Valesca, Chico Buarque e, enfim, Kant

Estava eu ali, primeira aula. Começar pelo começo, o que é Filosofia? Ouço lá no fundo “Professora, Valesca é?”, sobre quem são os pensadores. Em seguida, “Clarice Lispector é?”.

Diria eu que não, meus queridos, filósofos são somente aqueles nomes estranhos ali no quadro. Turma de primeiro ano, primeira aula de Filosofia. E que diacho é essa tal Filosofia? E por que diacho aquelas crianças trancafiadas numa escola precisam aprendê-la?

Eu? Eu respondo assim: Filosofia é tudo. E vou tentando explicar, gosto das respostas explicadas. Deparei-me com uma das maiores dificuldades da minha vida: mostrar àquelas crianças que elas pensam. Elas não sabem disso. Não se ensina a pensar, infelizmente. Só o que se pode fazer é mostrar que todos nós pensamos. E aquela tal Filosofia poderia, então, fazer parte da vida deles. Na idade deles foi que comecei a escrever, porque eu lia e imaginava e comecei a achar que poderia fazer como os autores que eu amava: escrever aquilo que minha imaginação ditava. E foi assim que continuamos a aula que comigo é toda feita de perguntas (eu) e respostas (eles), “então o filósofo é alguém que tem uma idéia? Mas nós também não temos idéias o tempo todo?”. Segundo as respostas, eles pensam, têm idéias, são inteligentes, estudam, têm conhecimento sobre alguma coisa. E eu perguntava: e nós não? Já via os nós atados nos olhos de alguns.

Sim, tem a História da Filosofia, a História das Idéias, as áreas da Filosofia, as grandes obras. Nós não escrevemos livros mirabolantes como os filósofos, mas tirando isso, fazemos as mesmas coisas.

E aí foi complicando. Tirando alguns poucos, aquelas cabecinhas não demonstravam consciência de que sabem que pensam. Meu choque diante desta constatação foi tal que me levou à irritação. Chegou a me faltar meios interativos para mostrar a eles que eles pensam. Ninguém quer que eles pensem, ninguém nunca quis. Alguns deles desconfiam que sabem pensar, mas não querem. Escolhas não se discutem. Tenho que encontrar truques, novos truques, que me permitam mostrar a eles que eles pensam.

Saía às dez da noite da escola, cidade pequena do interior, e na minha frente três rapazes iam ouvindo algum rap no celular. Não entendia o que era falado. Comecei a matutar o que levava-os a ver que há idéias numa letra de rap, como nos versos do Charlie Brown Jr rabiscados nas carteiras da sala de aula, mas que eles não conseguiam perceber nas aulas de Filosofia. Lá e cá são idéias – eles precisam me ajudar. Por que o rap está no fone de ouvido e a Filosofia na escola? Vamos e venhamos, já eu, anos atrás, me sentia oprimida pela escola, sinônimo de enclausuramento, obrigação, tédio e quantas mais coisas ruins. Não mudaram muito, as escolas. Rap, no meu gosto, não é música, é intervenção poética. E aí ficarei apenas na opinião mesmo, pois não conheço o suficiente para emitir uma crítica.

E eu que me orgulho de conseguir falar de igual para igual com crianças e adolescentes – já disse que se não sou uma eterna criança, definitivamente sou uma eterna adolescente – estava ali sem conseguir me fazer compreender por eles em coisas tão simples. Quando perguntaram minha idade, afirmando que eu não tinha mais que dezoito, e ao verem meu sorriso de orelha a orelha balançando negativamente a cabeça, “tá, impossível mais que 22”. (cara de dezoito, corpitcho de 20 – e garanto pra vocês que o corpo dos 20 era bem melhor que o dos 18) E é assim, não posso irritar-me, não temos culpa se há séculos induzem estas crianças a não perceberem que pensam.

Aí esses dias consagraram a Valesca como pensadora contemporânea. Minha primeira reação foi rechaçar uma prova – literalmente – de Filosofia, com múltipla escolha. Desconsidero totalmente. E aí estava lá o professor confirmando sua hipótese, se colocasse Valesca na prova, a escola viraria notícia. E dizem que virar notícia ajudou ainda mais na compreensão do assunto tratado em sala de aula. E aí o professor falou sobre a escola pública, o pessoal caiu matando – coisas deste mundo maravilhoso da internet – no professor. Pelo que li, e nem foi muito (já explico), o conteúdo da prova era bem aprofundado, tema pertinente, teoria boa – e não é em qualquer escola (muito menos pública) que um professor tem condições de lograr êxito ou sequer trabalhar assim. É aquele velho mito, porque há escolas públicas excelentes – como particulares muito ruins. Educação é uma soma complexa, estrutura, meios, material didático, professores, diretores e pedagogos, alunos (com todos seus pormenores individualizantes de classe social, formação e estrutura familiar, níveis de interesse, estímulo e conhecimento, problemas pessoais e psicológicos, a lista vai longe). E aí a gente sempre quer enxugar esta lista.

