Histórias Vizinhas

 

Era quase a hora do sol se pôr, a rua estava deserta. Rua de cidade do interior, sem asfalto, algumas árvores pelas calçadas, casas antigas, jardins bem cuidados. Havia uma casa, de madeira, pintada de azul desbotado com janelas rosas que destacava-se das outras. Não só pela combinação gritante das cores como também porque era a única que parecia abrigar vida. Uma música, um pouco bolero, um pouco salsa, vinha de sua sala da frente. O som parecia embalar a rua e as árvores, ela ditava o ritmo do vento. O jardim também despertava a atenção pelo colorido e pela diversidade de flores e plantas. Apesar de pequeno, o terreno estava em comunhão com a casa e a música.

Uma menina loira, magra demais, com dentes de oito anos ainda não completos, corria, ou melhor, saltava pela rua em direção à casa. Trazia uma sacola de supermercado com tangerinas na mão direita e uma pasta preta no braço esquerdo. Ela abre o portão em estado precário do jardim e atravessa-o gritando e correndo ao mesmo tempo. Da janela da frente surge uma mulher loira, que pelos traços e sorriso diz ser sua mãe. A mulher está com um pincel na mão esquerda, e quando a menina entra na sala e lhe dá um beijo a sala apresenta-se como um ateliê de pintura. Muitas revistas, fotos e desenhos a carvão estão espalhados por todos os lados. Não pode-se mais chamá-la de sala pois não há nenhuma TV ou mesa de jantar. Apenas um velho sofá rasgado, embaixo da janela, um cavalete em frente e algumas almofadas pelo chão. A sala, não… o ateliê, o ateliê é grande e ocupa toda a extensão da parte da frente da casa. No canto esquerdo, entrando pela porta, há vários vasos com plantas grandes e de um verde saudável. Na parede em frente à porta há pequenos vasos, plantados também por alguém dito pequeno, com flores delicadas e coloridas. Não há mais nada ali. A pasta a menina deixa no chão, enquanto gira abraçada com a mulher. A menina começa a falar ininterruptamente e mostra as tangerinas. A mulher larga o pincel num pote com solvente e aperta as bochechas da menina, que sorri com o rosto sujo de tinta. As duas seguem para a porta que liga a sala, não é sala, é um ateliê, então, que liga o ateliê com o resto da casa.

Passada a hora do sol se pôr, chega de mansinho a noite que convida para conversas calmas e profundas. As duas estão sentadas na cozinha que tem uma porta para o quintal da casa. Quintal bem cuidado, com uma horta de temperos e árvores frutíferas. A cozinha também é simples. Sobre a mesa há um lampião que ajuda a iluminar o caderno da menina, há apenas duas cadeiras e um armário na parede, igual ao da pia. Não há fogão, somente um fogareiro de camping em cima do tampo da pia. A menina concentra-se arduamente para resolver as questões que não se mostram tão complicadas, mas ela não consegue fazer o que lhe é pedido sem esforçar-se demais. A mulher está sentada ao lado direito da menina e descasca uma tangerina. Aparece pela porta um cão sem raça, peludo e grande, abanando o rabo. Ele senta-se entre as duas e começa a latir. A mulher divide sua tangerina com ele que deita no chão de madeira para devorá-la.

Já é tarde. A rua continua vazia, o som da música se foi, agora nada tem vida. As janelas estão todas fechadas, os portões também. Poderia se prever alguma desgraça, ou infortúnio apenas, num cenário tão calmo que fosse assaltado por alguém desavisado. Mas o que acontece é outra coisa. Poderia se dizer que algo exatamente ao contrário? Não se sabe…

A lua minguante está alta. Algumas pessoas dormem tranqüilamente, outras não. As primeiras não estão necessariamente de consciência leve, são simplesmente pessoas que não pensam. As últimas, se não dormem tão bem, ou nem dormem, pensam. Pensam em coisas boas, sonhos talvez, ou em problemas e situações nas quais não gostariam de estar. Mas há quem esteja pensando na vida dos outros, pois a sua é tão sem paixão que é preciso viver a vida de alguém para suportar a própria. É uma dessas últimas que interessa agora. Ela, ou melhor, ele, é vizinho da casa da qual falava-se a pouco. E ele pensa na cena que viu na hora do pôr-do-sol. Aquela mesma que você viu. No entanto, ele viu só até o momento da chegada da menina. É um morador novo na rua, herdou a casa do tio que era solteiro, como ele, e havia ido morar lá para estar mais perto da avó, a única pessoa que restava da família. Ele está deitado numa cama de casal antiga, de madeira maciça, pesada e escura. A casa é a mais aristocrática da rua, pois a cidade não abrigava muitas pessoas de gosto tão austero. Não se pode dizer que a casa tinha um ar sombrio, seria dramatizar demais, porém seu jardim era triste e o mato tomava conta, assim como o cimento.

Como já foi dito, ele não estava dormindo. Imaginava, de olhos fechados, a cena que havia presenciado pela janela da frente da casa. Esta janela era da sala, uma sala mesmo, não era um ateliê porque nem ele nem o tio tinham ou pensavam que tinham algum dom artístico. Nem havia percepção artística neles. Ele seguia a menina com os olhos e reconstruía a entrada dela na casa. Após isto acontecer, ele começava a criar mentalmente os acontecimentos e, é claro, pode-se concluir que não eram fiéis aos narrados aqui. Por ter sempre vivido em ambientes sufocados, ele via a casa da menina do mesmo modo, cheia de móveis e pessoas. Crianças, prováveis irmãs e irmãos da menina, um pai displicente, como também havia sido o dele, uma mãe com as marcas do tempo e do trabalho escritas no rosto, como ele se recordava da sua. Ah, havia um cachorro que pulava e latia, e por isso era escorraçado da casa pelo pai furioso com o barulho das crianças e do animal. O pai reclamava exigindo que a mãe desse conta da bagunça, afinal ele queria um momento de paz para poder assistir à TV. Sim, nesta sala havia TV. E muitos móveis. A sujeira era visível, a desorganização era prova do excesso de trabalho que fazia com que a mãe deixasse as coisas por fazer.

