Os bons e os maus exemplos do nosso Litoral

Tem quem frequenta o litoral apenas no verão. Eu não.

Moro na Ilha, frequento o litoral inclusive no inverno, quando ele se mostra tão introspectivo e prazeroso.

Santa Catarina tem um belo e diversificado litoral. Infelizmente uma parte dele é negligenciada pelo poder público; e, sabemos, a ignorância popular tão imensamente difundida no nosso país faz com que todos os lugares, cidades ou praias, sejam negligenciados pela população.

E é fácil ouvir turista e veranista reclamar da infraestrutura. É fácil. É fácil todo dezembro os jornais fazerem as mesmas reportagens sobre os problemas que o nosso litoral enfrenta.

Falta infraestrutura em todo lugar.

É com pesar que eu observo muitas coisas no nosso litoral (frequento e viajo por uma parte dele). Mesmo assim, podemos encontrar bons exemplos. No entanto, alguns bons exemplos, alguns cuidados básicos, podem ser barrados pela ignorância da população e pelo descaso público. Leviano é você que quer culpar o governo por tudo de ruim que acontece e existe; foi assim que a História Política ressurgiu: colocou-se sobre a Política a responsabilidade de tudo. Não se exclui da culpa o cidadão – e não o digo pelo senso comum “quem elegeu os políticos fomos nós, portanto somos também culpados”. Tanto na ação quanto na omissão está a culpa e a responsabilidade.

Considero tentador dar algumas alfinetadas sobre esse assunto naqueles que se consideram totens do bom mocismo e do cuidado com tudo e todos. Vejamos se conseguirei me controlar.

Um exemplo que eu lamento muito é a Penha. Uma pérola natural do nosso litoral norte, com uma vegetação ainda preservada e bem provida pela natureza que lhe deu encantos sem fim com praias de todos os tipos. Penha hoje está com a quase totalidade das suas praias com água imprópria para banho. E não é de hoje. A Praia Alegre, que já sofreu com a perda da orla e foi “reformada”, com águas pacatas, tranquilas, típica “praia para crianças” – onde, aliás, passei muitos verões – está podre. O cheiro fétido é nauseante e não permite nem que se fique na areia. Não há nenhum ponto próprio para banho atualmente na sua faixa de areia. Ano passado fui, desavisada, tomar banho lá. Em poucos minutos dentro da água comentamos sobre um cheiro ruim, de podre, no ar. Percebemos que a água sob nosso nariz é que fedia. Ela está assim há mais de um ano! Nada foi feito! Naquele mesmo dia pudemos perceber cerca de mais de dez cães na areia. A praia conta com banheiros químicos e chuveiros, o que deveria contrariar a tal qualidade da água. Aliás, todas as praias da Penha, inclusive a afastada Praia Vermelha, possuem chuveiros.

A Praia da Armação, inclusive a do Trapiche, e a Praia de São Miguel estão totalmente impróprias. Não é raro ver construções irregulares, cães, lixo, tudo que se posso imaginar. A Praia de São Miguel é linda, mas já sofre com essa sujeira a muitos anos, pois quando lá estivemos uma vez até tivemos casos de problemas na pele. É fácil se perguntar: mas cadê a Prefeitura?! E eu observo e digo: e por que cães na areia? por que todo esse lixo espalhado? por que você que tem casa aí não cuida do seu esgoto?!

Casos assim também ocorrem na Ilha. Sabidos são os pontos onde é impossível entrar na água do mar. Nos Ingleses tem um esgotão que sai no meio da praia, a lagoinha do norte é parcialmente suja, Canasvieiras, então! E o Sambaqui, Santo Antônio e Cacupé, área nobilíssima da Ilha? Por que as casas nobres e caras não cuidam do seu esgoto para que possamos ter uma orla (que já não tem areia como uma praia) ao menos limpa? Uma vez por lá, observei uma cena: no caminho do Sambaqui, numa entrada que dava acesso à areia, um carro estacionado em cima da vegetação. Olho mais adiante, uma criatura do sexo feminino sentada em direção ao sol nessas posições de meditação ridículas, com seu cachorrinho-pelúcia andando e defecando pela areia. Quão estúpida é essa cena? A criatura visivelmente alternática, com roupinhas pseudo-hippie e carrão importado. O que adianta um ser desses meditar e bater palmas para o sol? Se o sol pudesse, garanto que a teria fuzilado.