Voltarei lá, todos nós pensamos. Nem todo pensamento é válido – e eis que chegamos à Filosofia. Dos pensamentos para os pensamentos válidos há um salto, e de ter idéias, expressá-las e elas serem relevantes, há outro. Não li muito sobre o ocorrido pelo simples motivo de que era mais uma “velha novidade de internet”, porque foi intencional (detesto as coisas intencionais, de verdade – só a espontaneidade me vale). O professor fez questão de dizer lá sei eu quantas vezes que ele não tem Facebook, mas sabia que ia cair “na rede” (ninguém mais usa essa expressão, né?).

Porque tem isso. Ele foi lá e disse que não tem preconceito, mas que não ouve Valesca, não é o tipo de música que ele colocaria no carro. Pra mim, quem diz “não tenho preconceito” já está querendo se defender de alguma coisa. Digo procêis, de todo coração, eu tenho um balaio de preconceitos. Ainda não ouvi a tal música do recalque (palavra brega, hein?). Fiquei aqui matutando: ouço ou não ouço, pelo menos para escrever sobre. Já vi doutorandos postarem a tal música na TL do Facebook. Decidi que terei que ouvir, dos meus alunos, o que eles ouvem, o que eles querem que eu entenda que, para o mundo deles, é um pensador. Mas eles também terão que me ouvir, aqueles nomes estranhos ali no quadro são pessoas que fizeram o que nós, só com nossas idéias e nossa preguiça, não faremos.

Não se ensina a pensar. Foi minha maior frustração na universidade, já contei? Eu esperava da universidade algo nobre, elevado, uma verdadeira “busca pelo conhecimento”. Não foi. E cedo me desiludi. E teve professor que fez muita prova de Filosofia. Até com múltipla escolha. E aquela Filosofia da sala de aula da UFSC (aquela dos maconheiros, lembram?) não tangia nem de longe o mundo real (ai, Platão!). Para a maioria dos professores nem o contexto da vida e das obras estudadas merecia atenção. Era abrir a porta, entrar, fechar a porta e isolar-se deste pobre mundo real para ir para algo inatingível (com um cheirinho de maconha dia sim, dia não)– inclusive, como eles deixavam claro, por muitos de nós, alunos. E aí a Filosofia fica assim, distante até de quem deve ensiná-la – o que, aliás, não era prioridade no curso que frequentei.

No fim e por fim, não ouvi a tal música. Porque fala em recalque… e eu tenho trauma de inveja, de todo coração. Inveja faz mal – para quem é invejado. Faz muito mal. E recalque me lembra inveja. Eu já nem quero mais saber quem não gosta de mim, quem fala mal de mim por aí. Não me contem. Tenho uma prioridade na vida: me afastar do que me faz mal. Para poder mandar o tal beijinho no ombro eu teria que saber quem me inveja ou é recalcado. Tô dispensando, de todo coração.

E o professor, bem, ele não quis quebrar um preconceito. Ele não quis dizer realmente que a Valesca é uma grande pensadora contemporânea. Ele só quis provar (precisava?) o poder das avalanches vazias de internet. A Valesca, coitada, ainda agradeceu, não percebeu a ironia ridicularizante do professor. Não posso levar a sério. Ah, e só queria deixar claro, adoro exemplos na Filosofia. Ensinar a pensar é bem complicado – impossível talvez – mas aí a gente pode mostrar um caminho ali, despertar uma idéia numa cabecinha acolá, transmitir aquilo que a gente já leu, já viu, já aprendeu. Fazer piada, burburinho ou “cair na rede” não sei se ajuda, sinceramente.

Não vejo diferença, como citou o professor, entre usar como exemplo o Chico Buarque ou a Valesca. Junta aí o rap. Não acho algo discutível. Porque o professor lá deve lembrar do Kant e de como a apreciação estética é subjetiva. Aí procuro lá no meu balaio de preconceito, porque julgar o gosto de estético de alguém é muito over. E, sério, escrever over é over demais, hein?

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