Quem acredita não discute?

Esses dias mudei minha mesa de refeições de lugar, coloquei-a junto à janela. Moro sozinha e na maioria das vezes faço as refeições sozinha, coisa que eu realmente abomino. Às vezes perco até a vontade de comer só de me imaginar ali, comendo sem ninguém com quem dividir o momento. Às vezes como em frente ao computador (péssimo costume), só para não reparar que estou sozinha. Não me incomodo, de modo geral, em estar sozinha, até gosto… mas as refeições… por isso agora tenho a companhia de uma vista extensa, bonita e variada para as refeições. É ali, agora, que sento e fico pensando na vida, nas janelas, em coisas boas e ruins, apesar do esforço que tenho feito para pensar só coisas boas.

Coisas da vida, ando relendo alguns textos, lendo outros que eu não conhecia e me deparando, finalmente, com questões interessantes novamente. Ao mesmo tempo, estou muito ligada à campanha política. Não porque eu gosto, ou porque tenho algum candidato. Mas porque a decepção é grande, porque não acredito em como as pessoas “pensam” (no sentido de que quem deveria mesmo pensar se mostra alienado), porque não me conformo com quase nada, muito menos com a ignorância. Tanta mentira nessa campanha, e alguns não vêem, os outros preferem fazer que não vêem. Alguns poucos acham que vêem mais que os outros “aquilo que a mídia não mostra”, “aquilo que o povo não sabe”; menos ainda, raríssimos, os que ficam ali, vendo tudo, comentando, lamentando, fazendo seu pouco, labutando e pagando os impostos, inconformados com o rumo de tudo mas que não levantam sua voz e seu poder.

Difícil ficar insensível a tudo isso, pelo menos para mim. Num programa qualquer de TV tinha um personagem que dizia “eu sou uma esponja absorvo as coisas e os outros”, e eu, como boa pisciana além de tudo, vou absorvendo como uma esponja, me enfurecendo, me decepcionando, discutindo, me indignando, altos e baixos hiper polarizados. Diante de tudo, sinto falta de uma coisa fundamental (que é o up da vida, que sempre me motivou, me mobilizou, que desde pequena eu ouvia “lá vem a Fahya…”): discussão. Não, não o bate-boca, por favor, que disso tenho um pavor absurdo (tal qual de casamento! E não é pra menos que os dois andam juntos, né?). Discutir idéias, ideais. Quando cada um apresenta os seus e as suas, e ninguém precisa convencer o outro, nem catequizá-lo, nem destruir os argumentos do outro (sim, discussão é apresentar argumentos). Sinto as pessoas aferradas as suas idéias e aos seus ideais, sem se disporem a discutí-los. O seu candidato é o melhor? Por quê? Mas chega nesse ponto as pessoas ridicularizam o “outro”, não se valem de auto-crítica, nem de crítica, falam (quando falam…) cegamente daquilo no que acreditam.

E assim eu chego ao que me deixa aterrorizada no momento: as crenças. Para dar um exemplo na nossa política, em 2002, na campanha presidencial, Lula pedia que acreditássemos. Era nisso que ele insistia nas imagens tão belas produzidas por marqueteiros. Eu acreditei, votei nele acreditando, cegamente disseminava essa crença, era repudiada por uns (minha mãe inclusive), era ouvida com desconfiança por outros (meu pai inclusive), era desenganada por uma (minha irmã), cegamente, nos meus dezesseis anos (fiz meu título porque queria votar) tão bem vividos, eu acreditava. Passou um ano, estava lá no terceiro ano do ensino médio, quando um professor de História (tive os melhores!) pergunta para a turma numa manhã cinzenta: por que o Lula, agora como presidente, não está cumprindo o que fez muitos acreditarem? O silêncio na sala, eu ali na última carteira do lado esquerdo, junto à parede me remexia. Nunca fui de levantar o dedo para falar durante uma aula, prefiro sempre ficar quieta na minha, exceto meus momentos de revolucionária (o que alguns confundem com revoltada). A turma não era politizada, longe disso, só pensavam em celular (na época eles eram um sucesso, ainda na coisa de mandar sms), nesse, naquela. Eu levanto o dedo e respondo: porque ele não mudou o sistema econômico do país. O professor, uma figura (!), vai até perto da minha carteira, feliz da vida com a minha resposta e diz: isso mesmo! Ah, eu casava contigo! (viu, tenho motivos para ter pavor de casamento! Esse é só um, mas a lista é grande! Traumas e mais traumas desse tipo!) Este professor, ex-aluno do Fernando Henrique Cardoso na federal do Rio de Janeiro, fez diferença na minha vida, como todos os meus professores de História, mas infelizmente não lembro o nome dele.

