Tipos brasileiros: o insatisfeito

Quem dera eu rompesse meu silêncio para escrever sobre filmes ou sobre livros ou sobre narrativas ou sobre qualquer dessas coisas lindas do mundo da ficção. Quem dera. Relutei muito em escrever, mas o motivo me pareceu interessante – nobre não. Ando à procura dos motivos nobres – tenho vivido alguns. Foi uma portuguesa que me levou a uma avalanche de pensamentos e me motivou a escrever. Uma portuguesa que olhou para o Brasil como poucos brasileiros fazem e senti como que acolhida nas suas palavras – sabe quando alguém fala ou escreve algo no que você se sente aconchegado?

Eis: http://www.cartacapital.com.br/cultura/o-brasil-nao-e-alegre-e-triste-diz-escritora-portuguesa-2178.html

O Brasil não conhece o Brasil. O brasileiro vive de ilusões nas quais ele mesmo decidiu acreditar. Como contei aqui, em uma semana estive nas três capitais do Sul e na cidade mais populosa de Santa Catarina. O que vi foi muita gente nas ruas, eram professores em frente a prefeitura de Curitiba, o pessoal da saúde fazendo barulho no Palácio Farroupilha e estudantes fechando ruas, os trabalhadores e agentes carcerários em Florianópolis e até, pasmem, os atingidos pelas cheias em Joinville. Era pela manhã, pela tarde e até pela noite, andando por essas cidades, a pé principalmente, e lá estava algum grupo e suas vozes alçadas aos ouvidos da maior quantidade de pessoas possível.

Tive tempo para observar, para pensar, para andar por ruas com tapumes e muros pichados e com cartazes colados anunciando paralisação de hospitais, falta de professores em sala de aula, ameaças aos serviços básicos. Além, é claro, de curiosas intervenções artístico-reflexivas sobre o corpo feminino, a Copa, o uso dos animais pelos humanos. As idéias, então, estão nas ruas – através, principalmente das palavras (faladas ou escritas) e das imagens. Andar por essas ruas me despertou a sensação de opressão. Os gritos, em geral, me oprimem.

Pelas ruas de Porto Alegre
Pelas ruas de Porto Alegre

Pensei, pensei, pensei. Alguma coisa todo este rebu queria dizer. Não fui longe… o brasileiro está insatisfeito. Segundo estatísticas, os governos e as declarações do próprio brasileiro, ele tem tudo (e mais muito), mas está insatisfeito. Como qualquer criança ou animal mimado. O brasileiro tem emprego, uma parcela gigantesca tem emprego-sonho público, tem escola, tem casa (que segundo diz o slogan é sua vida), tem bolsa-isso-e-aquilo, tem a sua cansada e velha Democracia, tem um governo popular de Esquerda, tem iPhones, tem internet, tem carro na garagem! (e faz questão de trocá-lo constantemente), leva o cachorrinho para tomar banho no pet shop, tem bolsas e tênis Nike… e não está satisfeito.

Abandonei o mundo da internet por questões muito pessoais. Sou uma atrasada na questão, nunca tive mIrc, durei pouco (uns dois anos) no msn e só comecei quase quando ele estava acabando, fui um suplício no Orkut. Abraço o mundo maravilhoso dos downloads. Acho fantástico o meio, porém muito mal usado. Entediei-me com as TLs tão repetitivas (pessoas são repetitivas e entediantes), com as vidas mirabolantes não-vividas, com as idéias geniais, com as fotografias desfocadas. Irritei-me com aviões desaparecidos, com maconha no campus, com fraude na estatal, com pesquisa que só diz o óbvio e depois desdiz o que disse, com reclamações dos sistemas públicos de transporte, de empresas aéreas e de internet/telefonia – este eterno, enfim, rodízio do prato do dia no mundo virtual.

