Forasteira

Quando cheguei não vi o mais óbvio. Ou, pior, não quis ver. Chamavam-me forasteira e eu achei bonito – sem atentar ao certo as razões. Pensava num western e seus montes de feno ao vento nas ruas empoeiradas, uma dançarina com a cara (e o corpo e a voz) da Marilyn Monroe sentada sobre o piano do saloon entoando dores de um amor abandonado e à espera do seu happy end nos braços de um bonitão rústico. Forasteira eu sorria. A cidade tinha um quê de western, abandonada, velha, atrasada. Eu tinha tudo de forasteira: não era dali, dali não me sentia, me olhavam de alto a baixo, mantinham-me à distância, não gostavam da minha conversa nem do meu olhar. Novamente, preferi não ver. Eu não pertencia àquele lugar. Pertenceria a algum lugar? Instigava-me este ideal de pertencimento, um útero imperfeito onde, de olhos fechados, as pessoas sentiam-se no “seu lugar”. Existiria tal lugar, no meu caso? Forasteira eu me isolava. A vida ali em meio a cavalos amarrados nas portas dos comércios e mocinhas desocupadas a futricar nas janelas em nada me atraía. Era uma gente de mentalidade mesquinha. No meu rancho eu me retirava com meus livros e palavras. Nem de companhia eu precisava. Raras vezes me viam a circular de botinas grosseiras e pistola na cintura e aos poucos as ruas se esvaziavam. Não queriam conversa – eu nem os olhava. Via aquela gente presa às roupas e convenções dignas de outro século. Ah, o tempo ali não dera as caras! Enquanto ele escorria-me pelo corpo em dias de eterna chuva. Descobri, como se realmente não o soubesse, que naquela cidade os invernos eram longos por demais. E fazia frio até em novembro. Vivi dois invernos inteiros com o coração adormecido e as idéias a cogitarem me acordar daquele sonambulismo pérfido. Queriam-me, as idéias, longe dali a cultivar novos pomares, a plantar novas hortas. O coração ansiava que lhe deixassem quieto, fosse naquele rancho ou em qualquer outro. Sentada na varanda com os pés na amurada nos poucos dias ensolarados, eu ignorava-os todos. Revestia-me da couraça de forasteira, entre os meus e entre os olhares irrepreensíveis da cidade, e mantinha serena minha vida de solidão. Ouvia os cochichos, as perguntas, porém. Permitia-me ignorar todo o meu entorno. Ouvia, ao longe, a voz da cantante do saloon. Talvez ela também uma forasteira. Talvez ela angustiava-se que o seu bruto a levasse para longe dali, onde jamais bêbados fétidos reconheceriam o seu talento. Nem com meu talento eu me importava mais. Nem com o reconhecimento. Importava-me com a cama pronta à noite, o silêncio que me despertava os pensamentos, a ordem das coisas no vazio pelo qual eu – sem saber – havia optado. Não sabia se era passageiro, se forasteira seria, de novo, em algum outro recanto do mundo. Certo é que ali permaneceria. Forasteira eu segui. E em pouco tempo as cavalgadas pela aridez do deserto capturaram meu olhar para outros horizontes. Fui despertada pelo movimento sutil de uma árvore solitária na imensidão, por diligências que traziam notícias de longe. A roda gigante do mundo acordava-me. Talvez impelida pelos pesadelos que agora me acometiam no dia a dia que antes fora tão passadiço. Forasteira eu mirava novas emoções. Ainda que fossem as mesmas de outras vezes. Certo é que nem dois invernos me fizeram querer ficar ali, pertencer àquela terra que fora dos meus antepassados, onde eu deveria sentir-me ligada inefavelmente ao futuro. Aquelas caras que torciam-me o nariz eram apáticas e falsas. Ignoravam o doce lamento da moça do saloon. Forasteira eu sentia o calor na cama a impelir-me a sonhos inauditos. Fazia-me promessas. Ocultava meu desprezo por aquela gente que fingia aceitar-me forasteira nas minhas largas calças jeans e no meu colete puído. Eu sabia as artimanhas deles quando jogava despreocupada o velho chapéu sobre os olhos ao meio-dia de um sol de quebranto. Não arquitetei os próximos movimentos, foi meu erro. Forasteira ali e em qualquer lugar seria. Abandonei-me aos azares da vida, tal qual a cantora do saloon que envelhecia sob a maquiagem escorrida. Todos os dias passava perto da estrada que para outras paisagens, quem sabe um dia, me levaria. O cavalo inquietava-se sob a sela e eu lhe dizia um breve “hoje não” e quando o hoje seria? Acordava cada dia mais tarde, almejando que mais rápidos eles passariam, dormia, sem sonhos, na secura dos finais de madrugada ao ouvir os últimos acordes do piano do saloon ao longe – quando quase rouca e tão triste a voz da dançarina bailava meus desejos mais evidentes. Forasteira eu sorria. Tínhamos, eu e a Marilyn Monroe da cidadezinha pobre, colona e mesquinha, a mala sempre pronta atrás da porta do quarto.

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