O que trago do mar

Venho da praia para dizer que o mar continua sedutor. Os morros persistem bravamente no verde e as piavinhas brincam na beira d’água como se fundo fosse. As crianças, ah!, as crianças não vêem tempo ruim: é sol, é chuva, é nublado ou areia queimando lá estão supimpamente felizes a tomar banhos de mar emboladas em areia até os pescocinhos. E assim os dias de Verão vão passando, agora tristemente sem o horário de verão que tanto amamos ao prolongar o dia noite adentro – e que vocês, nobres egoístas, tanto o desprezam. Deixem-nos com nosso sol a passos largos pelo dia. É assim que somos mais felizes (ainda).

Venho para dizer que talvez ainda possamos mudar o mundo. E que as coisas boas podem, sim, suplantar as ruins vários dias por semana – exceto às quintas. No mais, talvez ainda possamos ser pessoas melhores – e nem estou falando de não jogar lixo nos rios, construir casas em áreas de preservação, reclamar do barulho do vizinho. Pessoas melhores que têm bons pensamentos, que sonham mais – por favor, sonhem mais -, que não sintam o peso de sorrir quando o mundo lhe desaba sobre as cabeças. Tentemos. Era o que o céu azul trovejado de nuvens hoje me dizia, garanto-lhes: sejam melhores.

Venho da praia para contar que poucas coisas valem a pena na vida. Nós é que perdemos tempo demais com o supérfluo. Eu sei que você sabe. É tão extra deslizar o dedo infinitas vezes num único dia sobre uma tela que não nos esquenta o coração. É tão vazio discutir notícias de nomeações e acidentes de carro. É sempre desnecessário falar do ausente. O pouco é aquele beijo no filho que você não deu logo cedo, aquele “obrigado” que você não disse quando mais precisou, o suspiro de prazer que você estrangulou e, até mesmo, o “adeus” tão desejado e nunca proferido. É pouco e sendo tão pouco se perde na imensidão do muito e do demais que não nos valem de nada. Foi lá na praia que senti. E precisava dizer: vamos ficar com esse pouco.

Venho com o corpo morno de um calor absurdo afogado em água cristalina e fria para contar que sempre pensei que o mundo fosse um bocadinho assim esperançoso. E que por mais que não saibamos explicar essas dores infinitas que estrangulam os bons corações, em algum recanto florido guardamos a esperança de seguir. É assim que os pés cheios de areia sobem a rua, com a certeza de caminhar. Um pé na frente do outro, o equilíbrio, e tudo assim tão simples, mas que, por vezes, nos escapa da alçada da alma. É preciso chamar a força de vontade à razão: devemos seguir. Se tiver alguém a quem dar a mão, melhor. Senão, siga mais devagar.

Vim da praia para ter a certeza de que o mundo me esperava com menos ódio do que da última vez. Reparei bem por onde passava, nos olhares fortuitos, nas câmeras de segurança que ousam ver-me todos os dias a ir e vir de biquíni rente aos muros, nas novas portas abertas, nos carros que nem param nas faixas de pedestres. Reparei que todos estavam com mais sono. Ou uma espécie de sono… robotizaram os olhares e gestos, acionaram a engrenagem, apitaram lá longe na fábrica. Passamos protetor solar para garantir que essa pele não derreta e mostre nossas latas enferrujadas. E quem sabe saiamos a conquistar corações com as marcas de sol de um Verão que deixou (desde sempre) saudade antes da hora.

Vim querendo trazer boas notícias. Por lá tudo se mantém um espetáculo sem decepções. Por lá o coração enternece os mais de trezentos dias passados longe dele. O mar nos dá uma sobrevida de muitas Estações. Ele alivia as dores da alma e engole as dores do corpo: nos deixa saciados e lânguidos que mal passamos do portão de casa já caímos na rede da varanda e por lá ficamos. Mas encontro cá os muros, os corações gelados, as almas mesquinhas e as mãos silenciosas. Duvido que resistissem a um banho de mar. Duvido que consigam embaçar este meu olhar que perdeu-se no ondular violento das ondas a embranquecerem as pedras numa madrugada de areias vazias e céu estrelado. Duvido. Ouçam o que digo, venho da praia para lhes trazer aconchego… e convidá-los a olhar, novamente, o mar.

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