Antes e depois da chuva

Desligar o computador sem o sentimento de dever cumprido, mas pelo pesado fato de que não aguentava mais. Meu limite de computador sempre foi duas horas (exceto quando jogava virada na madrugada o SimCity 3000). E a vida passa e os trabalhos exigem dias excruciantes em frente a tela. Não tinha trabalhado o suficiente para o dia, não via o fim do túnel, ainda, e desliguei – num impulso. Dia difícil, idéias incompletas, espírito selvagem. Desliguei sem nenhum peso no dedo.

Nessa guerra quem ganha é a companhia. Saio pelo quintal com a gata e o cachorro. Dizem que um poeta disse “feche os livros e vá viver” e outro que a gente canta o quintal de casa. Foi naqueles dias quando ainda víamos o sol. Esgotada a mente o corpo precisava viver. Eu sou feliz no meu quintal – nem todos podem dizer isso, de verdade. O quintal é onde se cultiva, é semear, esperar, esperar, esperar e esperar (já disse esperar?), é a alegria do brotar, do desespero de falta e excesso de água. É regar, proteger, fazer muda. É transplantar. É coisa de velho, diriam, pois personagens que cuidam do seu quintal, na ficção, são os velhos (só reparem). O quintal é trabalho, cuidado e perseverança.

No perfume da lavanda, o cachorro educadamente deitado sob os galhos secos da videira, a gata ao lado se deleitando ao sol, olho para o céu. Que o quintal também tem céu. Enquadrado parte pelo concreto, parte pela palmeira e outro lado pelos galhos da árvore-que-eu-não-sei-o-nome (a que plantei quando criança e hoje está enorme) era a lua, as nuvens em forma de caminho e um jato a cruzar o espaço. E nasceu a vontade de, a despeito pelo amor ao quintal, estar no jato – fosse de e para onde fosse. Era voar, ir, voltar. Já morei próximo a um aeroporto e tinha por hábito ver os aviões da varanda – quando não ia até a praia vê-los sobre minha cabeça. E no meu quintal nunca vira um avião.

Dizem que a humanidade pode ser sempre dividida em dois. Os “esses” e os “aqueles”. Os que gostam de azeitona, e os que não gostam. E por aí vai. Senti aperto tão grande na alma, calei desejos e acendi penumbras. Fiquei a ver o jato. Depois até fui buscar a câmera para fotografar (o risco do jato não ficou como deveria, claro). Mas aqui tudo estava eternizado. A humanidade pode ser dividida entre a terra e o ar – os que criam raízes e os que criam asas. Eu criança nunca queria voltar para casa, de uma viagem. Eu adulta volto para casa meio contrariada, pela obrigação, e no mau humor do cão. Sabe aquela de que voltar é a melhor parte da viagem? Eu nunca soube. Quando criança nada me prendia à “volta”. Depois havia – ou há. São as raízes. Eu, logo eu, que não as tenho.

Viver na terra é para quem tem raízes. Para quem se vê em cada esquina. Para quem não vive sem sua rotina. Viver a viajar é para quem sente a vida num outro grau. Já morei onde eu podia fugir de casa (e, sim, eu morava sozinha) e, quem sabe, até voltar no mesmo dia. Podia ir até ali e este “ali” se traduzia num outro mundo. A humanidade de fato se divide entre a terra e o ar. E o eu hoje tem quintal e tem ânsias de voar. Tenho duas humanidades, será? Sou desumana ao dizer que viveria sem o meu quintal, por isso temo dizer. Mas sei que não posso viver sem o ar. E estranham quando nunca estou só num mesmo lugar. Talvez a longa tradição (que ainda não abandonei, nem pretendo) de passar a temporada de Verão na praia e o resto do ano na cidade (e se a cidade tiver praia, melhor ainda, mas, mesmo assim, irei para outra na temporada).

Talvez o tempo. O tempo juntou essas duas humanidades. E há tempo o suficiente para satisfazê-las a ambas. Não abro mais mão do meu quintal. Não posso mais abrir mão de voar. (talvez persista o incontornável mau humor do “cheguei”) Sei que fica mais difícil quando o trabalho dá uma folga e uma chuva interminável não permite que o quintal seja aproveitado. Aí só resta a birra e o consolo pós-contemporâneo de maratonas de séries terapêuticas na solidão. Foram, talvez, três dias a olhar desconsolada pela janela, a tentar todo tipo de distração com os cachorros e gatos mais enfezados que eu pelos pingos que não deram trégua. E o quintal para cuidar. E, agora, as passagens para comprar. As datas para planejar. O trabalho para dar conta. E ser uma só.

Para quem joga só de um desses lados da humanidade, tenho a esperar a desprezível incompreensão. Aos que nunca buscaram seus sonhos, sabem muito bem o que estão perdendo. Não descontem em mim suas frustrações. Ainda não consegui ser só uma; ainda me divirto tanto com os sonhos (em especial os de olhos fechados, num certo sentido, mas desses não posso falar). Se o tempo vier a mudar algo disso, terei muito a lamentar. Tenho raízes, mas água demais as apodrecem. Sem ar o corpo não respira – e não vive.

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