Quando Fassbinder me traiu

Talvez esta história seja triste. Por algum tempo pensei nela com raiva, não tristeza. Os personagens não existem mais na minha história faz um bom tempo, mas uma coisa ficou. E eu não gosto das coisas que ficam…

Já fui traída – de várias maneiras, por amores, amigos, colegas de estudos e de trabalho, familiares. Não costumo esquecer as traições porque considero que é mais saudável assim. Nem queria vir contar histórias pessoais. Por algum tempo, como eu disse, eu senti raiva por ter sido traída por um namoradinho (no diminutivo pra demonstrar, com essa dificuldade que nos proporciona a palavra, o quão “pequeno” ele é).

Lá se iam dois anos (se não me engano) de namoro turbulento. Ele conheceu uma moça através de um primo e se falavam pela internet (tempos idos do msn, que eu não possuía, obviamente). Aí um dia ele comentou que ela havia falado do Fassbinder, diretor de cinema, que estava procurando filmes dele ou algo assim. Ele correu baixar loucamente todos os filmes do tal diretor (ele era assim, cheio de manias doentias). Eu, é claro, aquela vida louca, cheia, ocupadíssima como sempre. Numa viagem que eu fiz, ele convidou a tal moça para assistir aos filmes do Fassbinder. Aí, bem, vocês sabem o que o convite “assistir a um filme aqui em casa” quer dizer.

Eu descobri logo depois. Deixemos a podridão da história de lado. Eu pus um ponto final na “nossa” história (digna de um filme de terror intragável). E segui (ele ainda protagonizou cenas lamentáveis durante anos – sim, eu disse anos). Eu tive todos os sentimentos possíveis à época, e não sou boa moça quando com raiva. Mas sou boa com pontos finais.

O problema era o Fassbinder. O problema é o Fassbinder. Eu estudo e trabalho com cinema, desde antes do acontecido. Imaginem vocês, nunca vi um filme do Fassbinder. Por anos eu leio textos, críticas, notícias e volta e meia aparece “Fassbinder”. Hoje mesmo eu aqui imersa em trabalho e, pá, na minha cara, FASSBINDER. Já odiei este homem. Vejam vocês, ele me traiu sem nem saber! Porque traído, queridos, a gente é todo dia. Essa aí nem foi a pior. A mais baixa, talvez, porque digna do “nível” dos envolvidos. Mas o Fassbinder.

O problema é o Fassbinder. Um dia uma pessoa da família disse “quero ver o filme tal” e, pá, era do Fassbinder. Fiz que não ouvi e não toquei mais no assunto. Tinha que ser dele?! A cabeça da gente faz cada associação que é uma miséria. Eu já vi pessoas com esse tipo de (seria trauma?) e ficava toda metida “ah, nada a ver”. Pois é, tudo a ver. Tentei me consolar com um “não estou perdendo nada, deve ser ruim”. Vai na mesma linha de associar músicas a certas pessoas ou relacionamentos, depois que a coisa desanda a música vira outra aos nossos ouvidos. (nesse caso eu nunca tive problemas, tenho até playlists de todas as musiquinhas de amores e tal, coisa mais linda e diabética)

A traição não foi nada. Quem dera o Fassbinder não existisse na face da Terra e eu não tivesse que parar meu trabalho para vir aqui desabafar com vocês essa história. Da qual, aliás, hoje eu dou risada. Quando deparei-me com ele no texto de agora a pouco eu ri “seu safado, tu aqui de novo!”. Mas ainda não vi nenhum filme dele. Preciso assisti-los para poder dizer “é ruim mesmo” (rá!). A vida tem poucas coisas tão boas quanto você poder rir de algo tempos depois de ter passado maus bocados. Porque sofrer pelas mesmas coisas a vida inteira não dá – sempre tem algum sofrimento novo chegando.

Prometo contar, escrever análises longas e minuciosas, quando eu finalmente assistir ao Fassbinder. Aliás, sinto-o quase um amigo. Passamos por uma traição juntos. Não nos deixamos cair nem conspurcar por isso. Um dia faremos as pazes. Fassbinder tornou-se uma obsessão, longe de ter a ver com a história triste de vida, mas uma obsessão cinematográfica: será apoteótico o dia tão esperado de assisti-lo, com direito a muita pipoca, vinho, cobertas, paçoca (e comentários em voz alta, claro, porque eu falo com os filmes). A história será de fato triste se ele me decepcionar – e eu puder comprovar o “é ruim mesmo, viu, eu disse”.

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