A pedidos: a volta dos relacionamentos

 

Eu poderia dizer: não gosto (ou acredito) em relacionamentos. Seria reduzir demais a discussão. Para começar, quero separar as duas coisas: sentimentos e relacionamentos. Sentimentos vivem melhor sem os relacionamentos, e estes acabam com os primeiros. Sim, relacionamentos fazem mal aos sentimentos.

 

Por que falar novamente sobre relacionamentos? Porque me pediram, porque andei pensando sobre e porque tenho observado algumas coisas. Recentemente vi alguns (e não foram poucos) relacionamentos terminarem. E nem falo desses namoros de três meses. Vi casamentos de dez anos, relações estáveis (no papel) de cinco anos, namoros de dois, quatro anos, acabarem do nada. Claro, do nada nunca é. O que pude observar é que a iniciativa partiu dos homens e “sem explicação” – o que levou as mulheres a dizerem “ele tem outra”. Sabe, acho que nem seria o caso. Mas, enfim, numa situação dessas sempre queremos uma explicação ou um culpado. Que seja a outra.

Já terminei alguns relacionamentos. Sou péssima com relacionamentos. Quer dizer, reconheço que há coisas lindas e deliciosas nos relacionamentos – não sou estúpida – mas acredito que a convivência e a balança que existe em todos eles não são pra mim. Manter um relacionamento é muito difícil e, mesmo assim, tem um monte de gente por aí que consegue. Será?

Vi um casamento de dez anos chegar ao fim através de e-mail. Minha mãe ficou chocada. Eu já terminei um relacionamento por e-mail (vejam bem, já havia terminado presencialmente umas três vezes e o cara não entendia, só me restou o meio virtual). Pelo que me lembre, sempre fui eu a terminar os relacionamentos. Namoro mesmo, com toda pompa e circunstância e com direito a “relacionamento sério” no Facebook, só um. Ah, sim, nunca gostei de namoro. Me explico. Desde cedo via aqueles casaizinhos na escola e pensava (provavelmente dizia), se namorar é andar de mãos dadas, sentar no banco da praça e tomar sorvete no shopping, eu dispenso. E sempre dispensei mesmo. Não é pra mim.

Aí virão dizer que sou recalcada, que é pela proximidade do dia dos namorados e blábláblá. Não. Vejam só, já passei muitos “dias dos namorados” acompanhada e (tenho testemunhas!) na maioria esmagadora deles nem dei bola pra data. Se eu disser que só tive dia dos namorados duas vezes não estarei exagerando. Aliás, um deles foi publicado aqui no blog. O restaurante do qual eu falava naquele post nem existe mais. Nem o namoro da época.

Os relacionamentos têm esta capacidade de corroer, deteriorar, consumir o sentimento. Já ouvi de muitas casadas “ah, não é mais a mesma coisa, a gente se respeita (isso não cabe em todos os casos, vejam bem) e tal e coisa”. Nunca é a mesma coisa. É que tem os bens, os filhos, as carreiras, os salários (que juntos, todos sabem, rendem mais e possibilitam financiamentos e afins), as famílias. Já vi situações nas quais as pessoas não se separaram por conta do apartamento que foi comprado em conjunto, porque não se via voltar para a casa da mãe, essas coisas. Isso me apavora. Já não há o sentimento que havia, ambos estão infelizes e o que segura a relação é… o dinheiro ou coisa que o valha?

 

Não é pra mim. Já vivi sentimentos e histórias muito boas. Muito. Relacionamentos nunca tive algum que sequer me desse saudade. E provavelmente já estou velha para cair em conversa de homem. O convite para o café ou o cinema daquele que só quer, na verdade, sexo, pouco me interessa. Declino na hora – e muitas vezes nem educadamente. E os joguinhos? Sério, gente? (cá está minha cara de tédio) Homens e pirralhos a fazerem joguinhos de te deixar no vácuo, fazer cena para despertar ciúme, um dia todo querido, carinhoso e cheio de promessas, no outro se esquivando… alguém ainda cai nisso? Sério? Será que eles percebem o quanto são repetitivos? Eu gosto de boas conversas, nunca neguei isso. E como falava em outro post, não é porque eu converso com um cara (como com o tatuador ontem) que eu estou colocando uma placa “disponível para sexo”. Deus me livre fazer sexo com todas as pessoas com quem consigo ter uma boa conversa. Aliás, tem aqueles que não conseguem ter dois minutos de conversa (nem estou aferindo a qualidade da conversa) e nem para sexo servem.

