Uma nuvem, cordas e uma pulga

 

Era uma nuvem. Parecia uma nuvem. Pairava sobre mim, até onde a vista alcançava. Cordas, havia cordas por todos os lados, me prendiam, me amarravam e me impediam qualquer movimento. Eu via uma pulga na minha mão – pulava, mordia, pulava – e nada podia fazer. Coçava e eu a observava. Imóvel. As cordas ninguém as veria. E eu não me mexia. Queria ser atriz, para viver tantas histórias. Viver amores, dores, idas e vindas. Minha alma aflita não se cansava de perturbar meus pensamentos. Eu procurava incessantemente um botão com o qual pudesse desligá-los – não o encontro. Não dormia, meus pensamentos não deixavam. Ser atriz seria um jeito de me desatar daquelas cordas invisíveis. Ou, talvez, eu devesse apenas deixar de ler e assistir a filmes. Já não cabem mais em mim tantas histórias. Preciso de histórias. Já não cabe mais em mim ter consciência da infinidade de belezas do mundo – todas as que eu não vi, as que nunca verei e as que já testemunhei. Minha cabeça não explode porque são idéias, pensamentos, mas se tudo fosse físico nem metade disso caberia nela e ela já teria ido pelos ares. Talvez, então, abrir mão dos livros e filmes. Mas, também, talvez abrir mão da visão. Ver tudo sempre o tempo todo me exauri. Eu vejo, não vejo mortos como fantasmas, mas até eles povoam meus olhares construídos de lembranças. Olho para quase tudo e, imagine se olhasse para tudo, já teria ficado cega. A falta da visão, talvez, consiga me deixar ordenar melhor a cabeça e mente aflitas. E os sons? E as falas? E o olfato? E o tato – ah! o tato! -? Preciso de histórias. Escrevo tanto e, para mim, não digo nada. Essas cordas e ali ao lado um copo de água – nem sede eu tenho – que eu cobiço mas desprezo. Não é o corpo que eu desejo alimentar e regar. Quer dizer, será que não? O corpo tem outras fomes. Ele, provavelmente, sente mais do que a tal alma e a desconfiável cabeça. A visão, a audição, o olfato, o tato – ah! – não são só meio para chegar ao intangível da alma. Pensei em me cercear de tudo – já que o mundo me cerceia de tantos e tantas coisas. Ir me podando aqui, ali. Podaria, também, os problemas. Insistiria em podar meus pensamentos por um pouco de sono. Sono? Eu disse sono? Pra que me serviria o sono? Ah, sim, pelos sonhos – aqueles que sonhamos dormindo – que são a plena realização do corpo e da alma. Neles ainda sou feliz. Neles não há nuvem nem cordas. Neles até quem eu quero me visita. Neles as paisagens se propagam. E meus olhos se abrem. Tudo continua ali: pulga, cordas, nuvem. Ah, há luz também. Se ao menos houvesse sol eu lembraria daquele amor que um dia me disse que onde não há sol não há vida – ou, mesmo não tendo, eu lembro dele. Aqui não há sol. Diria um Lógico “Se não há sol, então não há…”. (completem pois me dói demais colocar cada letra de um pensamento tão grande) E, talvez, seja esse sentimento de que há vida demais (para ser vivida) e eu, nem sendo atriz, conseguirei viver o mínimo que desejo. Nem penso no mínimo, nem o mediano – não gosto dessas quantidades e do que elas implicam – o máximo me parece bom, mas bom é pouco. Sempre gostei de transbordar. Não sou muito ecológica e tampo o ralo para ver a água da torneira enchendo a pia até começar aquele fio de água a transbordar e se transformar numa mini cachoeira – espetáculo visual e reflexivo. Gosto do verbo, da ação: transbordar. Assim as coisas não cabem em coisas, assim desafiamos espaços. Talvez se eu olhasse mais para a pulga, tomasse consciência da coceira, planejasse um ataque seguido de execução. (para quem não entendeu, esta seria a realidade) Mas, não, para falar a verdade nem tinha me dado conta da coceira. Olho para a pulga e, pelo tamanho, fico imaginando se é um fêmea, se tem filhos, se é adolescente se esbaldando na gula. Preciso de histórias. Talvez, enfim, se fosse uma injeção (vide meu pavor a elas) a realidade me vencesse. Mas, não. Minha cabeça acionaria o botão de emergência (sem eu não precisar de um segundo de raciocínio – ele é evoluído) e eu desmaiaria, desligaria todo o meu sistema nervoso, ficaria inconsciente. Às vezes ele faz isso, toma uma medida drástica contra a realidade. Preciso de histórias. Sim, de histórias na realidade – mas, vejam bem, estou descartando alguns roteiros desinteressantes, tenho apreço pelas fortes emoções, para a adrenalina, para a beleza; digo mais, dispenso também as histórias repetitivas, as sem sal nem açúcar e congêneres. A nuvem. As cordas (invisíveis). A pulga. Pulga? Nem lembrava dela. Talvez atriz. Talvez um plano (hein?) de fuga. Talvez um salvador todo de preto, empunhando uma adaga com cabo madrepérola, montado numa moto cor vinho. Talvez o sono. Talvez os livros. Talvez, enfim, uma luta feroz, árdua, dolorosa e longa de roer as cordas com os dentes e as unhas. Se ao menos houvesse sol. Só entro numa luta se eu sei que haverá uma boa recompensa. E não falo de bens – pouco me importam os bens, o material, não quero ter nada, nem hoje nem nunca. Enquanto cogito uma recompensa, há a nuvem e as cordas (invisíveis). Porque a pulga, até ela, debandou e foi lá ver seu filho, ou, quem sabe, procurar outro sangue.

 

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