Os homens da minha vida – Temos todo o tempo do mundo: o sotaque dançante entre possibilidades

Foi mais ou menos assim.

Ela já o conhecia. Ela estava no balcão do bar da vida, alheia como era de costume, feliz demais com seus trabalhos, fazendo festinha em si mesma com tantas alegrias que encontrava pelo caminho. Ela é responsável. Ela é sozinha. Ela é feliz. E ela acreditava, pobrezinha, que tudo continuaria assim.

Ele apareceu ao seu lado no balcão. E como havia sido tantas vezes, o corpo dela despertou. Ela reparou nele. Nos traços, nas pernas, nas mãos. Mas ela é cautelosa. Observa e faz de conta. Ela não gosta de ser objeto do interesse dos outros, ela prefere interessar-se. Um redemoinho se formou. O balcão do bar estava mais movimentado. Ela saiu dali sentindo uma euforia estranha, era parte satisfação, parte alguma outra coisa. Ela não queria crer – mas crer era tão ela.

Ela partiu mas voltou àquele balcão. Voltou algumas vezes. Já não havia como negar. Ele a fazia rir – e sorrir. Ela se pegou pensando há quanto tempo alguém não conseguia fazê-la rir e sorrir. Diziam que aquele bar ia fechar em breve. Ela tinha pouco tempo. Ela já acreditava que ele retribuía o interesse muito menos veladamente do que ela.

Como diz a canção “Primeiro foi a música A canção fez você sorrir E logo à primeira vista O mundo girou pra mim”. Foram as músicas, disso não há dúvida. E foi o jeito, a proximidade, as confissões, as coxas, as mãos. E foi ter sonhado com ele na noite que ela havia saído do balcão com sensações que ela não usava havia tanto – mas tanto – tempo. Meses antes ela havia escrito – ela tem essa mania de escrever – sobre um caso marcante da vida dela: “As palavras, o jeito de andar quase cowboy, o rosto de ave de rapina, a expressão sorridente alegre, o sotaque dançante, o meio sorriso divertido. A sinceridade. Eu estava apaixonada.”. Ninguém entenderia, ela se apaixona em segundos. Ela se apaixona pelas palavras (as estima muito), pelo jeito de andar, pelo rosto, mas mais ainda por sorridentes alegres, sotaques dançantes (ela tem prazeres especiais por sotaques) e pela sinceridade. Ela se apaixona.

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Era o último dia que ela iria até aquele bar e ficaria horas ali naquele balcão. Na verdade, ela ficaria pouco tempo, mas inventou algo para ficar ali mais tempo. Era despedida. Ela gosta de despedidas. Queria uma especial. E eis que no meio de tanto barulho, de tantas conversas, ele veio com mais uma canção (ele não se cansava de cantar para ela, até nos momentos mais inesperados). Ela não deu muita bola para a canção, é verdade. Ela penitenciou-se inúmeras vezes depois por ter feito isso. A canção, aquela, e ela só soube dizer “ah, sim, daquele filme”. Mas ele queria dizer mais. Ele disse que era a canção do momento atual da vida dele. Ele citou o vácuo. Nos balcões dos bares da vida nós falamos dessas coisas. Ela não entendia porque ele a havia escolhido para abrir assim o coração. Ela perguntou o signo dele. Ela disse que estava no mesmo “momento” da vida, que também entraria no vácuo – os dois concordaram que viam a mesma saída para o futuro. Estavam no vácuo, poderiam sair do mesmo jeito, era proximidade demais. Ela disse que ele era muito sério, muito certinho. Ele não gostou. Fez de tudo para dizer que não era, que também detestava a rotina. Ela se gabou das conquistas do passado. Ela jogou umas iscas, ele mordeu. “Até o tempo passa arrastado Só preu ficar do teu lado” já diz aquela canção que ela ouviu mil vezes depois daqueles dias. Eles ali, naquela bolha no meio da multidão barulhenta, trocando confidências, olhando nos olhos, atropelando palavras e sentimentos querendo dizer tanto.

