Diz-me, poeta

Diz-me, poeta: tão fácil saem as palavras das tuas mãos para o papel? Flutuam nuvens de céus encantados a dourar o branco do papel que te espera angustiado? Diz-me, poeta, se preciso alçar vôos sobre tantos amores para compor êxtases e desilusões em páginas com fins cada vez mais tristes. Seria a vida um pesadelo a registrar nossos medos em tintas cada vez mais esmaecidas? Diz-me, poeta, que só tu me permite estes devaneios e dúvidas. Diz-me, poeta, tu, também, amas?

Míseras comparações enchem versos vazios. Pobres metáforas acordam o tilintar do alarme falso. São os sofredores de falsas emoções que a todo custo querem desafinar a vida em poesia. Mas, tu, despreocupado poeta, escreves com a alma em sintonia. De onde tiras tanta inspiração? Diz-me, poeta. Sei dos ventos, dos faróis, dos barcos a navegar, também da lua, do sol e do mar. A qualquer um estão ao alcance. Mas só tu, querido poeta, a tudo enquadra em traços os mais belos. Diz-me, poeta, como não sentir a brisa ao tamborilar teus versos nos meus lábios?

Diz-me, poeta: acaso te inspiro? Meus olhares ou, quem sabe, meu sorriso? Diz-me, poeta, te causam calafrios? Pois já quis ser musa dos teus versos, dona dos teus suspiros, amante das tuas madrugadas. É o que sonham alguns dos que mal sabem conversar com a pena, como tu. Não é nada fácil, diz-me, poeta, confessar explicitamente o que te atravessa o coração? Sangrar diante dos olhos que farejam desgraças como urubus em beira de estrada? Diz-me, poeta. De onde tiras coragem para adentrar as almas que vagam solitárias pelos nossos dias, tristes dias?

Imagino-te feito de olhares velados e gestos sombrios. O que te encerra o corpo flameja em palavras. Diz-me, poeta, o que vês no espelho quando estás diante dele? Nenhum verso atrapalhado, nenhuma palavra fora do lugar, nenhuma pontuação sem sentido? Ou, quem sabe, algum verso mal conjugado. Diz-me, poeta, como não escorrem por ti os versos que lacrimejam nossos olhos? Como não vemos as pétalas das tuas poesias caindo-lhe das mãos quando atravessas a rua?

Diz-me, poeta. Diz-me, poeta, como te encontro a disparar-me, sem dó, verdades em três palavras de três linhas? Diz-me como amar-te até os próximos outubros, pelo resto dos anos que nos sobram? Diz-me onde escondes as poesias que ainda não escrevestes. Guarda-as tão bem dentro do peito e as aprisiona atrás destes olhos de desespero? Diz-me, poeta. Ou te desmanchas em segredos até para mim?

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