que tanto atrai

afasta – dá medo

Troco de canal

no anseio de um filme:

lindas e fortes mulheres

no final feliz eles as dominam –

igual nos meus romances 

da adolescência 

Não professo essa fé.

Vencido o medo

eles se acham os galãs

(Tyrone Power que os perdoe)

e tentam destruir

o que tanto os atraiu à chama

Perdem

perdem e saem feridos

– veem ruir a idealização

de si mesmos

Nunca é sobre ela

Solidão

sempre opção

– não por falta de opção

O medo

a ferir seus egos

Ela livre

jamais suportarão

Solidão

a preço de ouro

para conquistar seu coração

Em busca dos versos perdidos

Eis que no bloco de anotações consta: poesia. Relevante: entre tudo, eu penso e agendo que preciso escrever poesias. Hoje, porém, não é o caso. Sinto versos e caminho em prosas. Piso na areia e arrasto a alma pelo asfalto. Vejo a vida a rir de mim e retruco num impulso: há método na loucura. Estou hoje aqui e amanhã estarei longe – vá me encontrar pra correr beiras-mar e beiras-rio num suspiro de manter-me viva. VIVA. Cadê a poesia pelas esquinas? Cadê a graça em cada linha? 

Cadê as garças sobre os troncos de árvores, a lagoa poluída da minha infância, as tartarugas a jantar antes do sol de pôr? Estão aqui nesses olhos que não saem do mar. Meus olhos de mar a prometerem nada além do que o horizonte e o futuro, dias de ressaca e de vez em quando alguma calmaria – a ser implodida em dias de tempestade severa e raios e trovoadas. Não sei ser pouco, não sei ser contida, não sei não ser eu. Eu assumo o que sinto – dor maior no mundo não há. Quem não assume o que sente, vive escondido, se consome e definha. Vê?: é a felicidade logo ali ao alcance (só precisa assumir o que sente). Estrada pouco trilhada, essa. Somos poucos, caminhamos devagar e, roucos, não nos fazemos ouvir. Bebemos, é certo, para manter o equilíbrio – Aristóteles, você não me sai do pensamento. Eis a felicidade lá, tão certo, no meio-termo. Talvez, quem sabe, a balança esteja desregulada. Há método na loucura. Percorri despedidas antecipadas e quero viver como rainha – mentira, sou só eu quando descalça e de maiô, nem lenço nem documento só a alma a abençoar. Hoje acendi uma vela e foi por mim. Estou viva, parece. Não se acendem velas somente para os mortos. Acendi vela e fiz minhas preces, não sou o Papa para pedir que rezem por mim – afinal, até isso sou eu mesma que faço por mim. Coleciono versos impublicáveis e declarações em atos. O mundo dá voltas, quem perder essa não entra na próxima e estará condenado a viver a mesma volta para todo o sempre. Sei lá, não faz meu gosto. Os dias a conta-gotas em trânsito parado e a rotina a pauladas. Mircea, me ajude. Martelar as obrigações num coração felino é abrir as portas do inferno. Como jogar a chave da razão fora e abraçar Cérbero e lançar mão do método da loucura e dizer: sou maior e mais forte que isso. Bate, que eu não apanho. Eu revido.Se tenho tudo, busco lábios em paixões à queima-roupa em novos corredores. Não sei ser pouco – nem oco. Azar no jogo… sorte e juízo, enfim, fizeram as pazes. Percorro lembranças em praias, canções, fotografias, sentimentos adormecidos e tenho feito as pazes. Paz no presente encharcada de eu em paz com o passado. Previsões me dizem que sairei machucada – um arranhão é sempre um arranhão. Revi meus erros, a dor é menor para um coração que não se anula. Fiz juras que dessa vez seria diferente – gargalhadas se ouvem lá dos céus que a tudo testemunha. O medo abriu a porta e instalou-se confortavelmente na poltrona principal, não queria sair e esfarelou minhas bases mais experientes. Foi a lua cheia, quem sabe, a esperança, talvez, o coração sonhador, peut être, e o medo fugiu no rastro de um choro doloroso e pungente – como nunca antes. E falta poesia. A poesia espanta o medo e seca as lágrimas. Sem versos tomba sobre os olhos a lista dos afazeres atrasados e as cobranças na caixa de entrada. Viveria no mundo das ideias sem muitos problemas, adiando o fim do filme sobre o fim do mundo. Acreditar em amor, numa hora dessas?! Não fode, Coutinho. E tudo recomeçou com os versos de uma canção no rádio, numa tarde perdida numa semana sem fim. Tão doce reencontrar a poesia em meio ao afogamento da cidade insensível. Vais entender: há método na loucura.

