Las lobas siguen enamoradas

Duas das últimas obras lançadas que me fizeram feliz foram o “filme” da JLo e o álbum da Shakira. São duas latinas às quais eu acompanho a carreira (sem nenhum vício deselegante) e gosto do trabalho. Ambas abordam os mesmos temas nessas obras que é a mulher “madura”.

E hoje é sobre isso. Sobre termos produções culturais e artísticas para um público muito específico que é o da mulher independente adulta além 30 anos. Fiquei pensando por quanto tempo, ao longo da História, faltaram produções que fossem destinadas a mulheres acima de 30 anos que encaram a vida longe da perspectiva que nos destinaram a essa idade (marido, filhos, estabilidade mental e financeira, dona de casa ou carreira em dia). Mesmo para as mulheres que tenham caído no conto de fadas, por volta dos vinte e pouco anos, de vida feliz com marido, filhos e dona de casa ou carreira estável (tendo tido ou não a chance de estudar), a casa dos trinta pode ter trazido novidades – o conto era de fadas mesmo e o príncipe era um vilão, os filhos dão trabalho e crescem e têm suas vidas, por vezes ela era dona de casa para dar conta do maridão e dos filhos e numa separação teve que se ver sozinha, sem estudos e sem profissão, a correr atrás do prejuízo. 

Quem nunca assistiu a filmes, séries, leu livros sobre homens e suas eternas crises, dos 15, 18, 20, 30, 40, 50, 60, 70, 80… até parece que homem vive em crise, né? (não sou eu que estou dizendo)

Mas a mulher com mais de 30 é uma pessoa muito especial. E para aquelas que ainda não passaram por nenhum processo de transformação na casa dos trinta, já aviso: ele virá. Sei lá, a mulher balzaquiana é clássica, mas é escrita por um homem, né? 

Os trinta, nas vozes da JLo e da Shakira, é sobre mulheres muito fortes – e fracas. Elas conseguem revisar suas fraquezas. As mulheres que se transformam aos trinta sabem no que, quando e com quem erraram – e se perdoam por terem errado porque o “erro” é parte da nossa jornada, quando erramos não fomos as únicas protagonistas da história e não havia ninguém nem nada que pudesse ter previsto o que nos traria essa experiência. Durante os vinte nós podemos (e devemos!) errar. Depois dos trinta também erramos, só que de forma diferente – até o limite que nos damos permissão para errar. Até o limite de entender como fomos condicionadas a interpretar diversas situações que antes não eram tão evidentes e as quais ninguém se deu ao trabalho de nos explicar – mesmo que tenhamos lido ou ouvido falar, quando passamos por essas histórias é muito diferente.

Ao contrário dos homens, que aparentemente têm crises a cada cinco ou dez anos desde a tenra infância, as mulheres não têm tempo nem são autorizadas pela sociedade a ter crises. Às mulheres não é facultado errar, afinal desde cedo elas já são programadas para serem boas filhas, boas alunas, excelentes donas de casa e mães, e serão modelo de esposas – ah, e se der tempo e todas as convenções da sociedade permitirem, também devem ser profissionais zelosas (mas sem muita ambição, porque isso está destinado aos homens). Muitas de nós acreditam nessa programação em vários momentos da vida. Todas nós já nos vimos nesses papéis em diversos momentos da vida – como boas filhas, como mães, como esposas, donas de casa, etc. – por pressão externa ou interna. Algumas de nós, contudo, não se resignam a eles e, por vezes, buscam algo além.

Ou, como nos mostram JLo e Shakira, aceitamos esses papéis – e lá vem os 30 + a nos dizer que podemos nos reinventar, que o conto de fadas acabou, que as felicidades inventadas não sobrevivem, que é possível sermos nós (e tantas outras). JLo me impressiona, ao contrário do que normalmente as pessoas e a imprensa falam (que se impressionam pelo físico dela para a idade que tem – sim, 2024 e ainda falamos disso), por ser uma mulher que ama. Isso, a frase acaba aí. Uma mulher que ama. O que a idade tem a ver com isso? Qual a lei que diz que aos 30 + não podemos amar como aos 15 ou 20? (quando eu passar dos 40 + eu voltarei a escrever sobre isso) Para uma mulher que ama, o amor não é diferente em nenhuma década da vida. O amor é sempre amor, a paixão também. 

O início e o fim do filme da JLo são muito marcantes, sobre sempre ter desejado ser apaixonada e terminar numa bela sequência, cheia de referências, sozinha e cantando na chuva. Aliás, tenho me pegado pensando bastante sobre a solidão – um dia escreverei um tratado. Uma mulher sozinha é sempre vista com pena, é condenada, pelos olhos alheios, a ser triste. Já vi muita jovem de – 20 desesperada por “ficar sozinha” e me afligi demais por elas – por outro motivo. Como continuamente nos fazem crer que ficar sozinha é algo tão ruim! (seria uma ideia fabricada pelo patriarcado para que sempre busquemos homens, aceitando qualquer relação, qualquer um? mera reflexão) É por temer ficar sozinha, por se angustiar em não representar o que esperam de nós, que a mulher busca relacionamentos de forma inconsequente. Em algum momento eu espero que toda mulher tome consciência disso.

Depois dos 30, é uma vantagem apreciar a solidão. Sobre amar depois dos 30, a pessoa precisa entender o quão privilegiada é de partager* a nossa companhia. Não é desespero, não é falta de opção. Querer a presença de alguém que rompa a nossa relação (mesmo que por algumas horas) saudável com a solidão é um privilégio e um prêmio que a mulher de 30 + dá a algumas pessoas. Eu sugiro não desperdiçar.

Com minhas amigas sempre brinquei sobre o “controle de qualidade”, é preciso ter um controle de qualidade – e aí ou você é muito exigente (já me acusaram muito disso) ou você acredita demais nos seus parâmetros. JLo e Shakira me falaram sobre tudo isso, sobre passar dos trinta e tomar consciência de que “erros” não são erros, que acreditar é um dom do ser humano, que sermos enganadas, manipuladas, agredidas são consequências de quem os outros foram conosco – e não é culpa nossa. Porém, mesmo que a gente não use essas experiências para ganhar (mais) alguns milhões, que saibamos ter a coragem de nos permitir amar – de novo. 

Como diria a protagonista (Binoche, mon amour, quelle merveilleuse actrice !) de La passion de Dodin Bouffant, eu me sinto no Verão da vida. Sei lá, isso de estar no Outono da vida é coisa para homem na crise dos quarenta ou cinquenta anos. O filme é encantador em vários sentidos – e para os sentidos – e abriga uma personagem perspicaz. Ela nunca aceitou casar, assumir o relacionamento (e o filme não está preocupado em aprofundar isso – eu gostaria) e se manteve fiel a ser fiel a ele. O mais encantador é a Fotografia e a Direção se aprofundarem nesse deleite que é o Verão da vida da personagem, não importa a sua idade. Depois de tanto falar aqui em 30 +, acho que é isso: o nosso Verão dura muito mais do que querem nos fazer crer (do que sempre nos fizeram crer, até a biologia).

Como Eugenie, também amo o Verão (mas concordo com Bidon sobre apreciar a mudança das estações). O Verão é essa estação que nos faz sempre querer estar em movimento, em aproveitar a vida, nos faz querer amar, o sol dá vida aos dias e convida (a uma caminhada na praia) a viver. O desafio é não nos resignarmos a entrar no Outono (ou, pior, no Inverno) da vida porque todo o mundo nos incita a isso. Se ela já tivesse casado, talvez visse a vida com os olhos dele e já tivesse perdido o seu Verão?

Algumas das canções da Shakira me permitiram rir de desgraças do passado – e, quem sabe, olhar com doçura para o presente. Depois dos 30, se não soubermos manter o bom humor vivo seremos (ainda mais) facilmente tachadas de mal-resolvidas, frustradas e (jaz aqui um termo que eu jamais usaria). A sociedade, além de não produzir obras e entretenimento para mulheres com 30 +, ainda persiste em nos tratar pejorativamente desde conversas de bar até comentários informais. Em outros tempos era também mais difícil para mulheres artistas com 30 +, visto que elas eram obrigadas (não que isso tenha acabado) a manter a persona da jovem mulher. Sabemos, inclusive, as consequências disso para muitas artistas do passado e de hoje.

A vida, enfim, é feita dessas pequenas alegrias, de, enquanto mulher com 30 + encontrar obras e artistas que ecoam em mim. O que torna ainda mais próximo é ver a relação dessas obras com suas autoras, em como elas se permitem abrir a vida e escancarar as experiências – porque sabem que não estão sozinhas e, de certa forma, nos dizem que nós também não estamos.

Sei lá, está chovendo e a vontade é sair caminhando pelas ruas, igual a JLo, com o coração leve, a vida plena, a segurança (que só o pós 30 nos dá) dos atos, palavras e experiências e com a certeza de que querer ser apaixonada, pela vida inteira, é uma excelente escolha.

(a inspiração da Shakira virá num próximo texto e, sim, tem a ver com café – pra completar que muitas de nós não precisam passar dos 30 para saber quem são)

* compartilhar: depois das redes sociais não consegui mais gostar desse verbo, prefiro em francês que fica mais bonito.

