E você, pensa no outro?

As mais profundas mudanças sociais acontecem em tempos de crise – não sou eu que digo, está aí nos fatos ao longo da História. Não basta você querer que algo seja diferente, que um grupo seja visto e tratado de outra forma, que a mentalidade das pessoas conceba certos conceitos – não basta. É preciso que grandes (ou aqueles pequenos que causam uma explosão gigantesca) fatos intercedam. Não adianta nada só querer – não sei se estamos familiarizados com esta premissa hoje em dia. Querer algo bom é louvável, mas por si só não causa grandes transformações. Também não estou falando dos olhos que só vêem os próprios umbigos – aliás, para não deixar o texto fácil aos ataques, tentarei guardar um pouco o meu desprezo por essas pessoas. As coisas do mundo mudam porque as pessoas pensam no outro, jamais porque pensam em si. Não basta um pequeno grupo vítima de alguma injustiça ou atrocidade pensar nele, tentar lutar contra isso, é necessário que as pessoas de fora deste grupo pensem nele, no que aquelas pessoas sofrem e do que são vítimas. Infelizmente é assim. Deixemos, portanto, os umbigos de lado.

Independente se existe ou não, oficialmente, uma crise, passamos por tempos difíceis. Seja o preço da cebola que disparou ou as centenas de milhares de famílias que não estão em dia com as contas de cartão de crédito e financiamento da casa, o país não vai bem. É preciso deixar de lado, também, a fala do governo e de qualquer um contra o governo. Falo, portanto, do dia a dia, de nós, de pessoas. De todos que deixaram de ter aquele momento de ir ao cinema, de sair pra comer alguma coisa com o namorado ou com os amigos, de ir passear de carro aos domingos, de pagar a escola do filho, de pagar a conta de luz pra poder pagar o supermercado. De todos nós que abrimos mão de muita coisa pensando nos gastos e nos preços altíssimos. Claro, pode não ser o teu caso, querido leitor, e, então, não és um brasileiro comum.

Em tempos difíceis é fácil pensar ainda mais em nós mesmos. No quanto queremos sair dessa. E é justo neste momento de abrir mão de tanta coisa que o ser humano deveria pensar em quem já não tem muito – quem dirá abrir mão de algo. Na oração de Nossa Senhora do Desterro há uma passagem belíssima (me perdoem se já falei dela, mas uso-a com frequência): “Senhora do Desterro, olhai também por tantas pessoas em situação de desesperança, de aflição, em piores condições que as minhas.”. É num momento flagrante de ir orar por você ou por alguém ou alguma coisa que nos deparamos com isso: orar por quem (ser abstrato) está em piores condições, por quem necessita mais do que eu. Por pior que seja a nossa situação, por mais desesperadora, mais falida, haverá sempre alguém em piores condições que nós. Assim, a oração nos consola (num sentido religioso, que eu sei que nem todos compreendem ou acreditam) e nos faz agir como seres humanos – aqueles que não olham apenas para os próprios umbigos.

Trago a oração de Nossa Senhora do Desterro para tratar dos tempos difíceis. Somente nesses momentos o mundo pode mudar. E se não fizermos a diferença agora, jamais teremos a chance de fazê-la. Foi em tempos de guerra que as mulheres assumiram o trabalho “de homem” e saíram de casa para cuidar do sustento e fabricar armas para que seus maridos e filhos lutassem – e dali em diante ser mulher mudou.

E agora, em tempos de necessidade, quem precisa mais que nós? Pelo que conheço das pessoas, são poucas as que doam (roupa, utilidades para casa, comida, revistas, livros, tudo que uma vida precisa) com regularidade, que fazem da doação um hábito. Me dói conhecer pessoas que não doam. Para incorporar a doação como hábito é preciso aproximar-se de alguma entidade (um lar de crianças, de idosos, deficientes, instituições que cuidam de mulheres em situação de risco, orfanatos, instituições religiosas ou não que cuidam de famílias, que ofereçam ensino e cuidados, há de todo tipo, para casos e situações que nem imaginamos – em todas as cidades há), conhecê-la, saber como ela trabalha, a quem atende e do que precisa. É simples, em poucas horas você pode se inteirar disso. Em alguns dias ou meses é só acompanhar (às vezes por comunicados, mídia) as ações da entidade, ou procurar a história dela no município.

Conhecendo a entidade, é só doar. E doar, como diria o padre Juca, é doar aquilo que você precisa. Doar um sapato velho, uma roupa que você não gosta, tudo aquilo que você não quer mais, não é doar de verdade. O ato de doar algo a alguém é dar o que o outro precisa. O pensamento mais comum sobre doar é o que eu não quero pode ser útil a alguém – e isto é querer livrar-se de algo, não é, nem em última instância, pensar no que o outro precisa. Portanto, ao pensar em doar alguma coisa, separe aquilo que você imagina (ou sabe, pois as entidades podem repassar o que precisam no momento) que outra pessoa esteja precisando. E lembre que, quanto maior o guarda-roupa, menor o coração de uma pessoa.

