Olhos abertos de tanto amar

Dizem lá a sabedoria popular e as canções que o amor é cego, que quando a gente ama esquece que já sofreu um dia, e afins. Amar é não ver, mesmo. Aí vem aquele pessoal mais romântico (no sentido teórico) e não nos deixa esquecer que o ato de amar e a ilusão não se desgrudam. Poderia até acrescentar os da turma do “amar é sofrer” (porque, é claro, tem a ilusão e a cegueira aí no meio).

Diria que estão todos corretos – sabedoria popular, amor coisa milenar, quem sou eu para discordar ou querer dar aval. Eu amo meus bichos, a despeito de um destruir tudo o que vê, o outro revirar o lixo reciclável, a outra fazer xixi em qualquer lugar e tal. A gente ama e não quer saber dos defeitos, do quão as atitudes do outro nos incomodam, do trabalho e irritação que o convívio traz. Porque, enfim, “amor igual não há”. Ou algum outro verso semelhante. E dá pra amar e ser realista ao mesmo tempo (ou de vez em quando)? Não deve dar, pelo que sei. A realidade vai conspurcando o amor, vai por mim. A ilusão deve ser mantida, alimentada, exaltada. Iludir-se faz bem, é mais recomendado, aliás, para o bem viver do que a poesia.

É assim que o povo prefere viver, com doses cavalares de ilusão. E quem seria eu para discordar dos não dependentes de drogas (de todos os tipos)? Uma chata, porque eu discordo, obviamente. (senão não teria motivo para escrever estas linhas) Então digamos que o amor e a realidade não podem conviver pacificamente. Porque a realidade demanda olhos abertos, coração forte e pulso firme. Ou seja, dá trabalho. E é como falam da TV, depois de um dia excruciante no trabalho, de engolir sapo no trânsito e do patrão, a gente quer é sentar no sofá e esquecer o mundo (vale a abertura pirotécnica e vazia de uma Olimpíada, a novela das nove com mocinha chorosa, a série sensacional enlatada – em doses cavalares de ilusão, como diriam desde Adorno até os intelectuais de quinto mundo). A gente assiste a tudo isso como faz de conta que não se incomoda com descobrir que o cônjuge está bisbilhotando nossas conversas de Whatsapp.

Sempre fui muito criticada por ser… muito crítica. Um disparate evidente! (não o fato de eu ser crítica, mas de me criticarem por isso) Mas o texto não é sobre a Fahya. É sobre essa gente que ama, o que ou quem, e não quer abrir os olhos aos problemas e defeitos do objeto amado. Eu não me importo com o que/quem vocês amam (apesar de ter muita dificuldade em compreender alguns casos), mas fico, às vezes, estarrecida com a cegueira (aquela do começo do texto).

Eu amo praia e entendo quando os que não a amam se referem ao desconforto da areia comentário censurado e como a pele fica pegajosa depois do banho de mar. Ao contrário de quem ama cerveja e não reconhece que ela é azeda. Como existem pessoas que não gostam de praia, existem pessoas que não gostam de cerveja (três frases advogando em causa própria). Talvez amar seja uma balança onde a gente vai pesando e sobrepesando os prazeres e desgostos – cheguei agora a essa conclusão, e, quem sabe, poderia terminar o texto aqui. Porém, essencial é que tenhamos consciência dos prazeres e desgostos, não?

Vejamos um exemplo que muito me agrada. O cidadão joinvilense. Se você (o que eu duvido muito, então o exemplo seria “eu”) faz alguma crítica à cidade (ou Colônia, que fica mais próximo da realidade) dirão que é “falar mal” dela. O cidadão que exige e crítica, aponta incoerências e defeitos, deixa, imediatamente, de ser cidadão e torna-se alguém infeliz, insatisfeito, que só sabe falar mal de tudo (como se precisasse ser assim para arrepiar-se com a cidade). Repare, inclusive, nos jornais locais. Não há uma página de cobrança ou crítica, justo o contrário, muito fazem propaganda explícita para tentar convencer os cidadãos de que as merdas comentário não censurado são perfeitamente justificáveis e boas para a cidade. A despeito do que o cidadão vive, vivencia, sente na pele, ele precisa ser convencido de que aquilo é bom, para o bem dele. E ai de quem disser o contrário – esse aí é só um infeliz, nem joinvilense é, está de mal com a vida.