Vem

Vem

ser feliz até onde a vista alcança

Vem que eu sou boa de improviso

Faço versos que deixo em cadernos

longe do coração dos moços

São sensíveis e desconfiados

esses homens criados no mundo

feroz feito à imagem e semelhança

de seus pais

Vem que eu sei onde o mar termina

eu sei encontrar ouro na mina

eu domino a arte de sorrir

pra te ver feliz

Você vai me odiar

Você vai me temer

Vai tentar fugir

Vai

vai, porque voltar é mais fácil

lembra: não faço promessas

Eu sou boa em te deixar confuso

solto a corda e em pouco tempo

te afundo em incertezas

jogo as cartas na mesa

A próxima jogada é sua

nos restam algumas rodadas

tenho tempo

é meu mais precioso bem

vem

roubo pensamentos

rogo pragas

jogo bem – nem graça mais tem

vou me aposentar

Vem

olhar horizontes de quem

não procura mais emoções

por experiências e solidões

Sou boa em dar o que não tenho

ofereço sonhos

de brinde tens minha sinceridade

sei uma dúzia de coisas da vida

te digo: não dói mais

Vem

Vem sorrir junto

deitar na areia

ralar o joelho e cair

dar as mãos e seguir

Vem

não tem sentido

a cada passo

te conto um segredo

até desnudar a alma

e vesti-la

de abraços teus

vem.

Anotações de versos para uma composição

(À moda da bossa nova)

Seus olhos ao cruzarem

com os meus e naquele olhar

a promessa ficou

Desfiz semanas em novelos

de dias contados

à sambas à beira-mar

Em euforias e tanto

de silêncios 

o som das ondas

Os moços ao mar, ao longe

próximos da ilha

namoram ondas que nunca virão

Você, meu amor

não veio, de novo

Nada de beijinhos, carinhos

só vislumbro um fim

O mar caliente

gelo se desfaz nos oceanos

destruímos o mundo

no outono o mar tão calmo nunca vi

transparente até às oito da noite

e eu e minhas ilusões a sós

Encerro meu show sem bis

o amor que não se deu

na arena do conflito

qual a cor dos teus olhos?

Conto não mais semanas

é mês e mês 

e esse amor que percorre

farol, molhe e rio

em passos silenciosos

Mal nasceu é algo de amor

Sem dar 

Sem ser

Exausto dorme em paixão

E brasa

São as águas

de além de março

noites e filmes

bonito ver

o sol nascer

em gritos de ansiedade

controlados

Disfarço

é muita mentira

negar e fingir

foi em dia de ressaca

que o amor virou

pois é

só eu sei

Melancolia e tristeza

dor cruel que me acorda

às três da madrugada

e triste enxoto a paixão

lá vou eu de novo…

(Busco versos melhor inspirados em dias de ressaca, de mar tumultuado e decisões que custaram a ser tomadas. Quem sabe a bossa não caiba ao tamanho dos versos e dos segredos.)

