A velhice, o aniversário do Garcia Márquez e os exercícios do tempo

 

 

Justifico minha ausência devido a compromissos acadêmicos… ou “prazos” acadêmicos seria mais adequado. Na verdade escrevi muito nas últimas semanas, enquanto matutava sobre tantas coisas e criava aquelas pautas imaginárias para o blog. Estava com saudade disso aqui. Não daquela escrita injuriante de quem falou o que e o que eu posso dizer disso. Cansa. Cansa uma pessoa como eu tão afoita por matutar…

 

Foram algumas pautas imaginárias, textos mentalmente escritos durante os banhos… a maioria disso tudo nunca passará por aqui. Tenho um imediatismo e uma inconstância que determinam isso.

 

Mas hoje em especial algumas coisas me fizeram lembrar de uma matutação que fatalmente viria parar aqui.

 

A morte. Eu tenho essa espécie de fascinação pela morte. Eu sei os motivos. Mas não é ela que me motiva escrever aqui.

 

Lembro de já ter contado que eu e meu irmão quando bem novos tivemos a mesma idéia, de que seria melhor morrer ou matar-se antes dos quarenta anos porque envelhecer é um espetáculo para quem tem estômago. E lá na tenra idade não queríamos nos ver em decadência física e mental. Bem, ele teve o privilégio de não se ver diante do peso do tempo. Eu? Eu não escapei e tenho a nítida sensação, hoje, de que durarei muito tempo por aqui ainda e verei muitos irem antes de mim.

 

Aquela história de que somos uma máquina e que uma hora a coisa começa a pifar aqui e ali é uma baita verdade. Por isso que digo que para assistir à decadência e à velhice é preciso estômago.

 

Para quem não é próximo dos pais e avós ou é do tipo ingrato e desnaturado (não é o meu caso) o texto não fará sentido.

 

Chega aquele momento que você se dá conta que o quem cuida de quem se inverteu. Você percebe que não importa se você tem paciência ou não, você terá que fazer exercícios diários e constantes dela. Aquelas coisas que você tanto admirava neles e que te inspiraram já não são mais como antes. Os dons que eles tinham foram desmoronando e você precisa estar ali para dar conta do que eles nem lembram mais como se faz. Aliás, a memória será um espinho a te cutucar a todo momento. Eles terão certeza de coisas que nunca aconteceram, discutirão incansavelmente sobre coisas que nunca disseram. Te perguntarão dezenas de vezes a mesma coisa. O óculos? Esquecerão em todos os lugares e você vai precisar dirigir quando eles não forem encontrados, ou ainda ler as placas e preços no supermercado. Você se tornará algo assim como os olhos e ouvidos deles. E em alguns casos as pernas e braços. Aquela manha de gritar do quarto “mãe, traz sorvete?!” não será mais ouvida – e não, eles não estão te ignorando só porque querem te fazer perder a manha, eles já não ouvem mais como antes.

Você vai se irritar. Vai perder a cabeça. Vai achar que eles estão beirando a loucura e que você já deve ter se contagiado. Você vai explodir em algum momento – principalmente quando os teus problemas estão tão grandes e não há ninguém com quem contar, agora você não pode contar nem mesmo com eles – dirá coisas que não deveria, rolarão as lágrimas e um estremecimento fará com que eles se sintam culpados. Você terá a profissão de fé diária de mostrar para eles da forma mais leve possível que eles não são um fardo. E se arrependerá muito por ter deixado escapar uma frase qualquer que deu isso a entender.

Você vai mudar muita coisa na tua vida, na casa, na tua rotina por causa deles. Eles talvez nem percebam… mas você não vai jamais comentar isso. Eles vão precisar de você quando você estiver precisando de você mesmo, mais do que nunca. E você vai se colocar em segundo plano. Porque você os ama e já brigou muito com eles, já bateu de frente nos arroubos da juventude, já foi a filha rebelde e desobediente, já fugiu de casa, já deixou de telefonar – e agora nada disso mais importa: eles são tudo o que você tem. Vai ser aquele papel que ela derrubou e não conseguiu ajuntar, aquele peso que ele foi carregar e não conseguiu. Você vai se ver fazendo tanta coisa já no automático, sem nem perceber que virou parte da tua vida. Desde as menores coisas até as grandes decisões.

 

Quando eu via meus pais, achava que eles seriam daquele jeito pra sempre. O tempo, porém, foi chegando… se encostando ali, se ajeitando aqui… e chegou o dia de hoje quando percebi que eu já estou mais para o lado de lá do que para o lado de cá das manhas e rebeldias. Sabe, eu encontro um olhar que me chama para aquela fuga e na hora lembro da data da próxima cirurgia. Me peguei pensando se eu não estava usando-os como muleta para fugir de alguns chamados do Destino. Já não sei ao certo. Eu posso romper e deixá-los à própria sorte por alguns dias… e que eu aguente o estrago depois.

 

Ao mesmo tempo, eu ganhei a liberdade de ditar algumas regras. Numerar prioridades e imposições. Aí fica engraçado ver os momentos de teimosia deles e os silêncios diante da proibição de dizerem qualquer coisa sobre o que eu faço. Aliás, teimosia… e que teimosia! Só piora, definitivamente. Sim, eles vão insistir com você no A quando você cansar de dizer que é Z e aí chutar o balde e decidir pelo D. E você vai se pegar pensando: será que eu era assim teimoso quando criança? (porque aí talvez a vida tenha sentido e tudo se justifique: estou pagando meus pecados)

 