A banalidade do mal e a vida feliz

Esses dias eu comentava o filme The Zone of Interest e acabamos falando sobre a “banalidade do mal” (eu vi que teve muita discussão sobre isso, se ele seria um representante do conceito ou não e tal, mas não era o meu ponto).

A banalidade do mal, de Hannah Arendt, é um dos temas mais fascinantes que conheci na vida. Não sei bem o motivo, mas ter lido Eichmann em Jerusalém me marcou profundamente (assim como tantas outras histórias da Segunda Guerra, já devo ter comentado várias delas como Areia Pesada e Primo Levi). Além do livro, que espero poder reler na maturidade visto que li quando tinha vinte anos, os filmes sobre Hannah Arendt que passam pelo tema e também assistir aos vídeos do depoimento real de Eichmann são impressionantes. Sabemos como a adaptação em livros, filmes, séries mantém acesa a nossa chama por determinados assuntos – mesmo adaptação de fatos reais.

Quer dizer, acho que eu sei bem o motivo desse meu profundo interesse pelo tema. Desde muito cedo eu tive contato com a maldade humana no seu pior tipo e tentar compreendê-la, desvendá-la ou somente observar e analisar é algo que trago comigo a vida inteira. Li um bom tanto de psicologia para acompanhar o que se estuda sobre isso e sou adicta de literatura de crimes, comecei com o bom e velho Conan Doyle, segui naturalmente para Agatha Christie e depois foi algo mais abrangente. Também fui fissurada (era, na época, o único programa que me prendia na TV) no Linha Direta, ano passado ouvi todos os capítulos do novo Linha Direta no podcast. Gosto muito de ler e ouvir sobre criminalística, ciência forense, investigações e tal.

A maldade humana é, talvez, o tema central da vida que eu mais acompanho, visto que ser uma pessoa que pratica crimes e maldade contra o próximo é algo que não tem explicação. Quando se é vítima da maldade humana, aquela maldade pura e simples ou mesmo com interesses, a gente aprende a conviver com a realidade de um jeito diferente. Eichmann só fazia um trabalho bem feito, assim como tantos outros funcionários e até servidores públicos naquele período e nos dias de hoje.

Praticar a maldade deve proporcionar algum tipo de prazer, como dizem especialistas, por isso tantas pessoas são levadas a gozar com a dor do outro. A maldade também provê interesses e lucros, sejam econômicos, pessoais, familiares, etc. Acusar falsamente que alguém assassinou outra pessoa, para poder ficar com seus direitos da herança, por exemplo, é um lucro pessoal (o acusador quer o mal do inocente) e também econômico (terá mais dinheiro da herança para si). Quando você consegue ter uma certa frieza e experiência, fica mais fácil identificar esses propulsores da maldade alheia.

Quando um ex-aluno frustrado que defendia um ser abjeto que jamais foi filósofo e se formou assistindo aos pseudo-documentários daquela produtora que diz reescrever a História, quando esse aluno nunca teve coragem nem argumentos para te desmerecer enquanto professora, mas utiliza-se de cargo público para tentar te prejudicar profissionalmente, porque você produz e tem público para o teu discurso, enquanto ele não consegue muito na vida, você entende a maldade como um escape para a frustração da realização pessoal.

São inúmeros os exemplos. Tem muita gente, como no filme, que só quer uma casa com quintal bonito, um salário todo mês nas mãos para pagar as contas da família. E a quantidade de gente que usa qualquer meio para alcançar isso é incalculável. Tem gente que só se irrita com uma criança que nunca quis colocar no mundo. Tem gente que faz qualquer coisa para ser aceita num grupo, ou pela pessoa que ama. Os objetivos das pessoas as levam a caminhos duvidosos, perigosos e criminosos – mas hoje não é dia de falar de Maquiavel.

Eu entendo como um mero servidor público quer me prejudicar porque eu fiz algo que incomodou-o e, por isso, vestido da sua autoridade enquanto ocupante de um cargo público, ele fará de tudo, inclusive abusando de irregularidades e cometendo crimes, para me calar. Eu conheço a maldade humana, eu sei que isso é perfeitamente possível.

Mas, também, penso naqueles que não querem fazer isso, que são boas pessoas, que estão somente defendendo o salário que paga as contas da sua família. Seriam todos eles Eichmanns? Cada um que se abstém de denunciar as irregularidades dos seus colegas, que assina documentos que são legítima prova de perseguição política, também são cúmplices, coautores dos crimes. 

Felizmente, através da reflexão e do entendimento que tivemos ao longo da história da humanidade, não cogitamos mais ser a banalidade do mal um argumento plausível em defesa dessas pessoas. Nós não assistimos à The Zone of Interest e conseguimos justificar aquelas pessoas (mesmo com a atuação brilhante de Sandra Hüller) porque, afinal, o jovem casal sonha ter sua casa e um trabalho desde quando eram adolescentes. Não podemos passar por cima de qualquer um e de qualquer coisa para termos o que queremos na vida, é uma regra simples e básica. Talvez, como diria um professor que tive, por isso mesmo tão difícil de entender.

Sobre o filme, não sei de qual lado fico entre os que defendem que ele é uma representação do conceito e os que dizem que não é. Prefiro me ater ao filme no seu ponto de vista tão bem escolhido, na narrativa potente (de imagens e sons), nas atuações brilhantes. Prefiro pensar como é bom fazer cinema que apaixona, que desencadeia debates, que nos leva a ser persona non grata, pelos filmes que produzimos e pelos discursos que proferimos, de certos grupos ideológicos (Glazer não perdeu a oportunidade com o seu discurso de agradecimento, nós não fazemos somente arte nas telas, nós somos seres políticos – já dizia Arendt e a Filosofia desde Aristóteles). Que façam inúmeros berreiros nos palanques e assinem cartas o quanto quiserem, a maldade humana raramente surpreende.

A “solução final”, inclusive, foi buscada através da expertise do Eichmann e de outros porque levar os soldados alemães a cometerem assassinatos frios era caro e estava causando danos mentais neles. Quando os soldados alemães tiveram que assassinar seus amigos de escola, seus vizinhos e professores, com uma bala na nuca de cada um, o problema estava instaurado. Era caro e as tropas ficavam abaladas. Assim, entendemos que as decisões “de gabinete” solucionaram o problema que era praticar um genocídio. Os instrumentos de um crime também pagarão o preço pelos seus atos, seja com um processo e condenação, seja a própria consciência – e há quem acredite que orar o resto da vida pedindo perdão vai resolver. 

Quem sabe Deus criou a maldade humana justamente como o maior desafio para a vida feliz.

A Arte permanecerá – os políticos não

O artista sempre foi o ponto de inflexão da sociedade. Desde a primeira pessoa que teve necessidade de expressar-se, sem limitar-se pela mera comunicação, através das linguagens e em busca das sensações, o artista é um nó no meio dos outros. Então, desde sempre o artista é temido.

Muito se fala que tememos o desconhecido, pois bem, no caso dos artistas eles temem o que conhecem muito bem – nós levamos reflexão, nós debatemos, nós fazemos pensar, nós expomos as fissões que constroem as nossas relações e desigualdades. Não é por menos que um dia um filme é atacado, no outro dia uma exposição, semanas depois o cantor que levantou uma bandeira durante o show. 

Os artistas só querem dizer, o tempo todo, que os seres humanos não somos iguais. Enquanto as ideologias totalitárias querem fazer todos rezarem na mesma palavra sagrada. 

Ao longo dos séculos os artistas foram e são financiados pelos grandes mecenas, viveram na miséria e só são reconhecidos posteriormente, adequaram-se à indústria, foram financiados pelas políticas públicas estatais ou pelo capital. Em muitos desses momentos as “leis” tentaram calar os artistas, colocaram em marcha o “quem paga, manda”. Mesmo assim os artistas viveram e buscaram sua liberdade, a altos preços.

Porque a questão é simples: o artista não deve servir e assegurar os discursos do Estado e do capital – senão, não será Arte. Quem tenta impor seus valores religiosos como régua moral para o fazer artístico, ou seu posicionamento ideológico como critério para a produção cultural, cairá no abismo da chacota, da ilegalidade e do totalitarismo. A chacota rende piadas nas redes sociais, a ilegalidade e o totalitarismo rendem denúncias e processos judiciais.

Ao artista não cabe servir ao discurso ideológico do estado. Já vimos isso inúmeras vezes ao redor do mundo, ao longo dos séculos, inclusive na União Soviética, quando financiados pelo Estado os artistas eram tolhidos na sua liberdade de expressão. Tal como temos visto tentarem (apenas tentarem, talvez inspirados pelos soviéticos) certos políticos eleitos em Santa Catarina, por exemplo.

A máquina pública fará de tudo para impor medo aos artistas que são apenas artistas – essa raça que cria, que faz do mundo e da realidade uma fantasia e conta histórias e traz beleza ao mundo. Os donos do poder têm medo dos artistas. Quando do golpe e da ditadura militar no Brasil, por exemplo, além da questão ideológica, as perseguições focaram muito nos artistas – eles queriam calar todos os nós que existiam em meio à sociedade. 

