O indiferente

O indiferente não ama nem odeia. Ele é aquele namorado que no cinema diz “tanto faz” para qual filme o casal assistirá. É o pai que nem sabe a nota do filho em Biologia. O indiferente não faz, nem desfaz. É a moça no salão pintando a unha enquanto a república cai. O indiferente, também, não questiona – nem a si mesmo.

Conviver com o indiferente, porém, não é fácil. Erra quem pensa que ele não tem paixões – tem-nas as mais violentas. Ele não se importa com você, o indiferente; ele importa-se em demasia consigo mesmo. O indiferente não buzina. O indiferente não cospe. Mal e mal o indiferente vomita.

O indiferente é aquele cara do grupo no trabalho que chega atrasado quando o chefe que exige pontualidade já está na sala – ele entra com o cafezinho na mão, dá “bom dia” nem aí e leva uma eternidade para sentar e sossegar, enquanto todos prendem a respiração. O indiferente não sonha. O indiferente não grita, nem sussurra. É a esposa que compra um vestido caro no mês que as contas extrapolaram. O indiferente não tem marca favorita de desodorante. Nem de sabão para a lava-roupas.

Amar o indiferente é falta de autoestima – mas dizem que é doação de si mesmo. Porque é amar alguém que nem sabe que você existe, tem necessidades, alegrias e tristezas. O indiferente não pede, nem dá. O indiferente não faz serenatas. O indiferente não sua. O indiferente mal pisca.

O indiferente é quem solta o pum no elevador e nem ri – nem disfarça. É que ele não ri nem de si mesmo. O indiferente não gargalha, nem chora. É a guria que passa diante dos olhares mais cobiçosos e nem disso se dá conta. O indiferente é, vejam só, indiferente até a admiração. É indiferente até aos elogios.

O indiferente nem conta quantas fatias sobraram da pizza. Ele toma coca-cola ou pepsi e nem percebe qual é qual. O indiferente não pede a carne no ponto, mal ou bem passada. O indiferente nem lembra em quem votou nas últimas eleições – ou nem procura lembrar. O indiferente declara tudo corretamente no imposto de renda. O indiferente anda no ponto morto – mas não para economizar gasolina. O indiferente parece ter opinião, que ele só diz se solicitado. O indiferente nunca sabe quando estão falando dele…

O indiferente é amado pelos seus amigos – fácil entender porquê. Ele é sempre convidado para todas as festas. Muitos amigos tem, o indiferente. Na vida on line ele é sempre admirado, o indiferente. Nas discussões políticas também. Na hora de votar, então, mais ainda. Há até quem admire o indiferente em cargos de chefia. O indiferente é aquele cara que nunca pisa no pé dos outros. Nem lembra do aniversário de ninguém. O indiferente não fica em cima do muro. Ele pula para qualquer lado e nem percebe quem ele leva junto.

O indiferente não é meu amigo. Porque o indiferente é sempre amigo da onça.

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