Eu ouvia

Na avenida principal da cidade eu ouvi o silêncio. Meus all stars faziam poc poc na calçada à beira da baía e ninguém diria que era sexta-feira, fim de expediente, fim de ano, o mundo naquela correria. Eu ouvia um som novo sem saber de onde vinha. E o vento eu via a chacoalhar as palmeiras contra o céu cinza chumbo. Descortinou-se um navio a sair do porto, enorme e imponente, causa daquele som que eu não via. O navio apitava sua saída. Era ele que ia a enfrentar sólido os mares escuros onde, quem sabe, eu desejaria viver.

Eu ouvia o tilintar dos mastros na marina. O mesmo vento levemente os sacudia e as águas da baía fremiam com ânsias de partidas. A música me atraía a roubar um veleiro e sair pela vida a sorver a brisa marinha. Que barco nem veleiro nem navio foram feitos para estancar vontades numa âncora ou nas cordas presas às terras de continentes e ilhas – tem gente que é como eles, só vive, de verdade, a navegar-se na água.

O mar trazia impropérios à praia num começo de noite que tudo alcançava em largas medidas. Eram reclamações de longas décadas, avisos de outros séculos. E aquele canto pacífico de onde se via o farol num campo de batalha sangrenta se transformou. Os mortos e feridos das histórias chegaram aos montes. As cicatrizes de um universo de exploração e descobertas que jamais seriam esquecidas. As ondas se debatiam entre pedras e areia e a chuva arranhava o teto do carro. Os gritos dos não esquecidos não nos deixavam em paz. Eu ouvia, em cada tremular das bandeiras vermelhas, tudo o que eu não sabia de vidas que desconhecia. Mas naquele mar ali eu há alguns dias entrara em água gelada e cristalina – e nem desconfiara dos seus horrores em maus dias. Nos expulsaram a nós que ali queríamos ficar abraçados – água vinha por todos os lados e até de cima. Eu quase não ouvia a tua voz a me chamar embora dali onde não éramos bem-vindos.

O bebê do vizinho a rastejar seu brinquedo novo quebrado pelo chão do apartamento eu ouvia enquanto sorria – e o silêncio no meu rosto se fazia. O sono é o mais leve dos silêncios e o mais tumultuado dos barulhos. Na certa não sonharia contigo. E a chuva caía… era madrugada nos braços de alguém. As rodas dos carros passavam na rua a respingar caminhos sem volta. Eu ouvia teu roncar alto mas nem de leve jamais ouvi teus pensamentos em nenhum dia.

Amanhecia e as casas todas reviviam. Eu não ouvia.

A algazarra no molhe se fazia. E lá vinha a sossegar das águas marinhas um enorme e velho navio que nem barulho emitia de tão cansado, pensava eu, se sentia. O casco enferrujado me lembrava aventuras que eu nem conseguiria imaginar em recantos do mundo onde eu gostaria de estar. As pessoas eu ouvia a comentar da beleza que sentíamos ao ver o gigante se aproximar. O silêncio do farol todos ouviam. Naquele braço do homem forçado mar adentro sobre enormes pedras e muita terra – que homem é bicho de fincar os pés na terra a sentir-se mais homem – estávamos, finalmente, nós. E as ondas incansáveis com o ardor da longa madrugada a chicotear as orlas persistia a se fazer ouvir. Eu ouvia o estrondo delas contra o paredão de pedras e concreto do final do molhe. Elas ecoavam lamentosas entre os vãos. Diziam que queriam tirar-nos a todos dali? Ou queixavam-se da solidão… os poetas todos alardeiam a sua imensidão e nem os olhos poeteiros vêem o quão o mar é solitário. Um solitário a gemer de tristeza contra as areias das nossas praias, dia após dia.

Eu ouvia. Teus chamados de saudade à beira-mar. Eu ouvia. Tuas vontades à distância percorrendo poucos morros e algumas encostas. Eu ouvia nossa volta para a casa e aquela chuvinha persistente que me perseguiu quando segui ao teu encontro. Naqueles dias eu ouvi – que ouvir é estar três degraus acima do sentir e a um precipício do ver.

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