E ela foi pra casa. Ressoavam os trechos da canção à qual ela não havia dado muita atenção. E foi então que ela colocou-a para tocar. Sentou-se abismada. Ele queria dizer muito mais do que ela fora capaz de entender. “Todos os dias quando acordo Não tenho mais o tempo que passou Mas tenho muito tempo Temos todo o tempo do mundo” e ela via passar a conversa anterior, sobre idade, o tempo, a força da vida que nos leva…

Ela estava apaixonada. Mas nunca mais o veria. Não voltaria mais àquele bar. As circunstâncias assim o determinavam. Ela iria viajar. Passaria um tempo longe. Aquela história teve seu começo, seu meio e seu fim. Ou não.

Ela ouviu aquela canção todos os dias, pela manhã e à noite. Ela estava lá longe, no meio do quase nada e não deixou de ouvir. Talvez lamentasse não ter dado a devida atenção. Talvez sofresse um pouco por saber que não teria a chance de viver aquele amor. Talvez tanta coisa. E ela era sozinha. Era feliz. Entre passeios e trabalhos exultava feito pinto no lixo. Talvez aquela fosse a realidade dela: azar no amor, azar no jogo, sorte na vida. Ela não teria mais amores, era isso. O Destino a fazia resignar-se. Ela ouvia aquela canção e uma outra, pois por uns dias ansiou deveras declarar-se a ele – dizer sem rodeios e apostar na sinceridade que era sua marca, estava apaixonada. Porque ninguém entenderia, também, que ela ama sem exigir nada em troca, sem nem esperar ser amada de volta. E assim ela começou a deixar de ouvir aquelas canções… mas o player, nas longas horas de estrada, suspirava ao seu ouvido. Talvez ela já estivesse esquecendo-o. E isso era muito bom.

Entre russos e hollywoodianos a história caminhava para um fim típico dos primeiros. Ela poderia ter acabado aqui. Porém, em dias chuvosos, num lugar especialíssimo, entre coisas de tantos séculos passados, ela pensou nele. Pensou em como gostaria de levá-lo lá, como seria passear com ele por aquelas vielas, ficar no alto observando a imponente serra que cercava a região. Eles já sabiam que tinham certos gostos em comum. Ela sabia que ele iria gostar dali. Ela ansiava tê-lo. Ela criava diálogos, fantasiava abraços, ouvia risadas, esboçava sorrisos.

É preciso abrir um parênteses. Ela tem sérios problemas. Ela finge o tempo todo. Ela é forte – a vida fez isso com ela e ela não vai mudar, como diz aquela outra canção que, por sinal, ele também cantou para ela. Ela usa – o tempo todo – uma máscara para esconder sentimentos. Ela é extremamente desconfiada – com tudo e com todos. Ela é fechada em si mesma e não deixa ninguém se aproximar. Por isso é tão difícil saber o que realmente se passa com ela, é tão difícil entender suas ações, seus homéricos desvios de humor. Nem os mais próximos conseguem. Eu só posso falar porque vejo tudo de um lugar privilegiado – mas até eu me confundo, às vezes. Só narro tudo isto para tentar ajudá-la. Pois, me parece, ela precisa de ajuda. Mas, acreditem, ela jamais pediria ajuda.

Ela pensou abrir seu coração para alguém próximo. E o fez. De nada adiantou. Ela pensou abrir o coração para alguém ainda mais próximo, tinha certeza que seria julgada e condenada. Ela decidiu guardar tudo ali dentro, com a força que ela conhecia e com um carinho que ela jamais vira igual dentro de si. E assim ela voltaria da viagem, voltaria a outros balcões de bares, seguiria os caminhos promissores que com tanto empenho ela havia desbravado.

Não cabe aqui enumerar as tantas idas e vindas na crença e descrença dela sobre o futuro. Nem ela saberia descrever tudo o que pensou – nem o diário foi atualizado adequadamente. Ela pensava e repensava, esquecia, quase nem lembrava. Os bares foram alternando-se, era tanta coisa ainda para dar conta. Eram prazos, dias, viagens ainda, novas conquistas. Às vezes, num mesmo dia, ela nem sabia que estava apaixonada e em seguida se contorcia de vontade de que ele sentisse orgulho dela por algo que ela havia feito, pelos elogios que ela havia recebido. Parece doentio, eu sei. Talvez quase fosse.

