Os homens da minha vida – versão I

O início da descoberta

Primeira série, nunca havia freqüentado o convívio social, só um curso de inglês duas vezes por semana por um ano antes. Não conhecia as pessoas, o tempo longe de casa, era um bichinho do mato de fundo de quintal, mesa de costura da vó e oficina de máquinas do vô.

E aí o mundo mudou: lá estava eu na primeira série. Eu não queria ir, a caminho da escola, no primeiro dia de aula, disse isso para o meu pai. E ouvi “mas, filha, se você não for para a escola o papai vai preso”. Quase chorei, segurei o nó na garganta. Meu pai nunca foi preso: pai, te dei a liberdade.

E eu perdi a minha.

Perdi muita coisa além da liberdade. Perdi tempo. Tempo precioso. Perdi a inocência.

Dois choques. Um numa inocente brincadeira de Barbie, na hora do descanso, a Angélica colocou o Ken e a Barbie em posições estranhas e sem roupas. Até ali, a mulher engravidava com o beijo! Santa inocência.

O segundo choque: o Gustavo. Menino feio, magricelo demais, meio loiro (desde então os loiros não entrariam na lista facilmente). Ele se apaixonou por mim. Se eu sabia o que era isso? Não. Só descobriria isso alguns anos depois. Mas aprendi, antes de tudo, o que era ser o objeto (ou a vítima)  de uma paixão alheia. Ele ficou louco por mim, a convivência tornou-se impossível, insuportável até o dia que ele me perseguiu freneticamente e eu me escondi no banheiro das meninas com umas colegas. Ele gritava por mim e uma amiga foi “negociar” com ele. Voltou com uma caixinha de jóia. Sim, era um anel dourado com um coração e uma pedrinha brilhante. Aquilo não me dizia nada. Não senti nada. Disse para ela: pode ficar com o anel. Ela adorou. Um dia ele viu e ficou injuriado comigo. Aí aprendi o que uma paixão não correspondida podia despertar. Não foi uma boa experiência, nunca mais ele olhou na minha cara e ela me devolveu o anel. Acho que ainda o tenho guardado em algum lugar.

O período aéreo

Rapazes, como rapazes, não me interessavam. Como amigos, sim. Desde então descobri que mulher é muito chata. Preferia correr o recreio inteiro atrás dos meninos (que queriam apanhar de mim) do que ficar de firula com as meninas. E como eu corria! Aí vieram os dois. Amigos, apenas. Para mim, é claro. Eu não tinha aprendido direito a tal coisa de despertar paixões. E de um rolo qualquer fiquei sabendo que ambos estavam apaixonados. Pena, perdi dois amigos. Um tão divertido, o outro tão sério e certinho. Um bobalhão, calmo, o outro tão nervoso. Brigaram e não se falaram mais. Ou não mais até esquecerem isso. Aí teve o R, menino precoce da turma, o primeiro a aparecer a barba e tal. Aí descobri um início de admiração que levaria a loucuras no futuro por homens mais velhos. Teve o R. B., um caso interessantíssimo… esse perdurou até o próximo capítulo, o que me fez ver meu lado um tanto quanto, bem, infiel.

A primeira paixão – mais um erro. É errando que se aprende!

Depois vieram outros amigos. E aí eu cometi o erro. Me apaixonei pelo “Floresta”, codinome que eu e minhas amigas colocamos nele para poder falar sem sermos entendidas pelos outros. Se eu contar que foi porque um dia eu vi a cueca dele pra fora da calça, num verde musgo até que muito bonito. Mas a cueca era muito grande. Era época do “Tchan na Floresta” ou algo assim. Ficou Floresta até hoje. Como eu cometi esse erro? Convivia, era amiga, vivíamos juntos, competíamos nas provas de matemática, brincávamos no recreio, contávamos segredos. Ele queria uma outra colega, que nem dava bola para ele. Chegaram as férias… Um dia eu acordo e sinto uma falta imensa dele, nas férias lá no barracão não tinha recreio e provas de matemática. Sofri. Por que por ele e não por outro? Não sei dizer. Ele era feio, magricelo. Os olhos, talvez. Acima de tudo o humor.

