Resistir

Resistir quando o sentido extrapola o verbo. Tenho tomado tempo da minha vida a refletir sobre resistir. Em algum momento, após uma conversa inusitada sentada num banco do bairro, algo esclareceu-se dentro de mim. Eu resistia.

Resistir a quê? A quem? Resistir a si mesma? Resistir aos impulsos de desistir? Resistir à tentação? Resistir à inércia e ao silêncio?

As árvores resistem ao vento, as raízes, mais profundas ou laterais conforme a espécie, os galhos de madeira mais ou menos flexíveis, a altura, quando plantadas mais próximas de outras árvores ou solitárias, em morros ou áreas planas. A composição delas faz com que sejam mais ou menos resistentes às intempéries, sobrevivam mais e melhor ao vento, às chuvas, aos deslizamentos e, até mesmo, ao tempo. A natureza é detalhadamente desenhada para resistir, talvez não tanto ao poder de destruição do ser humano. As praias resistem, com o tracejado de suas encostas, com costões e baías a protegerem os areais, com as marés, as fases da lua e as estações do ano. A resistência é perfeição.

Resistir não é um ato de coragem, ao contrário do que dizem por aí. Por vezes, resistir é somente necessidade. O oposto da necessidade é a teimosia (desconfio que nisso sou campeã). Você resiste porque sabe o que quer, sabe o que é certo, sabe o que é justo. Nada tira o foco do caminho. Resistir está no sangue. É parte da sua formação, como a constituição das árvores. Dizer que nada abala já é demais, mas os abalos são passageiros, é um galho que se rompe, as raízes que se movem milímetros. Resistir também é adaptar-se.

Não há como resistir sem mover-se. Quem resiste não é quem nunca muda, quem nunca sai do mesmo lugar nem muda seus pensamentos. Resistir é ter a maleabilidade da natureza, a resistência de uma rocha com a temperança das flores. E eu sempre me perguntei quando seria a hora de desistir, porque resistir pode ser também saber a hora de abandonar um plano, um caminho ou um sonho.

Saber quando despedir-se e ir embora – ou, às vezes, somente ir embora – é resistir ao erro (de permanecer). O maior desafio lógico de resistir é ter domínio do tempo. Resistir por resistir ou por mera teimosia é a persistência vazia. Resistir demonstra força de caráter – ou alguma fraqueza a ceder a impulsos muito humanos. É humano desistir. É humano ser fraco. É humano abandonar.

Sobre humano é ser tão ser-da-natureza que resistir é a força que nos move. Porque resistir é ceder às suas crenças na possibilidade de reconstrução, na Justiça, no Destino e na invisibilidade da vida. A Natureza ensina que o ser humano, quanto mais se distancia das suas origens humanas, menos resiste. Há muitas artimanhas na vida para se chegar a diversos resultados e para conquistar muitas metas e nenhuma delas passa perto de resistir. Quem resiste carrega consigo um dom inviolável: a sinceridade.

Você só resiste de verdade se é sincero. E a sinceridade, sejamos sinceros, é artigo em falta faz tempo na humanidade – até porque ela nunca foi muito bem vista. Quando me dei conta de que o capítulo da vida se chamava “resistir”, pensei o quanto era consequência natural da sinceridade (e das doses de teimosia). Ninguém resiste à toa, porque um belo dia acordou e decidiu: vou tomar essa luta pra mim. Faltam as raízes, a constituição, toda a estrutura que traz por dentro a opção por resistir. 

Porém, resistir ao quê? Resistir a quem? Resistir a si mesma? Há um lado lúdico e sensual sobre resistir… traz a sedução, o entendimento de não resistir aos impulsos e às tentações o que é uma visão deveras interessante e aprazível. Coisa dos romances dos séculos passados, né? Nada mais tem esse apelo. Muitas pessoas nem sabem o que é ser seduzida por uma ideia, por uma perspectiva. Que pobreza, viu? Por isso nem entrou na concepção deste texto.

Só se resiste a algo ou alguém justamente porque há uma força contrária. Quando estáveis na vida ninguém precisa resistir. Há quem passe pela vida inteira sem ter cruzado com a opção por resistir, ou seja, nunca teve nenhuma força contrária tão forte que lhe atravessasse a vida com intensidade. Sei que essas pessoas existem. Nem todos podem conjugar o verbo resistir.

A cortina só se abre com um letreiro neon gigante escrito RESISTIR em situações extremas. Não há como julgar quem cai e nunca mais se levanta, nem quem fecha a cortina e não aceita o convite. Porque a vida convida a resistir, ela te apresenta o panorama, não esconde nenhum dos obstáculos, não joga uma adocicada cobertura de chocolate. Resistir será duro, doloroso, solitário, vai deixar inúmeras cicatrizes e memórias que você vai carregar com trabalho para o resto da vida. Não é nada romantizada. Pra quem vê de fora, é um ato de coragem, lindo, louvável e merecedor de aplausos. Bobagem.

Herói nenhum resiste. Quem resiste é sobre humano e não há nada de bonitinho nisso. Há histórias poderosas, construídas hora a hora (não, “dia a dia” já seria demais) e com muito suor, sangue e lágrimas. É um pé firme fincado no chão da própria história. Pra resistir não precisa coragem, precisa força e teimosia. A coragem, eu acho, é um brinde. 

O lado bom é poder surpreender a força contrária com o quanto ou até onde você resiste. O segredo de resistir é resistir até dobrar e vencer a força contrária. Contudo, o caminho da resistência já é bonito e engrandecedor por si só. É durante o caminho que você reconhece muitas pessoas e também vai deixando para trás tudo o que não faz mais parte de uma nova pessoa. Porque quem resiste nunca mais será a mesma. Quem sabe essa seja a mais bela perspectiva de resistir.


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