“Se Flávio vencer, você perde!”

Eu sei que parece incongruente ou até mesmo um anacronismo escrever textos hoje em dia, quando tudo está à mercê do algoritmo – até mesmo a democracia e uma eleição.

Trago reflexões para um pouco além, do ponto de vista de quem ainda pensa fora das redes, que leu e lê livros, que debate ideias de forma saudável.

Eu entendo como algo profundamente necessário quando tudo está se renovando e precisamos, sim, encampar novos espaços de luta.

Eu entendo e respeito quem diz que não podemos sair das redes porque essa é a arma que a extrema-direita mundial tem. Realmente não faz sentido, como ouvi, tentarmos lutar com um pedaço de pau contra um fuzil. É só uma metáfora, ok? Nenhuma defesa ao armamentismo.

Contudo, há as nossas trincheiras e desconfio que as redes podem cansar demais, elas nos levam à exaustão física e mental com muita rapidez.

Por isso, escrevo.

São pontos que considero relevantes para pensarmos quando a eleição está sendo decidida por um vídeo de tiktok. Eu não tenho conta nessa rede, mas sei do avanço dela no Brasil e no mundo.

Porém, vi uma reportagem como ensaio documental que marca muito qual o ponto de não-retorno ao qual estamos expostos.

Brésil : mon oncle bolsonariste | ARTE Reportage

Está em francês, mas acredito que deve ter legendas em português ou alguma versão, pois é produção brasileira distribuída em canal estrangeiro.

Vejam a profundidade: pessoas que acreditam em vídeos de tiktok e que não admitem mesmo quando confrontadas com a verdade. Por isso, não importa mostrar os áudios e documentos e prints comprovando que Flávio Bolsonaro está até o pescoço no caso do Banco Master – defendeu assassino de criança no caso Ana Clara, praticou rachadinha, etc e etc. As pessoas não querem saber a verdade.

Quando falamos dos fatos, eu quero também divulgar um documentário que assisti e que diz muito sobre o que passamos, além do excelente Anatomia do Caos (brevemente online).

primevideo.com/detail/0HZD07SOMH1TJBPOJJ3IDBWCTS

“Ciência na Mira” foi o que me veio à mente ao ver a Universidade Federal de Pernambuco em chamas.

Estamos tratando com um exército miliciano de frustrados e recalcados que só querem a destruição. É a “aceleração da desintegração”, conceito que li recentemente.

https://piaui.uol.com.br/revista/237/fim-de-jogo-extrema-direita-contemporanea

No artigo Fim de Jogo, Rodrigo Nunes delineia o que temos vivido e dá nome aos bois. Destruir é o único verbo que a extrema-direita sabe conjugar.

Quando eu decido o meu voto, eu procuro diversas fontes. Eu leio, eu me aprofundo, eu reviso experiências e a minha vida para entender como a atuação política é fundamental para o Bem Comum. Não é uma briga de torcidas de futebol ou de fandom de artista internacional, não,

Não é sobre vídeos editados do tiktok.

Quando colocamos as bandeiras em apoio ao Lula, aqui em casa (e das raríssimas na cidade), tivemos receio pelos antecedentes. Em Joinville, casas já foram alvejadas porque dispunham bandeiras semelhantes.

Mas o medo não é bom conselheiro.

Registramos algumas violações e crimes eleitorais ao arrancarem adesivos e tentarem arrancar a bandeira. Até semana passada.

Num dia da semana passada, 22h, três jovens (dois rapazes e uma moça), vêm em direção à bandeira. Um deles larga a mochila na frente do imóvel vizinho e pula, se apoia e consegue arrancar a bandeira. Tudo registrado pelas câmeras.

Em seguida, ela coloca a bandeira na mochila e eles seguem. Porém, em seguida um deles se volta para a câmera, faz gestos obscenos, gritam os dois rapazes. Ela faz o L com a mão em direção à câmera.

Eles seguem, um dos rapazes pega a bandeira da mochila dela e a rasga, jogando em frente a outro imóvel vizinho. Eu saí logo em seguida e resgatei a bandeira rasgada.

Esses jovens estão defendendo o cara que vai passar fácil a diminuição da maioridade penal e a revogação do Estatuto da Criança e Adolescente, certo?

Essa jovem, que talvez não seja pró-extrema-direita está na companhia desses rapazes que defendem o partido que está lutando contra o nosso direito ao aborto, inclusive nos casos previstos por lei?

Ao fechar o portão com a bandeira rasgada, passava uma moça, com mochila nas costas. Ela gritou “O Bolsonaro vai vencer!” ao que eu retruquei no meu bom espírito atento “E você vai perder!”. Abri o portão em seguida, porque não sou de falar pelas costas como ela, que esperou que eu fechasse o portão. Uma moça, mais de dez da noite na rua, andando a pé. Eu disse com todas as letras que ela é ignorante em defender vagabundo. O que essa moça acha que Bolsonaro fará por ela?

No dia seguinte a bandeira já estava lá de volta.

Não temos medo de vocês. Não foi o medo que nos garantiu a Democracia.

Não nos faltam motivos, baseados em fatos, para não votar no representante da extrema-direita no Brasil. Fica muito evidente que falta conhecimento e experiência (os dois juntos ou separados) para quem vota na extrema-direita. No Brasil, em especial, é um projeto de poder de quem lucra muito com o medo e a violência. A defesa deles passa muito longe da pátria, família, deus ou liberdade. É a defesa de interesses financeiros pessoais e sempre foi.

Cabe sabermos lidar com a Nova Política que se faz no voto, no debate e com os algoritmos (e não só durante a campanha eleitoral). Cabe resgatarmos a coragem de quem ficou em silêncio por medo (e as ruas estão dando essa resposta), inclusive nas formações de base. Professores, resgatem sua coragem, mais do que nunca precisamos de vocês.

Contudo, também vale resgatarmos o que nos trouxe até aqui: conhecimento, boa informação, reflexões, debates saudáveis, formação, leitura, crítica. Essas coisas de antigamente, sabe?

Eu sou vítima da violência da extrema-direita e nos últimos três anos me aprofundei no tema. Conheci tantas outras vítimas. Por isso, o verbo é no tempo presente, “eu sou” e não “eu fui”. Porque o que a extrema-direita faz é um dano permanente ou de longa duração na vida das pessoas. Jamais é um ato isolado ou impensado, uma “opinião” boba jogada na internet. É uma violência que ataca a vida da vítima, tira seu sustento, tira sua permanência nos espaços, cerceia sua liberdade, discurso e atuação política e profissional. É um projeto de poder. Há consenso sobre o que a “liberdade” (entre aspas) significa no discurso da extrema-direita: eles defendem a liberdade deles, para que eles passem por cima das leis ou façam a abolição das leis para agirem como querem (rever a Constituição, sabe?).


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