 

Sempre tive mais amigos homens do que mulheres – questões de praticidade e falta de frescura. Contudo, já reparei num dado interessante. Quando não estou em algum tipo de relacionamento com o sexo oposto, os amigos homens somem. Pois é. Depois da primeira paixão, lá se vai muito tempo, por um amigo, criei a regra “amigos, amigos, homens à parte”. As amigas comentavam sobre a tal friendzone, aqueles amigos que num dado momento você já não sabe se é algo a mais, seja da tua parte ou da dele. Tenho uma amiga em especial que é doutora na área. E eu acho que pessoas que caem nessa armadilha são aquelas que têm a questão do relacionamento muito forte, gostam da convivência, se apegam às pessoas, gostam da rotina. Porque amizade tem muito disso – e de amizade eu entendo. Passei por uma situação, ano passado, que era isso – ao que tudo indica. Não me apaixonei pelo meu amigo, mas confesso que já não sabia se o mesmo não tinha se passado com ele. Resultado: perdi um amigo. E perder amigo eu não aceito. Já disse, se tem uma coisa que eu sei fazer bem é ser amiga – sou das melhores. Esses dias estava ao mesmo tempo conversando coisas interessantíssimas com três amigas – uma que já é amiga há uns quinze anos (desde os tempos do Fundamental), a outra há uns sete anos (do tempo da graduação) e outra que conheci superficialmente na graduação mas que virou amizade há uns dois ou três anos. E tenho amigas de várias idades. Nunca fiz distinções de nada. Por prezar tanto a amizade que não tolero que outras coisas a prejudiquem. Infelizmente nem todo mundo é assim.

 

O que eu vejo dos relacionamentos é que as pessoas incluem neles muitas coisas que deveriam ficar de fora. Eu sempre fui muito radical, por exemplo, no quesito “família”. Não precisa (nem faço questão) conhecer a minha, nem quero (aliás, tenho pavor) de conhecer a do outro. Só dá merda. Sempre digo que o homem ideal é órfão. Quanto menos coisas “burocráticas” fizerem juntos, melhor. Por isso não acredito na reprodução em cativeiro (me explico, casais que trabalham juntos, que se conhecem no trabalho, no mesmo curso, essas coisas). Acredito que tempo e distância, bem dosados, fazem um bem danado aos relacionamentos. Sabe a vontade de estar junto? É boa, mas ficar o tempo todo junto vai fazer ter vontade de não estar junto. São coisas que a gente vai aprendendo com a vida. Dinheiro: nunca (eu disse nunca? repito: nunca) deve ser envolvido numa relação – nunca. No meu caso fórmulas prontas e repetição também estão fora – sei que tem quem adore rotina e sempre os mesmos programas, eu acredito que repetição mata qualquer coisa. Sinceridade sempre é essencial. Sabe o que eu sempre ouvi? Que não eram sinceros comigo porque “já sabiam como eu iria reagir”. Gente, vocês não têm noção de como isso me deixava com raiva. Sabe como eu vou reagir? Então me deixe reagir! Não esconder o que não deve é um conselho que todo casal deveria ter em mente. No meu caso não é bom esconder nada, porque invariavelmente eu descubro. E aí, ah, aí eu reajo. Tenho péssimas reações acerca de algumas coisas, é fato. Mas aí eu pergunto, relacionamento não é saber aguentar e conhecer o outro? Minhas péssimas reações vão junto, não tem como “evitar”. E, aliás, essas péssimas reações hoje são bem poucas. Troquei-as pela indiferença. Nem perco meu tempo tendo “reação”, só viro as costas. As testemunhas não são poucas.