E quem diria que eles temem filmes… quem diria que filmes seriam perseguidos, em 2024, que tentariam impedir um festival de cinema de acontecer, quem diria que tentariam me impedir de fazer filmes! Quem diria que o medo deles é que as pessoas assistam aos nossos filmes e se deparem com as inflexões que não estão rezando na palavra do livro sagrado deles.

Sim, porque o meu livro sagrado não é o mesmo que o deles. 

Quem trabalha com arte, quem produz através de políticas públicas – direito garantido pela Constituição – não trabalha confortavelmente para o Estado. O artista desafia o Estado ao produzir arte para muita gente sem pedir o amém da escritura sagrada desse ou daquele indivíduo que por conta de alguns votos já se considera um protótipo de ditador.

Observo quem trabalha em secretarias e fundações de cultura infringindo as leis para tentar – jamais conseguirão – impor aos artistas o jugo da perseguição política. A Lei (aqui da Terra mesmo) vai bater à porta de vocês. A sociedade que, por vezes, não reconhece o valor que tem um artista já não tolera mais o abuso de poder, a ilegalidade, a corrupção, a imoralidade e demais ações que não combinam com a nossa Democracia.

E já que é Páscoa, venho lembrá-los que ser cristão é muito, mas muito, difícil. Tem que oferecer a outra face, tem que perdoar, não pode cobiçar (nem a mulher nem nada do outro), tem que honrar pai e mãe, tem que ser humilde, tem que amar a Deus sobre todas as coisas. Pra esses que vêm a público defender sua ideologia política e seus “valores cristãos”, recomendaria voltar ao texto sagrado. Recomendo desligar o Instagram e ir para o quarto, lá na solidão e no silêncio é que o teu Deus te ouve – está escrito no texto sagrado, mas talvez vocês tenham pulado essa parte. Quando você for um exemplo de humildade, de alma caridosa e gentil, quando da sua boca não saírem línguas de fogo contra os teus irmãos, quando não mais julgares os demais, quando o amor for a única coisa que você tiver a oferecer ao mundo, aí você estará no nível mínimo pra defender a sua religião nas redes sociais e nas tribunas. 

Como sempre disse minha mãe, não adianta no domingo ir lá bater no peito e cantar os louvores ao Senhor, não. Ser cristão é muito, mas muito, difícil. Antes de pregar e querer impor suas crenças, garanta que suas ações e suas palavras são exemplos evidentes de cristandade. Não dá pra defender a tua religião cristã e querer fazer mal, deliberadamente, aos outros (artistas, por exemplo). Limpem a boca antes de citar qualquer Deus para atacar, difamar, expor e perseguir pela simples maldade – em troca de votos, apoio de partido ou 15 minutos de fama em redes sociais. 

Os artistas não são burros. Sabemos qual o jogo que está sendo jogado e os motivos de sermos envolvidos na lama que brota das almas mais sebosas da política local. Os secretários de cultura passarão, os prefeitos, vereadores, deputados e governadores passarão, a Arte permanecerá.

Não deixem o agressor comprar seu pão francês em paz

De certa forma, vivi um alívio quando soube que o macho lá se viu constrangido (porque é só isso mesmo) ao comprar pão francês. Há anos eu digo que a situação da mulher na sociedade só vai mudar mesmo, na prática do dia a dia, quando vocês, homens, interpelarem os seus colegas machos sobre as violências que eles praticam.

No Gritos do Sul tem uma cena que foi muito difícil de escrever: a discussão do casal à noite, pouco antes de tudo desandar de vez. Há quem não veja nada ali (nem nos demais diálogos do casal), e isso é um sintoma muito claro de como encaramos as violências contra a mulher. 

Na última exibição eu estava sentada no meio das pessoas e uma senhora, ao ver aquela cena, exclamou um sonoro “misericórdia!” quando o personagem Eduardo joga a cadeira no chão. A tensão da cena (sou suspeita para falar, mas muito bem vivida pela Ianca e pelo André) me causou mal estar quando a escrevi e todas as vezes que a revisei – ao filmá-la não foi diferente. Ao assisti-la, cada vez, ela me toca fundo.

Sim, o Gritos do Sul é um filme antifascista e tal. Mas, poucas pessoas falam da construção dos personagens e da questão da violência contra a mulher presentes no filme, questão primordial pra mim. Não só por ser mulher, por ser roteirista e diretora mulher, mas por ser mulher que já passou por violência (como todas nós) e que aborda este tema na atuação profissional. Esta consciência e atuação, porém, não impedem que eu continue sendo vítima.

Ultimamente, algumas reflexões fizeram eu me perguntar: se eu não fosse mulher, o Gritos do Sul teria sido atacado como foi? Por que nós, mulheres no exercício da profissão, incomodamos tanto os machos de plantão? Qual o medo que os homens têm de nós? 

Não trago respostas. 

Quando pessoas públicas, homens, que deveriam trabalhar pelo bem comum (esta é a base da Política) usam seu tempo e recursos públicos para perseguir e atacar uma mulher trabalhadora da cultura, acredito que temos que enxergar a violência que existe e, sim, é uma forma da violência de gênero. Não houve evidências de preocupação real com o bem comum, nada que não fosse mera vontade individual de usar da sua posição de poder para agredir, moral e profissionalmente, uma mulher. 

Curioso foi ver, na sequência, homens do setor Audiovisual local também com essa sanha de me agredir, difamando e caluniando. Nenhuma surpresa que todos eram… homens. Eu me pergunto qual o sentimento que faz com que esses homens gastem tempo (ainda o considero o bem mais precioso que temos, meus leitores assíduos sabem disso) fazendo – literalmente – uma campanha contra mim (pessoal e profissional), inclusive fazendo questão de telefonar para as pessoas me difamando. Querem me atingir, de qualquer forma. O desespero por tentar me atacar é medonho, ultrapassa qualquer limite do bom senso (e ganha na vergonha alheia). 

Tentar atacar uma mulher no exercício da sua profissão é violência de gênero, agravada quando os agressores são seus colegas de profissão.

Mas, como relatei aqui, não faz muito tempo, os homens têm usado minha profissão para tentar me agredir nos últimos anos. O efeito tem sido contrário. Tanto homens da esfera pública quanto privada, e não tenho desculpas para nenhum deles.

Meu último relacionamento terminou em boletim de ocorrência. Esta é a primeira vez que falo disso publicamente e não entrarei em detalhes porque a situação não se acalmou aqui dentro. Contudo, quando eu soube do pobre coitado que só queria comprar seu pão francês em paz, eu lembrei do sentimento que eu tive ao passar pelo processo de solicitar, pela primeira vez na vida, a medida protetiva amparada pela Lei Maria da Penha. Eu queria contar pra todo mundo, eu queria dizer “aquele ali, sabe?”. Eu não consegui. Até hoje, pessoas do meu pequeno círculo apenas sabem um pouco do que aconteceu, a maioria não faz ideia. 

A Fahya é forte, é foda, segura a barra, e isso e aquilo. Agora também tenho ouvido bastante “a Fahya é corajosa”. 2023 veio só com provas de fogo pra Fahya e posso dizer que a frase que eu mais falei foi: eu tenho meus limites. Sim, ser forte não significa aguentar tudo, não. Ser forte é também ter seus limites, eu tenho os meus e conheci alguns deles esse ano. A viciada em trabalho colocou até limites e se deu férias!

Fazer o boletim de ocorrência por violência doméstica e solicitar a medida protetiva me mostrou um desses limites. Por lei eu já poderia ter solicitado em outros casos, todos eles relacionados ao fim de relacionamento que “ele não quis aceitar” (sério, essa expressão me dá revolta, o macho não tem o que “aceitar” no fim de um relacionamento; muito menos a imprensa achar que isso é MOTIVO para matar). Cada tentativa de comunicação indesejada, cada número de telefone trocado, cada bloqueio nas redes sociais, cada mensagem recebida, cada perseguição é violência doméstica. Além dos assédios, inclusive no exercício da profissão que me fizeram calar. Eu já passei por isso mais de uma vez. E a gente acha que é “sempre assim”, e aí um dia a realidade mostra que pode ser ainda pior.

O penúltimo machão usou até a minha família para manter, na cabeça dele, um vínculo que fazia mais de ano que não existia! Não há tratamento para esses casos. Enquanto a sociedade não repudiar com ações esses criminosos, nada vai mudar, tenho certeza. “Ah, mas você defende um linchamento social?” Não. Só defendo que eu e mais nenhuma outra mulher viva o que eu já vivi. 

Eu gosto da solidariedade seletiva das pessoas, sabe. Aprendi bastante sobre isso em 2023. Hoje os pensamentos são só sobre esses três tipos de homens que eu citei acima, homens públicos com poder, colegas de profissão e os homens da esfera privada e como todos agem no mesmo nível de violência contra a mulher. Quando é uma famosa da TV é mais fácil o público se solidarizar, enquanto que quando é uma mulher que você conhece e convive pessoalmente, você evita sequer falar sobre o assunto – quem dirá prestar a sua solidariedade.