Não sei preparar café

Eu não sei preparar café. Sem dúvida que fica mais bonito em espanhol (tudo fica mais bonito em espanhol) e numa canção da Shakira. Não saber preparar café tem selado meus dias. Não nasci para beber café ruim. Aliás, faz dois anos que comecei a apreciar o café e a relação nasceu forte com um café irlandês numa cidade linda da América do Sul. No cotidiano, já comprei cafés estrelados e erro a quantidade absolutamente todas as vezes. Relações são assim, quando temos que falar de dois é melhor começar por si mesma. 

Faz tempo que entendo de futebol, é uma herança. Há alguns dias voltei ao velho hábito de usar relógio – as horas me interessam, o tempo é meu mais velho e fiel amigo, cada minuto num relógio bonito faz com que pensar em você seja algo menos obsessivo. Comigo nada é fácil. O tempo passa, já passou demais, às vezes penso: vai passar indiferente aos desejos.

Como deve ser bom saber preparar café. Hoje ainda lembrei da Dona Florinda (ela que sabia das coisas), eu nem sei convidar pra um café – logo eu que já amaldiçoei os convites para tomar café. Bem, tenho uns filmes bons pra assistir. É só o que tenho pra oferecer, mas garanto que tomo banhos aos domingos. Jamais deixaria de tomar banho criando versos apaixonados depois de uma longa caminhada para colocar os pensamentos e angústias em ordem.

Pelo menos agora, com o aquecimento global, deixamos de chorar uma vez ao mês. O frio acabou – não confunda, o frio acabou, a frieza das pessoas segue firme. Tenho dormido às dez uns dois dias por semana e nos outros tenho trabalhado em três turnos até às 23h. Os deuses do sono me acordam pontualmente às seis da manhã para uma oração – sempre fui fiel. Comigo nada é fácil. Trabalhar me afasta das insatisfações e as insatisfações no trabalho me fazem produzir mais. É um jogo nada fácil.

Claro, ainda respiro. Todo dia, por cerca de uma hora, tenho focado apenas no fato de que eu ainda respiro e não posso deixar de fazê-lo nem por um segundo. Tenho me empenhado em dominar o dom de prender o ar – tudo muito incerto por enquanto. Queria, quem sabe, perder o ar. Pela primeira vez na vida fiquei nervosa, foi inevitável. Vou ver o que fazer comigo, afinal por aqui nada é fácil.

Enfim, é só questão de confessar. Não sei preparar café. Ninguém pensa em você como eu. Tristeza maior é tudo isso ficar tão ruim em português. Não sou Shakira, mas, se der bobeira, saco uns versos brotados de desilusões de amor. Deus abençoe as desilusões de amor. 

Las lobas siguen enamoradas

Duas das últimas obras lançadas que me fizeram feliz foram o “filme” da JLo e o álbum da Shakira. São duas latinas às quais eu acompanho a carreira (sem nenhum vício deselegante) e gosto do trabalho. Ambas abordam os mesmos temas nessas obras que é a mulher “madura”.

E hoje é sobre isso. Sobre termos produções culturais e artísticas para um público muito específico que é o da mulher independente adulta além 30 anos. Fiquei pensando por quanto tempo, ao longo da História, faltaram produções que fossem destinadas a mulheres acima de 30 anos que encaram a vida longe da perspectiva que nos destinaram a essa idade (marido, filhos, estabilidade mental e financeira, dona de casa ou carreira em dia). Mesmo para as mulheres que tenham caído no conto de fadas, por volta dos vinte e pouco anos, de vida feliz com marido, filhos e dona de casa ou carreira estável (tendo tido ou não a chance de estudar), a casa dos trinta pode ter trazido novidades – o conto era de fadas mesmo e o príncipe era um vilão, os filhos dão trabalho e crescem e têm suas vidas, por vezes ela era dona de casa para dar conta do maridão e dos filhos e numa separação teve que se ver sozinha, sem estudos e sem profissão, a correr atrás do prejuízo. 

