A invenção da roda

Ele caminhava lentamente, soprava o ar quente que saía da sua boca e fazia fumaça no ar, do mesmo jeito e com o mesmo encantamento de quando criança, nas manhãs frias ao ir para a escola. Hoje não ia para escola, nem era de manhã, aliás, dali a algumas poucas horas já seria o horário da escola das crianças como ele fora um dia. Era uma madrugada gelada, solitária, silenciosa e ele olhava para a calçada enquanto caminhava. Às vezes seus pensamentos iam longe. Às vezes ele sequer pensava. Fazia tanto tempo e a cidade não mudara em nada. Bem, durante o dia ela tinha mais pessoas e mais carros pelas ruas, mas as pessoas em si e as ruas continuavam exatamente as mesmas. Talvez só as rugas apareçam em vinte anos, uma tecnologia ou outra “revolucione” o mundo de alguns e algum grande atentado tenha ocorrido. Não haviam mais guerras como antigamente, nem superávamos a carroça com carros motorizados. Ninguém, enfim, inventava a roda. Ou a roda hoje, pensava ele, seria a cura do câncer e da AIDS? O que fizera o mundo se perder a ponto de hoje a roda ser uma cura dessas? Longínquos tempos da necessidade da roda. O mundo flutuava. Voava. Ele quisera ser médico, sonhara encontrar a cura do câncer. Até o dia que seu pai morreu de câncer e ele decidiu ser professor. Era mais prático, com maior resultado. Ele não desejava posição social nem dinheiro, queria salvar vidas. Como o mundo não era mais o da época da invenção da roda, salvar vidas era para professores. Ele caminhava pensando, ou não, mas com a idéia fixa no fundo da mente de que não entendia porque estava ali realmente. Algo o impelia a ficar insatisfeito e arisco com a sua presença nessa cidade. Não sentia o motivo real. O ar gelado no rosto sempre fora revigorante para ele. Sempre encarara na boa o frio, com poucos casacos, achava que era frescura se encher de roupas. Quando criança tivera alguns problemas graves de saúde por causa disso e deixara sua mãe desesperada. Ela nunca poderia sofrer uma perda desse tipo. Mas a vida não pergunta nem leva em consideração suas disposições em relação a ela e levara seu pai, por quem a mãe sempre fora muito apaixonada. Essa paixão que deixa os filhos, quando já conscientes, embaraçados diante de tanto amor, desejo e carinho. A morte do pai causara a apatia daquela mulher apaixonada e devotada. Era uma boa candidata à morte por inanição. Ele nunca entendeu o segundo casamento dela. Nunca. Aquela mulher seca e séria que se casou com um estranho não era a sua mãe. E os passos dele na calçada pareciam martelar a pergunta que se encaixava em tantos fatos: por quê? Por que ele viera? Por que ela casou? Por que ele não tinha aprendido a dizer sim? Por que o pai morreu? As idéias e as dúvidas persistiam enquanto tantos pensamentos passeavam aleatoriamente ou enquanto nada lhe passava pela cabeça. Ele reparou no nome da rua na placa, com um medo intermitente de que do nada ele começasse a caminhar para a estrada em direção a sua casa, o medo era real. Ou talvez não fosse para a casa que ele fugiria inconscientemente. Porque ele sentia que não salvava mais vidas. Ele sentia que vendia aulas, prestava serviços, alugava seu conhecimento. Se ele voltasse, exigiriam seus “sins” novamente. Os alunos não queriam se salvar, ele entrava em sala todos os dias e não encontrava nenhuma vida para salvar. As pessoas da sua vida esperavam que ele dissesse “sim” e nada mais, olhavam para ele como se ele tivesse alguma doença rara e ridícula. Era sim para esse, para aquele, para ela, sins que não saíam da sua boca desde que seu pai morrera diante dos seus olhos e sua mão ficou gelada enquanto a do seu pai escorregava lentamente já sem vida. A vida lhe dissera “não” e era com isso que ele respondia a ela. As ruas terminavam e ele começava qualquer outra que estivesse mais próxima. Sentia que andaria até o fim dos seus dias pois não conseguiria parar de andar enquanto não parasse de pensar. E ele pensava, ou quando pensava suas idéias fixas lhe faziam companhia. A mãe não estaria em casa, preocupada, sentada na velha poltrona ao lado da porta. Aquela sua mãe, que fazia isso toda vez que algum filho não estava em casa, não existia mais. Quando ele e o irmãos foram morar fora de casa ficaram todos com a impressão que ela (que abanava, já aflita, do portão quando eles partiam) sempre estava sentada na velha poltrona quando eles voltavam – dias, meses, anos depois – como se ali ela tivesse ficado todo esse tempo. Ela não existia mais. Ninguém mais sentava na velha poltrona, mas ela ficava ali como se fosse prova de que o passado existira. A mãe, às vezes, ficava em pé, ao lado da poltrona, conversando, e não sentava nela. Do nada, seu olhar se desviava e ficava parado contemplando a poltrona, calada. E todos se sentiam embaraçados e angustiados. Ninguém nunca conseguira perguntar porque ela casara novamente. A morte impedia que qualquer “por que” fosse proferido. E dentro dele, a cada passo, os “por quês” ressoavam. Havia a casa da mãe, que lhe telefonara pedindo que ele aparecesse. Havia a rodoviária. Se voltasse havia o “sim” geral. Ele já estava a horas na cidade e não havia passado na casa da mãe, não dera mais sinais de vida. Vida? Havia algum sinal de vida ali? Uma náusea espiritual o impelia para fora da cidade. Seus passos já eram apressados. Ele não sabia mais onde estava. Não saberia chegar na casa da mãe. Claro, se encontrasse alguém ele poderia perguntar. Não, não. Ele detestava perguntas. Mas não sabia dar respostas também. Ele caminhava, o frio aumentara, o rosto gelava, o nariz pingava, os lábios tremiam, a respiração ardia. Ele cruzou os braços para tentar esquentar o peito açoitado pelo vento cortante. O vento. Nunca ventara naquela cidade. Nunca. Coisa de séculos, seu avô contava. De onde esse vento? A cidade, enfim, mudara? Não eram só as rugas que apareciam em vinte anos, então. Não, aquele vento não era normal. Sua mãe telefonar e pedir para ele vir também não. Seus passos eram sábios ao enviá-lo para longe. As bochechas vermelhas, os olhos ardentes. Ele caminhava, caminhava. Corria.

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