Queria ver sentir falta do que nunca teve

Falar sobre o que não sabe é fácil, qualquer um pode fazê-lo. Queria ver sentir falta do que nunca teve. Ela ouvia o advogado ao lado ruminar suas sabedorias sem fim sobre coisas das quais ele não tinha idéia. Tentava ser simpática, concordava, fazia um comentário ou outro. Educação, sabe? Não confundam. Eram os problemas do mundo e todas aquelas banalidades. Ela estava com sono, mas ainda assim ouvia o homem com um relógio enorme, engravatado e usando um perfume forte. Ele falava dos condomínios em Miami, sobre os fingers do Brasil, sobre os gastos com a Copa, as maravilhas da tecnologia em celulares, os problemas de assistência às pessoas com deficiência e mais alguma dúzia de coisas que ela não saberia listar.

As pessoas são assim. Insistem. Querem atenção. Acham que seduzem. Se vêem obrigadas a serem sociáveis, a conversarem com os outros. Não sei de onde vem estas obrigações – ela também não sabia. Na verdade, ela não estava pensando nisso. Pensava apenas no sono e em como gostava de aproveitar aquele momento de despegar da terra. Ela gostava de voar. Mas, é claro, por vezes ela não entendia esta necessidade de ser sociável que as pessoas sentiam – e mesmo assim se via ali, conversando… não, conversando não, era só um monólogo do advogado com breves comentários dela.

Ele falava sobre tudo, o que tão facilmente leva ao nada. Não bastasse todo o barulho de fora e de dentro, ele ali tagarelando e ela só pensando no sono – doce sono. Ela não se considerava, enfim, mais um boi deste mundo e foi por isso que quando ele quis, mais uma vez, demonstrar sua gigantesca sabedoria comentando que o barulho da turbina era anormal por falta de manutenção e que eles não faziam overall, ela silenciou, fechou os olhos e ignorou-o até o fim – quando ele ainda (por essas obrigações descabidas do social) virou-se para ela e disse “tchau, querida”.

Ele é um bom exemplo. Uma criatura dessas jamais entenderia o que é sentir falta do que nunca teve. Jamais. Talvez o mundo todo possa ser dividido entre as pessoas que falam sobre o que não sabem e as que são capazes de sentir falta do que nunca tiveram. Porque, vamos e venhamos, generalizações são perfeitas para um mundo como o nosso. Se não isso, coloquemos uma mesinha com um atendente para anotar todos os entremeios de cada indivíduo deste mundão.

E pouco importa o certo. Quem sente falta do que nunca teve não compreende o certo e o errado, como um cachorro que revira o lixo para comer papel higiênico usado. E, também, é algo sobre o que nunca se fala – nem aqui deveria estar constando. É uma das poucas coisas que não deve constar nos autos do mundo – já que falávamos de advogados, vale citá-los: se não está nos autos, não está no mundo.

Opa. Então… perceberam a relação? Se você nunca teve é porque nunca esteve nos autos da sua vida. Ou seja, não existe – deixemos de lado o “não lhe pertence” porque a discussão seria por outra vereda. Há metafísica demais nisso. Não acham? Ela não achava. Com um olhar de quem viu um mosquitinho flutuando na panela de sopa fervente, ela acompanhava o vazio da tela do computador, da tela do celular e com um ouvido irritado pelas mesmas palavras de sempre, ela acompanhava o celular que não tocava, o recado que não era dado, a mensagem que não chegava.

Talvez as más línguas dirão que ela sonhava (dormindo ou acordada, já se fez muita poesia sobre isso, não cabe repetir). Pois não era bem o caso. Ela desejava, isso sim. Seu desejo não desejava controlá-lo. Deu para entender? Os desejos, muito mais que os sonhos, tratam daquilo que não temos. Sonhar é, de alguma forma, ter. Então sentir falta de algo com o que já se sonhou não é sentir falta do que nunca se teve. Ela desejava apenas e por isso sentia aquela falta.

