Explicável

 

Ela queria ver as mesmas coisas com outros olhos. A chuva a fazia sentir o corpo mais pulsante. Ela comprava passagens de ida e volta e sempre queria mais ir do que voltar. Encontrava caminhos pelo meio de caminhos e queria pegar desvios. Ela preferia as estradas mais longas, as mais ignoradas – evitava rotas feitas. Ela queria fazer diferente de todo mundo, mas fazia uma coisa ou outra como todos – e aí ela desfazia, fazia, desfazia. Ela pensou em apagar todas as fotos que passava da câmera para o computador, depois de vê-las – assim, como exercício de memória, desapego, amor. Ela queria sentir as histórias que já havia vivido cada vez que passasse em certos lugares. Ela associava músicas à pessoas, estados de espírito e eventos. Variar é a razão da vida dela. Ela coleciona vasos e papéis de viagens. Ela ama pedras preciosas ou semi. Ela sabe que dinheiro garante a felicidade. Ela sempre quer fugir, fugir, fugir. O horizonte sempre a apraz. O sono a contamina, mas é cafajeste. De vez em quando o vento sopra e ela repara na direção dele como se isso influenciasse a sua vida – e, de fato, influencia. Ela anota recados bonitos e motivadores num quadro na sala. Ela faz listas que nunca segue e esquece. Ela convive com seus atrasos e protelações – como se se amassem a não ter mais fim. Ela diz que não vai mais beber e compra um whisky, um rum, uma vodka e uma cachaça. Ela esquece de algumas pessoas que marcaram fundo sua vida em alguns momentos. Ela marca a vida de certas pessoas e nem faz idéia. Ela não resiste à gentileza. Uma menina cantava baixinho, muito bem afinada, ali no ônibus com as roupas sujas e em farrapos apesar das unhas pintadas e do cabelo bem cortado, sorriu e ofereceu a ruffles que comia mansamente – ela não tirava os olhos da menina com um aperto no peito, mil perguntas por fazer e um carinho que nem sabia de onde tinha vindo, mas antes que desse tempo de qualquer coisa a menina desceu no ponto do shopping. Ela aprecia o tempo em doses cavalares. Ela perde o olhar e a consciência de si por alguns minutos. Ela detesta voltar pelo mesmo caminho, mas sempre quer voltar aonde já esteve. Ela ama o colorido e o preto e branco. Ela se desconcentra com o tique-taque do relógio. Ela vive uma realidade de sonho. Ela ficciona os sentimentos. Ela sabe esperar. O amor sempre lhe escapa da razão. Às vezes ela não sabe o que sente. Ela tem certezas vazias que um dia se transformam em realidade. Ela olha o calendário em busca de uma palavra que faltou enquanto escrevia. Ela se esforça em ser simpática. Ela precisa esquecer um pouco dos outros, de vez em quando. Ela não gosta de pensar em si mesma. Às vezes ela quer chorar só pela beleza do ato do pranto. Os suspiros dela dizem mais do que qualquer discurso ou grito. Ela evita repetir certas coisas para banalizar a emoção. Ela tem receio que os animais de estimação esqueçam dela. Ela não sabe demonstrar sentimentos, esconde seus amores em atitudes grosseiras, mas acha lindo um ombro, um telefonema alegre. Ela queria alguém que realmente se importasse com os seus sonhos, que a escutasse de verdade. Ela tem espaços vazios que ninguém nunca preencherá. E, no fundo, ela não se importa. Ela não se importa com nada. Ela toma banho e esquece. Ela sempre pensa em partir para outra. O frio vem chegando, o calor se foi e ela muda de idéia. Ela quer marcar a pele com todas as lembranças boas que tem da vida para equilibrar as cicatrizes que já marcam as memórias ruins. Um dia as boas superarão as ruins. Ela tem a alma sempre para além do entorno dos seus olhos abertos. Ela sorri ao invés de gesticular. E, do nada, ela pode começar a desenhar para passar o tempo.

 

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