Aliás, esse é um ponto importante. É legal, sim, prestar solidariedade (no privado ao enviar uma simples mensagem, convidar pra uma conversa e tal; e também publicamente, sabe? faz toda diferença para as vítimas). Porém, solidariedade não basta. É preciso agir, confrontar esses machos agressores. É preciso combatê-los e envergonhá-los publicamente. Por isso eu gostei tanto da história do coitadinho e seu pão francês.

Eu não faço isso só por mim (faz um tempo que entendi que lutar contra a discriminação e violência de gênero não é só por mim), eu faço por cada uma de nós que já passou, passa ou vai passar por situações de violência. Porque a gente não sabe muito bem o que fazer, sabe? A gente entra em desespero, a gente perde o chão, a gente se machuca. 

Quando eu decidi tomar uma atitude contra o que estavam fazendo comigo e com o Gritos do Sul, eu não sabia o que fazer. Busquei outras pessoas, conversei, ouvi bastante. E com tudo o que eu fiz e ainda vou fazer eu quero deixar como exemplo para as próximas de nós que passarem pelo que eu passei. Quanto aos colegas, nem me preocupo porque deve ser um sentimento muito ruim o que os leva a tomar essas atitudes e eu espero que eles consigam superar o que os persegue. Só acho triste a vergonha pública à qual eles mesmos se expõem – essas atitudes falam muito sobre eles, não sobre mim. 

Na questão privada eu quis contar para as pessoas, não o que tinha acontecido porque não quero falar disso, mas que há a medida protetiva. Porque esse foi mais um que, sem surpresa nenhuma pra mim, usou o meu trabalho para tentar me atingir – e fingir que nada aconteceu com pessoas do meu círculo pessoal e profissional. É assim baixo que um machão desses pode ser. Abram o olho.

Por tudo isso e mais um pouco que a cena da briga da Maíra e do Eduardo me pega tão fundo. Porque esses machos são muitos maridos, namorados, pais, irmãos e estão por aí, agredindo de inúmeras formas todas nós, todos os dias. E quem não pede misericórdia ao assistir à cena é porque já assimilou isso – ou prefere ignorar. Não podemos ignorar nenhum tipo de violência. Nenhum, muito menos a de gênero.

A Fahya é forte, corajosa, taí sempre de pé, feliz (isso deve incomodar demais, né, não sei o motivo), não se deixa abater, sempre encontra um caminho. Só que ela também descobriu que tem seus limites.

Aos corajosos, o bom humor

Esses dias me deparei com um desses posts de rede social que citava Voltaire, dizia algo como “A decisão mais corajosa que você pode tomar a cada dia é de estar de bom humor” (tradução livre do francês). Na hora lembrei de mamãe que sempre reclamou (com razão) de seus filhos quando estavam de mau humor. Gente de mau humor e que só reclama não é agradável de conviver. 

Manter o bom humor é um ato de coragem. Quando o mundo se abre debaixo dos seus pés, quando você convive com doenças crônicas, quando os problemas batem à porta todos ao mesmo tempo, a primeira coisa fácil de se perder é o bom humor – em seguida a gente perde a esperança, perde a cabeça, perde o sono e muito mais. 

Como manter o bom humor diante das agruras da vida? Se fosse fácil, tinha youtuber fazendo vídeo com dicas. Porque o difícil nisso tudo é ser corajoso e coragem não se compra por aplicativo.

Sim, o bom humor é só uma desculpa pra falar sobre algo tão nobre: a coragem. Cultivar o bom humor nos torna pessoas mal compreendidas, porque precisa uma boa dose de capacidade de interpretação e raciocínio ágil para acompanhar o deboche, a ironia, as metáforas, o rir de si mesmo e o bom humor cotidiano das pequenas coisas. Nem todo mundo consegue. Decidir manter o bom humor todos os dias, diante de qualquer circunstância, é dizer não ao mal que se aproxima. De certa forma, sofrer com um sorriso nos lábios (e uma boa piada) é mais agradável.

A coragem é aquela coisa, já ensinei em tantas aulas de Filosofia, que fica entre o ser temerário e o ser covarde. Os sentimentos equilibrados são os mais nobres que podemos alcançar, posto que é fácil ser covarde (fácil demais) e fácil ser temerário, sendo que ambos podem cobrar o seu preço – para os covardes, o preço pode ser pago na justiça e para os temerários pode custar-lhes a própria vida.

O covarde lança mentiras e calúnias ao vento, sem se dignar (se tivesse dignidade não seria um covarde) a apresentar provas. Caso tivesse provas e coragem, faria denúncias pelos meios legais, faria valer as leis e acionaria os responsáveis. Como é covarde, se utiliza do que tem (por vezes só a sua voz e uma conta nas redes sociais) para semear a intriga, a dúvida, a fofoca. É um covarde porque não age, só levanta suspeita e late. É comum observarmos nos covardes um comportamento semelhante aos contaminados pela raiva: espumam, latem, rosnam e podem contagiar quem se aproxima deles. Mas, vejam só, a raiva pode ser evitada com uma simples vacina, porém, quem se contamina tem alta chance de morrer. A raiva mata. A covardia só estigmatiza quem profere seus discursos de raiva e frustração: ao passar na rua poderá ser apontado “aquele é um covarde”. E assim será para toda vida.

Ser corajoso é não se calar. Quem tem a coragem dentro de si não baixa a cabeça para os covardes, não se intimida pelas mentiras e acusações, não flerta com o desespero. A coragem nos permite tomar as atitudes necessárias para punir quem, imbuído da sua covardia tão comum nos nossos dias, ultrapassa os limites da sua profissão e do seu cargo e saí por aí destilando ódio a quem nada tem a dever – que exerce sua cidadania em plenitude e pode provar. 

Curioso observar que esses covardes dos nossos dias têm uma preferência em atacar mulheres no exercício da sua profissão e liberdade de expressão, o que os torna um tipo especial de covardes: os covardes misóginos, sexistas e, cá entre nós, do século passado. Parece que nos dias de hoje ser covarde já é, em si, algo fora de moda – são como defuntos que andam por aí espalhando o odor fétido da podridão que sai das suas bocas.

Como descendente de uma linhagem de corajosos, fico feliz em manter o bom humor, todos os dias (não sem esforço) diante dos covardes. Mais do que qualquer alusão a sangues nobres deste ou daquele país, faço questão de ressaltar as qualidades que fazem de mim quem sou hoje, faço questão de relembrar meus avós, meus pais, tudo o que me ensinaram para ser alguém que não se intimida diante da covardia. 

É triste pensar que os covardes não estão em extinção, mas como a raiva alimenta os fãs dos covardes, satisfaz saber que há vacinas (fugir da ignorância, do discurso de ódio, procurar ouvir e ver além de vídeos curtos com gritos histéricos publicados por aí), porém a raiva mata – infelizmente ela mata porque o mal toma todo o ser com muita rapidez, a raiva impede a pessoa de enxergar e de pensar, ela morde até os seus entes queridos. Por isso, é imprescindível evitá-la. 

Os covardes cairão pelo próprio veneno que destilam. Enquanto isso, caminham trôpegos como zumbis de um apocalipse de difamação e injúrias que criam no seu tempo livre. Ser corajosa é sempre ter voz diante deles, é tomar as medidas cabíveis, é buscar apoio em quem está ao redor, é fazer valer as leis e os direitos que nos protegem. Por vezes, ser corajosa é dizer o que ninguém se atreve a dizer, é criar e fabular mundos nos quais existem coisas abomináveis, é contar para os outros o que pode acontecer caso os covardes se apoderem do nosso mundo – e, pra isso, vale compor uma canção, escrever um livro ou fazer um filme.

A criação

Tento, num exercício diário (de cobrança), encontrar temas sobre os quais escrever. Tenho me interessado muito sobre os processos de criação, como há tempos me interessa, e em como um suposto (oi, jornalistas) bloqueio da criação afeta os criadores. Há quem pense que quem cria, não trabalha. Criar é igual a qualquer outro trabalho, quanto antes a gente entende isso, melhor é. Enquanto vemos o criador como alguém iluminado pelos céus e possuidor de um dom magnífico, o trabalho em si não existe.

Pra quem trabalha com criação artística, talvez demore um pouco para ser ver como trabalhador/a. Algumas funções são mais “visíveis” aos outros, como quem trabalha diretamente na produção de espetáculos, filmes, eventos, etc.. Enquanto que para aquele show, aquele filme, aquela peça existirem, muito trabalho árduo foi previamente executado pelos seus criadores – a arte pré-existe enquanto trabalho antes de existir aos olhos do público enquanto obra. 

Ao mesmo tempo, pobres criadores que por muito tempo se vêem sem a visita da musa inspiradora. Acreditam estar amaldiçoados, inventam qualquer desculpa para a página em branco, encontram mil compromissos e deveres que os afastam das telas, dos pincéis, dos computadores, dos instrumentos. É fácil depositar a responsabilidade dos nossos erros e fracassos nos outros (conheço muita gente que o faz sem a menor cerimônia), como dizem, do que simplesmente assumir que não temos compromisso com o nosso trabalho – da mesma forma que tanta gente não respeita o trabalho dos artistas.