Resumo? Perdi mais um amigo. Ele não gostou das minhas amigas, isso começou a nos afastar. E eu, criança apaixonada, mandei chocolates e cartas anônimas denunciando meu amor! Já fiz coisas loucas nessa vida. Cartas anônimas para a casa dele. Bem, isso deixaria o ego de qualquer homem nas nuvens. Ele não era ainda um homem. Mas como a revelação parecia mais sem graça do que as artimanhas, enviei uma cueca de seda com estampa do piu-piu para a escola, numa entrega anônima. Pelo que eu saiba, ninguém nunca desconfiou. Mas lembro até hoje a cara dele, vermelha, entrando na sala e escondendo o presente dentro da mochila.

Aí aprendi duas coisas: a paixão dura dois anos em média (antes mesmo que qualquer pesquisa científica me dissesse isso). Amigo é amigo. Homem é homem. Nunca mais olhar um com os olhos de outro. Nunca. Esse erro cometi uma única vez, cedo o suficiente para me poupar enrascadas e enganos.

Ele? Hoje está casado, na profissão que desde aquela época queria, com uma magricela que trabalha com ele. Um dia, nas redes sociais da vida, eu perguntei se ele sabia quem tinha dado a tal cueca. Ele respondeu que estava com ela, se eu acreditava. Não acreditei. Ah, aprendi mais uma coisa: se os rumos são diversos e até contrários, não vale a pena seguir. Ele queria continuar ali, naquela cidade, naquela vida – eu queria ir mais longe.

A admiração e a curiosidade são parentes da paixão

Lembram o interesse pelos mais velhos? Pois é. Algumas meninas acham os colegas da mesma idade muito imaturos. E eles são mesmo.

Mergulhei num período nebuloso, sinistro, obscuro. O platonismo e a auto-descoberta falavam mais alto. O tal convívio social era um suplício.

Aí, um dia, ouvi de um historiador (também formado em Filosofia): onde não há luz, não há vida, querida. Na época, me vestia quase que só de preto (poucas variações com alguma peça vermelha ou branca) e vivia trancada no quarto, cortinas fechadas durante o dia, dormindo e madrugadas inteiras acordada lendo e sonhando. Ali eu construía o meu futuro e eu nem sabia. Na época eu achava que me enterrava no fundo do poço.

E esse historiador (daqui para a frente pouparei os nomes) me cativou. Muito. Era a janela para a minha escuridão. A curiosidade me arrastava. Um hotel no centro da cidade, conversas fantásticas sobre o mundo, a vida, a arte, a humanidade. A admiração transbordava. Eu praticava as pequenas loucuras de camisetas brancas transparentes sem sutiã por baixo de um moletom para exibir em momentos impróprios. Não sei quem cedeu a quem. Tudo foi. Ali me encontrei muito. Me encontrei demais. Ali eu já percebia o futuro. Tardes e tardes passadas num mundo a parte.

Não era “o” homem da minha vida. Ele era o homem da vida de outra, com enteados. Ali eu não pensava no pra sempre, só no agora. E descobri que isso era muito forte em mim.

Um dia as tardes foram escasseando. O tempo passou muito rápido. As palavras e tudo brotava. Algo acontecia com ele, já não era mais o homem daquela mulher. Também não era meu. Não houve “adeus”, houve uma risada com um abraço forte. No momento exato. Ali aprendi quase tudo.

Se me apaixonei? Talvez. Acho que até hoje não sei.

Ele? Querido Antônio (eu ia poupar?), descasou, apaixonou-se por uma mulher linda – não dessas que os homens deliram e chamam de “gostosa” – uma literata que eu tive o prazer de conhecer e admirar muito. Fiquei feliz quando soube por outros que eles estavam juntos e ela grávida. Eu sempre soube que ele descobriu isso comigo. Aí aprendi a saber mais do outro também.

A libertação

Aí a felicidade abria portas. Um longo período de pouco aprendizado e muita prática do conhecimento já adquirido. Todos tomados pela admiração, pois a curiosidade já havia sido sanada. Requisitos básicos: admiração, sintonia e fogo. Até então isso me bastava. Até então havia me apaixonado uma vez, lembram? E eu tinha sofrido. Sem querer decidi não passar mais por isso. Todos começavam, duravam, terminavam e não havia dores.