Somos capitalistas, claro que sim. Somos consumistas demais e isso nem tem a ver com o capitalismo. Não cabe na discussão. Nossos hábitos não estão condenados a nada além da nossa consciência. Por isso sou dessas que condena sites de revenda de coisas que “enjoamos” ou “desapegamos”. Não é uma maneira de combater o consumismo ou mesmo dizer que temos hábitos diferentes da massa. É até pior, porque estes sites e comunidades geram ainda mais consumismo (vou numa liquidação, compro loucamente, depois fico meses com uma pilha de coisas que nunca usei e, rá, não tem problema, vou vendê-las e ainda ganhar um dinheiro – pra gastar de novo em coisas que…) e não geram fluxo de doação para quem precisa. Se eu já fiz isso de comprar coisa que nunca usei? Sim. Se eu já comprei por comprar? Sim. Se eu já peguei algo de que gostava e doei porque sabia que era necessário a alguém? Sim. Para alguns pode ser um caminho. Auto-analisar o próprio consumo, os próprios hábitos. Você precisa mesmo do dinheiro que vai ganhar vendendo meia dúzia de roupas e sapatos? Ou há alguém que precisa dessas peças mais do que você precisa deste dinheiro?

É simples. A gente só não faz porque se apega às coisas erradas. Não aprendemos a pensar no outro. É mais fácil um pai ensinar o filho a pensar no “amanhã” (guardar dinheiro, estudar pra ser alguém na vida) do que pensar no outro – até este outro que a gente nem conhece. Não é preciso, porém, tirar foto e postar nas redes sociais. Nem, meus queridos, esperar que o seu terreno no céu esteja garantido. Doar, lembrem, é porque o outro precisa. Não porque queremos mostrar nossas belas práticas diante da humanidade (nem sob a desculpa esfarrapada de que podemos “influenciar” positivamente os outros) ou porque nossa consciência já não comporta nossa lista de pecados. Se você pratica alguma boa ação (seja ela qual for – desde doações, trabalho voluntário, esmola a ajudar animais de rua e ajudar a construir hospitais) porque fazê-la te faz bem, você está fazendo isto errado. Seja por indicação terapêutica, de padre ou pastor, ou obrigação na firma, a ação em favor do outro nunca deve gerar a satisfação consigo mesmo nem qualquer tipo de prazer (se não me engano há algo de aristotélico nisso). Por isso deixamos os umbigos de lado lá no começo do texto.

Há quem pense que enfiar a mão no bolso atrás daquelas moedas que sobraram e jogá-las no chapéu de algum morador de rua é uma boa ação, é doar. Não é. É um ato de desprezo. Quem faz isso despreza a pessoa que cruzou o seu caminho lembrando-lhe que existe miséria e necessidade em todos os cantos – tanto quanto despreza aquelas moedas no seu bolso. Talvez seja um ato de auto-preservação do ser humano não querer ver as necessidades alheias, pois teme a qualquer momento passar por elas – passar fome, passar frio, não ter onde morar. Tememos tanto isso que preferimos ignorar que é um risco eminente pra todos nós, pois nunca se sabe (desculpem, não é argumento, mas o fatalista nunca se sabe é um mantra pra mim). Se não vemos vidas humanas em necessidade, podemos até acreditar que as necessidades em si não existem no mundo – e, portanto, não estamos suscetíveis a elas.

Há quem se engaje em qualquer campanha do agasalho, doações para atingidos por tornados e enchentes, e tantas outras que geram grande publicidade. É válido? Talvez. Diante de certos casos o próprio Estado deve intervir e ter, obrigatoriamente, um contingente de doações de artigos de primeira necessidade, mas o Estado é falho. E, vejam só, as pessoas não precisam de roupa só no inverno, porque ainda não é liberado andar pelado quando faz calor. Sim, no calor as pessoas também precisam de roupa – e, meus queridos, não vai dar pra usar aquele moletom que você doou no inverno. Essas campanhas de roupa de frio contam com o hábito que, em algumas regiões com estações bem definidas, as pessoas têm de guardar as roupas conforme o calor ou frio que faz. Aí, quando reabrem caixas, sacolas, guarda-roupas e se deparam com aquelas peças que nem lembravam mais, querem se livrar delas, vêem que já passou a moda daquela jaqueta estilo cowboy, daquela blusa com franjas, da saia longa. E, claro, quem é que vai andar por aí com roupa fora de moda. Melhor doar. Em situações muito extremas, para as quais nem nós, nem o Estado nem ninguém está preparado (como as grandes inundações de 2008 em Santa Catarina) todo esforço, se vier de um hábito, é válido. Se vai doar só porque está com pena ou o pessoal todo da empresa está fazendo, melhor não.

Pensar no outro não é fácil. Desapegar (de verdade e não como nome bonitinho pra site nem pra limpeza no coração) de verdade também não. Não nos ensinam isso. Nossas práticas correspondem ao que vemos no mundo: e não é correto, nem digno, que a gente critique o que acontece no mundo porque nós colaboramos diretamente com tudo. Sair por aí combatendo o que os outros (vejam, aqui há um outro outro: aqueles outros que tanto amamos odiar, desprezar, menosprezar porque eles fazem coisas erradas – aliás, o único outro do qual falamos com frequência) fazem de errado, o mal que eles praticam, não diz nada de bom a nosso respeito. Eu não preciso combater o mal que os outros praticam: eu posso praticar o bem. Posso, para começo de conversa, praticar o bem em relação a um outro qualquer. E isso sim vai fazer diferença no dia a dia, nos tempos de crise e vai empreender alguma mudança no mundo.

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