Tínhamos um encontro marcado

Tínhamos um encontro marcado para este século: nos tornarmos pessoas melhores. Diante de tanta evolução científica, de condições de vida acima de qualquer patamar de antes, nós tínhamos tudo para que fôssemos melhores. Melhores pessoas.

Neste encontro traríamos o respeito – às diferenças, às liberdades individuais – acima de tudo. Porque já aprendemos, a duras penas e longas guerras sangrentas, que a condição especial para ser mais humano é o respeito. Independente das nossas crenças e convicções individuais é sempre necessário o respeito a criar cercas invisíveis ao nosso redor e ao redor de todos nós. Tínhamos o encontro marcado com diminuir as nossas diferenças: deveríamos, sempre que pudéssemos, fazer mais pelo outro, por quem tem menos que nós. Reconheceríamos, depois de tantos séculos, que alguns têm condições mais favoráveis e que outros não dependem apenas da má sorte ao nascer.

Para este encontro não poderíamos trazer nenhum rancor, nenhum ódio, nenhuma vontade de fazer o mal. Porque deveríamos trazer amor numa cesta de piquenique e, no momento do encontro, ofereceríamos uns aos outros. Amor, simplesmente. Do mais tímido ao mais espalhafatoso. Do mais suave ao mais arrojado. Mas somente amor. Já sabíamos, é claro, que não amaríamos uns aos outros como Aquele que nos ama, mas tínhamos o encontro marcado com a certeza de conhecer as nossas feridas e cicatrizes de tanta ausência de amor, por tanto tempo.

Tínhamos a certeza que neste encontro não mais primariam as disputas: pelo poder, por terras, por credos, por lucros. Todos nós deveríamos ter alcançado o nobre sentimento da satisfação de viver com o que nos cabe. Os sentimentos mesquinhos estariam, era fácil prever, todos enterrados junto ao nosso desgosto de ver irmãos se matando, famílias inteiras expulsas de casa, milícias religiosas explodindo inocentes, pessoas trabalhando doentes e adoecendo ao trabalhar.

Tínhamos um encontro marcado com cada um cuidar mais de si em busca de um corpo e uma mente de onde brotassem idéias e atitudes singulares. E nesse caminho de cuidar de si, compreender o cuidado com o mundo onde habitamos, com nossos lares e nossos habitats. Tínhamos um encontro marcado e sabíamos de tudo isso, data e horário.

Tínhamos um encontro marcado. Fugimos acovardados pela nossa incompetência em reconhecer erros do passado. Faltou-nos coragem para assumir que, hoje, não poderíamos ser nada mais do que pessoas melhores. Rastejamos, hoje, sobre nossa culpa.

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