Trabalhar com criação é sempre um processo. Cada obra, cada escrita, cada criação se desvela de maneiras diferentes para o seu criador – ou criadora. Posso escrever aquele roteiro de uma vez só, depois de pensar nele durante dois meses, posso escrever outro uma dúzia de vezes ao longo de dois anos até ficar satisfeita com ele. Criar o processo é parte de trabalhar com criação, por isso também é sempre tão gostoso ouvir os artistas falarem sobre suas obras. Cada processo é um universo do qual faz parte a obra.

Quanto ao trabalho, é trabalho. É compromisso diário, com hora marcada, com cobranças, com execução, correção, revisão, por vezes, aprovação. Às vezes, a musa não flutua pelo ambiente, por vezes um furacão nos toma e tudo sai divinamente. Porém, é preciso estar lá, todos os dias, cumprir os horários, bater o cartão, inspirar-se, olhar para os lados, respirar, revisar o que te fez chegar até ali. E aprender, claro. Não recebemos, como muitos podem lamentar, o tanto que gostaríamos por essas horas trabalhadas, contudo, suspeito que há um retorno muito mais valioso que deve ser levado em conta.

Assumi o compromisso de retornar com frequência ao site, queria, na verdade, escrever sobre as greves dos EUA no Audiovisual, sobre o efeito manada no público das duas “grandes” estreias de Hollywood, em como consumimos mal aquilo que tanto nos afeta e tal. Sei lá, não deu certo. Tem dias que rende, tem dias que não.

Por vezes, pode ser mais frutífero trabalhar aqui dentro, com o que nos consome, do que ir tão longe. Eu trabalho com cinema, com criação (com produção também, aquela parte que é mais “visível”, mas mesmo essa tem uma parte enorme que é invisível), bato meu cartão diariamente e carrego essas dores e delícias.

É o que tem pra hoje, como digo muitas vezes ao servir o almoço em casa. Pode não ser o ideal, nem o melhor, mas foi o que deu pra produzir. Pior aquele que não consegue servir a mesa, não entrega nada, porque ficou se lamentando, porque acordou tarde à espera de uma fada que, com sua varinha mágica, o banhasse nas águas da inspiração. Ou, ainda, aquele que ficou o dia cavando buracos sem fim onde só encontrava motivos para dizer que não “teve tempo” ou “não conseguiu”. 

Trabalhar exige demais de nós, desconfio até que nem fomos criados para isso. Porém, criar tem algo de divino, nos aproxima desse desconhecido, do que não se explica. Há muito tempo eu tive essa certeza, eu queria criar. Quem cria tem um compromisso consigo mesmo, de busca de uma necessidade interior, e se você não pode ser seu melhor “chefe”, certeza que não está fazendo a coisa certa.

Os homens da minha vida – tempos de pandemia

Gosto de pensar que a pandemia não aconteceu por acaso (eu acredito muito nisso) e, para quem não é tolo, as reflexões que ela causou podem ser muito úteis. Ela veio para dar fim à situações que já não se sustentavam antes, mas se arrastavam de mal a pior. Ela serviu para dar um fim no que já não apaixonava mais.

E é curioso pensar que ela também veio para destruir de vez minha (nossa?) esperança nas pessoas em relação ao futuro, às mudanças que eu imaginava ver. Como mulher, percebi que não há esperança em relação aos homens. Como dizem algumas teóricas feministas, as coisas estão mudando, mas pouco e lentamente. Eu, enfim, vi que não há mudança nenhuma.

Os homens estão diante de tudo que eles precisam saber e aprender sobre igualdade, respeito, e mil coisas, mas, mesmo assim, eles agem como os piores homens dos séculos passados. Enquanto mulher não aceito mais a grosseria, o desrespeito, a agressão (a estupidez nas respostas e tratamentos, a violência psicológica, nem mesmo o silêncio). Tenham eles vinte ou quarenta anos, geração essa ou aquela, todos – sem exceção – sabem muito bem como não devem agir. Mas, eles escolhem agir como estúpidos e idiotas e escrotos e, bem, esperam o que de nós?

Não sou eu que determino o fim de um relacionamento, é o relacionamento em si que deixa de existir. Eu apenas sigo. Parece (e é) simples. O amor é aquele bichinho que precisa ser alimentado todo dia, senão morre também. Na pandemia não foi diferente, o mundo nos desafia e quem não dança junto, perde. É preciso se reinventar, ser criativo, adequar-se às mudanças.

A falta de comunicação num relacionamento tem consequências graves que carta nenhuma, tempos depois, conserta, que arrependimento nenhum apaga. E eu, de fato, nos dois últimos anos tive motivos de sobra para ver que os homens não melhoraram. Eles continuam sendo os idiotas com os mesmos problemas de sempre. E, como eu dizia esses dias, nós não merecemos homens com problemas. Ah, mas problemas todos temos. Aham. Mas, nunca permita que os seus problemas machuquem as outras pessoas – porque elas não têm nada com isso.

Eu cansei de acreditar que algum homem, independente da idade, independente de conviver comigo que falo disso diariamente, não é machista. Que não usa o que ele mesmo faz para me diminuir, para me agredir, para me fazer lamentar pelas coisas que aconteceram. Só alguém que não me conhece para esperar isso de mim.

A pandemia levou da minha vida os homens que não me serviam e dos quais eu, por algum tipo de apego e cegueira, ainda não havia me livrado. Levou o passado que vivia a rotina (que eu tanto detesto), a mesmice, uma pessoa que não me ouvia nunca, sobre nenhuma situação. A mesma que me tratava com grosseria e achava que eu sempre estaria ali para responder quando ele quisesse. A pandemia levou da minha vida com quem tive uma parceria especial, mas que sugava, manipulava, sufocava.

A pandemia também me trouxe uma paixão avassaladora! Foi na primeira vez que saí do isolamento, ainda sob inúmeras restrições, que nossos olhares se cruzaram. Eu gosto da minha vida porque ela tem coisas adoravelmente inexplicáveis (como essa paixão e outras) e aquelas semanas foram loucas – segundo os astros, tudo estava previsto e foi um ponto de virada na vida – e eu só abracei tudo que aconteceu. Saí desse turbilhão com a vida do avesso, depois de ser arrastada por ondas gigantes, lançada contra as pedras do costão, engolido a água intragável do mar… quase afogada, me arrastei em direção à praia pensando que deixava a tempestade em alto-mar. Tola que fui: o pior estava por vir. E eu não vi mesmo! Porque estou, como é, Sandra? Dançando com a vida… de rosto colado…

Pelo menos aprendi uma coisa, eu gosto das diferenças nos relacionamentos. Eu tenho pavor do tédio e pensar em duas pessoas “iguais” num relacionamento não pode ser outra coisa. Eu gosto das diferenças sociais, de gosto, de idade, de práticas e atividades, quanto mais diferente, mais atraente. Bem, não me falta experiência para poder afirmar isso. São as diferenças que me atraem, que constroem um relacionamento interessante, pulsante, desafiante. Porque é com as diferenças que a gente aprende – e se tem uma coisa que eu gosto na vida é de aprender. E o que é um relacionamento senão o contínuo aprender o outro?

Tem homens que acham que têm um controle tão grande sobre as pessoas, que eles reagem muito mal quando vêem que fracassaram. E eu já tenho maturidade o suficiente para não ter pena desses homens! Tanto eu tenho maturidade quanto falta coragem para esses mesmos homens encararem uma mulher séria, madura, que sabe o que quer e não tem medo nenhum de seguir o que sente. Eu sei, é 2022 e a covardia ainda domina muitos homens. A covardia os corrói todo dia, enquanto a cabeça deles repassa cada atitude que deixaram de tomar, cada calhordice da qual foram capazes.

Acima de tudo, esses homens que passaram pela minha vida, nos dois últimos anos, me fizeram aprender uma coisa: eu nunca vou deixar que usem o meu trabalho para me atingir. Eu sempre prezei muito a minha profissão, eu sou super responsável com o meu trabalho, a seriedade com a qual eu trato o que eu amo fazer é sagrada. Quando eu percebi que eles estavam usando isso para me diminuir, para “se vingar”, para tentar me prejudicar porque eles eram incapazes e inconsequentes para assumir o que faziam, eu dei um basta. Jamais alguém – principalmente homens – vai usar o meu trabalho para me fazer mal, porque só eu sei tudo o que eu fiz e passei para chegar até aqui – e não pretendo parar. Isso me fez pensar em quantas mulheres ao redor do mundo são diminuídas, humilhadas, usadas, prejudicadas com os seus trabalhos por causa de homens escrotos – dentro e fora de casa. Aliás, fiquei até rememorando casos conhecidos. Cheguei à conclusão que falamos pouco disso e essa é só mais uma das coisas que, se está mudando, é pouco e lentamente.

Com a alma leve e tranquila eu sigo. Mais tranquila do que nunca. E mesmo que a cada dez anos uma cobra coral cruze o meu caminho, eu vou me arrastar pela praia até que a tempestade passe, que a ressaca amaine e o sol volte a brilhar. Às vezes eu penso, “continuo a mesma”, mas, sinceramente, eu só melhoro. Porque a vida não tem graça com nada sempre na mesma, eu morreria de tédio. O que não muda, e não mudou para esses homens dos dois últimos anos, é me pintarem como um monstro, o carrasco da vida deles! Bem, uma morena pode causar muitos estragos, já ensinou o cinema clássico de Hollywood – e aquele cantor. Quem sou eu para desmoralizar a nossa fama! (Ou para pintar o cabelo!) Como diria Jair… deixe!

