Chovia na Sexta-feira

 

Subiu quatro andares pela escada. Não agüentava mais o peso das sacolas. O cachorro do 301 latia incessantemente. Por duas noites seguidas não havia dormido por causa dele e como se não bastasse, o casal de recém-casados que morava no apartamento de cima brigara logo pela manhã. O supermercado, neste final de tarde chuvoso de sexta-feira, estava apinhado, não fazia idéia como sobrevivera. E também não fizera boas compras. A porta do apartamento no final do corredor, e lá vinha a lembrança de que ele estava uma bagunça. Completamente desorganizado e com a limpeza três semanas atrasada. Parou em frente à porta para procurar a chave.

Abriu a porta e colocou as compras para dentro. Evitou olhar para os lados. A bagunça parecia gritar e gesticular. As coisas queriam voltar para os seus lugares. Começou a desfazer as sacolas, arrumar o que havia comprado nas prateleiras e armários, logo toca o telefone. Vai até a mesa ao lado do sofá e tira o fone do gancho, diz alô e escuta a propaganda de alguma coisa da companhia telefônica. Nem escuta até o final e desliga. Conclui, sem pensar muito, que aquele havia sido um dia exaustivo, e por isso mesmo não era propício a reflexões demoradas. Decide sentar-se no sofá. As compras continuam parcialmente desempacotadas flutuando em meio à bagunça.

Pegou um catálogo de móveis que estava jogado no sofá e começou a folheá-lo. Mas isso não durou muito. Foi para o quarto, jogou a roupa que estava usando junto a tantas outras que por ali estavam. Deitou e ligou a televisão. O cachorro do 301 recomeçou sua manifestação de enfado, enquanto o barulho de panelas e gritos aumentava no apartamento de cima. Trocou de canal algumas vezes, não viu nenhum programa em particular, desligou a televisão. Virou-se, fez o sinal da cruz, rezou três pai-nosso e fechou os olhos. A janela do quarto estava aberta, a lua cheia tentava aparecer entre as nuvens mas estava longe de obter sucesso.

Nada como uma manhã de sábado para acordar tarde e ficar na cama sem ter o que fazer. Pois não era esse o caso. Levantou-se e foi ao banheiro, ele seria a primeira vítima da quase detetização que seria preciso fazer para deixar o apartamento, no mínimo, respirável. Tirou todas as roupas e toalhas que estavam lá e esfregou cada centímetro de azulejo. Depois foi a vez do quarto: lençóis, roupas, papéis, todos expulsos. Varreu tudo, tirou o pó, limpou a janela e levantou o colchão para ventilar. Nem parou para almoçar e seguiu direto para a sala. Foi empilhando os papéis, livros e catálogos na escrivaninha; as louças de refeições passadas foram jogadas na pia da cozinha. Calma, havia algo de estranho com a cozinha. Ela estava com um aspecto mais organizado que na noite anterior. O cachorro do 301, após uma breve pausa, recomeça a latir.

Já estava no segundo andar quando ouviu um assobio. Virou a cabeça de relance e viu uma criança pequena, no vão entreaberto da porta do 203, acenando. Dirigiu-se hesitante para a porta, a criança foi entrando e continuou acenando. Depois de alguns passos, já dentro do apartamento, a porta fechou-se. Outra criança, ou mais exatamente, a mesma, havia trancado a porta e sorria com a chave entre os dentes.

Estava entre as duas crianças, ambas sorrindo, idênticas na fisionomia e na ação. As crianças começam a entoar uma canção de ninar. As palavras não lhe ocorrem. As crianças dançam a sua volta, rodopiando. Um cheiro forte, vindo delas, vicia o ar. O apartamento começa a girar. As crianças param na sua frente, fazem um aceno, dão-se as mãos, correm em direção à janela, sobem, uma em seguida da outra, no parapeito e, sem cessar de sorrir, recomeçam a canção. As crianças, de mãos dadas, atiram-se pela janela. O chão do apartamento aproxima-se dos seus olhos. A calçada aproxima-se rapidamente das crianças.

Polícia. Ambulância. Sirenes. Vozes. Gritos. Vizinhos. Latidos. Choros. Não parara de chover. O calendário marcava lua cheia. Tempo de serenatas, passeios de barco, lobos uivando e caçando suas presas.

Domingo, mas o movimento do prédio só aumentara. Os velhos recebendo visitas dos filhos, netos, bisnetos. Os casais mais novos sendo vigiados pelos pais e amigos. Os filhos de pais separados sendo carregados e descarregados. Os solteiros chegando dos passeios. O sol fraco de inverno aparecia e gritava que a primavera viria em breve. Algumas pessoas acreditavam. Outras, apesar dos gritos, não ouviam. Muitas insistiam em teorizar contra.

As compras que estavam na cozinha, ainda dentro das sacolas, perguntavam-se quando chegaria seu momento de glória. As maçãs estragavam lentamente. O apartamento estava arrumado, as janelas abertas. O cão do 301 fora ao veterinário, depois de muitas reclamações veladas dos vizinhos, e estava tomando um calmante, não latia mais e todos esqueceram que um dia ele existira. O casal do apartamento de cima brigara no último final de semana, na frente dos pais dela que eram divorciados e ela, aos prantos, foi passar alguns dias com a mãe. O pai dela marcou de visitar o genro para assistirem futebol, torciam para o mesmo time, e disse que levaria a cerveja. Ninguém podia deixar de notar as novas vizinhas que mudaram para o apartamento 203. Três moças que estudavam e trabalhavam.

O jardineiro cumpria seu papel e plantava um pé de jasmim ao lado da calçada, na frente do prédio. O sol passeava. A lua às vezes aparecia. Para completar a semana, era sexta-feira. Chovia. A cidade estava conturbada. O cheiro de jasmim entrava pela janela do quarto e impregnava o colchão. Na sala, os papéis voavam com o vento e emprestavam ao ambiente um ar fantástico e bucólico. As compras, desprezadas nas sacolas, indignavam-se. As maçãs haviam desistido de esperar. A louça que estava na pia para ser lavada desistira e encaminhara-se para os armários. No sábado pela manhã o entra-e-sai do prédio recomeçara. A chuva esquecera-se de aparecer. O céu estava azul, as nuvens rodopiavam com o vento, uma mãe embalava um bebê no berço e cantava uma canção de ninar. As nuvens despediram-se e cederam seus lugares ao sol.

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