“Todos os dias antes de dormir Lembro esqueço como foi o dia Sempre em frente Não temos tempo a perder” dizia lá a canção que ela já nem ouvia mais. Talvez tenha pensado sobre “A tempestade que chega é da cor dos seus olhos castanhos” com aquela dúvida gigante. Era o que ela realmente pensava? Ela pensava demais? Mas preferia lembrar dele com o “Temos todo o tempo do mundo Somos tão jovens”, se a vida deixasse, numa oportunidade ela diria isso para ele. Ela também acreditava nisso. Por mais que os outros não pensassem isso deles, ela só queria dizer para ele o quanto os versos também faziam sentido para ela.

E ela voltou. Voltou à vida. Voltou aos bares. E numa reviravolta do Destino ela o veria novamente. Ficou fora de si. Sentiu a ansiedade devorá-la. Recorreu ao álcool. Ela agora combinava os brincos com o colar – e ninguém perceberia. Quis transformar a ansiedade em atitude. Mas aquela outra canção foi mais forte “Esse caso não tem solução Sou fera ferida No corpo, na alma e no coração” e mais uma vez, infelizmente, ela abraçou-se a isso e calou-se dentro de si – como era de costume.

Não soube dizer o que se passava. Lá estava ela – que nem parecia ela – naquele mesmo balcão, naquele bar, e o máximo que fez foi observar com afinco as mãos dele. As mãos. Aquelas mãos. Não pensava nele, não se deu nenhuma esperança, não tomou nenhuma atitude. Só olhava para aquelas mãos. Esqueceu de onde estava, não ouvia o burburinho, só via e pensava naquelas mãos.

Chegou em casa desiludida com ela mesma. Frustrada. A alma, a parte que ela mais preza, e o corpo haviam exilado-se com o coração. Destino desconhecido, não deixaram rastros nem bilhetes. Ou seja, ela era só cabeça – que, sim, tem funcionado excepcionalmente muito bem. Eles ainda não sabem conviver, pelo jeito. Era a conclusão. Ela voltaria àquele bar – tinha uns dias para decidir mas já sentia que voltaria lá. No caminho para casa viu-se com as mãos entrelaçadas sobre o peito segurando a bolsa. Ela nunca fazia este gesto. Pensava com afinco em como ela sabia lidar tão melhor com o “nunca mais” do que com o “(para) sempre”. Não era sábio aceitar o convite para voltar àquele bar. Contudo, era quase uma questão de honra. Ela havia falhado, novamente. Talvez tivesse falhado porque a canção está certa, não há solução. Talvez ela queira dar a si mais uma chance. Talvez ela só queira observar aquelas mãos novamente. Talvez ela queira mostrar que é forte. Talvez… ela queira encontrar como dizer tudo o que há para dizer com duas ou três palavras e um olhar. Talvez ela só pense em como não estragar tudo, sabendo que não há como não fazê-lo.

Ontem uma taça de vinho não foi o suficiente para suprimir o desejo por ele. Sim, agora ela o deseja. Isto é novidade. E talvez seja isso que mova os moinhos. Não é nobre, mas ajuda. Ela não tem nenhuma forma de contato com ele, nem uma foto para a qual olhar antes de dormir. Ela tem memória. A taça de vinho não foi o suficiente para fazer com que ela não tivesse decorado na imaginação aqueles traços finos dos lábios, o corte rente do cabelo, o sorriso ponto final, os olhos curiosos, as longas pernas de coxas grossas, as mãos… as largas mãos morenas com unhas bem tratadas e inquietas, o sotaque… ela sorriu tanto ontem, durante o dia, ao lembrar o sotaque. O sotaque, o jeito de andar, mais ainda o jeito de sentar. Aquela espreguiçada que ele deu numa legítima auto-propaganda.

Ela ouve canções que dizem tudo. Ela pensa nele. Ela deseja ardentemente o “nunca mais” porque é tão mais fácil. Nunca mais vê-lo, nunca mais ouvir aquele sotaque, nunca mais aquelas mãos sobre o corpo dela. Nunca mais. Ela tem pouco tempo e nem sabe o que fazer. Ela frequenta outros bares, veste suas fantasias, não tira a máscara em público. Talvez ela esteja tramando algo, uma armadilha. Mas ela sabe que ele é arisco. É preciso, talvez, pensar. Talvez ela não queira nada disso porque deseja falar de desejos, abolir as palavras e resolver tudo com a sinceridade, um sorriso e um olhar. Talvez ela saia perdendo. Talvez não. E ela aprecia muito mais as possibilidades do que as certezas.

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