Enfim, é a vida. Perdi as esperanças. Os homens não melhoram. Eles continuam os mesmos e tenho que me deparar com eles e suas grosserias, no trabalho, na vida pessoal, na reunião do conselho, em casa, onde for. Não importa a idade, pode ser um jovenzinho ou um da velha guarda, pode ser o mais ativo da igualdade nas redes sociais ou o mais brucutu offline (aliás, este tem mais chances de respeitar e admirar as mulheres, segundo minha experiência). Os homens ainda acham que dominam o mundo e as mulheres – porque, não estão erradas as pesquisadoras, eles ainda o fazem de fato. Vamos parar de fingir que as coisas estão mudando, assim eles também não precisam fingir que se interessam e importam.

Eu só sei que fiquei enojada com a covardia, que senti desprezo pela arrogância, que fiquei indiferente aos lamentos. Porque eu nunca faltei com o diálogo com ninguém nessa vida e fui humilhada e ignorada nas inúmeras tentativas de que o olho no olho e a expressão dos sentimentos resolvessem tudo. Quando não há diálogo, tudo se perde. Eu posso ser a melhor pessoa do mundo quando estou com alguém, até que a confiança e o respeito se ausentem. Daí, eu realmente não tenho mais obrigação nenhuma – com quem quer que seja, não só com os homens.

Já diria Robertão, em paz com a vida e com o que ela me traz… eu sigo – de pé e cabeça erguida. Precisa muito mais que um homem para arrancar minha felicidade de mim. E era uma noite de sexta, chuvosa, já esse Outono chato, quando Elis me ofereceu a canção definitiva desses dois anos, no assunto homens. Se alguém precisa de respostas, esse alguém não sou eu. Os homens que tratem seus problemas e, de preferência, só depois se aproximem de alguém porque, olha, ninguém merece vocês.

O Outono é chato, porém, “ah!, porém!”, Paulinho me anima a relembrar o Verão e todas as decisões que tomei nas longas conversas com o mar e o céu estrelado. Tem tanta coisa que é muito melhor (e mais eficaz) que terapia. Só os indecisos têm medo de mulheres decididas (se forem morenas, então!). Aliás, duvido muito que exista terapia para resolver os problemas (inclusive sexuais) de alguns. Ser bem-resolvida/o é mal visto na contemporaneidade, né. Mas, eu super recomendo!

Obs.: a trilha musical desses dois anos é extensa – a maria palheta ficou muito feliz com a paixão fulminante – e foi crucial para todas as reviravoltas brevemente resumidas nessas duas páginas; mas deixo aqui duas delas: a primeira me faz dar gargalhadas toda vez que toca (e não foram poucas nesses meses todos) e um dia ainda vou gravar uma versão acústica e oferecer aos sofredores; a outra foi um acalanto maravilhoso enviado pelo Destino na voz da deusa Elis (não podia encerrar melhor). As outras, bem, elas fazem parte da minha vida e, quem sabe, estejam aí para embalar novas paixões e tantas outras desilusões.

A liquidez do hype

A sensação boa que eu tive ao assistir à And Just Like That. Poderia ser só um revival para as saudosas dos anos 1990 de uma televisão que foi sacudida por Sex and The City. Friends ficava no chinelo e sabemos disso. Talvez sejamos saudosas até da televisão diante de inúmeros streamings que querem nos oferecer o mundo e que não nos entregam nada – Adorno sorri com satisfação de onde quer que ele esteja. Mas, hoje não escreverei uma crítica à And Just Like That.

No primeiro capítulo somos informadas que Carrie agora não tem mais sua coluna (texto escrito) e participa de um podcast. A forma irônica como isso é colocado no texto (sim, é uma série, que tem sua origem no texto – e o meu texto de hoje é sobre isso) dá o tom da nova série. Nos anos 2020 é preciso se “adaptar” à fluidez do público, que já não lê mais, que consome o que é hype – aqui também estou sendo irônica, pois é só substituir por moda ou tendência.

O próprio podcast não é nenhuma novidade, pois o rádio e seus programas existem há mais de século. Mas, a contemporaneidade gosta disso, de reciclar algo velho, rebatizá-lo com um nome que vira tendência e voilà, logo estará bombando. Diriam alguns entendidos que são exemplos dos tempos líquidos que vivemos, essa liquidez que não nos prende à nada nem a ninguém e que nos faz robotizados diante de telas que replicam o que devemos assistir, do que devemos gostar, onde devemos ir, o que devemos praticar. É como aquele cara que cita Bauman e seu tempo líquido no perfil do Tinder, negando que queira relacionamentos líquidos… no Tinder, amigo? Ok, talvez devamos discutir coerência antes dos tais tempos líquidos.

Vejam como funciona, eu nunca li Bauman e acabo de escrever um parágrafo inteiro citando-o: eis o poder do hype e do vazio dos tempos atuais. Qualquer um pode falar sobre qualquer coisa e passar isso adiante. Não é difícil compreender o tanto de estupidez que essa “produção de conteúdo” gera. É muita publicação pra pouco conteúdo, é muita replicação de opinião sem base nem conhecimento, é muita gente – mas muita mesmo – querendo fama e sucesso sem ter o que oferecer. 

Quando vi Carrie se “adaptando” e trocando as letras escritas no papel/tela pelo podcast uma onda de reflexão me tomou neste janeiro ensolarado e ainda pandêmico. Tenho este site, originariamente um blog, há muitos anos e sempre publiquei textos escritos. São raros os posts que têm imagens, apesarde eu ser também fotógrafa. Pensei há quanto tempo temos desprezado o texto escrito, lembrando de anos atrás quando entrava num link de uma notícia e não era mais escrita, era um áudio ou um vídeo. Estamos emburrecendo? Óbvio. Ler dá trabalho e a multidão de analfabetos funcionais e digitais é gigante. Mas não é só sobre isso.

A maior tendência é de “adaptar-se” ao simplificar as coisas. Por isso eu não busco algo que dá trabalho e fico inerte diante de uma live qualquer. Tudo muito líquido, superficial e passageiro. Carrie, com seu talento e sua carreira, teve que adaptar-se a falar de bobagens num podcast, que os ouvintes mal prestarão atenção por alguns minutos enquanto fazem sua corrida do dia ou lavam a louça e esquecerão em ainda menos tempo. Porém, é a isso que hoje em dia chamam de “produção de conteúdo”. 

Eu sempre fui rígida com relação à escrita, comigo mesma e enquanto professora. Tudo passa pelo domínio do seu próprio idioma. Se você não domina o seu idioma, você é um fracasso. Além disso, além do desprezo atual que virou hype pelo texto escrito, eu me peguei pensando que o texto escrito é a origem de quase todo conteúdo que produzimos. Esses produtores de conteúdo de internet que não redigem um bom texto antes de dar o rec ou play nas suas publicações já são nada. Um podcast sem texto prévio? Uma live sem roteiro (texto)? Um post de Instagram sem texto/roteiro? Pior ainda é quando o texto é só réplica de outros conteúdos já produzidos – aqueles que somente repetem conteúdo lido de um livro ou de sites, por exemplo! Ou, pior ainda, que repetem o que outros já disseram em outros meios. Isso é até crime, né.

A “produção de conteúdo” que não tem origem no texto é irrelevante. Conseguimos imaginar uma série ou um filme, por exemplo, que não tenham origem no texto escrito? Mesmo filmes como Don’t look up, que é pior que ruim e virou a moda de dezembro passado, com inúmeras publicações em todas as redes – até aqueles que não publicam nada sobre cinema, publicaram sobre este filme – teve origem num texto escrito. 

Neste Verão além de acompanhar a nova série da Carrie, peguei um Hemingway para ler, o famoso Por quem os sinos dobram? (numa tradução de 1942, feita pelo Monteiro Lobato). Hemingway dispensa apresentações como todo clássico e digo que demorei para começar minha relação com ele – sofro do famoso temor respeitoso aos clássicos. E desde a primeira leitura entendi porque ele produziu clássicos e, enquanto pessoa, também é admirável. Foi um homem que viveu de verdade, coisa rara hoje em dia, com a coragem que a vida exige para ser encarada de frente. Li em outro Verão o As Ilhas da Corrente e me apaixonei. Num momento me dei conta que estava, deitada na rede, há dez páginas lendo a cena de uma pescaria. Ele sabe como escrever muito bem e as cenas relacionadas com elementos da natureza são mesmerizantes. Além dos livros há as adaptações para o cinema que são produções incríveis.

Por quem os sinos dobram? tem cerca de quatrocentas páginas. Num mundo no qual Carries são rebaixadas a fazer podcasts descartáveis, quem lê quatrocentas páginas de um homem que escreveu em outro século sobre a guerra na Espanha? Como desprender-se dos hypes e escolher fazer o que se quer? Não, não é arrogância e intelectualidade ou erudição. O problema é outro. O mais relevante e saudável de And Just Like That é a crítica ácida ao seu tempo, em apontar essas incoerências e em como o tempo passa e nós envelhecemos, é certo, mas não precisamos tornarmo-nos ridículas por isso.