O mês de janeiro foi lindo e numa bela madrugada eu peguei um daqueles romances de banca de revista para me fazer companhia. Nunca pensei nisso de me identificar com nenhuma personagem literária, afinal não sou magra, alta e loira ou ruiva sardenta. Sempre foi mais fácil cobiçar os mocinhos e vilões. Quem acompanha o blog sabe que eu falava por aqui em fazer uma lista comentada sobre os personagens da ficção pelos quais sou apaixonada. Comentava isso com umas amigas quando uma delas disse que faria uma lista das personagens com as quais ela se identificava. Eu fiquei sem conseguir citar uma. Eis que me lembrei da protagonista desse romance que eu havia lido fazia poucos dias. Sim, eu me via nela – e não era só porque ela tinha sonhos eróticos com o Marco Antônio (e o Marco Antônio dela nem era o Purefoy). Era porque ela tinha cansado de relacionamentos que não entendiam que ela se doava para todos que ela amava e isso incluía a família, ela não podia fazer uma escolha entre ele ou a família. Aí ela só buscava sexo. Vivia com a mãe mas escondia isso e escondia a real situação de saúde da mãe. Por quê? Porque ninguém entenderia. Quando surgia um convite para um jantar ela declinava com uma desculpa qualquer porque tinha que ir correndo pra casa dar a janta pra mãe. Ela já havia desistido de acreditar que quem entrasse na vida dela teria que entrar de vez e corria o risco de não ser prioridade em alguns momentos.

 

Quando eles precisam de você mais do que quando você precisava que trocassem as tuas fraldas é que você entende a complexidade do envelhecer. Não é um envelhecer no sentido mental: eu sou velha no “modo de ser e de pensar”, várias pessoas dizem isso de mim, eu mesma digo já faz bastante tempo. É o envelhecer mecânico mesmo. E eu fatalmente lembrei do que eu e meu irmão pensávamos. Eu tenho alma de velha, mas só por agora é que a idade começou a mostrar as suas malditas limitações depois de uma sucessão de doenças. Elas felizmente passaram, mas os seus danos não. E eu não tenho mais quinze anos para ficar “nova de novo”. O pior do declínio é não conseguir aceitá-lo. É teimar em não acreditar no quadro que vê a sua frente. Para quem está ao lado neste momento é um exercício de choque e paciência sem fim. Com todas as letras e sem poesia: envelhecer é uma merda.

 

Quando eu soube que o Chorão morreu fiquei pensando que era um bom momento para falar disso, porque ele me fez lembrar, por vários motivos, meu irmão. Mas aí lembrei que hoje era aniversário do Gabriel Garcia Márquez, dia seis de março, mais um ilustre pisciano. Gabriel que me levou pela mão numa literatura difícil, desconhecida, apaixonante e que, posso dizer, mudou um tantinho a minha vida para sempre. Pouco conheço da vida dele, pouco li a seu respeito ou vi entrevistas. Amei as suas histórias com devoção de amante casta. Me entreguei a elas. Hoje, quando faz oitenta e tantos anos, Gabriel está senil, com algum tipo de doença degenerativa. A vida é uma merda. O homem que escreveu aquelas doçuras, que fez e faz parte da vida de tanta gente, que abriu horizontes de quem ele nem faz idéia, está vivo mas não pode mais, mesmo que a cabeça quisesse, escrever suas histórias. A idade, a velhice, a decadência chegam para ficar. Lembrei também do belíssimo filme E se vivêssemos todos juntos, francês. Delicioso, agridoce, pueril, doloroso. Nunca antes eu havia me visto rindo e chorando ao mesmo tempo durante um filme. Eu ria, eu chorava, eu me angustiava… não se escapa da morte, mas podemos escapar do fim despedaçante com a morte.

 

A morte nos poupa de ver tudo se esvaindo… de ver quem fomos ruindo aos poucos diante de um eletrocardiograma ou de um aparelho para surdez. A morte é aquele ponto final digno para a indignidade que nem dá mais para chamar de vida, em alguns casos. Por essas e outras que acho digno o suicídio. E quando alguém vem com aquela “tanta gente lutando pela vida e tem quem se mata” eu nem respondo, só penso cá com meus botões: lutando por qual tipo de vida? Lutando por quê? Se não morrer hoje, morre amanhã. O suicida toma as rédeas desse caminho sem volta. Não tem volta, mas tem fim. E o fim é nobre. Muito mais nobre do que chutá-lo raivosamente ou espernear diante dele.

 

É pensar no fim que torna tudo tão mais difícil e complicado. Você tira paciência e tempo sabe-se lá de onde, você esquece as horas de sono, você troca teus programas… porque o que te move é mais forte… e é isso que te impede de pensar no fim. Porque você sabe que tem a recompensa daquele sorriso quando você lembra de um detalhe que eles sentem falta, porque você já os conhece tão bem que nunca erra nos mimos, porque dar presente não precisa de data e parece tão natural pensar neles antes de pensar em você. Será que ser mãe é assim também, mas com muito mais angústia? Tudo me apavora. Mas eu sempre vou lembrar de trazer uma bomba de chocolate, umas sfihas, uns doces de damasco, dar um tênis de dia dos pais, comprar todas as corujas que aparecerem pela frente e lembrar das xícaras e chaveiros para a coleção. Só porque descobri que ser filha é muito mais do que eu imaginava.

 

 

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4 comentários em “A velhice, o aniversário do Garcia Márquez e os exercícios do tempo

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  1. Que texto bonito.
    Não pare de escrever, pelo contrário, escreva mais, divulgue mais, acho que o mundo precisa realmente de mais sensibilidade.

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  2. Eu chorei!
    E o estranho (ou não tão estranho assim, quando se trata dos nossos pensamentos) é que a minha publicação de hoje (espero que hoje) é justamente sobre isso.
    E essa personagem, me parece familiar. Reflexo talvez. Ou não.
    Anime-se. Em seis dias estarei tão velha quanto tu. E piscianas velhas também curtem a vida!
    Beijo beijo Beijo

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