A culpa não é do funk

“Meu filho gosta de funk!” parece ser a queixa dos pais brasileiros contemporâneos. Eu não me preocuparia com o funk. Sobre sexualidade acerbada não vejo novidade na canção popular. Preocupa-me, sim, a ausência de questões sociais e de grande importância atuais na canção popular de um modo geral. Parece, então, que só sofremos por amor – não sofremos mais com a desigualdade social, com o avanço da criminalidade, com a destruição da urbanização, com a educação precária. Nossos temas populares fixam-se na sexualidade, na dor de cotovelo (parece que esta sempre sentimos) e na ostentação. Ah, sim, lembrando que substituímos o “liga pra mim, não, não liga pra ele” pelo “troco likes”. Mera atualização.

Pergunto-me, os pais queriam que seus filhos gostassem de Schubert (exceto os virtuoses, claro)? Quais as oportunidades que eles mesmos dão aos seus filhos para que gostem dele? Ou, sei lá, os pais conhecem Schubert? Precisamos dar oportunidades de conhecimento cultural a eles, e certeza que isso não se resume a pagar o boleto da internet todos os meses. Esses pais dançaram macarena e o tchan? Esses pais não ouvem funk? (nem nas festinhas com os amigos?)

Um bom exemplo está nas telenovelas. Não há nada que acompanhe tão de perto nossa realidade do que elas na última década. Foi, aliás, como elas se reinventaram – e ficaram tão, mas tão, tediosamente chatas (mera opinião). As novelas tiveram que ir às favelas, empregadas domésticas foram alçadas ao protagonismo (e ao sucesso, claro, que a fórmula continua a mesma), a suburbana virou mocinha. É a telenovela que nos faz ver todos os dias uma moça policial que busca justiça e sofre nas mãos dos bandidos (que também têm família e coração, claro). De tanta realidade e politicamente correto, eu diria, elas perderam o seu encanto (aquele da fantasia, da metáfora, da crítica).

Assim, a canção perdeu seu encanto. A literalidade do funk parece-me desanimadora. Quem dera nossas crianças de hoje entendessem o que é uma metáfora, aí sim talvez tivéssemos funks metafóricos. Se os pais sequer ensinam poesia e figuras de linguagem aos filhos, se não os iniciam no mundo da fantasia, como querem reclamar do gosto pelo funk? O funk não é o problema. A canção popular também perdeu o seu encanto com duplas e solitários em busca do mero sucesso, dos carrões, mansões, jatinhos e investimentos – tudo alicerçado na venda da própria imagem (assunto para a próxima, prometo). Eles também não estão preocupados com profundidade alguma nos seus versos mais curtos que os tuítes. Ganha o mercado, ganha o artista. Perde a canção, perdemos nós.

Deveria chocar qualquer um de nós o fato de uma criança de onze anos nos prevenir, sobre um funk, “mas é pesadão”. O funk pesadão, em si, deveria nos chocar. Talvez tenhamos perdido o dom de nos chocar. Ou, talvez, choque uma criança alguém parar para ouvir Schubert. Diriam que é um comentário de quem parou no tempo. Mas eu duvido muito que a cultura pare no tempo. Ela, aliás, é o melhor retrato do seu tempo. Um dia tiraremos estes retratos envelhecidos da gaveta, para provocar a memória. Estaremos diante do quê?

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