Aquecimento.
Parece, às vezes, que o cérebro está esgotado. Não gosto de barulho quando escrevo, porque tenho dificuldade de concentração – ou pelo menos é isso que me digo a vida toda.
E o que fazer quando gosto tanto de música? Descobri que há músicas que ajudam na concentração. Tenho tentado. A vida de escritora e roteirista não é, nem de longe, fácil.
A vida inteira eu tentava entender como alguém conseguia escrever aqueles livros intensos e extensos que eu lia. Quanto tempo demorava para escrever tudo aquilo, como conciliar com a vida medíocre, a vidinha aquela do dia a dia? Bem, a maioria dos escritores que eu lia era de homens. Por aí começava a explicação. Depois de um tempo vi declarações de mulheres escritoras que começaram a escrever tardiamente, justamente quando conseguiram livrar-se das obrigações “femininas”.
Para escrever é preciso muito tempo. Muita concentração. Muita solidão. Tirando a solidão, minha boa companheira a vida inteira, os outros dois sempre foram obstáculos.
Fernando Pessoa era funcionário público. Mas ele lavava a louça, a roupa, limpava a casa?
De vez em quando essas coisas eu me perguntava.
Zola, como vivia? Hemingway, que ainda vivia histórias reais incríveis. Como era possível?
Quando eu vivo, nem de longe consigo tempo para escrever. E a voz de minha mãe martelava “não ter tempo é desculpa” e eu: Deus meu, se eu acordar todo dia mais cedo, talvez eu consiga. As cobranças sempre foram intrinsecamente eu comigo mesma.
Eu gosto de ver as coisas terminadas e isso é um problema que tenho tentado superar. Muita auto-análise, muita leitura, muita conversa com meus botões.
Quando fiz o curso de Escrita Criativa em Porto Alegre, o professor cravou uma sentença que carrego comigo – esses dias, caminhando e inventando personagens, por exemplo, lembrei da sentença dele – que eu era muito boa escritora dos momentos. Mas, isso basta? Eu gosto do que fulgura, do clímax, do choque, do conflito. Seria uma consequência natural de quem não tem paciência? Sim, eu sou uma pessoa sem paciência no geral – não tenho paciência nem para abrir qualquer embalagem que não abra de primeira. Tenho paciência desenvolvida em pontos muito específicos da vida – e são poucos, penso até que alguns eu já perdi.
Para projetos longos não basta ser a escritora dos momentos. Para projetos longos precisa ter paciência. E constância (eu e a rotina vivemos em conflito). E persistência (pelo menos isso eu tenho).
Aquecimento. Hoje vim para meu novo canto de escrita mais tarde – bem mais tarde – porque cozinhei feijão, deixei o almoço quase pronto, limpei o banheiro, lavei roupa, troquei lençois e toalhas… É, a vida da mulher dona de casa, sem marido nem ninguém que lhe pague as contas ou contrate empregadas é assim. Já é 13h42 e eu preciso finalizar o almoço, servir e, quem sabe, com sorte, voltar a escrever.
Aquecimento. Imersa em manter a constância e em desvendar, por escrito, meus desafios de escritora e roteirista, comecei esse texto como mero aquecimento. Tenho um Argumento e um roteiro de longa-metragem para os quais voltar. Mas sentia a cabeça (e o corpo, hoje) um tanto esgotados. Venho do discreto charme do desânimo em perceber, ontem ao final da diária de escrita, que o roteiro não está bom, que falta “miolo”, que está resumido, que preciso desenvolver mais os conflitos centrais. É uma auto-crítica, normal durante o processo, e que é facilmente resolvido – adicionar cenas, desenvolver os principais conflitos. É sexta-feira, chega uma hora que todo mundo cansa. Numa tentativa de começar a me concentrar e, ao mesmo tempo, desacelerar da vida que eu queria viver no momento, coloquei a playlist da scaloneta para tocar.
É, queria pegar a estrada agora e ir até Buenos Aires para assistir à final da Copa. Condenada a ir almoçar o meu almoço – muito digno de arroz integral, feijão, omelete, couve crua e laranja – e voltar a escrever. Com um pouco de desânimo, duas doses de café e revoltas no coração. Ou seja, tudo no lugar.