Voltava caminhando da praia esses dias e brincava de imaginar o que seria de Hemingway se ele vivesse nos anos 2020. Jamais faria sucesso, coitado. Sendo homem, já de partida sua vida seria complicada, visto que não queremos mais saber de homens dominando o cenário (mentira, eles ainda dominam e têm todo o poder e apoio de homens e mulheres para isso, mesmo quando sabemos que são escrotos e uns merdas – mas é coisa bem de 2020s e da liquidez sermos hipócritas e superficiais nos discursos e práticas). Ninguém nem publicaria seus romances de quatrocentas páginas com alusões ao comunismo e condenações ao fascismo. Porque, é claro, não teria público para lê-los e ele sofreria pressões para não tocar “nessas questões políticas”. Seria mais rentável um romance de até cento e oitenta páginas sobre pessoas com problemas nos seus relacionamentos porque não suportam a pressão de viver numa sociedade… líquida. Pobre coitado do Hemingway se tivesse, como Carrie, que se “adaptar”.

Só segue os hypes quem não tem personalidade e vive o medo da não aceitação dessa sociedade que vive de cliques, seguidores e likes. Não vivem por si, vivem pelos outros e o tempo todo somos cercados pela “adaptação”. Adapte-se ou morra (virtualmente).

Morte digna, eu diria. Hemingway nem teria nascido nesta virtualidade, ou, quem sabe, se fosse das últimas gerações escreveria incríveis histórias em menos de trezentos caracteres – sobre as experiências de vida com suas amizades virtuais, esqueçam as guerras e viagens e boemia. Quem sabe se assim seria o Hemingway do século XXI? 

Morrer virtualmente é glorioso, pois o tanto que há de cadáveres não enterrados nas redes é incalculável. É tanta, mas tanta, gente querendo público, querendo seguidores, likes, cliques e tal que é virtualmente impossível atender à demanda (estou muito irônica hoje).

Eu não ouço podcasts. Não vejo necessidade alguma de ouvi-los e, se o fizesse, seria com total desatenção. Não publico interações da minha vida pessoal porque, enfim, eu sei o significado do termo pessoal (e, poxa, depois da Arendt alguém ainda tem dúvidas sobre esfera pública e privada?). Nunca entendi a tara das pessoas por saber da vida de pessoas famosas, imagine querer saber da vida de gente comum? (é que esses comuns querem ser famosos porque ser famoso significa… dinheiro? auto aceitação?) Hemingway era famoso. Já faz tempo que fomos vaticinados com os quinze minutos de fama, né? Lembrei daquelas crianças que eram meus alunos e que sonhavam em ser youtubers. É preciso adaptar-se, é claro. (ainda bem que ironia é de graça, senão hoje a conta seria alta)

Ou não. Ou você tem personalidade o suficiente para ter a vida que quiser, de acordo com os seus gostos e práticas, com a coragem necessária para que seus atos sejam coerentes com seu discurso. O hype é só hype e daqui duas horas já terá deixado de sê-lo. Até a Moda já entendeu isso e alterou suas práticas e padrões. Hemingway escrevia com papel e caneta e na máquina de escrever, Carrie escrevia no computador, nada de fato mudou, a palavra mantém sua força e a tecnologia também passa, talvez tão rápido quanto qualquer hype. O ser humano é que não se adapta ao que deveria e vive a superficialidade das relações mediadas, da covardia, da falta de personalidade e, desconfio, da falta de talento. Para produzir algo relevante e de qualidade é necessário ter conhecimento, aprofundar estudos, ter talento, espírito criativo – não cai do céu nem nascemos com, precisa dedicação, esforço, trabalho, empenho e muito mais. Nem todo mundo os tem – e querer “produzir conteúdo” sem ter nada ou quase nada disso e sem ter, de fato, algo a dizer é ser mais um cadáver não enterrado na esfera pública digital. Daí o que vemos é o hype camuflando a incompetência, o fracasso travestido de números, a imitação e a cópia (mortais e que merecem uma reflexão só sobre elas). 

Assim que fica viúva, Carrie volta a escrever um livro, já no segundo capítulo. É a resposta que nós, público da televisão dos anos 1990, precisávamos. A liquidez tem em si seu próprio inimigo: ela mesma passa. Nós permanecemos. O tempo sempre teve todas as respostas, Hemingway que o diga.

Mulheres – sempre querem nos fazer carregar a culpa e o pecado

De vez em quando gosto de ouvir o rádio do carro enquanto dirijo. Gosto de me ambientar no mundo. Vou trocando as estações compulsivamente até ouvir algo que me agrada ou simplesmente me chama atenção. O mercado hoje tem uma avalanche de canções de algo entre sertanejo ou o que chamam de sertanejo universitário ou o que veio depois e muito do que acabo ouvindo é disso. 

Ouvindo essas canções eu reparo na letra e em como há uma quantidade absurda de letras que culpabilizam a mulher. É sempre ela, né? A culpa é dela (seja morena ou não). De trair, de ser abandonado, de estar chorando e bebendo, de ter feito isso e aquilo. Além, é claro, de outras tantas que desejam coisas ruins às mulheres: que chorem, que sofram, que peçam pra voltar e tal. Hoje a reflexão é para as mulheres (dos homens eu desisti até que leiam e ouçam e reflitam sobre como são) e sobre algo que carregamos a vida inteira: a culpa.

É bíblico, né? A mulher é a fonte do pecado. É a mulher que faz a humanidade cair em tentação. E como o mundo é porramente machista e os homens que ainda dominam os discursos, narrativas e quase tudo mesmo esta culpa ainda é permanentemente incutida em nós – por eles, e por elas.

Como diz um amigo: quando é que homem assume o que faz? Pois é. Deve ser genético, não sou especialista na área, mas fica a dica para investigarem. Há uma atitude dos homens que se você é mulher certeza que já passou por isso, se não passou é porque não percebeu. Infelizmente a gente demora para perceber, para se dar conta que está passando pela culpabilização dos homens. Temos a tendência, inclusive, de concordar com eles! Por isso resolvi escrever. Porque cada vez mais mulheres precisam falar e se conscientizar disso.

A situação é simples, corriqueira. O homem faz algo (alguma merda, alguma grosseria, as típicas irresponsabilidades, etc.) e não assume, não se confronta com o que fez. Aí a mulher tenta dialogar, a mulher sofre, a mulher engole, a mulher sufoca. Mas, ela tenta lidar com aquilo, ela tenta fazer com que ele assuma e veja o que ele fez. Ele foge, reação mais comum, ignora, se acovarda, etc.. Então, a mulher reage (a maioria reage, à sua maneira). O que acontece? Com a reação, em maior ou menor escala, traduzida em atitudes, decisões, mensagens, gritos ou o que for (que nenhuma mulher é maravilha, não, pra aguentar esses despeitados) a mulher é culpada. Apesar do homem não ter proferido palavra sobre o que ele fez ou disse que desencadeou todo o problema, assim que a mulher reage (algumas vezes em profundo desespero) ele toma atitude e se pronuncia. Mas, para culpá-la! Foi ela que fez isso ou disse aquilo, ela é que deixou-o triste, ela é que acusou-o, ela que é assim, etc.. Nem um pio, novamente, sobre o que ele é responsável. Ele se sai com apontar o dedo para as falhas dela, para o overreacted dela.

Explica-se isso. A origem da psicanálise está aí. Lembram os manicômios cheios de mulheres histéricas? Pois é. Hoje ainda nós temos que passar pela mesma situação, de sermos chamadas de histéricas e doentes por homens que em nenhum momento assumem suas culpas e as merdas que fazem. Porque além de nos culparem pela reação que tivemos em decorrência da ação (ou falta de) deles, eles nos chamam de histéricas e doentes. Deve ser mui saudável não assumir suas responsabilidades.

Os exemplos são inúmeros! Toda vida de toda mulher tem vários deles. No trabalho, em casa, nos relacionamentos. Por que temos dificuldade de identificá-los? Porque crescemos sendo culpadas, crescemos e somos educadas a sermos culpadas e responsabilizadas pelas nossas reações a um mundo de homens estúpidos e grosseiros e merdas e irresponsáveis. A ação vem antes da reação, vale lembrar.

Um exemplo clássico, quantas vezes já ouvimos a mãe ou a sogra dizer, para a esposa traída “mas o que você fez (ou deixou de fazer)?”. O marido trair, é obvio, todo mundo sabe, é culpa da esposa porque ela faltou com alguma coisa. Em qualquer situação o cara faz merda, a mulher chora, é agredida de várias formas (nem sempre com violência física), está machucada, mas quando reage à humilhação de ver seus sentimentos destruídos, de ver-se ignorada, de não compreender o que ele fez, e diz o que a arrebenta por dentro, quando xinga, quando ofende, quando fala a verdade, principalmente (e àquela à qual o macho foge), ela é histérica e doente. Vem o homem paternalista do caramba dizer que foi feio o que ela fez, o que ela disse, como ela fez.