Morenos, na maioria. Um loiro. Ah… Um único, o CL (codinomes se fazem necessários!). Com o sorriso mais sedutor que eu já conheci. Compensava o fato de ser loiro. O PBJ, moreno… olhos mais claros – não é minha preferência. Muito, digamos, sem um “a mais”.

Tive que aprender a lidar com os desejos. Paixão vicia e eu não queria esperar dois anos para que ela acabasse. Como todos os impérios, as grandes civilizações, há um começo, um auge, um declínio e um fim. Eu fugia no auge. Se me perdi de mim? Não, não muito.

Dois casos típicos de gato e rato: J e E. Com o primeiro houve uma antipatia muito grande da minha parte no começo, mas ele gostava de mim, me admirava. Um ano depois nos reencontramos e, sabe-se lá porque, como nos romances de banca de revista, foi só amores. O E não me cativou. Era uma paixão insana, dolorida, sofrida, eu fugi – cabeça no lugar ainda. Aquele teria me dado sérios problemas. Havia lá o fogo, mas a admiração não. Aí conheci as pessoas que arrotam aquilo que não comem e descobri que não gosto delas.

O fogo chegou tão alto que a coisa quase se descontrolou. Ao contrário do que pensam, juízo eu tenho, quando ele me falta meu anjo é forte.

A calmaria e uma chance – pra mim

Um período calmo, aliviava a vida balanceando o convívio social com a solidão necessária. Entrei numa roda gigante e continha o deslumbramento.

Nesse período e no anterior, o caso mais corriqueiro era a paixão que eu despertava. Desde o Gustavo eu “sofria” com isso. Na verdade, muitos desgostos me causou. O fogo estava controlado – o suficiente para não causar estragos! Eu enjoei do que sentiam por mim: eu queria sentir.

Havia muitas opções, disso nunca reclamei. Mas as pessoas podem preferir errar por aí enquanto não encontram “o” certo. Eu prefiro apostar. E pago pra ver. Às vezes pago caro.

E aí teve o GS. Coisa mais linda, menino (indícios de uma regressão na faixa etária à vista), mas sem iniciativa. O ZM, surfista (oh, God, surfista!), gostoso demais, a fotografia nos aproximou e o sal de prata fez seu serviço. Conquistador, e eu não me incomodava! Mas o P, também conquistador de corredor, me incomodava e não havia fogo: passei.

Ou seja, muitas opções e eu sem opção! Pode parecer simples, mas não é!

E, claro, os amigos. Ah, meninos… Sofreram porque eu não olhei para eles como homens, apenas como amigos, desde o primeiro olhar.

Falta de opção? Não, não… eu não queria escolher!

Teve ainda alguns vai e vens durante o próximo, o que confirmava minha infidelidade, confirmava meu espírito inquieto. Por uma vez, eu quase, mas quase, cometi o maior erro de todos. Mas esse eu não posso contar porque ele não aconteceu! Graças ao meu santo que é forte e intercede por mim quando eu desligo o juízo, a uns celulares sem créditos, eu me salvei das enrascadas mais absurdas. E mantive minha integridade. Sabe os que arrotam mais do que comeram? Os que eu despertava a paixão? Então, fui me salvando desses com um jogo de cintura sem igual.

E numa avalanche conturbada, por uma insistência que nunca vi igual, mesmo quando ativei toda minha crueldade, me deixei vencer pelo cansaço. No vai e vem de alguns pedidos de namoro, pedidos de casamento (foram três), alguns aceitos para logo depois serem negados, fui para um caminho tortuoso. Me enganei achando que estava me dando uma chance, e, no fim, a chance não era pra mim.

Às vezes me acho a encarnação da Madre Teresa, mas aprendi cedo que tudo tem um limite. Ao ser constantemente desafiada, assegurava da minha firmeza e da minha palavra. Eu achava que estava apaixonada. Por um momento, realmente estava lá eu apaixonada como a primeira vez, de forma dolorosa, sofrida, inconstante, por vezes insana. Esse não honrou nem os próprios sentimentos. Sofri, caí, desabei, levantei, ergui a cabeça, virei as costas e fui embora com a determinação de nunca mais me apaixonar por quem se apaixonou por mim, pura e simplesmente. Amor? Não deveria ser porque a dor e a traição tinha trespassado fundo. Não, isso não haveria de ser amor.

