Os sugadores de almas

Por uma dessas coincidências da vida, que de coincidência não têm nada, neste sábado pela manhã eu pude, depois de dias e dias tumultuados, voltar à leitura. As silenciosas manhãs de sábado sempre rendem bem, na leitura e na escrita. As coisas que, definitivamente, eu gosto de fazer desde cedo.

Lá estava eu, num dos últimos contos do livro, com um sol que já tinha deixado saudade, ao ar livre, bem acompanhada com um quatro patas. E eis que Balzac me surpreende com um conto que me tocou o coração – “tocou o coração”, daqui a pouco começarei a escrever rebuscado como ele e que ninguém me xingue, pois que lindo que é. Eu ria, sublinhava, sorria, anotava impressões nos cantos das páginas, conversava com o cachorro. Era um belo texto sobre quem adentra as almas que lhe são estranhas; sobre nós que andamos por aí a nos consumirmos nos outros. Não tanto pela história de vida mirabolante do veneziano, mas por construir a visão de como somos escritores.

E aí, horas depois, entro no Facebook e vejo que hoje é o dia nacional do escritor. Pensei, primeiro, que não recebi nenhum parabéns pelo dia – enfim, nada de incomum. Aí, pensei que era algo digno de escrever sobre para o blog (que determinei, dias atrás, que se chamará site daqui pra frente – mas, costumes, sabe como é). Pensei, pensei… talvez escrever sobre os meus autores favoritos, fazer uma homenagem pobre, é claro. Aí, pela origem da data, pensei que deveria escrever só sobre meus autores brasileiros favoritos – facilitava muito. Como cada um, em cada época da minha vida, me fez ser quem sou e ver o mundo como vejo. Mas, enfim, seria pobre diante de tudo o que vivi – as palavras, até elas, falham.

Então, lembrei do conto do Balzac. Havia terminado, na noite anterior, um conto que já havia mexido com essas questões de quem, diante de um talento (ou da falta dele), do apreço por alguma arte, se divide entre prosseguir (penosamente) na carreira ou assumir sua mediocridade e fazer um concurso público ou abrir uma loja. Pedro Grassou foi este, o do pintor medíocre que copia e copia e enfim ganha dinheiro e, atraído por mais dinheiro, casa. E foi deste que tirei uma idéia para escrever um conto que preciso – amparada na frase do próprio Balzac: Inventar em todas as coisas é querer morrer a fogo lento; copiar é viver.

O conto de hoje foi Facino Cane, e ele narra em primeira pessoa como a miséria o faz misturar-se às pessoas pelo prazer de senti-las, vivê-las, aprofundar-se nas suas almas e pensamentos, riquezas e misérias. É andar pelas ruas, ônibus, supermercados, sem fones de ouvido, olhos atentos e a alma invadindo as almas que permeiam o caminho. Eu jamais insistiria em ser escritora se não pudesse mais arrombar os corações e mentes alheios. O material humano é imprescindível para criar.

E foi assim. Ser escritor não é só para quem tem seu livro exposto na vitrine das grandes redes de livrarias e vivem com o dinheiro que recebem disso. Nós também somos escritores – os que vivem como Balzac viveu. A história dele é bem interessante e com detalhes pitorescos – é errado falarmos mal dele como fazemos hoje em dia, coitado. Adoro como ele cria frases feitas inteligentes e descrições concisas, mas se eu fizer isso, já antecipo os narizes torcidos das mentalidades pós-modernas. Sou do século passado, sou romântica incorrigível, não há o que fazer.

Pois bem, por que escrevo? Por que decidi ainda não assumir minha mediocridade e me assumir como escritora? Bem, acredito que devo estas explicações para encerrar o texto. Numa auto-análise (a pratico há muito tempo), escrevo porque sinto e penso demais (sempre fui assim e não é nada bom em vários momentos). E sinto com a cabeça, não se enganem. De tanto pensar, comecei a escrever para não, digamos, desperdiçá-los. E como não sou constante, escrever é um bom exercício para saber quem fui. Escrevo porque aprecio deveras o material humano e animal e vegetal do mundo – não saberia viver sem admirá-lo. Mas, acima de tudo, escrevo porque tenho medo de esquecer. Esquecer como eu era quando criança, esquecer a voz e o sorriso da minha avó, esquecer o amor incondicional que um dos meus cachorros me dedicou a vida inteira dele, esquecer como sou igual à minha mãe, esquecer como me decepcionei com os relacionamentos amorosos, esquecer como é descobrir certas coisas pela primeira vez. Tenho medo de esquecer. Por isso mesmo, às vezes escrevo vários textos, em épocas diferentes, sobre a mesma coisa. Que as lembranças nunca são iguais.

Ainda não assumi minha mediocridade porque, apesar do espírito velho, tenho ainda muito tempo pela frente. E não quero ser daqueles que aos quarenta ou sessenta anos se satisfazem em “agora eu vou fazer o que eu gosto na vida”. Não. Se perto dos trinta as coisas já começam a ficar difíceis, imagina lá na frente. Viver sempre é agora – jamais depois.

Tem um preço? E as escolhas que a gente faz? Blábláblá e já escrevi textinhos de quase auto-ajuda sobre isso aqui no site (rá!). Faço tudo de caso pensado e sem plano nenhum.

E quando eu for famosa, vocês lerão minhas entrevistas falando sobre meu processo criativo. Como gosto (descrevo a cena do momento) de escrever no final de tarde, numa poltrona de estimação que me custou meses de desejo e uma boa parte de um salário, sob as luzes de dois abajures (amo) com lâmpadas incandescentes (adoro a luz amarela e o calor delas), com uma gata laranja dormindo gostosamente no meu colo enquanto eu equilibro o computador nos joelhos e tomo meu Twinings com mel. Só pra manter a fama de escritor, essa gente fresca cheia de minuciosidades e não-me-toques. Ah, e tempos depois serei lembrada sobre o amor pelos bichos como um Hemingway, quem sabe. Fotos minhas com gatos não faltarão. Poderia, também, dizer que aprendi que só seria uma escritora quando me rendi à disciplina. E serei da turma dos que acordam cedo e tomam chá, como bons velhos, e não dos que varam a madrugada (“ó, melhor momento para a inspiração e tal” já fui dessas) e tomam whisky (está guardado aqui do lado).

Vejam só, escritores são personagens de si mesmos. Não se enganem. E enquanto isso, deixo minha memória aí guardada no site e nos HDs. Que lembrar é preciosidade das mais valiosas para quem sente demais a vida. Mesmo que jamais eu seja digna de receber os parabéns pelo dia de hoje, mesmo que o dia de assumir minha mediocridade chegue logo, sei que nunca deixarei de escrever.

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