Vitória

 

Eu vou contar a história da Vitória.

 

Faz algum tempo, na casa verde do outro lado da rua morava uma família. À primeira vista uma família comum, mãe, pai e dois filhos. Ela jovem, porém macerada, magrela e feia. Ele robusto, moreno de sol, bonito, peito cabeludo. Ela estava grávida. Com o tempo percebi que ele ficava em casa e ela não. Raramente a via. Ele era um exímio jardineiro. Tinha um olhar perfurante. Eu evitava qualquer contato, afinal nunca gostei de vizinhos. Mas ele era atraente e meu olhar volta e meia o observava. Ele ficava ali, cuidava do menino, Junior, da menina e depois de mais uma menina, o bebê. A única coisa curiosa, além do “dono de casa”, era que o nome dele era Fábio. Ou seja, o menino era Fábio Jr, como o cantor. Eu tinha dó do menino, tão novinho mas sempre mal-tratado pela mãe e ignorado pelo pai. Às vezes ate trocava sorrisos com ele. Um dia, ou uma madrugada, meu irmão assistia TV quando ouviu sons na rua, risadas, barulho de moto. Espiou e viu a mãe da família da casa verde descendo aos agarros da moto de um rapaz, tudo temperado com muitos beijos. Eis que a partir de então percebemos que isso era rotineiro nas madrugadas. Normalmente o carro, caminhão ou moto vinha da direção da BR… sempre um homem diferente. Isso me fez fantasiar sobre o Junior e fiquei com mais dó ainda dele, afinal, me parecia óbvio que ele não era filho legítimo. Criei eu minhas histórias enquanto observava já não tão disfarçadamente o moreno excelente jardineiro e dono de casa.

 

Passou alguns anos, cheguei eu para uma nova temporada e qual não foi o susto quando vi uma placa na casa verde: vende-se. Confesso que fiquei um tanto desanimada, pois já me acostumara a observar aquela família, em meio às brigas e agressões ao filho e ao carinho excessivo dispensado às meninas. Enfim, eles tinham ido embora. Em pouco tempo, vi colocarem uma placa na casa verde, já não era mais de vende-se: Dina Cabeleireira.

 

Ali surgiu um casal. Casal já de uma idade entre os quarenta. Ele com uma idade e os anos a mais na aparência que o mar dá aos seus navegantes, ela macerada, dura, nem tão feia. Na sala da frente ela montou seu salão. Entra e sai de carros e clientes da classe média alta da cidade – o que eu estranhava. Nem vestígios do jardim tão bem cuidado e sempre florido do moreno forte e dono de casa, ele havia se tornado um estacionamento para os carros das madames.

 

Quase na mesma época eu descobri onde se encontrava a família anterior da casa verde – agora na rua detrás, ainda mais perto da BR, numa casa sem reboco, mas com um jardim espetacular; Fábio sempre por lá com a menina no colo – com uma desprendida alegria. Porém, agora já não lhes observava o passo, a distância me impedia. De vez em quando ainda passo por lá. Por aí também surgiu a novidade: a tal Dina, a cabeleireira, estava grávida.

 

Eu não falo com nenhum vizinho, nem falava na época. Soube disso pela minha mãe que vez por outra conversava com uma vizinha amiga da tal Dina, uma velha que está (já naquela época estava) encolhendo – não só pela idade, mas por causa de uma doença, ela encolhe. Eis que boas coisas não se falavam, a idade da Dina já era avançada para uma gravidez. Ele era embarcado, ela com o salão, uma “imprudência”, uma “irresponsabilidade”, diziam as más línguas.

 

Cidade pequena, bairro distante e saúde precária. As previsões para aquela criança não eram as melhores. E ninguém pensava que poderiam ser ainda piores.

 

Em menos dos usuais nove meses, eis que nasce diante de problemas de saúde e complicações – tanto da mãe quanto da filha – nasce Vitória. (como frequentemente vemos, o nome foi principalmente pela “conquista” de chegar a este mundo – e eu sempre me pergunto onde está a “vitória” disso)

 

A alegria dos pais, casal já conformado em não poder ter filhos, era evidente. A menina crescia a olhos vistos, esperta, ligada em tudo e em todos, alerta, forte, robusta. Morena, cabelos escuros, sempre ali pela frente do salão, no colo da mãe, no carrinho e em pouco tempo tão grande já correndo e brincando com tudo. Apaixonou-se fácil pelo meu cachorro e volta e meia a via namorando-o à distância. Menina de uma curiosidade tocante (assim também fui). E eis que a família, um tanto diferente também, como a anterior, habitava a casa verde – agora já sem jardim.

 

Vitória tinha (e tem) alegria pela vida. Para os felizes, uma alegria contagiante; para os infelizes, uma alegria irritante. Menina comunicativa, levava e buscava as clientes da mãe, pela mão, até seus carros estacionados numa grama insípida onde antes havia um lindo jardim.

 

E o tempo, implacável e surpreendente como sempre, foi passando. A alegria de Vitória, com suas perguntas bobas e até inesperadas pela cerca do meu jardim, parecia a mesma. Eu não percebi nada.

