Dj do busão

Quando a gente acha que já viu tudo… frase bem comum de se ouvir, né?

Pois é.

Lá pelo final do ano passado, fez sucesso na internet a divulgação de alguma cidade do Estado de São Paulo que havia sancionado uma lei proibindo o que vulgarmente se chama de “Dj do busão”, ou seja, o não-cidadão que coloca seu celular ou algo semelhante para tocar música sem fone de ouvido dentro do ônibus. Uma certa quantidade de pessoas, que visivelmente se sente incomodada com esta atitude, vibrou e divulgou dizendo que na sua cidade isto também deveria ser feito.

Eis que algumas outras cidades seguiram o tal exemplo.

Vale lembrar que nos ônibus de viagem há um aviso de que é proibido qualquer tipo de som no seu interior desde muito tempo.

E Florianópolis, a cidade da moda e dos modismos, aderiu recentemente ao sucesso e também sancionou uma lei semelhante. Segundo ela, não pode mais (se é que algum dia pôde) ser reproduzido qualquer tipo de som no interior dos ônibus municipais, quem deve fiscalizar isso são os motoristas e cobradores, os quais, sabemos, são os responsáveis pelo trajeto, pela segurança e afins dentro do ônibus. Afinal, não há como ter um fiscal dentro de cada veículo. Contudo, a tal lei não prevê nenhuma sanção grave, apenas diz que se algum passageiro não obedecê-la deverá ser colocado para fora do ônibus.

Eu, como boa cidadã que sou e nem um pouco fã que sou de Dj de qualquer tipo, deveria exultar com tal notícia. E não foi o que aconteceu. Bem pelo contrário.

Então sancionaram mais uma lei? Mais uma lei que precisa dizer às pessoas o que elas devem (ou não) fazer? Então lá vai a prefeitura, a câmara ou sei lá o que dizer ao cidadão e ao não-cidadão como se comportar, ou, no mínimo, que é necessário respeitar os limites: os seus e os dos outros? É isso mesmo?

A decepção foi enorme. Ainda mais desanimador é ver as pessoas discutindo esta lei. Se esse ou aquele deve fiscalizar e blá blá blá. No mesmo dia que vi a notícia presenciei o motorista do ônibus escolar colocar bem alto uma estação de rádio qualquer quando íamos para a escola à noite. As músicas fugiam completamente ao meu mais expansivo gosto musical. Este motorista não é, como motorista, dos melhores – tanto em comportamento quanto na direção. Ao contrário, justamente, do outro motorista da noite que não permite de forma alguma que os alunos ouçam suas músicas sem fone de ouvido dentro do ônibus. Ontem mesmo, ao entrar e ouvir um aluno sentado no fundo do ônibus ouvindo um funk no volume mais alto, ele dirigiu-se até ele e solicitou que desligasse. Enquanto isso não foi feito o ônibus não seguiu viagem.

O primeiro comentário irônico que me ocorreu foi que era uma piada dizer que motoristas e cobradores deveriam cobrar isso dos passageiros, pois perdi a conta de quantas vezes ouvi os sucessos vindos do Dj cobrador com seus mp3/4/5/6/7/8 (etc), celulares e dos motoristas também com seus aparelhinhos eletrônicos ou do próprio ônibus. Um fim de semana antes dessa notícia um motorista do Rio Tavares Direto ligou a rádio para ir do TIRIO ao TICEN e o caminho todo foi ao embalo de algo que chamaram de sertanejo universitário. Minha ignorância nessa área é enorme.

São tantas as contradições que cansam. Porém, o que é mais desprezível é ainda vivermos num mundo – e principalmente neste país paternalistazinho – no qual as leis precisam (será mesmo que precisam?) ser criadas para dar aquela palmadinha nas costas do não-cidadão e dizer, num sussurro “faz isso não, camarada”.

Sei que para quem acompanha o blog posso parecer contraditória, pois a alguns post atrás eu defendia uma lei que proibisse o cigarro e a bebida nas praias. Pois é, posso mudar de opinião. Como posso ter visões diferentes de problemas semelhantes.

Fui a favor da lei que proibiu fumar em locais públicos porque particularmente detesto cigarro. Sei que hoje ela é só mais uma lei – vide os terminais de ônibus de Florianópolis, onde as pessoas vão até a ponta (ainda debaixo do teto e em lugar público) para fumar e acham que estão “respeitando” a placa. Inclusive funcionários dos terminais fazem isso. Mesmo com esta lei em vigor já presenciei inúmeros casos de desrespeito. Um deles na rodoviária de Joinville, um cara fumando ao lado da placa, no meio da plataforma. Fui até o fiscal e ele disse que infelizmente isso ainda acontecia com frequência e, como era de se esperar, não fez absolutamente nada.