Me dei uma chance? Perdi. E perdi com orgulho.

A maturidade e o olhar triste

Nos turbilhões é onde eu mais me dou bem. Mil coisas acontecendo, idas e vindas, este é o prato preferido. Bastava isso para colocar tudo no lugar. Eu já não acreditava mais na dependência, no desamor falso. Eu me reconhecia velha, experiente. Agora, eu queria. Já tinha aprendido o suficiente, não havia curiosidade, não queria admiração – e a faixa etária foi regredindo ainda mais! (piada pronta: quando eu estiver com uns quarenta anos só vou querer os meninos de dezessete)-, não queria ser só objeto de paixão alheia, não queria errar, não queria, de jeito algum, sofrer. Queria a leveza. Tudo me interessava, todos me inspiravam. Mas aquele eu que viveu leve com fins no auge – depois de um fim na decadência – queria voltar. Só que ele não parecia fazer sentido.

E ali estava, na minha frente, o olhar mais triste do mundo. Moreno (aiai…), gestos contidos, sério, calado. E o olhar. O que houve? Fascinação. Senti em mim, muito antes da ida ao banheiro e da volta com olhar observador sobre a vítima que agora se sentava ao meu lado, a missão de adentrar aquele olhar triste e aquele rosto calado. Era um desafio. Aí aprendi o que me fez apaixonar novamente: desafio. E seria um desafio interessante. Mesmo ao meu lado, eu chegando junto a noite toda, com mãos desinibidas e falante, não houve um único gesto que demonstrasse interesse. Ah, esse seria meu! Esse eu queria.

Já ali me apaixonei da melhor forma. Depois de um breve desânimo por conta de achar que aquela loira tinha todos os homens aos pés dela e que o olhar triste também a queria, de um desenrolar de exatos catorze dias, com indiretas e farpas trocadas – afinal, eu queria o desafio, mas ele tinha que querer e ficar querendo. Se eu conquistei isso? Com louvor!

Aí eu não precisava mais nada. Descobri que o tempo é relativo, pois posso resolver tudo em vinte e cinco horas, cravadas.

O coração? Agüenta, agüenta firme. E lá no alto do morro da praia do Gravatá, numa vista noturna sem igual, nos braços dos olhos mais tristes do mundo, o meu velho eu cedeu lugar à aventura e se rendeu à terminologia e ao encantamento da novidade. Pela primeira vez, tudo tinha nome, tudo era como tinha que ser – e o que tanto me criava aversão só me encantava. Tudo isso com duas regras de ambos (a experiência também une!): sofrer e fazer sofrer, jamais; desde que você não me traia, o resto a gente dá um jeito.

Na promessa de não cair no comodismo e não “precisar” um do outro (este último é o melhor de todos os aprendizados!), sem necessidade alguma envolvida, sem ser um “negócio”, um interesse ou uma facilidade, ser apenas sentimento, vivo hoje. Aí descobri a maturidade e como sou uma velha precoce, cheguei ao auge.

(Nomes foram omitidos, capítulos e personagens foram pulados por vários motivos não prejudicando, com isso, o conteúdo geral. Contudo, pelo escrever frenético da ficção (?) deve ter faltado alguns detalhes importantes.)

(Atualização: como promessas não bastam, o comodismo invadiu e eu fugi pela porta da frente.)

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4 comentários em “Os homens da minha vida – versão I

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  1. Se um dia eu fizer um post desse tamanho no meu blog, já sabes: colei minha dissertação! hahaha
    Gostei do texto. Pessoalíssimo, mas é interessante ver como as mentes alheias [sobretudo femininas] processam algumas coisas. Eu si divérto!

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    1. Devo pensar que sempre escrevo demais? hahahahahahahaha
      Mais divertido ainda é ver um homem achando interessante ver como funciona a mente feminina! hahahahahahaha

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