Paralisada

Eu queria poder ter corrido quando pude. Mas eu fiquei ali paralisada. Não era medo, não era choque. Enfim, não era nada. Então era assim que se sentia? Agora eu sabia que o nada existia. Era ele, não era nada. Se tivesse sido ontem, seria medo. Se tivesse sido semana passada, seria choque. Hoje não era nada. Ele não entendia. Receio que nunca vá entender. Há uma teimosia da alma que pode perdurar uma vida inteira. Não corri, não petrifiquei, não chorei, não lamentei, não senti pena, não temi, mas não posso dizer que não senti nada. De vez em quando, bem raramente, a gente sente o mundo dar uma breve parada. Um instante que resignifica todo o antes e todo o depois. Quem perde esse instante, perde tudo e vai passar o resto da vida sem saber o que passou despercebido. Eu não fugi, eu não olhei para trás. Eu consegui levantar a cabeça. Eu poderia ter dito muitas coisas, de nada serviria. O nada não mudaria, não voltaria a ser. Um gesto, talvez? Só se fosse para um alento. Toda vez que eu saio do cinema, do teatro ou de um show eu sinto a mesma coisa: o momento foi aquele, e ao sair do escuro eu consigo ver ao meu redor, não existe mais somente aquele palco ou tela iluminados, existe a vida pela qual eu poderei seguir. O que existia no palco e na tela era ilusão, doce artística ilusão, que acaba e não deixa dependência. O que eu digo já foi dito muitas vezes, em muitas melodias, muitos contos, romances, filmes, poesias… há uma música em especial que diz isso de forma escancarada e especial. Mas ali, paralisada, eu sabia, eu sentia, eu descobria. Não há nada nem ninguém que nos ensine a sentir. Há quem se afogue nas letras, melodias e imagens tentando aprender, pobres almas, de nada sabem, muito menos sabem o que é o nada. A esses cabe o desespero. Eu não corri, paralisada fiquei até um piscar de olhos e decidir olhar de outro jeito – não para um outro lugar.

 

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