A auto-sabotagem é constante nessa vida de escritora e roteirista. Sempre achar que não sou boa o bastante. Tantas vezes bater na trave. Uma concorrência desleal – e burra, quantos roteiros li e pensei: horrível, mas ganhou. Quantos homens clássicos escrevendo roteiros (sem precisar fazer juízo de valor) e eu não? Lembrei que é inverno, o quintal todo precisa de manutenção de poda das árvores. Pois é, mas eu jamais viveria num apartamento.
Falei no cansaço físico, ontem pedalei 15km. É parte do programa diário de confiar na escritora e roteirista que há em mim sem descuidar do corpo, da saúde e da mente. Mens sana in corpore sano. Tem dias que não há nada de sano aqui. O feijão sem gordura animal, venci a luta contra os ultraprocessados. Cada dia é a batalha nossa – muito mais interna do que qualquer outra.
Esses dias ainda joguei: solução é a gente que faz, constrói e elabora. Do céu, só os problemas caem. Meu colo vive cheio deles. E entre a chegada de um e de outro, mais algumas páginas escritas.
Li péssimos livros de roteiro, desde a graduação. Li um que amei, não era estilo manual. Anos depois encontrei-o em algum sebo e comprei-o pelo apego emocional e porque há um projeto de relê-lo. Ainda não cumpri esse projeto. Sempre penso que a velhice perfeita será ter mais tempo para ler todos os livros que já comprei e ainda não li. Tenho vivido tempos de mudanças – internas e externas – e decidi mudar os livros de lugar. Ainda não construí (solucionar problemas, lembra?) a prateleira que será a casa definitiva deles, então, no momento eles encontram-se aqui ao meu lado, numa biblioteca (meu sonho sempre foi ter uma biblioteca em casa) sem prateleiras. Eu que tenho verdadeiro pavor físico de bagunça e de coisas fora do lugar, estou gostando de conviver com essa baguncinha deles todos fora de lugar em mesinhas improvisadas. Da playlist da scaloneta fui parar na playlist da Tricolor – Terra del olvido é meu amorzinho colombiano. Mas, após esse aquecimento que vai terminar em breve, devo voltar ao trabalho pesado de arrancar de dentro de mim histórias inolvidables a outros corações, então saquei uma playlist de tangos clássicos instrumentais. Já sabe, um tango argentino me cai bem melhor que um blues. Ou um jazz. Ou, hoje, até mesmo do que um flamenco.
Aquecimento. É só para fortificar os músculos, alongar para o trabalho pesado que virá.
Olho o relógio, calculo quantas horas vou escrever até a hora de sair para minha caminhada do dia, seguida de um mimo de massagem, para finalizar o dia pensando no quanto progredi no trabalho. Voltar pra casa, recolher roupa, feliz que não preciso fazer janta: ainda tem creme de brócolis, aquele delicioso que eu faço, para a sessão de filme do dia – se eu engatar mais um romance francês ou turco de casal + 40 acompanhado de uma cerveja especial, a sexta terá sido um sucesso. Se houver um milagre hoje, melhor ainda. Se não houver, que pelo menos nenhum problema apareça – confesso que acordei com um tanto mais de falta de paciência para lidar com eles.
Pois é, sou dessas que acredita em milagres. Los hay, los hay. Já planejo que tem almoço para amanhã, pela manhã tenho compromisso comigo mesma – desses que não aparecem aqui nem em lugar nenhum. Já diria Kalil Gibran. Tem podcast novo para ouvir, tem feijão cozido sem tempero, tem uma berinjela na geladeira, cozinhar é um dos meus momentos favoritos da vida. É quando desafio minha concentração. É quando provo que sou boa nas coisas que faço. Cozinhar bem foi aprendizado, necessidade, prazer e mais uma forma de trazer mais beleza pra vida. No fim, é tudo focado em trazer mais beleza pra vida.
Findo o aquecimento, é hora do pesado. Ne me import quoi.
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