Atravessar manguezais

Os morros são os muros da cidade. Parece repleta, ali confinada entre eles, de gente que caminha e pedala num feriado despretensioso – sem pretensão de nos fazer feliz, pois caiu no meio da semana. Há os que dormiram até tarde num almoço preguiçoso às duas da tarde. Há os que buscaram respirar um fio de brisa marinha. Há os que visitaram a família. Há, ainda, os que findaram a tarde na pista de corrida. E eu me dou conta que não conheço esta cidade. Conheço seu confinamento, muito já olhei para esses morros… e mesmo hoje vi outros, nos quais nunca havia, de fato, reparado.

Por onde eu andei tantos anos? Fiz-me tantas perguntas que preferi esquecer. Tenho esta vontade de olhar pela primeira vez, mesmo que para tudo aquilo que meus olhos já conhecem tão bem. É como ter decorado o corpo da pessoa que se ama, de tanto percorrê-la com as mãos e a boca, e sabê-la no escuro – e dia ou outro reencontrar-se com alguma novidade pelo meio do caminho. Olhos cansados deve ser algum tipo de morte. O ar da cidade é pesado, muito pesado. Por vezes pesa-me na alma – e como. Libertar-se desse peso não é possível nem com alguns tantos de pingos de chuva que caem nos lábios e ali ficam a esvair-se em ar em poucos segundos. A chuva, porém, é garantida. É sempre confiável, sempre bem-vinda, sempre certa.

Mas a chuva veio meio sem vontade. Veio sem arco-íris. Minha vida há tempo que não se permeia de arcos-íris. Talvez muitos dias nublados – eu quis falar deles semana passada, deixei pra lá. Há dias nublados que não precisam ser mencionados. E a cidade engolida por fábricas. Em frente a elas é mais fácil atravessar, há sinaleiros para pedestres, limites de velocidade, faixas de pedestre. O ar, contudo, é mais difícil de respirar – pelo cheiro fétido e pelo ranço do encarceramento em salas de produção. Facilitam que você chegue e saia delas. Mas se passares desatento, teu nariz acusará que este monumento ao trabalho e ao dinheiro é a base de todo o pensamento de uma cidade – tão grande e tão mesquinha na sua pequenez.

Os morros, sem saber, é claro, costumam dar um espetáculo a parte. Este sim, sempre reparei. Eles aprisionam as nuvens – como o amante que aprisiona teus pés indefesos nos pés dele. As mantêm reféns do mormaço de um sol que acusa não querer partir. Reparem nos tons das nuvens, nos formatos, na densidade – às vezes esfumaçadas, por vezes etéreas, quem sabe pesadas ou azuladas. E jazem entre os morros, abraçam-se, amarram-se – amordaçadas? Lembram os amantes na hora da despedida diante de um quê de violência e gotas de desespero. No tempo que eu não sei por onde eu andava, não via horizonte na cidade. Eu queria ver por sobre os morros. Queria ver através daquelas nuvens subjugadas. Eu queria era seguir a brisa que vinha do fim do rio que atravessa a cidade. Meus olhos eram outros?

Para chegar ali eu precisei cruzar os manguezais. Cenário sem bordados, sem enfeites dourados, mangue não fica bem nem nas melhores fotos. E desde outros tempos eu aprendi a gostar de cruzar manguezais. Depois que você se familiariza com a secura dos galhos, com a luz soturna, você entende que ali é o berço da vida, que há minúsculos corpinhos crescendo e se reproduzindo, que ali vão ter os que querem dar continuidade a si mesmos. Dos manguezais saímos mais fortes, regenerados. E podemos, então, enfrentar o mar ou a terra firme. Ou ambos, dependendo da coragem que nos resta. Porque é sempre imprescindível ter coragem extra na bagagem. Deixe-a ali pela bolsinha de zíper acessível sem precisar abrir as grandes ou pequenas malas: quanto mais à mão, melhor. Nunca se sabe quando ela será necessária.

Depois dos manguezais, tudo estará ao alcance dos olhos. É como apaixonar-se por quem você já conhecia, povoava teus dias, e num impulso entregar-se às evidências do que não querias ver. Ao atravessar manguezais, o olhar atento é curto, perscruta os tons marrons acinzentados para não errar o passo, para resguardar as pequeninas vidas – e, até, para saber por onde voltar, o verdadeiro desafio da região. É a grande lição do manguezal. No mar ou em terra firme, quem aprendeu com manguezal tira de letra a vastidão e vê o que olhos embaçados de sol ou embolorados de chuva jamais perceberiam. Pra quem sai do manguezal, um dia de sol é como estar sobre as nuvens de uma longa e duradoura noite de prazeres. A gente até se distrai, sente o corpo leve e o sorriso baila no rosto.

A cidade persistirá sem seus horizontes. Ou eu que não os vejo, dirão. Não vejo-os por entre a fumaça invisível das fábricas e o cinturão de morros – de onde deságuam rios saborosos aos domingos. Ignorarão, eu sei, o mangue que a circunda. Porque dos mangues ninguém quer falar. Os mangues são para poucos – e nem falo dos poucos que têm um caiaque para desbravá-los. Dali da pista de corrida, posso falar porque lá também já estive, não dá pra ver sequer os morros limítrofes da grande cidade – quiçá um solitário garapuvu florido na Primavera, mas certeza que nem ele é observado, os olhos que por ali rondeiam são inundados de sol. Quero descobrir, ainda – pois agora sou outra mas os olhos permanecem os mesmos -, qual a sensação de chegar aos pés desses morros ditadores. Terei a sensação de aproximar-me da liberdade? Ou eles desafiam as almas a atravessá-los jurando-as de morte? O que eu sei, apesar de não conhecer a cidade, é que há uma saída – e nem é pelo mar.

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