Uma das melhores atitudes que se pode ter na vida é afastar de si o que – ou quem – te faz mal. Fui afastando aqui, afastando ali. Calo-me. Mantenho um olho atento, é claro. Há algumas TLs divertidas, há pessoas com boas coisas a dizer – mesmo que sejam a minoria – e da diversão e dessas pessoas eu não abro mão.

O brasileiro está insatisfeito. Ele nunca teve tanto e nunca reclamou tanto. Vi alusões ingenuamente doces daqueles que dizem que lugar de aula também é na rua, protestando, reivindicando (ocupando reitorias, talvez). Bem, eu nunca fui às ruas, e desde do ensino fundamental fiz abaixo-assinados, reivindiquei qualidade no ensino (será que sabem o que é isso?), protestei contra arbitrariedades dos professores, apontei faltas graves deles. Do ensino fundamental ao mestrado, sempre e sempre. Dei de cara com o corporativismo fétido dos professores de universidades (federais, privadas e estaduais). Enojei-me com o corporativismo arrogante e puxa-saco dos alunos em todos os níveis. De tudo, a cegueira, principalmente a ideológica, foi a que mais me horrorizou. Na escola, nem na universidade, não há interesse em ensinar a pensar – e aí saem doutores que se dizem politizados, cientes, esclarecidos. Pobrezinhos.

Nunca fui às ruas. Não sou melhor nem pior que ninguém. Mas nunca me calei. Não preciso gritar em frente a uma prefeitura para me fazer ouvir. Diriam alguns que sempre fui uma insatisfeita (ah! Eles se surpreenderiam com uma Fahya renovada e tão profundamente diferente), disse uma vez uma professora de português (eu não tinha nada contra ela nem a aula dela, mas como era uma boa leitora e um tanto à frente nos estudos à época, era um tanto blasé em sala) “o que a Fahya já está protestando lá atrás?!” (voz esganiçada, grosseira) – e eu, bem, eu tinha acabado de contar uma piada para um colega. Não foi a primeira nem a última vez que um professor se sentiu, de alguma forma, ameaçado por mim. Deus há de saber porquê.

Eu sou caxias, bem caxias, e chata. Só gosto das coisas como elas devem ser. Não sou nem nunca fui uma insatisfeita. Insatisfação é como a depressão dos dias de hoje. As pessoas não vivem as vidas que elas tinham em mente, elas não veem projetados na realidade os anseios e desejos que alimentaram nas suas cabecinhas quase vazias. Se eu não consigo o que quero, pelo meu esforço, pelo meu empenho, depois de quebrar muito a cabeça, agir e esperar – sim, na vida é fundamental – eu logo corro postar nas redes sociais um selfie depressive way of life, marco hora no psiquiatra, pego atestado, e continuo a vida normalmente. Vejam bem, depressão é uma doença (e séria) e assim deve ser tratada, acuso aqui os que dela não sofrem e a usam, indevidamente, como subterfúgio para suas vidas infelizes, suas covardias, suas incapacidades, suas preguiças e sua fuga da vida real que não é igual aos sonhos cor-de-rosa.

O insatisfeito brasileiro é esta pessoa que não encara a vida. Que foi mimadinho nos bancos de escola e nos sofás das suas casas. É o que sempre reclama de alguma coisa – ou o que só reclama mesmo. Entre as TLs repetitivas estava lá algo como uma comemoração (e não falo dos militares) sobre o Golpe de 1964 (só de citar me dá vontade de parar). Sim, era tanta, mas tanta, gente escrevendo e falando sobre que parecia algum tipo de comemoração. Eram os saudosos da ditadura. E não digo saudosos os que dela gostavam, não. A ditadura dava um sentido à vida de muitos brasileiros. Havia algo pelo que lutar (a liberdade, talvez, a democracia, quem sabe, nunca entendi direito se eles sabiam pelo que lutavam). Desde cedo aprendi o tesão com o qual as pessoas falavam sobre a ditadura. Até embarquei nele. Era uma paixão, tesão mesmo, quando eles citavam tempos idos (há pouco tempo, é verdade, visto que falo aí de 1993 a 2000 mais ou menos). E nem era o povo adepto das idéias da caserna. Eram os esquerdistas, o pessoal das humanas, os intelectuais do povo. Era tesão. Aí neste meio tempo eu fui lendo, pensando… já não aguentava mais ouvir sempre a mesma ladainha sobre a ditadura. Para pensar é sempre preciso ouvir mais, ver mais, escrever mais, torcer o pescoço para todos os lados. Quem ainda aguenta ver filme brasileiro sobre a ditadura? Aliás, como falar sobre filmes é sempre gostoso, me arrisco a afirmar que os filmes argentinos sobre a ditadura são imensamente melhores do que os nossos.