Quem nunca assistiu a filmes, séries, leu livros sobre homens e suas eternas crises, dos 15, 18, 20, 30, 40, 50, 60, 70, 80… até parece que homem vive em crise, né? (não sou eu que estou dizendo)

Mas a mulher com mais de 30 é uma pessoa muito especial. E para aquelas que ainda não passaram por nenhum processo de transformação na casa dos trinta, já aviso: ele virá. Sei lá, a mulher balzaquiana é clássica, mas é escrita por um homem, né? 

Os trinta, nas vozes da JLo e da Shakira, é sobre mulheres muito fortes – e fracas. Elas conseguem revisar suas fraquezas. As mulheres que se transformam aos trinta sabem no que, quando e com quem erraram – e se perdoam por terem errado porque o “erro” é parte da nossa jornada, quando erramos não fomos as únicas protagonistas da história e não havia ninguém nem nada que pudesse ter previsto o que nos traria essa experiência. Durante os vinte nós podemos (e devemos!) errar. Depois dos trinta também erramos, só que de forma diferente – até o limite que nos damos permissão para errar. Até o limite de entender como fomos condicionadas a interpretar diversas situações que antes não eram tão evidentes e as quais ninguém se deu ao trabalho de nos explicar – mesmo que tenhamos lido ou ouvido falar, quando passamos por essas histórias é muito diferente.

Ao contrário dos homens, que aparentemente têm crises a cada cinco ou dez anos desde a tenra infância, as mulheres não têm tempo nem são autorizadas pela sociedade a ter crises. Às mulheres não é facultado errar, afinal desde cedo elas já são programadas para serem boas filhas, boas alunas, excelentes donas de casa e mães, e serão modelo de esposas – ah, e se der tempo e todas as convenções da sociedade permitirem, também devem ser profissionais zelosas (mas sem muita ambição, porque isso está destinado aos homens). Muitas de nós acreditam nessa programação em vários momentos da vida. Todas nós já nos vimos nesses papéis em diversos momentos da vida – como boas filhas, como mães, como esposas, donas de casa, etc. – por pressão externa ou interna. Algumas de nós, contudo, não se resignam a eles e, por vezes, buscam algo além.

Ou, como nos mostram JLo e Shakira, aceitamos esses papéis – e lá vem os 30 + a nos dizer que podemos nos reinventar, que o conto de fadas acabou, que as felicidades inventadas não sobrevivem, que é possível sermos nós (e tantas outras). JLo me impressiona, ao contrário do que normalmente as pessoas e a imprensa falam (que se impressionam pelo físico dela para a idade que tem – sim, 2024 e ainda falamos disso), por ser uma mulher que ama. Isso, a frase acaba aí. Uma mulher que ama. O que a idade tem a ver com isso? Qual a lei que diz que aos 30 + não podemos amar como aos 15 ou 20? (quando eu passar dos 40 + eu voltarei a escrever sobre isso) Para uma mulher que ama, o amor não é diferente em nenhuma década da vida. O amor é sempre amor, a paixão também. 

O início e o fim do filme da JLo são muito marcantes, sobre sempre ter desejado ser apaixonada e terminar numa bela sequência, cheia de referências, sozinha e cantando na chuva. Aliás, tenho me pegado pensando bastante sobre a solidão – um dia escreverei um tratado. Uma mulher sozinha é sempre vista com pena, é condenada, pelos olhos alheios, a ser triste. Já vi muita jovem de – 20 desesperada por “ficar sozinha” e me afligi demais por elas – por outro motivo. Como continuamente nos fazem crer que ficar sozinha é algo tão ruim! (seria uma ideia fabricada pelo patriarcado para que sempre busquemos homens, aceitando qualquer relação, qualquer um? mera reflexão) É por temer ficar sozinha, por se angustiar em não representar o que esperam de nós, que a mulher busca relacionamentos de forma inconsequente. Em algum momento eu espero que toda mulher tome consciência disso.

