Os barcos quando vêm dar à praia

Eles vêm carregados de peixes quase mortos, no fim da tarde, antes do sol desaparecer detrás dos morros. Os peixes tão próximos d’água e aos últimos suspiros arregalam os olhos – de peixe morto. Os barcos tão pesados não afundam. Como nós, ao entrar na água tão pesados de problemas e decepções, não afundamos – boiamos leves e nem nosso peso nos atrapalha. Os barcos chegam à praia entre as pedras e a pequena ilha com seus semblantes coloridos. É o peixe do almoço do dia seguinte. É o camarão para o pastel do começo da noite. É o que nos une na caminhada à beira-mar. Os barcos chegam anunciando que o dia foi bom e já podemos sair da água quente e transparente do mar para saciar a fome que nos chama.

A praia cheia talvez ignore os cortadores de ondas a cruzar o horizonte em busca de suas casas. Essa gente de longe do litoral talvez só pense em furar ondas, tirar suas fotografias eternas de momentos efêmeros, pegar um bronzeado que não durará um ano inteiro. Não se preocupam com a poesia dos barcos chegando carregados de peixe – se o fazem todos os dias, há poesia?, sim, pois há dias em que voltam vazios… Não se preocupam com as trêmulas bandeirolas vermelhas e azuis que singram o céu azul de uma limpidez adorável. Só saberiam reclamar caso chovesse.

Poucos pares de olhos acompanham os naturais frequentadores das praias. Poucos se detêm na luz amarelada a extinguir sombras sobre os cascos de madeira. Quase ninguém procura os rostos de traços salgados a expressar alegria por uma boa pescaria – ou o pesar de um dia perdido. Diriam que dia nenhum é perdido no mar… dias em terra a suar e sangrar a vida é que são perdidos.

Os barcos quando vêm dar à praia enchem meu coração de cores, sol e prazer. Eles vão com a certeza fiel de voltar. E meus olhos transbordam de alegria ao vê-los dar à praia carregados de vislumbres de Deus. Estar no mar é aproximar-se um tanto Dele. Colocar os pés de volta na areia mole é afastar-se do Criador e resignar-se aos apelos mundanos. Contamos, eu nos dedos e os pescadores em ondas, em quantas horas estaremos de volta.

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