O anti-herói Schmidt, a hipocrisia, eu e o “sempre”

 

Resolvi dar uma parada na vida fenética dos últimos meses. Bem, não resolvi, o corpo e a mente resolveram por mim e não conseguiram sair da cama como programado hoje.

 

E motivos não me faltam para tanto. Não faltam para continuar no ritmo frenético, nem para parar tudo e tirar umas horas de folga.

Eis que pela manhã estava trocando de canal e encontrei um filme que eu já havia começado a assistir. O engraçado é que ele estava passando bem no momento onde eu o havia largado das outras vezes. Pensei cá com meus botões que, enfim, eu deveria assisti-lo, pois foram muitas as vezes que ele me apareceu na frente. Acredito em sinais.

 

Talvez o filme não tenha nada de mais. Talvez até tenha alguns pequenos problemas de produção e de elenco. Jack Nicholson e Kathy Bates tiram de letra, mas o resto deixa a desejar. Talvez ele tenha uma visão exagerada do grotesco e caia no riso (constrangido) sem graça.

Talvez não.

 

Ao longo do filme eu não sabia se simpatizava ou trocava de canal. Parecia bobo demais. Era cansativo acompanhar o protagonista nas suas horas de solidão.

 

E lá pelo final eu percebi que tudo isso era intencional. Na sequência do casamento eu pude perceber tudo. O discurso do personagem do Jack Nicholson encerra um pensamento perfeito: casamento é a mais pura hipocrisia.

E, claro, adepta que sou de idéias anti-conjugais, vi a genialidade do filme.

 

Esses dias ainda pensava na questão: acho lindo quem resolve viver junto a vida inteira, que leva isso a sério, admiro mesmo e acredito quando elas professam isso. Só não entendo.

Porque, pra mim, a palavra sempre só pode se referir ao passado, nunca ao futuro. De um modo geral, para não criar confusão, a palava “sempre” e seu significado ficam fora do meu vocabulário. Assim é menos constrangedor, menos desagradável ao ser confrontado com o seu próprio discurso. E há tantas pessoas nessa babação de análise do discurso…

 

Ao descobrir que o seu casamento, que parecia perfeito – como todos, enfim, parecem -, era uma farsa, Schmidt se vê frente a frente com a hipocrisia que é o casamento dos outros e o eminente casamento da própria filha. “About Schmidt” é, então, um filme que remexe de leve – não com precisão como o colchão de água do futuro genro – com o pensamento nobre e vazio, atualizando que é sempre mais importante fazer o difícil do que cair no óbvio.

 

Além de fracasso e fracassado, o personagem não acredita que fez alguma diferença. Tudo seguia sua hipocrisia e sua obviedade. A filha casou, ele não impediu isso. Mas aquele menino lá longe era a diferença, era o além, era fugir ao óbvio do sogro que sustenta um casal fracassado. E ele só encontra isso num desenho óbvio (minha mãe adivinhou o que estava desenhado antes de aparecer a imagem) e clichê. Será que também na obviedade pode estar uma alegria?

 

Quem casa deve acreditar nisso.

 

Nicholson faz o anti-herói que não cede aos desejos da futura sogra da filha numa banheira de hidromassagem, o anti-herói que, por mais que o espectador espere, não faz um discurso inflamado contra o ridículo casamento com convidados ridículos aos quais a filha está se submetendo (talvez ela mesma já seja como eles). Ele volta para a casa, onde já não estão mais as coisas da esposa infiel, onde agora ele já consegue dar conta de arrumar e limpar, é mais sincero nas cartas ao menino que ajuda financeiramente em outro continente, mesmo sabendo que o menino nem o lê.

Ele foge ao óbvio que permeou seus 42 anos de casado. Sua solidão lhe parece mais interessante. Para o filme também.

 

É preciso aceitar a hipocrisia nas nossas casas, nas nossas vidas. Senão, fica quase impossível viver. Quase. É muito mais difícil encará-la sem o véu da hipocrisia. Talvez eu tenha algum problema e não consiga conviver plenamente com ela. Talvez me seja difícil conviver plenamente com qualquer coisa, com qualquer sentimento. Viver confortável só se for muito hipócrita. Eu dispenso.

 

Ainda pretendo voltar aos posts sobre as coisas inéditas que tenho feito este ano, e nelas vou encontrar a hipocrisia forjando seus caminhos.

 

Confesso que abri mão, este ano, de repetir coisas que já fiz no passado. Então, ao que parece, o ano tornou-se realmente inédito: tenho feito coisas que nunca fiz e tenho deixado de fazer coisas que já fiz. Não arruinarei nenhum lar por desejos bobos, não poderei dizer que nunca usei drogas… Só não consigo deixar de ser meio Schmidt e prefiro fugir do caminho do óbvio, como quase “sempre”.

 

 

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