Depois dos 30, é uma vantagem apreciar a solidão. Sobre amar depois dos 30, a pessoa precisa entender o quão privilegiada é de partager* a nossa companhia. Não é desespero, não é falta de opção. Querer a presença de alguém que rompa a nossa relação (mesmo que por algumas horas) saudável com a solidão é um privilégio e um prêmio que a mulher de 30 + dá a algumas pessoas. Eu sugiro não desperdiçar.

Com minhas amigas sempre brinquei sobre o “controle de qualidade”, é preciso ter um controle de qualidade – e aí ou você é muito exigente (já me acusaram muito disso) ou você acredita demais nos seus parâmetros. JLo e Shakira me falaram sobre tudo isso, sobre passar dos trinta e tomar consciência de que “erros” não são erros, que acreditar é um dom do ser humano, que sermos enganadas, manipuladas, agredidas são consequências de quem os outros foram conosco – e não é culpa nossa. Porém, mesmo que a gente não use essas experiências para ganhar (mais) alguns milhões, que saibamos ter a coragem de nos permitir amar – de novo. 

Como diria a protagonista (Binoche, mon amour, quelle merveilleuse actrice !) de La passion de Dodin Bouffant, eu me sinto no Verão da vida. Sei lá, isso de estar no Outono da vida é coisa para homem na crise dos quarenta ou cinquenta anos. O filme é encantador em vários sentidos – e para os sentidos – e abriga uma personagem perspicaz. Ela nunca aceitou casar, assumir o relacionamento (e o filme não está preocupado em aprofundar isso – eu gostaria) e se manteve fiel a ser fiel a ele. O mais encantador é a Fotografia e a Direção se aprofundarem nesse deleite que é o Verão da vida da personagem, não importa a sua idade. Depois de tanto falar aqui em 30 +, acho que é isso: o nosso Verão dura muito mais do que querem nos fazer crer (do que sempre nos fizeram crer, até a biologia).

Como Eugenie, também amo o Verão (mas concordo com Bidon sobre apreciar a mudança das estações). O Verão é essa estação que nos faz sempre querer estar em movimento, em aproveitar a vida, nos faz querer amar, o sol dá vida aos dias e convida (a uma caminhada na praia) a viver. O desafio é não nos resignarmos a entrar no Outono (ou, pior, no Inverno) da vida porque todo o mundo nos incita a isso. Se ela já tivesse casado, talvez visse a vida com os olhos dele e já tivesse perdido o seu Verão?

Algumas das canções da Shakira me permitiram rir de desgraças do passado – e, quem sabe, olhar com doçura para o presente. Depois dos 30, se não soubermos manter o bom humor vivo seremos (ainda mais) facilmente tachadas de mal-resolvidas, frustradas e (jaz aqui um termo que eu jamais usaria). A sociedade, além de não produzir obras e entretenimento para mulheres com 30 +, ainda persiste em nos tratar pejorativamente desde conversas de bar até comentários informais. Em outros tempos era também mais difícil para mulheres artistas com 30 +, visto que elas eram obrigadas (não que isso tenha acabado) a manter a persona da jovem mulher. Sabemos, inclusive, as consequências disso para muitas artistas do passado e de hoje.

A vida, enfim, é feita dessas pequenas alegrias, de, enquanto mulher com 30 + encontrar obras e artistas que ecoam em mim. O que torna ainda mais próximo é ver a relação dessas obras com suas autoras, em como elas se permitem abrir a vida e escancarar as experiências – porque sabem que não estão sozinhas e, de certa forma, nos dizem que nós também não estamos.

Sei lá, está chovendo e a vontade é sair caminhando pelas ruas, igual a JLo, com o coração leve, a vida plena, a segurança (que só o pós 30 nos dá) dos atos, palavras e experiências e com a certeza de que querer ser apaixonada, pela vida inteira, é uma excelente escolha.