Sabe por quê? Porque há uma dor latejante, há um sofrimento, há a vitimização (sempre tão ruim e complicada para a construção ficcional) nos filmes deles. Nos nossos há este incômodo saudosismo. Este incômodo e eterno “nós tínhamos pelo que lutar” (acaba aí porque, como eu disse, não tenho bem certo se eles tinham clareza quanto a isso) que arrasta o brasileiro para uma relação anacrônica consigo mesmo.

O brasileiro… ah, o difícil e complexo “o brasileiro”. É aí que a portuguesa me aconchegou nas suas palavras. O Brasil não conhece o Brasil. O brasileiro não está nem aí para o brasileiro ali ao lado dele. Não vou me deter nos intelectuais do nosso país, nesta nata de classe social abastada, com suas salas com ar condicionado, com seus cargos públicos ou em mídias de qualquer tipo. Como eram os intelectuais e os artistas dos tempos da ditadura (parece que atualmente os artistas largaram o osso, podemos discutir imensamente sobre isso – eu adoraria). Eu sou burguês Mas eu sou artista Estou do lado do povo Do povo! O “cara que pensa”, o “cara que conduz a opinião pública”. Ou aquele carinha ali das humanas ou sociais que é todo de esquerda, brada vivas à Cuba, enfrenta PMs para salvaguardar a nossa Democracia, tem uma vida incerta, nem sabe se leu Marx, anda meio esfarrapado e fala em revolução. Felizmente, nem o IPEA vai dizer que estes são a maioria do povo brasileiro.

Pichação num muro n Armação, Florianópolis - pichar pode, assistir à Globo não.
Pichação num muro na Armação, Florianópolis – pichar pode, assistir à Globo não, me dizem os arautos do esclarecimento contemporâneo.

Contou-se um conto ao brasileiro: vamos dizer que zeramos a fome, vamos dar juros para que todos possam dizer que têm carro, vamos dar casas-vidas precárias para serem pagas em parcelas a perder de vista, vamos fazer mais e mais concursos públicos, vamos dar cotas por uma questão histórica, vamos projetar universidades fuleiras em uma meia dúzia de lugares onde não há nenhuma e… vamos fazer que está tudo bem. Sem revolução. Sem soluções reais. Com muita propaganda. Com o sorriso pelo qual o brasileiro é tão conhecido até no Instagram. Brasil, não mostre a tua cara.

O brasileiro quis acreditar no conto que ele mesmo conta por aí. E como o Brasil desconhece o Brasil, reclama da “mobilidade urbana” (só eu já criei antipatia absurda pelo termo que substituiu o bom e velho “trânsito”?), mas gosta de achar que está tudo tão bem. E torna-se um insatisfeito. Como a portuguesa tão bem falou, ao ver as realidades brasileiras para longe do nosso nariz de sul-sudeste, ou de grandes centros, civilizado com acesso a tudo e mais um pouco, ninguém cometeria o despautério de afirmar que está tudo bem. Para deixar claro: não falo dos mimadinhos que já têm tudo e estão ali fora a gritar por alguma coisa, procurando razões para a sua existência, secretamente desejando ditaduras para terem “pelo que lutar”. Falo daqueles que não têm. Dos que estão ao nosso redor e os quais fazemos questão de ignorar. Há uma passagem muito bonita da oração de Nossa Senhora do Desterro da qual falarei num próximo texto que trata disso: de pedir por quem tem menos do que eu.