 

Esses dias conversava com uma amiga (que está numa situação crítica, daquelas que a gente faz a tempestade antes dela acontecer) e ela me incentivava a seguir adiante na situação com um rapaz. No dia seguinte comentei uma coisa com ela e o conselho era justamente o oposto “não faça isso, não fale!”. Indaguei sobre a contradição e ela só me respondeu “daqui a pouco você vai estar como eu”. Pensei, pensei, e segui o conselho. Não fiz, não falei. Sim, fiquei um pouco (bem pouco) mal com isso. Eu queria ter feito, queria ter falado. Pensando bem, duvido que eu ficasse como ela. Já disse, estou velha pra isso. A gente aprende. Mas, também, não quis correr o risco. Todo relacionamento acaba. Disso eu sei. O problema, nesses casos, é o sentimento. Desses nunca consegui escapar – mas tenho conseguido rebolar bem ultimamente, acho que ando mais desconfiada. No relacionamento é possível colocar regras, limites. No sentimento não. (ia colocar um palavrão aqui, melhor não) E tenho cá pra mim que sou daquelas que ama amar – não necessariamente amar este ou aquele. E aí, ah, aí a coisa complica um tanto mais.

 

Além da decepção com os amigos que somem quando estou sozinha (vão à m, queridos) como agora, me dei conta de algo que me decepcionou ainda mais. Conversava esses dias sobre o que é apaixonar-se. Me disseram que nos apaixonamos pela pessoa, pelo jeito dela, pelo que ela diz, faz. Pois é. Já se apaixonaram por mim por causa disso. E minha decepção foi constatar que em todos – todos – os casos em pouco tempo eles tentavam domar tudo isso. Sim, tentavam me domar, meu tom de voz, minha risada, minhas loucuras, meu descontrole, e tantas outras coisas que nem vou listar aqui. O motivo? Não sei. Não é fácil conviver comigo, eu sei. Então, fica a sugestão, ao invés de querer domar, se mande. Faça como eu, ao ver que tentavam me domar, ou que o relacionamento desandaria, ponha um fim. Não há sentimento que me segure num relacionamento que já não existe mais. E sentimento é daquelas coisas que precisam ser regadas e alimentadas todo dia, se você terminar o relacionamento e seguir adiante ainda com algum sentimento, ele não vai sobreviver muito tempo – só se você se der ao trabalho de alimentá-lo, o que eu não recomendaria. Não se torne um mal-amado, recalcado, chato.

 

Iludir-se é bom, até recomendo, mas jamais sobre os outros. Não me contento com pouco. Talvez eu sempre queira demais. Eu ainda acredito que até num relacionamento isso é bom. Assim sinto que as coisas se movem, que têm um objetivo. Já vi muita vida desperdiçada porque parou no apartamento financiado juntos, empregos estáveis, segurança e “respeito”. Tem quem é feliz com isso, longe de mim querer crer que todos almejam o “movimento”. Nunca acreditei lá no poeta de que é impossível ser feliz sozinho. Vejo muita gente desesperada por “ter alguém”, um relacionamento. Acho que essas pessoas acreditam no poeta, ou querem desesperadamente acreditar. Ainda sou mais daquele clichê que se a pessoa não consegue ser feliz consigo mesma, jamais o será com um “outro”. Eu nunca consegui me divertir tanto com alguém do que me divirto sozinha. O problema é que as pessoas não querem “ser feliz” com o outro, elas querem prazer, elas querem segurança (ou o velho golpe mesmo), elas querem crescer profissional e financeiramente, elas querem alguém pra tirar o lixo, para ter companhia pro cinema, pra ir no Madero no dia dos namorados, ou alguém que lhes mande flores.

 

Eu? Eu não guardo datas. Eu nunca sei quando começou ou terminou um relacionamento (tem gente que me pergunta essas coisas). Eu não dou bola pro dia dos namorados. Nunca recebi um buquê de flores (nem da família) – como me disse uma vez uma aluna, ao receber um em sala, “flor a gente leva para os mortos”. Levo muito em conta a felicidade e já descobri que pra isso não importa nada ali da última frase do parágrafo anterior. Vi pessoas descobrirem que você não pode depositar nos outros a sua felicidade – grande lição, aliás.

 

Ah, só para encerrar (penso demais, escrevo demais, falo demais – pouco nunca foi meu forte), falar sobre as coisas ajuda pra caramba. Falar sobre relacionamentos, principalmente com quem você está, resolve muita coisa. Eu falo de tudo – menos de sentimentos. Sentimento tem que ser sentido, percebido, descoberto. E nessa história não há erros ou acertos.

 

 

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