Novela das 7h

Ao abrir a porta eu já senti aquele cheiro. Era de um sabonete japonês antigo, de mel, que a avó dela tinha dado de presente. Eu conhecia aquele cheiro e não suportava mais senti-lo. Era como se nossas vidas tivessem aquele perfume enjoativo, forte e tão conhecido.

As contas estavam em cima da mesa, como sempre. A lixeira aberta como um post it para me lembrar de tirar o saco de lixo e levar para fora. A TV ligada naquela insuportável novela das 7h. Se me perguntassem qual era a novela, eu nem saberia dizer, todas as que ela assistia eram insuportáveis. As luzes todas do apartamento estavam acesas, ou seja, hoje ela não queria sexo, não tentaria me seduzir com a meia-luz dos abajures e uma camisola transparente. Como se precisasse de camisola transparente, eu conhecia cada centímetro daquele corpo – e a mesma camisola de sempre. Eu me perguntava por que ela não desligava a TV pelo menos nesses dias de meia-luz e colocava alguma música. Não, ela não gostava de música. Só ouvia rádio no carro: entrava, batia a porta feito um cavalo e ligava o rádio. Eu nem tentava conversar, evitava gritar mais do que aquelas músicas enfadonhas de sempre.

Sempre. Sempre. Sempre.

O que havia sido minha vida antes do sempre? Parado ali no meio da sala, parcialmente de costas para a TV, eu me perguntava uma coisa tão banal. Existira vida antes do sempre? Haveria algo depois do sempre? O para sempre me sufocava, comecei a alargar o nó da gravata tentando respirar.

– Ah, eu falei com ele! Acho que ele não quer ir, sabe, mas dá nada, eu dou um jeitinho, sabe, né, mulher tem sempre que conseguir tudo o que quer.

A voz estridente (nem era estridente, mas pra mim já soava assim) vinha lá do quarto. Pendurada no telefone, claro, falando demais com qualquer amiga idiota. Falando da nossa vida, a idiota.

Então o para sempre era isso? Era disso que tanta gente corria atrás? Amizades para sempre, amores para sempre, felicidade para sempre? Estava ali absorto ao invés de ir até o quarto, jogar a pasta sobre a cadeira, fazer uma careta de desgosto para ela, como sempre. Eu também era como sempre.

Não ia. Não queria ir. Mas via a cena se desenrolar… via meus passos, a cara dela já marcada de tanta maquiagem e cosmético anti-idade desde os 25, via o quarto bagunçado com roupas e sapatos pra todo lado. Via o beijinho sem graça com um sorriso falso que ela me mandava entre as fofocas sórdidas do telefone. Sem graça? Falso? Ela me amava de verdade? Aquilo era amor?

Tinha sido prova de amor ela ter deixado, por um tempo, a carreira? Ter parado de estudar? Ter se mudado tantas vezes por causa do meu trabalho? Eram provas? O que ela precisava me provar?

O telefonema ia chegando ao fim com aquele “vou lá esquentar a janta pro meu safadenho” de sempre. Todos os modismos que ela imitava, tudo que ela tentava parecer engraçado. E eu ali parado.

– Ué, taí ainda? Quequetedeu hoje? Sabe com quem eu tava falando? Com a Mari. Ah, é, eu sei, uma chata. Ela quer tanto que a gente vá sábado. Nós vamos, né, só pra provar que eu não acho ela chata. Eu sei que tu quer ir.

Ela passa… aquele cheiro indistinguível. O cabelo crespo armado todo loiro que ela puxa e repuxa a cada instante.

Eu largo a pasta no chão, no meio da sala. Pego o controle no sofá cheio de revistas, copos, cobertas e desligo a TV.

Os passos acelerados vêm da cozinha.

– Quequetedeu?! Por que tu desligou isso?! O que tu tem na cabeça?!

Os olhos arregalados, o corpo enrijecido, a mão na direção do controle da TV.

Eu desvio a mão.

– Me dei conta de que você nunca assistiu, nem assiste essa novela. Nenhuma novela das 7h.

Ela pára. Ela congela. O para sempre dela abre uma brecha.

– Eu sempre assisto e assisti a novela! Dáqui isso já.

Os olhos arregalados.

– Tu nunca assistiu nem nunca mais vai assistir.

– Ai, tá bom. Deve ser o calor, querido. Vou abrir a janela um pouco e tu liga a TV.

Tudo havia voltado ao normal, como sempre. Aquela cara marcada, o olhar de peixe, o sorriso falso (sim, só poderia ser falso). Só não era mais falso do que o “querido” que ela usava como se me amasse.

Ela se apóia na janela, abre um lado, abre o outro, respira, olha para baixo. Com o canto do olho espera que eu ligue a TV.

Caminho até ela, seguro com firmeza suas coxas – num breve segundo ela solta um gritinho – e a atiro pela janela.

A TV desligada.

Pareceu-me o único digno “para sempre”. Agora eu entendia.

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