Não, não é no sentido paternalista da coisa. É uma questão de consciência. Há méritos em dar dinheiro para quem não tem, através de programas sociais, para que possam, ao menos, comer. Mas isto não pode camuflar a realidade de não ter ônibus, não ter água encanada, não ter esgoto. E nem pode ser aproveitado por quem tem como comer, tem onde morar, tem boas condições e, cabendo nos parâmetros burocráticos, vai lá todo mês sacar seu dinheiro “porque tem direito”. O brasileiro insatisfeito e triste mascara sua realidade e ignora sua consciência.

Não vejo pessoas que pensam em como o seu trabalho, o seu estudo e o seu empenho na vida, podem mudar e ajudar a vida dos outros. As pessoas trabalham para elas, para adquirir bens, principalmente. Como disse a portuguesa, o Brasil é capitalista – ao extremo. Nem crianças mais sentem medo dos nossos comunistinhas. Ah, se elas descobrissem o sentimento deliciosamente inenarrável que é saber que você faz a diferença, com o teu conhecimento e com as tuas atitudes, na vida de outras pessoas! Ah, se elas soubessem! Mas o mimado-selfie-depressivo-insatisfeito não tem bases mínimas para iniciar qualquer coisa que o leve a alcançar este sentimento. O Brasil de Rondônia e Acre debaixo d´água, isolados, sem comida não comove o atribulado trabalho-estudo-pego-ônibus-cheio-tenho-smartphone-e-como-no-McDonald´s.

O brasileiro insatisfeito tem me causado aversão como há tempos não sentia por algo. E como eles são assíduos usuários da internet (e são os que pensam que todo mundo tem internet), tenho me afastado comedidamente dela. A portuguesa, ao falar do sentimento de culpa dos portugueses, me fez pensar que um pouco de culpa na cabeça destes brasileiros insatisfeitos não faria nenhum mal. Talvez assim eles tivessem real motivo para uma depressão.

Nunca vi ninguém que não tivesse nada que se mostrasse insatisfeito. Ninguém.

Quando há adolescentes que não sabem o que é um partido político (fato real) ou na narrativa da portuguesa sobre não ser entendida no Brasil mesmo falando a mesma língua, não posso acreditar na propaganda, nem nas fachadas, nem no crédito fácil para eu ter um carro. Não posso. Para uma caxias como eu, é quase “agir conforme o dever”. Só posso discordar da portuguesa quando ela afirma que esse povo que está nas redes sociais é mais politizado. Ser politizado está além dos posts enjoativamente compartilhados – sobre qualquer coisa. E não há ninguém fazendo nada por isso. Nos meus tempos de escola, uma vez ouvi que educação nunca foi prioridade para nenhum governo porque a massa ignara é mais governável. Dói saber que isso ainda é verdade. E não me venham com índices de alunos nas universidades, de bolsistas do PRONATEC, etc.. Pois quem tenta responder com isso desconhece, de antemão, o que significa Educação.

Que um dia estudem esta patologia coletiva do saudosismo da ditadura e possam curar parcela da população – parcela que, curiosamente, cresce devido aos professores e opinadores públicos que proliferam seu tesão por aí. Que o brasileiro aceite sua tristeza, sua realidade e suas vidas, a falsidade das propagandas – aceitar dói menos, não é mesmo? Aquela outra parcela da população, a que não sai às ruas insatisfeita, é a que tem me interessado. Aquele que tem menos do que eu, que precisa mais do que eu seja lá do que for, é que desperta meu coração.

Não é preciso ser portuguesa para não ser otimista sobre o futuro do país, me basta ver, de perto, realidades diferentes da minha (uma dica: nem precisa ir até a Amazônia ou ao Pará). O “país do futuro” encontrou seu presente e não gostou de tudo o que ganhou porque quer… quer o que mesmo?

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