 

E um dia eu volto novamente e reparo que na casa verde já não há mais a placa de cabeleireira. A casa parece triste, Vitória já não anda alegremente de um lado para o outro provocando os cachorros da rua. Eis que as más línguas se fazem presentes e alguém fala daqui que ouviu de lá que Dina havia morrido. Fora uma longa doença, apareciam umas perebas, não se sabia o que era – a agonia durou menos do que os menos de nove meses que trouxeram Vitória ao mundo. Para a morte, já se sabe, não é preciso tanto tempo. A morte está acima do tempo.

 

Vitória estava sumida. O pai estava presente – embarcado que era, passava longos períodos fora de casa. As más línguas faziam seu serviço e ainda enquanto Dina estava doente sussurravam que ela tinha AIDS (afinal, o que era aquilo que cada hora era uma coisa e ela definhava a olhos vistos?!). As más línguas, que não têm cara nem idade, murmuravam penas sem fim a uma menina tão novinha já sem a mãe, com um pai velho e ausente e uma mãe, bem, não era nem preciso comentários sobre o tipo de pessoa que pega AIDS.

 

Nenhuma dessas, porém, se dispôs a dar um caderno para a Vitória. Aliás, mal cumprimentavam a menina. No vai-e-vem da casa um dia vejo muitos balões nas portas e janelas e uma mulher abraçada à Vitória. Amiga da família ou parente distante, que agora se revezava nos cuidados com a menina – o pai preocupava-se com as “coisas de menina” que ela precisava saber. As más línguas, novamente, atiçavam e coçavam ao sugerir (porque as más línguas nunca indagam) o relacionamento de uma moça jovem com o viúvo dentro daquela casa. Era aniversário da menina Vitória, e eu pude ouvir aquelas vozinha estridente falando pelos cotovelos, rindo alto e comicamente, pude finalmente vê-la correndo de um lado a outro recebendo seus convidados. Todos ali faziam um esforço sem medida para que aquela menina voltasse a sorrir.

 

Num fim de semana, passou o “carro do picolé” e minha irmã comprou um monte (louca que é por sorvete e não tinha nada em casa). Quando o carro do picolé parou aqui, veio Vitória correndo porque também queria comprar. A moça que cuida dela deu algum dinheiro e ela voltou para casa com cinco picolés e aquela alegria que não custa nada. Cada um de nós chupava um quando minha mãe pegou alguns e levou para Vitória – há em certas pessoas, como minha mãe, uma alegria por ver a alegria alheia, que a motivam a alimentar a alegria dos outros para poder sorrir junto. “Quer, Vitória? Acho que não vamos comer tudo.” (às vezes os melhores gestos podem ser os mais mal interpretados, e minha mãe sabe disso) “Claro que quero! (com toda a desenvoltura deste mundo) E eu como tudo, pode deixar!” rapidamente começou a pegar com as duas mãozinhas aquele tanto de picolés, no mesmo momento a moça corria pegar uma bacia “Coloca numa bacia, Vitória, você não vai conseguir carregar tudo!” E a sofreguidão da menina parecia lhe responder “ora, se não!”.

 

Ontem ainda o pai de Vitória passou pedalando para um lado, ia ela falante, caminhando ao lado. Logo mais, volta pedalando o pai de Vitória, e logo ela caimnhando e falando aparece de novo. Foram e voltaram várias vezes. Já faz algum tempo que o pai dela tem ficado mais tempo em casa, talvez aposentdo, talvez em outro trabalho. Ela ri, brinca, inventa mil histórias e mundos ali sentada na grama quase inexistente – onde antes era um belo jardim e depois um estacionamento sem graça. Ela parece não perceber. Eu a observo, entre curiosa e pesarosa. Já ousei me perguntar que futuro terá Vitória… encerram-se vitórias na sua vida? Cidade pequena, bairro distante, falta tudo… o que isso pode reservar a alegre menina que ouço agora indagando seriamente o pai? Ela veio à vida diante de cenário tão ou mais aterrador e seu nome batizou sua conquista. Ela se salvará sempre das más línguas? Ou a alegria dela diminuirá sempre um pouco cada vez que se defrontar com elas? Viverá para sempre na casa verde?

 

Durante a semana, já em fevereiro, o movimento pela rua é quase nenhum (do jeito que eu gosto). É inevitável ouvir Vitória o dia inteiro. Sempre questionadora, efusiva, alegre, determinada. Ela incorporou-se aos meus dias, aos meus ouvidos. Já não sou a menina que observava o vizinho forte e moreno. Meus olhos a acompanham, robusta e morena, cabelos lindos, com um princípio de pesar que quer revelar-se em esperança, em fé. A vida a ser boa com Vitória.

 

E era a história de Vitória que eu queria contar hoje, porque senti assim uma alegria com um pingo de temor pelo futuro que aguarda esta menina que eu mal conheço, com quem troco poucas palavras e olhares. A vida dela não faz nem fará diferença nenhuma para nenhum de vocês e talvez ela já nem esteja mais aqui quando eu voltar – e talvez eu nunca mais venha a saber dela. Hoje eu queria falar dela, como quem fala de si sem ser egoísta.

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