(a inspiração da Shakira virá num próximo texto e, sim, tem a ver com café – pra completar que muitas de nós não precisam passar dos 30 para saber quem são)

* compartilhar: depois das redes sociais não consegui mais gostar desse verbo, prefiro em francês que fica mais bonito.

Abismo

Todos los miércoles tengo una cita

Con el viento

Él viene del sur

Y yo vengo del norte

Nos quedamos en la playa

Nos calentamos en el mar

Es vida, es amor, mi gran pasión

Veo el abismo

Pero yo, a mi me gusta el riesgo

Lo sabes, no?

Hermano, te he compreendido

Ahora, se me lo permites

Voy a ser un poco de ti hasta siempre

Fue en aquél ciudad

El juego y la pasión me han dominado

Hasta ahora me pregunto

Pero lo sé

El tiempo es mi mejor amigo

Hermano, perdóname el retraso

Tenemos tiempo y tu lo sabes mejor que yo

Me he dado cuenta

El abismo, el peligro

Lo riesgo

Es cómo la llama acesa

Me tragam el interés, la pasión, la vida

Tu eres un riesgo y sólo lo quiero, por ora

Lo sabes muy bien

Sólo mi hermano y yo lo sabemos

Es el motivo de no quitarmos el amor de nuestras vidas

El amor es siempre un riesgo

He decidido poner un fin a la ilusión

Por la mañana pienso que tu no piensas en mi

Luego llegó un mensaje

Sí, no eres indiferente 

Tu piensas en mi

El amor es siempre un riesgo

Pero no toda vez es amor, el amor

Por lo menos, puede que sea deseo

Y nada más

Te traigo muy cerca del pecho

Voy a poner la camisa

El corazón despierta 

En cada cerveza

En cada esquina

En cada palabra

Y hasta la memória

Yo lo sé

No hables mal del tiempo

Yo lo defendo 

Es más un riesgo

El amor es siempre un riesgo

Tengo ganas de mirar abajo

Al abismo

Venga

El amor es siempre un riesgo

No me lo arrepientiré

Cartas na manga

Cada escolha revela um pensamento, por vezes uma intenção. O vestido é sempre escolhido baseado em detalhes e critérios que conjugam os compromissos, a viabilidade de sucesso do dia, o destino que assombra, as possibilidades de felicidade (mesmo que egoístas), as lutas e batalhas a serem encampadas, os inimigos à espreita e até mesmo o desejo – seja ele de quantas tonalidades for.

Escolher o vestido é desafiar-se a traduzir numa linguagem que pode passar despercebida toda uma personalidade e uma vida, é ter apenas alguns tantos de algum pano a enviar mensagens e declarar guerra – ou paz. Por vezes, o mesmo vestido pode dizer algo diferente, conforme os acessórios, o dia, a lua, a estação e até mesmo, jamais ele não dirá nada.

É como encampar um diálogo com o mundo, sem palavras ditas, contudo que calam mais do que gritos. Gritos. De onde quer que venham os gritos. Há uma eu que quase ninguém conhece e que graça teria a vida se fosse tão fácil assim conhecê-la. E desse quase ninguém há poucos sobreviventes. Para lograr conhecer alguém há que se ouvir os diálogos sem palavras, há que se aproximar de quem ela é quando não há ninguém a testemunhar seus atos e pensamentos. Deus foi tão grande quando não permitiu aos humanos que lêssemos os pensamentos uns dos outros! 

Até mesmo quando a escolha não é um vestido ela emite sinais sensíveis ao tato e ao olhar mais apurado. Porém, não é possível tocá-la. As traduções simultâneas são da pior qualidade, sempre com impressões deturpadas pelos olhos que a vêem. Consolida-se o fracasso do diálogo humano tão ressecado ao hábito do bê a bá.

Como o Destino não se pronuncia quando dará o ar da graça, só me cabe tecer inúmeras estratégias em cada passo, em cada olhar, em todas as escolhas e, por vezes, ter vestidos como uma boa jogadora têm cartas na manga.

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