Eu defendi aqui, num post anterior, a construção da passarela do Essence na praia do Campeche. Justifiquei e houve até tentativas de pessoas ignorantes de ridicularizar a idéia. Pois bem, alguém que tenha o mínimo de conhecimento e percepção de mundo consegue concordar na construção de passarelas de acesso à praias como a do Campeche, com a quase totalidade da vegetação natural e até dunas preservadas. Não é preciso ir longe! A belíssima e extensa orla de Navegantes, aqui no nosso litoral, é um exemplo ate clássico disso. Em toda a sua extensão há passarelas que passam, sem prejudicar, sobre a vegetação e a areia e permitem o acesso à praia e a preservação. As duas coisas andam juntas. A ignorância, ali, é coibida o tempo todo e praticamente não se vê pessoas desconsiderando as passarelas e se embrenhando no meio da vegetação. Houve até uma tentativa de argumento de que na Ilha (Ingleses e Jurerê) as passarelas não eram usadas pelos cidadãos, o que ocasionava, do mesmo modo, a destruição da vegetação. Mas, vejam bem, então não vamos colocar passarelas porque as pessoas ignorantes não vão usá-las?! As passarelas deveriam existir em mais uma dúzia de praias, no mínimo! Como as trilhas da Ilha deveriam ter, pelo menos, uma estrutura básica de placas e territórios de parques e afins delimitados! Então porque as pessoas não respeitam não devemos nem fazer leis, não é mesmo?

Por isso que eu frisei que a ignorância das pessoas anda de mãos dadas com a negligência do poder público. O Campeche precisa de passarelas (só caminhar sentido sul saindo da Pequeno Príncipe e ver os “caminhos” pavorosos que estriam as dunas e a vegetação, onde inclusive há o vestígio humano mais deplorável: lixo). Jurerê também. Ingleses também. Daniela também. Galheta também. Piçarras também. E muitas e muitas outras praias do nosso litoral. Quanto mais intovado ele estiver, mais e mais rápido é preciso colocar passarelas. Pois senão não sobrará muito depois. Ela “liberdade” e “acessibilidade” que a praia possui no nosso contexto é que autoriza o descaso: qualquer um pode ir à praia; mas pouquíssimos cuidam dela como se deve. Eu cheguei a citar aqui no blog a proibição, em praias estadunidenses, de fumar à beira-mar; pois o toco do cigarro é uma sujeira minúscula e danosa, e foi o que fez Jurerê perder deu selo Azul ano passado. E aí as pessoas contra-atacam levantando as bandeiras da liberdade, do livre-arbítrio e o escambau que nem um pouco me interessa, para justificar que todos podem tudo. Pois não deveriam poder. Se não tem educação, bom senso, princípios básicos de higiene e respeito com o que é coletivo, não deveriam poder sair de casa. Simples assim.

Mas aqui é Brasil. Então devo me conformar com isso? Óbvio que não, deixo o conformismo para os fracos e ignorantes.

Não quero infraestrutura para os turistas. Não quero acessibilidade através de escadinhas para a praia porque eu não quero subir e descer pedras. Quero preservação. Eu cuido dessas belezas sem fim que eu tanto gosto de aproveitar e observar. Eu tenho educação. Eu cuido do meu lixo. Coisas que parecem tão bobas. Uma passarela, coisa que parece tão barato e simples. E são. São coisas bobas, são barato, são simples e infelizmente não vemos por aí!

É fácil reclamar. É fácil ser saudosista e bicho-grilo e querer fazer defesinha naturebóide de pseudo-esquerda infantilizada e sem razão. É fácil. O que parece difícil é ser cidadão, defender, querer cuidar, ser racional, realista e pensar pra frente. Difícil, pra mim, é admitir ignorante. É ver gente suja e irresponsável por aí. Isso pra mim é quase insuportável, porque se eu chego e chamo a atenção de um ser desses posso ir parar num hospital.

Esses dias, estava na praia, saindo do mar, quando vejo duas crianças pequenas brincando de jogar canudos de plástico na beirada do mar pra onda espalhar. Os pais deles estavam lá na areia, sentados e nem aí. Eu parei, chamei a atenção e tive que severamente explicar que aquilo sujaria o mar, que não era brinquedo e esperei até que eles ajuntassem todos os canudinhos e jogassem (não sem uma cara amuada) na lixeira.

Porque a educação está assim, relegada a ninguém. Ninguém se importa mais com nada. Quem vai se preocupar com passarelas, sujeira na areia, esgoto no mar? Quem? Eu me preocupo e faço a minha parte. Mesmo que por vezes seja defrontada (com frequência) pela ignorância e pelo descaso. Até pela ironia. E tudo isso independente do voto no dia da eleição. Nós, brasileiros, temos tanto o costume de discutir eleição porque não temos tudo o que vem antes. Se o povo se preocupasse e cuidasse da educação, da higiene, do respeito ao coletivo e ao próximo, nós não teríamos que nos preocupar com político negligente ou corrupto. Mas é mais fácil colocar a culpa na politicagem. Assim, sentam-se cômodos nas suas poltronas da sala de estar com TV a cabo.

 

Bom exemplo mesmo é o meu amigo que guarda todo cigarro que acabou de fumar (devidamente apagado) no bolso da bermuda, onde quer que ele esteja. E ele não me contou isso, eu o vejo fazendo sempre. Tão simples.

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Um comentário em “Os bons e os maus exemplos do nosso Litoral

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  1. Fahya,
    Aplaudo de pé tudo o que você escreveu!
    È realmente bem mais fácil culpar políticos, política e afins e não fazer a sua parte.
    E sobre as passarelas totalmente de acordo também. Ultimamente não tenho frequentado muito as praias, mas isso não me impede de ter uma profunda admiração e preocupação com o nosso lindo litoral.

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