Baú e Bidê

Todo mundo deveria ter um baú. Eis mais uma peça, do mundo que ficou para trás, que não tem sua estima reconhecida. Como o bidê, sabe? Ninguém mais tem bidê em casa. O bidê, com toda sua utilidade e, mais ainda, sua beleza atemporal foi extinto. As casas diminuíram, apertaram aqui, ali e a vítima no banheiro foi o sensato bidê. Sim, é sensato ter bidê em casa. Hoje querem pias modernas, espelhos por todos os lados, chuveiros mágicos e esqueceram o bidê. Bem, e você que me lê e nem sabe o que é um bidê?

Essa insensibilidade do mundo para com as coisas que trazem facilidades e belezas para a vida me entristece. Espremeram as casas, as vidas, e os guarda-roupas que têm portas de vinte centímetros?! Dá pra guardar um par de meia – dobrado. Cadê as portas com setenta, oitenta, centímetros? O portentoso guarda-roupa, peça que compõe, junto à cama, o quarto. Quarto é isso, cama e guarda-roupa – no mais é acessório. Tem gente que tem TV no quarto! Mas nunca teve um baú. Ou uma mesa de cabeceira – o criado-mudo, lembra? Sempre tive pena de chamar de criado-mudo. Cama, guarda-roupa, mesa de cabeceira e baú. Ah, sim, quem sabe uma penteadeira para as moçoilas vaidosas. Tudo se perdeu.

Ah, os baús… aos pés da cama, debaixo de grandes janelas. Sem querer ser chata, mas as janelas também diminuíram, vão espremendo nossas vistas a cada prédio com o qual nossos olhos se deparam. Um baú para guardar o enxoval de um futuro casamento suspiroso. Um baú para guardar as cobertas do inverno! Ah, amor eterno às cobertas do inverno com seu cheirinho de guardado. Um baú para guardar lembranças, fotografias antigas, bilhetinhos de infância, a primeira bolsa, aquele casaco de estimação, cartas de amores impossíveis, os sonhos da adolescência, a fantasia de um carnaval… para guardar as causas do que somos hoje. Quem não guarda suas causas, não compreende suas consequências. Um baú para guardar aquelas tralhas que não se sabe onde enfiar mas, acredita-se, um dia vai precisar. Ah, um baú para os virginianos, para guardar só coisas úteis, entre malas de viagem, patins, a raquete de tênis e o quimono do judô.

Não consigo imaginar onde as pessoas guardam tudo isso hoje. Na casa da mãe, talvez, no velho quarto da infância porque nossos apartamentos de filhos independentes ou famílias precoces não têm espaço nem para um nobre bidê. Ou, ingenuidade minha de lado, as pessoas não guardam nada disso. As pessoas querem guarda-roupas novos, com portas estreitas, entulhados de roupas da última coleção numa quantidade que nem se vivessem o dobro dos anos que lhes cabem nesta vida conseguiriam usar tanta coisa. As pessoas têm fotos em HDs. Ah, sim, quem ainda faz enxoval? Cobertas? Aquecedores e ar condicionado evitam o transtorno de estocar cobertas fofinhas e quentinhas. As pessoas não querem pensar em quem foram para não terem que discutir com quem são.

E os baús e bidês ficaram pelo meio do caminho… numa cena de O Outro Lado da Rua, Fernanda Montenegro, dama da TV, do palco e do cinema, com sua figura angulosa e maciça, debruça-se sobre o bidê do espaçoso banheiro de seu apartamento antigo. Filme recente, sua personagem apaixonou-se pelo vilão e quando tudo desaba, ela desaba aos prantos sobre seu companheiro, o bidê. Nem falo só da utilidade mais óbvia do bidê. E o prazer de andar descalça pela casa e pelo jardim, sujando os pés à vontade, e quando precisa colocar o tênis para sair é só recorrer à comodidade do bidê. Ou lavar as patas do cachorro trapalhão. Ou vomitar.

O bidê, nem que seja para chorar e abraçá-lo. Só quem não tem coração não sente a falta que o bidê faz. Ou quem não chora amores abandonados. Ou quem não suja as patas nas alegrias da vida. E o baú. Quando você não lembra onde colocou algo tão importante e, pensativo, deita os olhos no baú. Rá! Lá está! Ou numa noite chuvosa e triste, com o coração apertado, musicando dores, você entra em casa, joga as chaves, jura nunca mais, senta sobre o baú, apóia os cotovelos nos joelhos e respira fundo.

Não sei bem porque estão nos apertando tanto. Apertando nossos pensamentos e nossos sentimentos. Tiram nossos amigos solenes das casas. Não sou psicólogo nem teórico da pós-pós-pós-modernidade, mas desconfio que nos espremem nos espaços e tiram nossos pilares emocionais para que esqueçamos alguma coisa – se não por isso, por coisa pior.

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