Cidades têm problemas. Cidades são bem ou mal geridas – em vários graus. Pessoas têm defeitos, agem bem ou mal, têm qualidades. Você pode amá-las, daí a querer fechar os olhos para a parte ruim, imagino que “todo amor que houver nessa vida” não bastará. Talvez a mediocridade (uma das minhas críticas, inclusive, à cidade) não perceba a diferença entre “criticar” e “falar mal” – sei bem como é difícil enfiar isso nas cabecinhas numa sala de aula de Filosofia. O senso comum é pai da mediocridade. Mais medíocre ainda é quem, com a capa falsa da crítica, diz que se você fala mal (rá!), então que faça melhor.

Você pode preferir amar cegamente – quem sou eu para impedir quem quer que seja de fazer o que bem entende – e exigirá que respeitem este amor. Na mesma mão eu vou continuar criticando. Porque não há amor maior no mundo do que o meu por analisar e criticar. Jogo até o argumento invencível do “nasci assim”. Pode perguntar por aí, ninguém nunca soube da Fahya sem ser assim. Então toda esta página e pouco foi para me justificar?

Não. Talvez eu quisesse apenas refletir sobre o amor. Ou sobre a realidade, quem sabe. Porque eu acredito muito que é preciso ter consciência sobre o que fazemos, sentimos, pensamos, queremos. E a ilusão é a serpente do paraíso que nos fisga a não adentrarmos às portas da consciência. Você pode amar o seu marido, daí a querer defender que ele não é um cafajeste e mau-caráter é outra coisa. Você pode amar e defender até a morte a sua mãe, daí a não reconhecer que ela é uma pilantra e mentirosa é outra coisa. (até a mãe entra nessa, viu?) é como ver um filmão, daqueles lindos, emocionantes e que são vazios.

Eu gosto muito do exemplo do cidadão joinvilense (pra você que me lê e não o conhece, não perca a oportunidade). Porque ele fica feliz com vinte minutos a menos no trajeto de ônibus pra casa, enquanto não está nem aí que fizeram mudanças absurdas em prol de ninguém menos que os empresários do transporte público. Porque ele não acha ruim a vocação industrial da cidade, enquanto tantas outras iniciativas e idéias são soterradas. Aliás, o pensamento, de modo geral, é soterrado numa cidade que nunca deu prioridade à educação. E, vocês lembram daquela máxima, se o povo não é educado, não conhecerá seus direitos, não será crítico (!) e não fará cobranças. Mas eles amam Joinville, com o Cachoeira podre, o JEC jogando mal, as enchentes periódicas, o asfalto ruim, a precariedade das universidades, a falta de acesso e valorização da cultura e formação de público, o pensamento limitado, o descaso com o meio-ambiente, a falta de leitos, a dependência pelas capitais próximas, o abandono dos espaços públicos, etc etc etc porque a consideram o melhor dos mundos. E trocam o sofá pelo banquinho desconfortável do bar da moda com um caneco de chope na mão. Porque todos temos direito às ilusões que quisermos.

Talvez eu já tenha dito aqui que jamais serei uma cidadã joinvilense (o que agradaria a muitos). Talvez exista um obstáculo intransponível, pois Joinville virou as costas para o mar e voltou seus olhos para a cerveja (uma piscadinha marota). Mas não é só o cidadão joinvilense que ama, viu? É só porque eu amo o exemplo. Repare bem e verá inúmeros amantes cegos ao seu redor. Amar de olhos abertos é uma experiência para poucos. Enquanto durar a vida, eu aconselharia maneirar nas pílulas de ilusão – mas quem sou eu para dar conselhos?! “Porque el amor cuando no muere mata” e as ilusões envenenam. Quando quiser abrir os olhos, talvez seja tarde demais…

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