Mapeando

Há mapas que devem ser feitos e destruídos. Eles revelam realidades, obstáculos e perigos que melhor seria caso nunca fossem visitados por mais ninguém. São traçados em cicatrizes que, se estão fechadas, certeza que podem doer como quando abertas. As feridas cicatrizam, mas jamais deixarão de existir. Nossos corpos são mapas das nossas vidas, físicos ou metafísicos, escondem cada pedacinho da nossa existência – e não nos deixam mentir, nem fingir. Por vezes, nem esquecer.

São essas rugas ao redor dos olhos. Esse pequeno corte no joelho esquerdo e a pequenina cicatriz na palma da mão. Vejam só, a cicatriz debaixo do olho direito ninguém percebe, nem de perto – e é a que mais te dói. É por este mapa que o outro precisa se aventurar… sem segunda chance, sem dicas nem bússolas. Ele deve percorrê-lo por sua conta e risco, simplesmente. Deve te abraçar e com as mãos leves e temerosas seguir tua espinha a buscar tuas contradições e medos. Não há como guiá-lo, ele deve escorregar pelos teus erros e pelos teus fracassos, deve deparar-se com as tuas alegrias e tuas esperanças.

Certas respostas não existem, assim como não existem explicações para ser como somos. E não podemos fazer nada além de guardar os mapas. Corajosos são os que se aventuram por eles, os que decidem navegar pela vida de alguém – caso este alguém valha a pena ou seja a razão da sua felicidade. Ainda assim é dada a opção de aventurar-se com este alguém, sem sequer tocar-lhe os mapas – a maioria, aliás, das pessoas faz isso. Elas escolhem viver com alguém, mas não entregam seus mapas. Sábia escolha, diriam uns. Mas jamais serão vidas completas, eu garanto.

Os mapas, contudo, por si, não dão garantia – de nada. Você pode navegar anos a fio num alto-mar revolto e sem rumo, ou perder-se numa mata densa e fria por um tempo sem conta. Acontece muito, eu bem sei. Nem toda a tecnologia disponível, que une pessoas que estão a milhares de quilômetros de distância numa pequena tela, substituiu o bom e velho mapa feito a mão. Ele tem a textura das descobertas, as cores das dores e esquiva-se das perguntas num leve enrolar de folhas.

São nesses mapas que, por vezes, tropeçamos. São deles que não falamos à mesa do jantar nem no dia que te pediram a mão em casamento. Há quem se contente com GPS e desculpas sem fim sobre qualquer uso inteligente de novos meios de guiar-se pelo mundo. Eu não conheço, ainda, nenhum melhor e mais eficaz do que as mãos a tatearem peles lisas intercaladas por cicatrizes. As mãos que induzem os olhos a se revirarem no quarto escuro. Olhos que, ao amanhecer, percorrem as rotas mais tortuosas do outro que se encontra adormecido ao lado. Mas só é possível quando não destruímos todos os nossos mapas, quando decidimos guardá-los para nossa lembrança de tempos e destinos que nos trouxeram ao presente – e para, quem sabe, entregá-los a alguém, com as mãos trêmulas e os olhos rasos d’água e dizendo mentalmente “toma, são teus, porque és digno de saber todos os meus caminhos” – desatinados, certamente, e são uma minoria expressiva.

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