Sabe, todo dia é um peso estafante ser mulher. É um peso absurdo que nos fazem carregar toda hora que nos deparamos com o tratamento de merda que os homens ainda acham que têm o direito de nos dispensar. Eu sonho com o dia que tenhamos novas gerações que não mais terão que aprender a ser mulher desde cedo, a se defender, a reconhecer as armadilhas e o machismo inerente a todos os homens. Só sonho, porque perdi qualquer fé de ver os homens das novas gerações sendo menos piores. Não precisa muito para perder a fé. Eu ainda algum tempo atrás pensava e dizia que precisávamos que os homens estivessem ao nosso lado, criticando e condenando os seus iguais nas atitudes de merda e machistas deles. Mudei de idéia. Não precisamos deles porque nem eles jamais conseguirão fazer isso, assim como muitas mulheres. Vejo esse discurso de rede social sobre as “manas”, sobre empoderamento, sobre sororidade e, queridas, vocês estão falhando feio. O discurso nas redes é só discurso mesmo enquanto vocês apoiam homens que fazem merda, enquanto vocês mesmas fazem questão de prejudicar e fazer mal às outras mulheres. Vocês valem menos qu eles.

Eu já passei várias vezes pela culpabilização vinda de macho. Hoje já identifico bem mais rápido, mas no primeiro momento sempre nos faz mal. É como rever velhas cicatrices, é um momento de desnorteamento até que você olha de novo e “porra, tu acha que eu vou cair nisso?!”. Essa é a prova de que não somos histéricas nem doentes. Nós somos inteligentes. Enquanto eles reproduzem uma atitude tão vil e vulgar do machismo nosso de sempre, muitas de nós já superamos isso. 

Homens, fiquem com seus dedos apontados para as nossas “culpas” até eles apodrecerem junto com as irresponsabilidades e merdas de vocês. Nós passaremos.

Nem digo mais “homens, melhorem” porque é jogar palavras ao vento. Perdi totalmente a fé de que homens podem ser melhores, eles escolhem deliberadamente ser os merdas que são – é uma escolha consciente. Mas, cuidado, tem muitos homens por aí travestidos de “boas intenções” e, na verdade, só estão se aproveitando do discurso da inclusão das mulheres e diminuição das desigualdades e respeito e blábláblá. Abram o olho, o mundo real é a vida e as ações, e não as redes sociais e os discursos. 

Mulheres, melhorem. Superem essa coisa que corrói por dentro de querer competir com mulheres e prejudicar mulheres e achar que são fodonas mentindo e se enganando. Ajudem outras mulheres a ver quando são vítimas da culpabilização machista e quando estão sendo usadas e abusadas por homens – mesmo que elas resistam. O que a gente aprende enquanto mulher é tão doloroso que devemos passar esse conhecimento à frente para que menos mulheres sofram – e mais homens sejam desmascarados.

Não mudaremos o mundo nem essa sociedade machista podre, mas salvaremos algumas mulheres de um sofrimento que eu não desejo pra ninguém.

Ainda sobre jardins

Há uma expressão em francês, “cultiver son jardin” que inspirou a última publicação. Tem um cunho metafórico, poético até, sobre cultivar a própria tranquilidade, estar bem consigo mesmo. Eu tenho um apreço muito grande por jardins e quintais, fui criada livremente num e não saberia viver sem. Quando passeio por aí, seja no meu bairro ou em outro país, gosto de reparar e apreciar os jardins. Cultivar um jardim dá bastante trabalho, trabalho braçal mesmo, trabalho pesado, então sempre que vejo um jardim bem cuidado, uma árvore bonita, eu valorizo muito não só a beleza e o deleite, mas o esforço do responsável. e por ser algo tão trabalhoso, vemos cada vez menos jardins. As pessoas desistiram de cuidar dos seus jardins – metafórica e literalmente falando. 

Quando a pandemia chegou, as pessoas se deram conta que não amavam os seus jardins ou que não eram felizes neles. Porque já há algum tempo elas não se davam ao trabalho de cultivá-los. Esses jardins dos quais falo existem sob quaisquer tetos também. Sem saber mais como cuidar, como amar, como ser amigo do tempo (todo jardim requer paciência e tempo) para ver aquele jardim florescer, as pessoas entraram em desespero – era mais fácil quando podiam viver na rua, sem olhar para o próprio jardim abandonado. Alguns, ao se depararem com seus erros e desleixo, souberam voltar a cuidar do que realmente importa, souberam amar aquilo que haviam deixado para trás. Foram esses que souberam ser felizes com seus jardins novamente bem cuidados – só espero que não os abandonem novamente. Porém, desconfio que estes foram bem poucos. A maioria mesmo não via a hora de sair correndo e ver qualquer outra coisa, desde que não tivesse que conviver com o próprio jardim abandonado. Sabemos muito bem o que esses fizeram – e têm feito.

Quando falamos de jardim é tão mais fácil entender porque o mundo precisa de mudanças. Seja num encontro mundial para discutir o clima, seja nas vozes das crianças e jovens conscientes, o mundo precisa que entendamos que ele é o nosso jardim. Assim como eu cuido dos meus jasmins e das minhas amoreiras, eu cuido das pessoas que eu amo, e eu cuido do que eu consumo para que não sejam destruídas as florestas, eu cuido do meu lixo para não poluir mares e rios. É tudo uma coisa só. Mas se não nos importamos com os nossos jardins, como vamos cuidar do jardim que é de todos? 

E é essa indiferença que eu jamais entenderei. Nem os maiores filósofos do passado entenderiam (não estou me comparando com eles, credo) a falta, nos seres humanos de hoje, de um princípio básico: o de sobrevivência. Muito se discutiu sobre isso, que o ser humano tem, acima de tudo, o instinto de sobrevivência, que nem é só um instinto, mas que racionalmente buscamos sobreviver. Quando vemos hoje as pessoas ignorando cuidados básicos de saúde e desprezando o cuidado com o meio ambiente percebemos que, nelas, extinguiu-se o princípio de sobrevivência. Eu não uso máscara, nem evito concretar todo o meu terreno porque estou pensando só em mim. Eu sei que a máscara é essencial para preservar vidas além da minha e sei que a chuva não terá para onde ir e entrará na casa de todos. Instinto de sobrevivência junto com pensamento racional. Devia ser tão simples. 

Cada vez me convenço mais de que tudo deveria ter parado completamente no início da pandemia. Tudo. Sem adaptações para o online, sem o famigerado home office, sem nada fingindo que tudo poderia se ajeitar. Isso só não foi possível – é evidente, mas, ainda assim, necessário nomeá-lo – devido ao sistema capitalista. O capital diz que as nações têm que produzir e consumir, produzir e consumir. E nós só precisávamos parar por algumas semanas até conter o vírus, evitar novas variantes e salvar milhares de vidas. Era só isso. Mas, o capital inventou que nós poderíamos continuar consumindo pela internet, sem correr risco (mas expondo milhares de outros ao risco, de produtores a entregadores), inclusive comida, explorando absurdamente os produtores deste meio, explorando e expondo os entregadores. A minha vida, eu sobreviver numa situação trágica, sempre – sempre – custará a vida de alguém. Esta lição é nobre e desde quando a aprendi (com Primo Levi) tento passá-la adiante. Aquelas pessoas que morreram, morreram para que nós, hoje, estivéssemos vivos. Muitas delas não tiveram a chance de ficar em casa, pedindo comida por aplicativo, comprando inutilidades pela internet (quanto antes admitirmos que são inutilidades, melhor), fazendo festas online. 

Porque nos faltava cultivar nossos jardins. Se cada um fosse feliz no seu jardim, saberia ter enfrentado o isolamento e a pandemia muito melhor – sem ânsias de sair e ver gente e consumir, e postar foto na praça de alimentação do shopping. Produzir e consumir, produzir e consumir. Quando foi mesmo que nos reduzimos a isso? Quando que tornou-se mais importante eu sair e não usar máscara, expondo-me e aos outros ao meu redor, do que eu salvar a minha vida? Quando que produzir e produzir foi mais importante do que eu manter minha paz de espírito e preservar a vida dos que viviam comigo? Quando que consumir deve vir acima de todas as coisas?

Vi muita gente desesperada nestes últimos tempos. A falta que um bom jardim bem cuidado faz na vida das pessoas… O desespero é mau conselheiro – o medo é o pior. Juntos, eles levaram as pessoas à irracionalidade, à ignorarem o próprio instinto (não há nada de errado no instinto, pelo contrário, é o que temos de mais natural em nós), e se jogarem nos braços da morte por intermédio de um sistema que os desumaniza na totalidade. Produzir e consumir. 

Para muito além dos discursos bonitos e de curtir os posts da Greta, é preciso um exercício precioso e, quiçá, doloroso: voltar-se para o próprio jardim. Desconfio que quase ninguém vai gostar do que vê. Por isso mesmo é tão precioso. Mas, desconfio também, o mantra “produzir e consumir” estará lá tão incutido nas cabeças que através de auto-ajudas e analistas de todo tipo, dirão para aceitar o jardim do jeito que está, afinal, não é sua culpa – culpabilizar(-se) está proibido, não sei bem o motivo. Confesso que, às vezes, é difícil acompanhar todas as desculpas esfarrapadas que a sociedade dá para si mesma e para seus erros. Quem sabe já digam que produzir e consumir é instintivo no ser humano. Não duvido.

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