Cemitérios no inverno

O caminho é pedregoso e necessário. Longo e cheio de curvas aborda rios por vezes. A poeira embaça o olhar que tenta atirar-se para todo aquele verde quase negro dos morros. É preciso estirar o corpo lançando-se aos caminhos sem destino nem objetivo. Era quase inverno, ou, quem sabe, era um inverno como esse que hoje se apodera da minha primavera.

Há todo esse mundo distante do correr de tantas vidas para pouco tempo. Você me levou e o silêncio permeava estes pensamentos que não se aquietam. Eu sorri ao ver os patos em linha irem dormir pois o sol se punha: a natureza é assim belíssima e exata.

Foi quando nos deparamos com um cemitério, onde você por acaso fez a volta. Casa dos mortos, singelo e solitário naquele dia frio, cinza e silencioso. É uma lembrança que guardo do inverno. Quando você me salvou daquele dia sufocante e meu olhar perdeu-se nos pensamentos cemitério adentro. Não há nada mais triste. Os mortos ali a me lembrar que tudo finda. Os mortos têm o mau gosto de sempre nos lembrar que tudo acaba. Esses cemitérios de interior fincam no coração que mesmo em meio ao mundo a parte, mesmo nos rincões mais perdidos, mesmo longe desta vida – sufocante sufocante sufocante – a morte chega. E fica. E constrói seus túmulos frios.

A natureza é assim belíssima e exata. Vivemos a vida, nos alcança a morte – quando, e somente quando, já tivermos concluído nossa missão na Terra. De nada serviria que fosse diferente.

Tenho tantas lembranças boas do inverno. Esta me perseguia, enquanto não fosse martelada nas letras não me deixaria em paz. Naquele dia senti o alívio da surpresa e do respiro. Hoje a surpresa – e eu que sempre surpreendo por vezes me quedo surpresa, mas é raríssimo – obrigou-me a anotar no céu das lembranças as cenas do último inverno. Eu gosto de cemitérios. Tanto no inverno quanto na primavera – já te contei como ficam belos cheios de andorinhas? Às vezes também gosto da tristeza. Diria que gosto até de dias frios. E nublados – desde que não abafados.

A natureza é assim belíssima e exata. É assim também o amor, posto que tão natural quanto a morte. Amemo-nos, por certo. Até o próximo inverno. Até a próxima surpresa. E renovemos sempre a beleza e exatidão que nele há.

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