Ela que me desculpe, mas há metafísica demais nisso. A tal falta em nada insinua-se na vida, nas relações, no dia a dia, nesse passar tão indecifrável do tempo – que me desculpem, também, os relógios. Seria interessante tentar dividir a humanidade entre os que falam sobre o que não sabem e os que sentem falta do que nunca tiveram porque os primeiros são facilmente identificáveis, enquanto os segundos não dão sinal da provação pela qual passam. Bem, se há mesmo metafísica nisso tudo, vocês também não deixaram de perceber que em ambos os casos há negação. E quem dera que para além do mundo dos matemáticos de duas negações surgisse uma afirmação.

E se alguém do primeiro grupo a interpelasse depois do advogado e ela quase lhe abrisse o coração (coisa que os que sentem falta do que nunca tiveram nunca o fazem) e ele fosse desses que falam sobre o que não sabem acerca da metafísica, dos livros, dos pensadores, ele lhe diria compungido “a vida é negação”. E se ela estivesse já com o sono a embotar-lhe o humor, ela levantaria e diria “se fosse negação, não terias nascido porque tua mãe teria tido o mínimo de respeito com a humanidade e teria dito um belo ‘não’ ao teu pai – evitando o ato de te fazerem” (eu disse que ela não era muito chegada nessas coisas sociáveis).

Não há conceitos nem definições aqui. Lamento se decepcionei vocês. “sentir falta” é ausência, “nunca teve” também é ausência. Como definir o que não há? Sobre “sentir falta” talvez muitos de bom coração tentem abraçar a idéia. A única coisa, não sei se vocês perceberam, é que existe uma presença ali que muda tudo: “do que”. Há um que, um quem (talvez). Eis a charada. Nunca existiu nem existe no momento (posto que faz falta) mas existe – há. É presença. Tão presente quanto ela naquela poltrona com aquele advogado ao lado. Tão presente quanto o sono que ela sente. Tão presente quanto o som que vem da turbina.

E, com metafísica ou não, é a presença que sempre altera tudo. Há o desejo que concretiza esta presença, simples assim. Quem tem desejo é que pode sentir falta do que nunca teve. Quem não o tem, fala sobre o que não sabe – não há desejo, há necessidades (as piores, se é que entre necessidades há alguma que não seja ruim) palpáveis. Sim, para a metafísica as necessidades inexistem. E ficamos assim, vendo-a sentada diante daquele chocolate quente, com um cheiro forte de esgoto que vem lá da rua apinhada de ônibus e gente em êxtase, esperando um pastel do qual já se arrependeu, com os olhos desenhando um quadro mental daquelas cadeiras de ferro, do dono anotando os pedidos, da moça gorda na mesa ao lado e dos cantos sujos. Falo dos olhos, mas não posso falar do que lhe vai por trás deles.

Imaginemos, então. Ela pensa, é claro. Sente, também. Posso contar-lhes com sinceridade que aquela tarde foi das mais marcantes da vida dela. Pensou até em anotar numa agenda ou algo assim. Ela leu e releu o recado que havia recebido. Como há muito não acontecia, emocionou-se. Do jeito dela, é claro. E felizmente sem advogados nem pessoas que falam sobre o que não sabem por perto. Pôde ser feliz como lhe convém. O sono ela nem lembra que sentiu. Não sei, talvez não pense. Talvez apenas agradeça e sinta. Sei que foi um tanto depois desta cena que ela veio a sentir falta do que nunca teve. Sentiu-o assim como o céu ensolarado que vai nublando. Estava diante de dois nadas com um todo no meio. E era aquele todo que agora levava-a a suspirar, a retrair-se, a desejar, é claro.

Se falhei em explicar-lhe o que é sentir falta do que nunca se teve, logrei meu intento. Fico feliz. Só sei que o dia que você sentir isso, lembrará desta pobre anunciação metafísica. Pra mim basta. Quem sou eu para falar sobre o que não sei?

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