Ninguém faz nada. Esse é o povo brasileiro.

E aí você entra em sala de aula e tem que conseguir explicar que, por exemplo, não se pode ser “a favor” ou “contra” o homossexualismo.

Eu queria crer num mundo que não precisasse de leis para dizer o óbvio. Leis que determinam o que podemos ou não fazer sem, necessariamente, dizer o motivo nem como aplicá-las. Temos leis demais. E o povo se acostumou a isso, a ver se tem uma placa, uma lei, uma restrição que diga: “pode”, “não pode”. A tutela que não permite o povo sair da minoridade – como diria o querido Kant (é, acho que fiz as pazes com ele) – gangrena a nossa sociedade. O governo mantém todos sob sua tutela não só para controlá-los, mas para enterrá-los na sua própria ignorância.

Estão tão enterrados que você não vê o povo mesmo reclamar desse tipo de coisa. Reclamam os chatos, os intelectuais, os pseudo um monte de coisa, os metidinhos e afins. O povo curte a música tocada pelo Dj do busão. O povo não se incomoda com a fumaça do cigarro, isso é coisa de gente fresca e chata como eu.

Não seria preciso lei nem que um cobrador peça para colocar os fones se a população realmente reprimisse as atitudes do não-cidadão. Eu já nem dava muita bola para música nos ônibus, porque, né, haja tempo. Eu percebi isso com o advento (!) dos celulares com TV digital, era aquele povo no busão, nos pontos de ônibus, em qualquer lugar, assistindo o Jornal Nacional e a novela das oito. Nesse início eu até me irritava (TV, de um modo geral, tende a me irritar). Depois vieram as músicas (o que, por pior que seja, ainda é menos pior do que TV). E se está longe (no fundão, por exemplo, visto que eu gosto de sentar na frente – atestado de velha chata) eu nem dou bola. Se o barulho está alto e por perto, dou aquela olhada reprovadora com um meneio negativo de cabeça. Eu reprovo. Eu já pedi pra desligar. Pode fazer escândalo, pode ficar fazendo careta. Não me importa. Eu procuro ser cidadã. Mas somos tão poucos que eu realmente não acredito na eficiência nem no caráter generalizador dessa reprovação.

E aí você entra em sala e quer discutir assuntos graves como um de menor que dirige sem carteira alcoolizado e mata com alguns alunos que defendem a idade de dezesseis anos para tirar carteira de motorista.

E, sim, a educação está aí gritante em todos estes assuntos. Ah, a Política também, porque meu coração Liberal não me permite assistir a esse paternalismo tutelar calada.

E vou aqui esperar uma lei que proíba a idiota da vizinha de lavar a calçada e molhar a rua dia sim, dia não. Uma outra que proíba as pessoas de conversarem – pessoalmente ou pelo celular – dentro do ônibus de viagem quando eu quero dormir. Uma outra também que exija que montadores de móveis trabalhem aos sábados. Uma ainda que não permita as folhas do pé de maracujá de caírem na varanda. Simples assim. E a gente nem viu tudo.

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3 comentários em “Dj do busão

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  1. infelizmente devido à péssima educação no senso comum nas relações diárias, leis proibitivas que agridem a individualidade de cada um devem sim serem colocadas em prática. Como utilizador diário da péssima qualidade de serviço do transporte coletivo da capital sei bem o que é isso. Infelizmente moro em São José e preciso ouvir os “djs” depois de um longo e tenebroso plantão no hospital regional. Você não é contraditória, é apenas egoísta: Toma a sua verdade e generaliza a crítica.

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    1. Penso que houve alguma péssima compreensão do texto. Pois, com a lei, os djs emudeceram? Antes de ontem, num TITRI-TILAG, uma penca de crianças ligou o celular, fez bagunça no ônibus e ninguém fez nada. E a lei, adiantou alguma coisa? Onde está a “prática” da lei? Leis só funcionam sob severa fiscalização (e olhe lá!). Também sou utilizadora assídua do sistema de transporte coletivo de Fpolis e não o considero péssimo. E, bem, realmente sou egoísta, como a maioria das pessoas.

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