Somos todas elas

Ela não é só ela. Ela é todas essas aí que você consegue ver. E é, também, essas muitas outras que vieram antes dela. Ela sou eu. E sou minha mãe e minhas avós e minhas irmãs. Sempre foi difícil. Sempre foi mais sofrido. Em algum lugar inventaram tantas coisas sobre nós que hoje vivemos, ainda, sob o peso dessas cretinices. Porque tinham que colocar a culpa em alguém pelo pecado, porque tinham que dizer que um lado era mais fraco. E, vocês sabem, só fazem isso para poder afirmar que o outro é mais correto e mais forte.

Eu sou todas essas que morrem nas mãos dos seus maridos e ex-namorados, dos pais que não as aceitam, dos homens que também violam seus corpos. Essas que estão todos os dias nos jornais, que são baleadas aqui na frente de casa. Eu sou essas que fogem, se escondem, choram aos soluços agarradas aos seus filhos num ônibus pela madrugada. Eu sou aquela que tentou se defender com uma faca e aos gritos padeceu lutando. Eu sou a que viveu o inferno sob a terra a partir do dia que disse não a um homem. Eu sou aquela que machucou-se de todas as formas com o primeiro amor… e nunca mais amou igual.

Somos as que morreram na fogueira e as que foram as primeiras: médicas, engenheiras, advogadas. Somos, também, as que ficaram mal faladas. Faz parte da estrada. Nós quisemos o voto e não temos tempo para exercer a Política porque a nossa vida já é cheia de obstáculos. Nós queimamos sutiãs, mas nos ensinaram a não viver sem eles – de blusa branca, então! Desafiamos usando minissaias e calças: como se nossas roupas fossem espadas. Nós sabemos usar as armas mais belas.

Algumas ainda não sabem quem são pois arrastam-se sob o peso da tradição. Incorporam séculos de submissão e não ouvem os próprios pensamentos de libertação. Somos elas também, a gritar-lhes que lhes enganam com falsas flores e falsa proteção. São essas que nos obrigam a viver mais e melhor, a romper grilhões de séculos de mentalidades atrasadas camufladas de religião. São as pobres moças que ainda não viveram uma paixão e um dia saberão o que é decepção – enquanto isso xingam o feminismo.

Eu sou essa aqui. Neste corpo. Com esta cabeça. Tudo meu. Todos os dias sou feliz comigo mesma – e recomendo a todas nós. Não se trata de mim ou de você, ou deles. Falo de nós, por nós. A cada uma que aparece de olho inchado e acreditamos que bateu na porta, a cada uma que o BO ignora, a cada uma que esconde dos pais o que sofreu lá fora: a cada uma nos cabe um dia de silêncio. A cada salário mais baixo, a cada promoção negada porque pode engravidar, a cada assobio na rua, a cada piada idiota, a cada tarado que manda nude na internet, a cada conversa fiada na praia, a cada encochada: nós sobreviveremos. Com marcas. E um dia vocês respeitarão o nosso lugar, não por imposição, mas porque terão, enfim, superado suas limitações.

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