Além

A luz não entrava mais pela janela. Haviam colocado cortinas pesadas e grossas. Eu também não ouvia mais vozes, as portas eram agora espessas e abafavam todos os sons. De vez em quando eu vislumbrava a risada de minha irmã ao longe. Talvez quando ela passava pelo vão da escada. Eu esperava todos os dias. Dias? Eu não sabia mais o que eram dias e noites. O silêncio já não me incomodava. A ausência de luz me deprimia, como todos os dias nublados dos quais eu lembrava quando ainda podia ver o céu. Mas eu sentia falta de ver. Ver as pessoas, seus sorrisos, suas expressões de tristeza, seus olhos inquietos. Ver as lágrimas nos olhos do mais novo bebê da casa, de ver a barba do meu irmão crescendo lentamente, mais lentamente do que ele desejava. Sentia falta de ver o acesso de alívio quando minha mãe me via chegar em casa. Esse mesmo alívio que vi em seus olhos quando eu, me arrastando, disse com palavras desconexas que precisava me curar. Ninguém no mundo entenderia, talvez nem ela tenha entendido num primeiro momento. Logo mais, me vi sendo carregado para cá… para a escuridão e silêncio. Às vezes, sinto o cheiro da comida sendo preparada na cozinha que, pelo que me lembro, fica aqui embaixo. O cheiro… coisa doce e sofisticada, que nos marca mais que qualquer outro sentido, que transpassa qualquer barreira e nos persegue. Lembro do cheiro dos jasmins do jardim e das pitangueiras do quintal. Do cheiro do sabonete caseiro do meu tio. Do esmalte corrosivo da irmã postiça de minha mãe. Do cheiro do padre aos domingos. Aqui? Aqui parece ter cheiro de tomate quando faz calor e cheiro de carneiro quando faz frio. Ninguém nunca me perguntou isso. Há cobertas, ventiladores, armários, mesas. Não há cadeiras. Tudo é embutido ou foi preso fortemente ao chão. Medidas necessárias, disseram alguns. Fortemente, essa palavra me lembra uma pessoa. Uma pessoa, e só. Como a cor verde me lembra sempre meu irmão. Como um desenho animado me lembra minha irmã. Como uma música nos lembra um amor. Sim, é disso que não posso falar, nem lembrar. Como o amor me lembra um autor italiano que li quando muito novo, não era sobre o amor, mas como curar o mal de amor. Essas lembranças me lembram de coisas que não posso lembrar. Todos temos, não é? Por fim, nunca esqueceremos. Porém, é sempre melhor não lembrar. Ou lembrar é bom? Lembrar quando já é passado. Quando não nos vemos mais lá como nós mesmos, mas quando não reconhecemos quem fomos no que hoje somos – lembrei de um poeta. Eu, olhando as cortinas, pensei por algum tempo que lembrar todos os dias do que me acontecera, o que me levara ao desespero de pedir a minha mãe que me ajudasse a encontrar uma cura, me ajudaria a decorar cada passo, cada insensatez, cada excesso e desvario. E que isso sim poderia ser chamado lembrança. Errei. Cada vez, cada dia, que eu repassava cada ato, cada fala da peça chamada “passado” eu reafirmava que sairia daqui, arrombaria as portas e janelas com os dentes e sairia a repetir cada cena, com todas as falas, os mesmos personagens. Concordava com a minha dor que não sabia como medi-la, se doía mais lá fora ou aqui dentro. O certo é que doía. E para isso, descobri a algumas horas, não há cura. As pessoas dizem que errei – lá fora. Sei o que as pessoas pensam, apesar de nunca ter me dado conta disso antes. Não sinto tédio ou solidão. Senti dor por vários dias e pensava que ela iria embora com os gritos e pontapés e socos. Pensava que essa seria a cura. Senti desespero por ter me arrependido de pensar em me curar. Preferia a dor lá de fora. Depois de tantos dias já não sei o que prefiro. A inconsciência talvez. Ela é que permite que a enorme maioria das pessoas que anda por aí sobreviva. São inconscientes da própria vida. Me trazem sempre uma comida dura e fria que eu aprendi a ignorar. Ignoro que meu corpo precise daquilo e ele responde concordando. Vocês me perguntam há quanto tempo não vejo ninguém? Não sei. Mas minha mãe deve estar lá fora contando os dias, as horas, os minutos. Só ela sente de verdade que estou aqui. Nem minha doença deve dar-se conta da minha ausência do mundo. Ando pelo quarto, eis o que me intriga. Será que sinto falta de caminhar? Mesmo que seja por um itinerário sem sentido e sem atrativo? E o que me intriga ainda mais, será que nada me faz falta lá do outro mundo? E só minha mãe sente minha falta, de lá? Um doente é assim tão insignificante? Eu ainda sou um doente? Ou a cura que implorei à minha mãe não tem mais volta? Já não grito nem destruo nada mais. Não me sinto, talvez, tão doente. Sinais da inconsciência. Mas percebo tudo que há aqui, cada textura dos três diferentes tecidos das cortinas… o algodão áspero dos lençóis amarrados de uma forma que eu não posso tirá-los… o metal frio dos puxadores… Fico tentando adivinhar, na escuridão, as cores dos móveis e tecidos, das roupas que deixaram aqui – sim, pensaram no meu bem estar, se eu passaria frio, fome, sede, calor, solidão. Até algumas revistas – com páginas recortadas, observem – deixaram aqui. Sim, pensei o mesmo, como poderei ler nesse escuro? Esses são os que vão para o inferno. Não, não, não, não quero falar disso. Deixemos as crenças para os que têm pouca fé, para os infelizes e arrependidos desse mundo. Desse? Desse aqui ou do lá de fora? São dois? Um? O que diria a fé? Sim, o som de sapatos na escada. Sempre tive medo de acordar no meio da noite com alguém no meu quarto, tenho esse medo desde criança. Não preciso ter medo, nem na maçaneta eles mexem. De novo o silêncio. De novo a escuridão. De novo a lembrança daquela música. Fecho os olhos, a escuridão é a mesma. Mas eu já não estou mais aqui. Ela sorri.

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