Madrugadas

Eu poderia falar de tantas coisas nobres. De Política. De questões sociais. De História e de Cinema. Ou então contar alguma coisa do meu dia-a-dia, aquelas coisas que causam espanto, como diria o Gullar, e que fazem do poeta o poeta. Poderia escrever alguns versos, uma estória que habita minhas idéias. Ou poderia simplesmente satirizar alguma coisa. Sou péssima nisso, eu sei. Afinal, humor não é o meu forte. Gosto do drama, da dor, das coisas impossíveis, do inalcançável, das emboscadas.

 

Eu posso contar que gosto das madrugadas. Conheci-as quando nova, bem nova. Ficava lá naquele outro quarto que nem era bem meu, adolescente bem precoce, portas trancadas, meia-luz. Era um livro que começava na hora de ir dormir, era a rádio – aquela mesma – que criava a trilha para as letras. Ou era a música – sim, aquelas – que me embalavam. O certo era que ali começava e não via o “tempo passar”. Ora, o tempo nunca passa, ilusão organizacionista humana. Apreensões, negações, aceitações, vivia com o coração aflito até a última página. E aí já era quase hora de levantar para ir para a aula. E a cabeça mais e mais aflita e presa ao coração que moía e remoía cada ida e vinda das páginas. Apagava a luz, andava pelo escuro pela casa grande, tomava água, ia ao banheiro, tudo maquinalmente, enquanto a cabeça se deliciava com a estória. Deitava, agora para dormir mesmo, e, às vezes, não dormia logo. Reinventava a estória, encarnava personagens, fazia uma alteração aqui, outra ali. Ou revivia a própria estória, me deleitando com novas imagens e sensações. E ali ficava, fim de madrugada, sorte era pegar no sono antes da mãe chamar para levantar. Muitas (e foram realmente muitas) vezes não conseguia levantar. Inventava uma dor, olhava pra mãe com aquela cara famosa ou simplesmente não levantava. Ela aparecia e perguntava: não vai? Não, eu não iria. Do mundo das estórias me jogava com toda a força para o mundo dos sonhos e neles ficava.

 

Foram tantas madrugadas assim… dos livros e da música fui aos filmes. Sofá, coberta, um vinho às vezes, e as mesmas reações, o mesmo corpo e a mesma cabeça reagindo a cada imagem, a cada personagem, a cada fala. De vez em quando a noitada começava num filme e terminava num livro. Como alguns dizem que começam a balada em tal lugar e depois vão para outro. Minhas baladas sempre foram essas. Para quem não sabe ainda, nunca fui para a “balada”, nem pra “night”, nem pra nenhum desses clubes, boates, dance clubs ou sei lá como se chamam. Nunca. Aliás, também nunca fui em festa da faculdade, nem antes, nem durante, nem depois de duas graduações e meia.

 

Mas já virei muita madrugada. Não queria ser indiscreta, mas nem sempre a companhia foram os livros, as músicas e os filmes e a minha própria companhia. Nem sempre.

 

E aí eu não entendo acordar cedo. Eu vejo a beleza do amanhecer, de vez em quando o contemplo. Raramente, é verdade. Mas sou apaixonada pelo pôr-do-sol. Aliás, parece que as 18h tem um poder sobre mim. Eu vivo melhor na madrugada, eu penso melhor, eu escrevo melhor… eu sinto melhor. Não pretendo nem quero explicar. Só sei que o silêncio, a sensação de vazio, de estar só no mundo é o que mais me atrai às madrugadas.

 

Eu preciso disso. E nem sempre todos souberam respeitar. Eu preciso viver algum tempo no mundo paralelo. No meu mundo paralelo. Senão eu não vivo. E não posso dizer que me sinto no meu lugar. Bem pelo contrário, como agora, meio da madrugada, e eu andava pela casa escura com a sensação de que faltava algo. De que falta algo. E só me espera a cama. Eu preciso sentir que falta algo. Eu não posso me sentir completa. Eu não posso me sentir satisfeita.

 

Nessas madrugadas já falei muito sozinha, já falei com os atores gostosos dos filmes, já xinguei os autores dos livros. Já fiz pipoca às 4h, uma vez na casa grande queimei (ou melhor: derreti) o pijama de seda no fogo do fogão, uma outra fiz no microondas e o cheiro era tão forte e nauseante que no frio abri toda a casa. Já conversei com meus peludos, discutindo as estórias, os meus sonhos, falando dos personagens reais que me atormentavam o coração. Eles ali, sempre ouvintes a tentar dormir, e eu a transbordar o coração daquilo que nenhum ser de duas patas jamais me ouviu dizer.

 

As madrugadas já me mostraram o que eu deveria fazer, numa encruzilhada. Já me impediram de fazer grandes bobagens. Já me levaram ao mundo dos prazeres inenarráveis. Já me tiraram o sono, me deixaram rolando na cama, quando eu tentei ceder e fingir que dormia e acordava como todo mundo. “O mundo inteiro acordar e a gente dormir” Gosto de ouvir as pessoas acordando quando estou pegando no sono, ouço aqueles que trabalham, os que estudam, os escravos de corpo e alma, minha madrugadeira mãe, meus vizinhos, os cachorros e as gatas, eu ali procurando o primeiro sono depois de um tempo rolando na cama com as estórias e os sonhos e eles a subir e descer escadas, a irem ao banheiro, a saírem de carro, a abrirem e fecharem as portas. Acompanho com um certo deleite ao saber que o mundo lá fora ainda existe e que eles vão mantê-lo funcionando por mim. Enquanto eles dormem eu mantenho, por eles, as estórias e os sonhos bem vivos.

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