Da Bahia à Patagônia. Um dinheiro, uma câmera, um carro.

Eu poderia mudar o mundo. Eu, um carro e uma câmera (com algum dinheiro) poderíamos ver aquilo que não vemos. Aquilo que as telas e quadros escondem. Eu poderia seguir adiante temendo não poder voltar. Ou eu poderia seguir adiante não desejando voltar. Eu poderia desejar minha Piedra Sola lá no Uruguai ao ver este mundo daqui, ao ver meus sonhos e ideais ruírem. Eu poderia me aposentar, plantar batatas no alto do Maciço. Eu poderia pescar e caçar para me alimentar, me exilar. Eu poderia ir às ruas, gritar, esbravejar. Eu poderia tentar falar com você. Eu poderia tentar ver, tentar enxergar, tentar pensar. Eu poderia somente desejar. Ou eu poderia amar. De tanto tentar complicar, eu poderia apenas simplificar. Jogar as cinzas no mar, não mais deitar e rolar até não conseguir dormir. Eu poderia esquecer. Esquecer tudo, todos, você, ontem, ano passado, o bem, o mal. Eu poderia, sim, recomeçar. Ou eu poderia parar, parar tudo, de repente, do nada. E deixar a todos sem explicações. Eu poderia simplesmente minar as esperanças, ninar a febre e trabalhar das 8h às 18h. Eu poderia desistir das escolhas e das opções e viver num celeiro. Eu poderia correr o mundo, tentar aquela imagem, aquele som, aquele gesto, aquele personagem. Eu poderia, também, voltar atrás, parar o tempo, brincar com o tempo, enganá-lo. Eu poderia ignorar e ir dormir, ou tapear o sono e decidir pensar, mudar. Eu poderia assistir TV, algum filme, e esquecer. Ou eu poderia fazer um filme e fazer pensar. Eu poderia incomodar. Eu poderia escrever e confundir, desestabilizar. Ou eu poderia… simplesmente… agradar. Eu poderia trair, convencionar. Ou eu poderia me trair, me matar. Eu poderia rever minhas opiniões, ou eu poderia apenas, cegamente, apenas reiterá-las. Eu poderia tentar gravar e gravar a mesma seqüência, sem entendê-la, sem entender o que ela me pedia. Eu poderia ter uma conversa de bêbados, ou uma conversa de loucos, e ser feliz. Ou eu poderia escolher uma conversa sã e culta. Eu poderia escrever a necessidade, ou eu poderia escrever a diferença. Eu poderia duvidar para conseguir acreditar. Eu poderia querer, com algum motivo obscuro no coração, e dizer não para me proteger. Ou eu poderia não saber se quero ou não e poderia não conseguir ouvir meu coração. Ou eu poderia não querer me proteger, nunca. Eu poderia criar, ou copiar. Eu poderia falar, ou ouvir. Eu posso sempre correr, ou andar. Eu poderia votar ou anular. Ou seria voltar ou anular-me? Eu poderia olhar, mas com medo, colocar a câmera em frente aos meus olhos. Ela, sempre, lá. Não há como não poder. Não há como não agir. Não há como não escrever. Eu poderia ligar. Eu poderia desligar-me. Eu poderia ter a paz e deixá-la escapar. Ou eu poderia vingar. Ou eu poderia jantar. Eu poderia subir morros, descer dunas, pular de cachoeiras, mergulhar no mar, adentrar matas, mas jamais me abandonar. Eu poderia guardar tudo e não ter nada. Eu poderia queimar as lembranças e os terrores. Ou eu poderia viver com os traumas. Eu poderia resumir tudo num sorriso. Ou acabar com uma frase. Eu não poderia me salvar. Eu poderia ir da Bahia à Patagônia. Eu poderia ser médica. Eu poderia ter casado. Ou poderia ser eu. Eu poderia ter uma crise de claustrofobia. Ou eu poderia me sufocar. Eu poderia parar… agora… ou nunca.

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