Ame o poeta

Você pode amar um engenheiro. Há tantos, eu sei, servirão para arrumar o chuveiro (nada pior do que ser deixada na mão por um chuveiro), os Engenheiros Elétricos – uma amiga mesmo, casou com um, disse que era uma maravilha em casa. A média salarial dos engenheiros também é bem boa, segundo dizem – as amigas aí que gostam de sapatos caros e preferem ficar em casa a trabalhar. Nada contra sapatos, até tenho uns. Mas eles estragam, ficam fora de moda (que as mulheres gostam de andar na moda, eu sei).

Você pode amar médicos, dentistas. Bancários, quem sabe. Empresários. Trabalham bastante, vivem ocupados e cansados, talvez. Uma amiga, agora, ama um político. Um político, vejam vocês. Tenho amigas que só amam músicos. O cara não pode chegar perto de um violão que uma coisa acende dentro delas. Inexplicável. Gostam das noitadas, de música, das serenatas, quem sabe. Mas alguns desses músicos são advogados, concursados de repartição pública. Vejam vocês, há quem ame advogados! Ah, o amor…

Você pode amar até professores. Trabalham demais, recebem pouco, segundo dizem, vivem preparando aula e reclamando dos alunos sem educação. Uns loucos neuróticos e chatos, por vezes. Mas você pode amá-los. Você pode, inclusive, amar policiais e motoristas de ônibus. Tem quem gosta de viver aflita com a segurança dos seus amores. Eu já amei um vendedor de caldo de cana. Pelo caldo de cana grátis, certeza – e vocês viram que aumentou o preço do caldo de cana? Conheço quem ama cozinheiro – ou chef, né, agora todos são chefs – e já não poderia ser o meu caso, nem o de muitas de nós, pois engordar é sempre um problema.

Você pode amar o caixa do supermercado e nunca mais enfrentar filas. O marceneiro, que te fará a cozinha sob medida mais linda deste mundo. O enfermeiro, qualquer febre será rapidamente resolvida. O contador, já pensou? Amar um contador deve ser numericamente emocionante. Ou você pode amar um bibliotecário – será um amor em ordem alfabética, ou por assunto, ou por autor? O chaveiro, amá-lo há de ser uma salvação em momentos de muita angústia – ele abre portas, veja bem.

Eu, porém, diria para amar o poeta. O poeta arquiteta as palavras, mas o melhor poeta redesenha emoções. Ele não conversa contigo, ele te leva por longas caminhadas. Ele verá em você tudo o que foge aos olhos alheios. O poeta tem uma visão perspicaz do mundo a te surpreender todo instante. Os sapatos ficam velhos em pouco tempo, saem de moda, mas os versos são eternos – no papel, no coração e nas lembranças, mesmo que você não seja de decorar versos, como eu. O poeta dá sentido aos mais ínfimos detalhes da vida – e a vida, em si, só assim torna-se vida. Talvez o poeta não saiba arrumar o teu chuveiro – certeza que pode lavar a louça e recolher a roupa do varal – nem fazer a massagem que você precisa depois de um dia exaustivo, mas só ele pode te entregar as belezas e doçuras da vida na cadência do sussurro ao pé do ouvido. Ou por escrito, pra você guardar e ler a toda hora do dia seguinte. O poeta é o único que poderá te curar das doenças e tristezas da alma, creiam-me. Ame o poeta. Amá-lo é ver o mundo mais laranja no entardecer de uma quinta-feira de temporal no final de tarde, enquanto sonhas com a sexta-feira – porque hoje ainda não é sábado.

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