Ele queria distanciar-se do quadro, tão familiar. Mas algo fazia com que ele fosse um observador quase personagem. A mãe foi servir a mesa e uma criança muito pequena, talvez a mais nova, puxou-lhe o avental, o que fez com que ela se desequilibrasse e ele, ali perto, estendeu a mão para segurar o prato que caía. A mãe olha para ele assustada, seu rosto desvanece num sorriso agradecido e cansado. Ela já não acredita que possa contar com a ajuda de alguém. Ele tenta transitar pela sala, uma náusea o toma de assalto. Não há espaço, nem ar puro. O pai fuma e bebe cerveja. De camiseta regata branca e suada, peito peludo, ele lhe atira um olhar de desprezo e não gasta seu tempo com o visitante onírico. Duas crianças brincam no espaço que há entre a TV e o sofá. Uma menina e um menino, mais ou menos da mesma idade. A menina puxa o cabelo do menino por conta de alguma desavença infantil. O pai escuta o grito estridente do menino, que começa a chorar teatralmente. A menina olha, como uma coruja, para o sofá onde o pai está sentado. Ele ergue-se imediatamente e berra. A cinta de couro, desgastada pelos anos de uso, é tirada com rapidez. A cena é congelada: a mãe arregala os olhos, entreabre a boca; as outras crianças postam-se como se estivessem numa cerimônia mística. A menina agressora, por assim dizer, treme um instante e mantém-se imóvel, o menino, o agredido, afasta-se lentamente da menina, que fica sozinha no meio do tapete vermelho e amarelo. A cinta vai baixando e no primeiro estalo seco do encontro do couro com a pele branca da menina a mãe soluça e agarra a menina mais nova como se houvesse uma tempestade e elas temessem os trovões. Algumas crianças fecham os olhos e parecem sofrer junto com a irmã, ou apenas recordar o seu próprio sofrimento de surras passadas. Mas outras crianças ficam extasiadas e não conseguem desviar o olhar, a dor não toma parte nos seus pensamentos, há apenas um espetáculo do qual eles participam, não importa se eles mesmos já estiveram no centro do picadeiro.

O vizinho vê a seqüência dos eventos numa lentidão ocasionada pelo seu cérebro que demora a organizar tudo aquilo. Ele mesmo sente o impacto de cada cintada, sua pele arde, seus olhos lacrimejam. A menina, que antes era agressora e agora é agredida, está em convulsões no chão, esparramada, desgrenhada, grita de dor, grunhe. O pai grita mais alto, fala em “paz”, manda que ela cale a boca, senão ele continuará a bater. A platéia assiste, cada um no seu devido lugar. O vizinho vira-se na cama, suspira e passa a mão nos olhos. Ele está suado. Abre os olhos e contempla o guarda-roupa, seu olhar vai para além do guarda-roupa, além do espaço do quarto. Nem ele sabe para onde.

Ele, depois de acordar, pois havia dormido um pouco, está sentado na janela da cozinha, que fica de frente para a parede lateral da casa azul. Há, ali, uma janela pequena de um quarto. Uma cama com lençol infantil, uma caixa de papelão com brinquedos baratos e um cavalinho-de-pau. A menina de seus pensamentos entra chorando no quarto, com as marcas da surra da noite anterior e outras que demoram a desaparecer. Ela fecha a porta e deita de bruços na cama. O pai entra logo em seguida, seu rosto aparenta um ar arrependido. Mas o vizinho vai entrando no quadro e vê que aquele rosto não trás nenhum arrependimento com ele. O pai senta na beirada da cama, fala baixinho com voz suave, o quanto uma voz de ferro pode ser suave, e passa a mão na cabeça da menina. O vizinho aproxima-se da cama, pelas costas do pai, e ouve-o dizer que nunca mais a machucará, que ele só quer o seu bem. Ele explica, com poucas palavras, que está cansado, que ela precisa aprender a ser obediente. O vizinho vê a mão do pai ir descendo pelo pescoço da menina numa carícia cortante. A menina soluça quase imperceptivelmente. A náusea toma conta dele e ele tenta sair dali, mas como algumas crianças que haviam ficado hipnotizadas no espetáculo da noite, ele fica ali, olhando a mão do pai descendo pela coluna da filha, passando pelas suas nádegas, apalpando-as, e seu olhar já não tem nenhum resquício de arrependimento. A mão ergue a saia da menina, ele diz que, finalmente, ela aprenderá a obedecê-lo. Ele tira brutalmente a calcinha da menina e a cheira de olhos fechados, extasiado. O vizinho acerca-se dos pés da cama, senta-se e vê o corpo seminu da menina. O pai levanta-se, abre a calça, apóia o joelho esquerdo onde ele estava sentado, depois as duas mãos, uma de cada lado da menina, e vai deitando-se devagar sobre ela. O vizinho fica ali, olhando. O suor escorre do pescoço e braços do pai, lágrimas dos olhos do vizinho.

Ele levanta-se da cadeira, já na sua cozinha, e leva consigo a xícara de café que está frio. Dirige-se a pia, joga o café no ralo e vai até o jardim pegar o jornal. Quando está descendo a escada, vê a menina loira passando na calçada da sua casa. Ela olha para ele e sorri timidamente. Ela carrega a pasta preta na mão direita. Ele sente-se nauseado e vira as costas para a menina, que arregala os olhos sem compreender e continua andando.

 

 

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