Sim, ali eu já ficara temerosa por ter acreditado. E os anos seguintes confirmaram isso, grande foi a minha decepção ao acompanhar todo o mensalão, as declarações estapafúrdias do nosso presidente aqui e no exterior. Eu não conseguia mais acreditar. E hoje não consigo porque sei que não há um sucesso econômico, há apenas uma liberação de crédito para as pessoas se endividarem com a compra de computadores, carros (e reclamarem, portanto, do trânsito), celulares… Enquanto as taxas de analfabetos e analfabetos funcionais continuam nas alturas. Esse país ainda vai sentir o choque dessas dívidas acumuladas, não pagas, dos empregos péssimos, da falta de educação. Uma máquina administrativa que cresceu uns 200%, que tem impostos dos mais altos do mundo, que não tem educação nem saúde. Não falo por falar, por ouvir dizer. Não é a UNIMED de muitos que traduz o real estado da saúde por aqui, nem as universidades federais de excelência. Os médicos são mal formados, inexperientes, não conseguem dar um diagnóstico, isso porque a maioria vai fazer o curso de Medicina por status, por dinheiro. Os professores nas universidades vivem viciados na rotina de ganhar muito bem para uma vida aniquilante em sala de aula, e assim empobrecer e sucatear o ensino com atestados, faltas, conhecimento pífio.

Tenho muitas críticas a fazer ao governo do Lula, sem dúvida, com fatos e dados (não os estatísticos, porque não entendo números), com experiências. Não acredito mais. Tenho críticas da cegueira que abrange o país todo acerca do patrocínio dele para a candidata Dilma. E uma crítica a ela: no início da sua propaganda na TV ela falou que não era experiência que governava um país, que o governo do PT tinha descoberto que era preciso “paixão” para fazer as coisas. Paixão? Sim, eu pergunto, paixão? Antes era acreditar, agora é paixão? Eu não acho a Dilma a pessoa mais passional desse mundo, muito menos dessa campanha.

Sabe, talvez só porque eu não tenho mais dezesseis anos, talvez porque eu tenha me desiludido, talvez porque hoje desconfio muito mais de tudo e de todos. Mas pedir que eu vote na “paixão” é me chamar de burra, no mínimo. Sei de muita coisa que a paixão é capaz (ah, como sei…), mas também sei que só acreditar não basta. Menos ainda que acreditar, sei que paixão só não basta, não basta nem para um relacionamento, quem dirá para um país.

Não encontro ninguém que queira discutir essa “paixão” de que fala a candidata da maioria dos brasileiros. Ninguém que queira discutir a formação e o passado dela, suas crenças. As pessoas acreditam, cegamente. Sei como é, já passei por isso. Pena, nessa vida, que aprender com os nossos erros é ainda (talvez) a única forma de cairmos na realidade. Um dia esses aí também cairão. Mas até lá pagaremos todo o preço. Pior, que eu sinto muito mesmo, é não poder sequer discutir com essas pessoas. Discussão, lembrando, nos termos que citei acima.

Lamento, lamento muito esse país. Lamento ver o que me assusta. E muitos por aí reclamam do “tempo da ditadura” (sabe, às vezes penso que eles sentem falta daqueles tempos! E correm para uma nova, nosso presidente já “assinalou” isso…), durante o qual havia censura, perseguição; hoje não há e eles preferem ficar calados, cegos.

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